• Photobucket

Home / Minudências | Sara Peres

Minudências | Sara Peres

BPI_2974_OK

Há 30 anos a importunar o mundo

Daqui a alguns dias é o meu aniversário. Mas não são presentes o que mais me interessa na data. Aliás, nem é o acontecimento em si que me tem mantido acordada à noite: as memórias dos anos que passaram, as mudanças que vivi e as pessoas que conheci têm preenchido os dias que o vão antecedendo.

Há alguns anos, numa fase em que gostava de ler as duas versões de Umberto Eco, a literária e a académica (todos nós temos momentos difíceis na vida, não me julguem, vá), ofereceram-me, por ocasião do meu aniversário, A Misteriosa Chama da Rainha Loana. Até hoje não sei como avaliar o livro. Não é dos meus favoritos, nem dos títulos que possa dizer que mais me marcaram. No entanto, debruça-se muito sobre a memória e ultimamente teima em surgir na minha cabeça quando menos espero. Trata-se da história de um editor pouco boa pessoa que sofre um AVC e perde a memória. Para tentar recuperar o que é (ou o que foi), vai passar uns tempos à casa onde viveu a infância e durante vários dias (semanas?) dedica-se a vasculhar velhos caixotes onde encontra livros e outros objectos que foram seus noutros tempos. Apesar do esforço, o homem chega à conclusão que está apenas a reavivar a memória colectiva da sua geração e não a sua, a pessoal, porque ao contactar com os livros e os objectos passados, sem as suas memórias íntimas, apenas consegue reconstruir um período histórico. (Disclaimer: não sei se o livro é exactamente assim. Esta foi a ideia que retive da narrativa ao fim de todos estes anos – e já lá vão quase 10).

Reflectindo sobre a minha narrativa pessoal e recordações de infância, dei por mim a interrogar-me sobre quais os acontecimentos colectivos que mais me terão influenciado. Não cheguei a nenhuma conclusão extraordinária, mas pelo menos consegui identificar o primeiro grande evento histórico a que assisti, a Queda do Muro de Berlim. Claro que não sabia do que se tratava – devia ter uns 4 anos e meio – mas recordo vagamente ter visto na televisão muitas pessoas em cima do que parecia ser uma parede (e não um muro) a fazerem uma grande festa e depois a parede caía e elas abriam garrafas de champagne e viam-se flashes de máquinas fotográficas.

Não sei se a Queda do Muro foi o princípio do fim dos anos 80, porque ainda me lembro de ver shoulder pads e cabelos volumosos já andava na escola primária, mas a verdade é que deve ter contribuído para isso. Lamentavelmente, não serviu para fazer desaparecer o David Hasselhoff, mas a esperança é a última a morrer.

Exercitando a memória um pouco mais, colocando-me no lugar da personagem do livro de Umberto Eco, os únicos livros marcantes da minha geração que me ocorreram foram os da colecção «Uma Aventura…». Quer se queira ou não, independentemente da qualidade da prosa, a verdade é que a maior parte das pessoas que conheço da minha faixa etária sabem quem é o Chico, as gémeas, o Pedro, o João e os cães, o Faial e o Caracol. Lá pelo meio, devemos todos ter experimentado ler outros livros, mas estes estou certa de que são comuns à minha geração.

Recordo-me também que a televisão só tinha dois canais, inicialmente. E talvez por isso, pelas limitações do tempo da minha infância (e da dos outros, também), há muitas recordações que nos serão comuns. A Bota Botilde, do tempo em que o Carlos Cruz apresentava programas de televisão e não aparecia nas notícias, a Abelha Maia, o MacGyver, a série ‘Allo ‘Allo! são referências partilhadas.

Hoje as limitações são menores, a variedade no que respeita ao entretenimento é inversamente proporcional e às vezes questiono-me se a minha sobrinha, que é pequenina, partilhará com outras crianças recordações semelhantes. Talvez o Panda e a Xana Toc Toc sejam algo em comum no seu futuro. Mas provavelmente isso não terá nenhuma importância nessa altura. Como dizia um velho anúncio da Swatch, «o tempo é o que fazemos com ele». E com a memória deve ser algo parecido.

(Publicado a 21 de Maio de 2015)

The times are changing

Se dúvidas houvesse de que os tempos tinham mudado, os episódios repetidos de O Sexo e a Cidade estariam cá para esclarecer o assunto.

Ao ver as repetições, ignorando o contexto (os anos 90), uma pessoa não pode senão pensar que aquelas quatro mulheres trintonas são estranhas. Afinal, elas têm 30 e todo o seu mundo gira em torno dos homens e das relações. E dos sapatos, claro. Mas, quanto a isso, talvez os tempos não tenham mudado. E não há mal nenhum nisso.

Hoje, 2015, o tempo em que vivemos e em que as mulheres – moças ou raparigas – de trinta anos vivem são muito diferentes. A realidade é outra. Vejo as moças trintonas (adjectivo sem qualquer carga negativa) a quererem viajar, conhecer o mundo e alargar os horizontes. E, claro, haverá quem queira casar ou ter filhos, ou ambos, mas há cada vez mais quem faça outras escolhas. Se bem me recordo, as moças d’O Sexo e a Cidade mal saíam de Manhattan e, ainda mais raramente, de Nova Iorque. Como se tudo o que fosse importante no mundo estivesse lá e não houvesse necessidade de sair. Bem, concordo que Nova Iorque deve ser espectacular, mas também o deve ser Tóquio, ou Seul, como o é Paris e Londres. E do que me lembro, a Carrie só foi para Paris quando um milionário russo se apaixonou por ela e a levou para lá… ‘nough said’, parece-me.

Quero acreditar que as trintonas de hoje são mais desenrascadas e independentes. E que a sua preocupação primordial não é arranjar namorado ou procriar. O importante é ser feliz, seja o que for que seja preciso para que isso aconteça, com ou sem namorado: ter um trabalho que traga realização pessoal ou ter amigos espectaculares, ou viajar para lugares longínquos, ou simplesmente ficar quieta a ouvir a relva a crescer.

Não, não vivemos no mesmo mundo da Carrie, que fazia o que sempre quis – tinha a sua própria coluna num jornal e, depois, na Vogue –, que conseguiu ter casa própria e ainda conseguia estoirar o que podia em Loubotins e Manolos. É cada vez mais difícil ter o trabalho que queremos, mais complicado ainda ter uma casa para morar sozinha, e, se conseguirmos comprar um par de Camper’s ou Melissas, já temos sorte… Valham-nos as companhias aéreas low-cost, para que, mesmo calçando chinelos ou ténis, ainda seja possível viajar até Paris e para ver a Torre Eiffel e comer macarons.

A única coisa que vejo na série e que me parece igual, são os amigos. São fundamentais para uma equação cujo resultado dá felicidade. E isso é a única coisa que espero que nunca mude, mesmo que os tempos sejam diferentes e nós sejamos outros.

(Publicado a 17 de Abril de 2015)

Isto não é o Homem

Ler é uma necessidade. É uma espécie balão de oxigénio para a mente. Quando esta principia a hiperventilar, está na altura de sacar um livro da estante. Os livros são o ginásio da minha (pouca) sanidade mental.

Foi por isso que há umas semanas fui até à prateleira e tirei um livro, sem prestar muita atenção. Abri-o e li o seguinte:

Foi uma sorte para mim ter sido deportado para Auschwitz só em 1944…

Quanto a vocês não sei, mas ser deportado para um campo de concentração não me parece motivo de alegria. Mas Primo Levi explica:

…isto é, depois de o governo alemão ter decidido prolongar a vida dos prisioneiros a eliminar, concedendo sensíveis melhorias nas condições de vida e suspendendo temporariamente as execuções individuais e arbitrárias.

Não será surpresa se acrescentar que após os primeiros parágrafos suspendi a leitura e só daí a um ou dois dias a retomei. Mas mesmo ultrapassado o impacto inicial, continuei, durante algum tempo, a sentir um nó na garganta, um pontapé no estômago, sempre que ia lendo Se Isto É Um Homem, um livro em que o autor descreve o período que passou no campo de concentração.

Isto não pode ser o Homem. Ainda que seja uma narrativa bastante objectiva, não é possível não sentir raiva acumular-se, sentir incredulidade, sabendo que é real, que não se trata de ficção. Nunca conseguirei perceber como um homem pode tratar outro ser humano assim. Isso não pode ser o Homem. Mas aconteceu, situações semelhantes vão acontecendo (no Iraque, talvez? Ninguém sabe muito bem o que se vai passando no mundo, de verdade). Gostava de acreditar que não, mas quando num jogo de futebol de equipas compostas por garotos de 10-11 anos os adeptos nas bancadas gritam insultos racistas aos miúdos estrangeiros a jogar, não sei bem o que pensar sobre o presente e, ainda menos, sobre o futuro.

Talvez corra tudo bem. Talvez deixemos de nos odiar (e matar) uns aos outros, no futuro. Talvez consigamos ser tolerantes. E talvez aqui, mesmo eu, que tanta tendência tenho para o pessimismo, talvez até eu consiga ser optimista.

(Publicado a 9 de Abril de 2015)

Inspirar

Passaram quase dois meses desde a última vez que escrevi para a Preguiça. Não porque me tenha deixado apanhar pela preguiça – o pecado capital e não o bicho -, mas porque fui apanhada numa curva metafórica. Qual Schumacher em Silverstone em 1999, tive de me ausentar por algum tempo para efeitos de convalescença e eis-me de regresso.

O problema de uma ausência assim é que, mesmo que se exercite o corpo, o cansaço acaba por esgotar as ideias. E sem ideias não há post. Sem post não há Minudências. Sem Minudências… oh, o que seria do mundo sem este blogue?!

Como é costume, fui consultar o oráculo contemporâneo que é a Internet. Onde se vão buscar as ideias? Escrevi inspiration no Google e ele devolveu-me as seguintes expressões: «inspiration quotes», «inspiration software» e «inspiration cruises». Hum… se calhar devia fazer um cruzeiro, é isso? «Inspiration Cruises & Tours is a Christian travel management company specializing in group travel experiences for Christian ministries and churches since 1981.» Bom, bem sei que esta é uma época muito importante para os Católicos, mas não sei se é um cruzeiro que me safa. E o software? «Inspiration Software, Inc. is an education technology software company based in Portland, Oregon, which provides several visual thinking and learning products for the K–12 education and business markets.» Parece que fazem mind maps e coisas assim. Isso é capaz de ajudar, mas eu queria uma coisa mais prática.

Segui o caminho para as «quotes». Ele há aqui muitas citações sobre «fazer o impossível». Fico assustada: eu não quero fazer coisas impossíveis. Só queria ter uma ideia. «Acreditar» e «mudança» são palavras muito usadas. Por momentos pensei que estava no site de um partido em campanha. Acho que ainda não é isto que me vai ajudar. Escrevo «writers» e «inspiration». E aparece uma torrente de sites com estratégias, citações, recursos, tudo para que uma pessoa escreva a rodos. Ora, no tempo do Camões não havia disto. Nem sequer no tempo do Calvino.

Escrevo «what inspire writers?» e saem-me sonhos. Acho que se os sonhos me inspirassem, acabava a escrever algo parecido com o Naked Lunch, do William S. Burroughs. Não parece boa fonte. Mas diz-que o Frankenstein (Mary Shelley) e Dr. Jekyll and Mr. Hyde (Robert Louis Stevenson) foram escritos partindo de sonhos. Isso explica algumas coisas. Indago um pouco mais e parece que há muitas formas de conceber uma ideia, como viajar, ouvir música, escutar o que os outros dizem e até meditar. Fico de certa forma aliviada por saber que os autores mais conhecidos tiveram períodos pouco prolíficos em ideias: F. Scott Fitzgerald padeceu desse mal, mesmo tendo escrito «The Curious Case of Benjamin Button», e até o pai dos Peanuts, Charles M. Schulz (que criou centenas de tiras!). Ainda bem que escrever coisas para viver não é meu mister. Sinto-me melhor.

Lendo mais atentamente, procurando outros exemplos famosos de writer’s block, percebo que a maior parte dos artigos dá destaque a conselhos sobre como ultrapassar o bloqueio. E são todos muito semelhantes, apelando a que se combata a escassez de ideias com muitas tentativas. Apesar das diferenças, Beckett, Twain, Atwood, todos são unânimes: tentar é preciso. Bom, nesse caso, parece me adiantei ao conselho: voilà, acabo de criar um novo post!

Oh well, parece que estou de volta.

(Publicado a 1 de Abril de 2015)

Mudam-se os tempos

Desde que o ano começou que tenho pensado muito na passagem do tempo. Parece que ainda ontem estava a beber espumante como se não houvesse amanhã e afinal já estamos em Fevereiro. O tempo é pior do que uma enguia, embora com ele não se possa fazer caldeirada. Tentamos agarrá-lo em vão; ele escapa-se entre os dedos, nem percebemos que já se foi.

Não sei se foi a chegada ao segundo mês do ano ou por causa do frio. O Inverno e as baixas temperaturas têm esse efeito: evitamos o exterior, vamos ficando por casa e ficando introspectivos. Bom, eu fico, pelo menos. E foi assim que, fazendo contas de cabeça, me apercebi que foi há 15 anos que saí de casa dos meus pais e me mudei para Coimbra. Na altura, foi uma mudança que teve um grande impacto em mim. Hoje, mudar de morada é um problema menor e que implica mais questões logísticas do que sentimentais.

No entanto, foi uma decisão muito importante para a minha vida (ou disso me convenci, com o passar dos anos). E acho que valeu a pena. Nunca saberei o que poderia ter acontecido em alternativa, mas vá, vamos lá todos acenar com a cabeça e fingir que esta é a realidade feliz e que evitei uma outra desastrosa.

E pronto, como a vida também é irónica, cá me encontro eu de novo em Coimbra, 15 anos depois da minha chegada a esta cidade. Não é Nova Iorque ou Hong Kong, mas também não é uma qualquer aldeola perdida algures nos Himalaias, portanto, podia ser pior. Tem uma Almedina perto e um centro comercial cheio de lojas da Inditex. E um excelente restaurante de comida japonesa em Celas. Ah, e a nova Tasca de Santana, onde o vinho é bom de se beber.

Quando para cá me mudei, não havia ainda Dolce Vita, nem o estádio como o conhecemos. Onde são hoje as piscinas, era um parque de estacionamento. O Dona Maria via-se cá de baixo, ali ao lado da Igreja de São José. O Fórum também não existia. O único supermercado Continente era o do Coimbra Shopping.

A Rua Ferreira Borges e a Baixa de Coimbra eram, nessa altura, um lugar cheio de lojas. Era inclusivamente onde ia passear e ver as montras. Comprava roupas na Pull&Bear que aí havia e depois, claro, ia à Zara, que é onde hoje é a Lefties, onde em tempos (que não os meus) havia ainda um cinema. O Avenida ainda tinha salas de cinema e mais lojas abertas do que fechadas. Foi aí que vi o primeiro filme da série «O Senhor dos Anéis» e Chicken Run, de Nick Park. Às vezes, estudando na José Falcão (antigo Liceu D. João III, onde Vitorino Nemésio chegou a leccionar noutros tempos), ia almoçar ao McDonald’s da Praça da República. Comprava os meus CD’s de Radiohead na loja de música do Golden. Hoje em dia compro música no iTunes ou noutro sítio qualquer que apenas existe virtualmente.

O leão que hoje se encontra ao fundo da Avenida Sá da Bandeira, em frente ao Low-Kost Bar (que deve ter mudado de nome e dono umas quantas vezes ao longo de todo este tempo), encontrava-se atrás do edifício das Químicas, junto ao muro do Jardim Botânico. O elevador do Mercado não existia, também. E o próprio mercado não tinha nada que ver com o que é hoje.

Não é saudosismo o que sinto, porém. Observo a cidade como um organismo vivo, que se vai transformando com o passar do tempo. Tal como nós. Tal como eu, que 15 anos mais tarde regresso mudada: o cabelo cresceu (por mais incrível que pareça, foi já muito mais curto) e ganhou uma franja. Perdi alguns quilos, cresceram as minhas memórias e perderam-se alguns medos. Mas o principal mantém-se: continuo a gostar muito de ler e de escrever. Trata-se de uma das lições mais importantes que aprendi durante todo este tempo: a nossa essência é o que fica connosco para sempre. E ler faz parte da minha, tenho a certeza.

(Publicado a 5 de Fevereiro de 2015)

Ano novo, vida (nada) nova

São quase 21:00 e sento-me finalmente para escrever este texto. Ouço a chuva lá fora e pondero numa ideia. Não me fui com 2014, continuo aqui ainda, deste lado do teclado. Mas três semanas passaram, e apesar da Blue Monday ter só chegado nesta, os meus dias cobriram-se de tons cinzentos poucos dias depois do novo ano ter começado. E eu que até entrei em 2015 cheia de optimismo, querendo convencer-me de que agora é que era, que este ano ia ser de arromba, um fartote de felicidade.

Como era de esperar, o meu amigo Murphy não tardou em aparecer e, desde então, têm sido dias complicados, um após o outro. Foi como se o Karma me fizesse uma careta feia com uma comprida língua de fora. Uma espécie de «toma lá que é para aprenderes a não desejares felicidade acima das tuas possibilidades».

Por isso, chego à Preguiça com um grande atraso, mas sem perder o ânimo. Lá está, a minha avó sempre diz que «o espanhol nunca gostou de bom começo» (e eu continuo desejosa de saber que espanhol é esse tão céptico em relação a inícios), e portanto, espero sinceramente que daqui para a frente isto seja uma avalanche de acontecimentos felizes.

E depois, se a entrada neste ano não tiver corrido muito bem, temos sempre o Ano Novo Chinês, que este ano calha a 19 de Fevereiro e dá início ao Ano da Cabra.

O início e o mês que antecede o Ano Novo Chinês são bastante peculiares aos olhos de um ocidental (e para tornar isto literário, lembro-me agora de «O Sentimento de Um Ocidental», um poema de Cesário Verde que estudei no secundário e que nada tem que ver com o Oriente). Quando morei em Macau calhou estar lá durante esse período. E aprendi muitas coisas nessa altura. Entenda-se: aprendi muitas coisas às minhas próprias custas enquanto estava na China. O Ano Novo Chinês foi só mais uma ocasião de aprofundar mais alguns conhecimentos sobre a cultura do lugar e sofrer um bocadinho mais.

As limpezas de Primavera levadas a sério foi uma das coisas que descobri serem típicas daquela altura. No Ocidente também as haverá, mas os bombeiros e afins não costumam realizar acções informativas a propósito disso para evitar problemas com a mobília deitada fora. E também eu acabei por sofrer com isso: os vizinhos deitaram fora uns cadeirões velhos e, dado que o caixote do lixo do piso se encontrava próximo do elevador, durante alguns dias foi difícil transitar no corredor do edifício.

Depois houve aquela manhã em que acordei às 8:00 (tendo-me deitado na noite anterior cerca da 1:00/2:00, pois saía do trabalho cerca da meia-noite) com a cama a tremer, porque os vizinhos estavam a partir a parede à qual ela estava encostada. E, não bastasse a picareta do outro lado do quarto, chegaram marteladas do piso superior. E assim foi durante algumas semanas. Ao que parece, não se deve começar o ano seguinte com obras inacabadas ou com dívidas por pagar. Dá azar, é mau indício, por isso, o mês que antecede o Ano Novo deve ser muito bom para o sector da construção local. E para os credores, claro.

Há mais tradições/usos associados à época, como o rebentar dos panchões (uma espécie de bombinhas em cadeia que fazem uns estoiros muito ruidosos), os lai see (uns envelopes vermelhos que são oferecidos aos jovens solteiros com dinheiro no interior), os jantares comemorativos com oito pratos e muitas mais coisas das quais provavelmente não me apercebi sequer.

O que mais me interessou, na verdade, foi a ideia de um novo começo e da preparação para esse novo período que se avizinha. Não temos isso. Temos só a “tradição” das resoluções de ano novo das quais se desiste pouco mais de duas semanas depois. Há uma certa pressa em acabar com o ano velho e entrar no novo com muitos planos que se esfumam rapidamente. E a verdade é que não vale a pena planear muito. Porque, como pude verificar, a vida pode mudar rapidamente, de um dia para o outro. Ou apenas numas horas. O melhor é preparamo-nos bem antes: limparmos as casas (ou as ideias) e pagarmos as dívidas (ou fazermos as pazes com o velho ano). E equiparmo-nos com o maior optimismo possível, sabendo que o pior poderá acontecer, mas sem o antecipar. Esta é a minha estratégia para o novo ano. Isso e queimar uns paus de incenso. Se serve para comunicar com os ‘deuses’, como os taoistas afirmam, não sei. Mas não custa nada tentar.

(Publicado a 22 de Janeiro de 2015)

Home

Home is where your heart is, já dizia o outro. Quer dizer, não devia ser exactamente isto que o outro dizia, porque a dizê-lo, falaria em latim, mas é a Plínio, O Velho, que a citação costuma ser atribuída. Claro que na era da Internet e não sabendo eu latim, é provável que não tenha sido Plínio a proferir aquelas palavras, mas não é por isso que deixa de ser verdade ou soar bonito.

No meio da busca pela autoria da expressão, achei, a certa altura, um excerto de um dos livros de Cesare Pavese, a propósito do que é uma casa, um lar. Dizia assim a citação: Un paese ci vuole, non fosse che per il gusto di andarsene via. Un paese vuol dire non essere soli, sapere che nella gente, nelle piante, nella terra c’è qualcosa di tuo, che anche quando non ci sei resta ad aspettarti. Muito resumidamente e numa tradução macarrónica, quer dizer que precisamos de um lugar, mais não seja pelo prazer do regresso. Um lugar é saber que não estamos sós, que há nas pessoas, na natureza, na terra, uma parte de nós, que mesmo quando estamos ausentes anseia pelo nosso regresso (a segunda frase é mais ou menos isto mas em bom. É o problema com as traduções).

Ao que parece, a ideia da pertença a um lugar era um assunto que Pavese explorava nas suas obras com frequência. Eu conheço mal o autor, mas compreendo que lhe fosse um tema querido. «Cada qual com as suas», diz a minha avó. No entanto, a literatura não foi o suficiente para o salvar: suicidou-se em 1950, num quarto de hotel. Tinha 42 anos.

Bem sei que este é um tempo importante para os católicos, mas não é a salvação que me traz aqui. Nem sei se me consigo salvar a mim, quanto mais aos outros… O que me traz aqui é bem mais simples: é aquilo a que os falantes de inglês chamam de home. É o equivalente ao nosso «lar», embora a palavra seja associada cada vez mais a «asilo para a terceira idade», transformando-se num antónimo do verdadeiro lar, o/a home.

É que para mim, o Natal significa simplesmente o regresso a casa, ao meu lar. Nem sempre o senti assim, mas há alguns anos, tive de passar o Natal na cama, por causa uma contractura muscular. Durante o dia todo comi apenas uma caixa de chocolates, bebi água e tomei comprimidos: eram as únicas coisas ao alcance do braço. Passei o dia inteiro em casa, sozinha, num apartamento situado do outro lado do mundo, separada da minha família por um fuso horário de oito horas. Desde então, esta época tornou-se algo importante para mim. Não sei se foi dos chocolates, das dores, ou da distância. Sei apenas que algo mudou. A partir daí, o Natal transformou-se num sinónimo de regresso a casa. Porque sei que tudo farei para que esse regresso se dê. Porque quero, pelo menos nesse dia e meio, estar com a minha família, poder partilhar uma refeição com os pais, a irmã, os avós, os primos, os sobrinhos, os tios (e quem mais vier) e ter a certeza, pelo menos nesses instantes, de que eles são a minha casa. And that’s where my heart is.

(Publicado a 18 de Dezembro de 2014)

As time goes by

Não sei o que se passou, mas há dias olhei para o calendário e descobri que já era Dezembro. Senti-me desorientada por alguns instantes, mas depois de verificar no telemóvel e no computador, percebi que era verdade: já estamos em Dezembro e daqui a pouco, quando menos esperarmos, é 2015 e temos 30 anos. Pelo menos eu terei, se lá chegar.

Se não morrer algures no início do ano, irei alcançar três décadas de existência lá para finais de Maio. E este simples facto faz-me sentir dividida: se por um lado fico contente por ter sobrevivido a mim própria (ou será mesma?) durante tanto tempo, por outro, sinto que podia ter feito mais.

Claro que é bom ter-me safado quando parti a cabeça (tinha três anos), ou quando me meti dentro de uma panela de sopa a ferver, qual João Ratão sem Carochinha (devia ter três anos e meio). Ou mesmo quando destruí um carro ao atravessar a estrada que separa a casa dos meus avós da dos meus pais. É incrível que, com um histórico destes, tenha conseguido chegar tão longe. E, naturalmente, fico contente por me ter aguentado até agora.

Mas, parafraseando um célebre comentador de futebol holandês que recentemente me foi apresentado, «em todas as vantagens há uma desvantagem». E, se me sinto contente, sabendo que a vida não é coisa fácil, procuro logo um escolho e preparo-me para o «worst case scenario». No entanto, neste caso, a questão não se prende tanto com potenciais situações: trata-se mais de um problema de satisfação.

Vou fazer 30 anos. Será que me sinto satisfeita com o que alcancei até agora? E a resposta é… não sei. À medida que o tempo foi passando, foram diminuindo as certezas e o entusiasmo também se transformou numa coisa mais comedida. É cada vez mais difícil ficar empolgada com o que quer que seja (excepto tudo o que diga respeito a Star Wars). E não é snobismo. Era bom que fosse, porque nesse caso teria cura. Mas à medida que os anos se vão acumulando, somam-se as experiências, diversifica-se o pensamento e já não nos levantamos aos pulos porque é um novo dia e o futuro vai ser espectacular. Porque temos de acordar cedo e as rotinas instalam-se e, se não estivermos atentos, crescem e quando damos conta, somos uma espécie de Jabba the Hutt corporativo, ou simplesmente a pessoa mais aborrecida na festa de passagem de ano.

Apercebo-me então que envelhecer exige esforço. Ou melhor: envelhecer bem dá trabalho. Assim como a aguardente tem diferentes estádios de envelhecimento para ficar no ponto, assim somos nós. O aspecto mais importante tem é que ver com o nível de azedume e não com o teor alcoólico. E eu só queria conseguir chegar ao último estádio de evolução sem ser uma espécie de Larry David no sexo feminino. Até pode ter piada, mas infelizmente não sou uma personagem de ficção.

(Publicado a 4 de Dezembro de 2014)

I know no-one can ever know which way to head
But don’t you remember that you once said that you liked happy endings?
And no-one can ever know if it’s going to work
But if you try then you might get your happy ending.
«Happy Endings», Pulp

 

Happy endings

Podem ter heróis, vilões, um rapaz e uma rapariga, uma princesa e um príncipe, um rico e um pobre. Podem ser de ficção científica, ou para crianças: os filmes com finais felizes não olham a género. Eles andam por aí, nas salas de cinema, nas televisões, nos monitores dos nossos computadores ou tablets. E nós só temos de olhar.

Não me interpretem mal, gosto de um final feliz como qualquer outra pessoa. Só que, como tudo, tal como as crianças não devem comer açúcar em doses excessivas para não acabar com os pais, também acho que ver demasiados filmes com finais felizes faz mal à saúde.

Felizmente, leio muito e, como tenho vindo a perceber através da leitura de Tolstoi, nos livrinhos os finais felizes não são coisa muito comum. Na verdade, muitas vezes as narrativas constituem uma espécie de manual de instruções de “como-isto-que-até-parecia-bonito-acabou-por-terminar-da-pior-forma”.

Esta deve ser uma das principais diferenças entre livros e filmes. Ambos contam histórias e, no entanto, a probabilidade de encontrar um final feliz num livro deve ser muito semelhante à possibilidade de encontrar um final triste num filme. Até A Lista de Schindler tem um final feliz, se pensarmos bem. Sim, claro, morre muita gente, mas no final vejam lá se não saem do filme com a lágrima no canto do olho, mas satisfeitos, porque, afinal de contas, o homem sempre conseguiu salvar umas centenas de pessoas e isso é bonito.

É, de certa forma, como se os filmes servissem para nos fazer sentir bem, para nos deixar satisfeitos em relação à vida no geral e os livros servissem para nos fazer reflectir sobre a porcaria que podemos e conseguimos fazer em relação à vida, ao mundo e aos outros. Um final feliz faz-nos sentir imediatamente bem; um final triste, em que as coisas não terminam da melhor forma, faz-nos reflectir sobre a nossa condição humana de criaturas que se fartam de errar.

A vida, felizmente, tem um pouco dos dois. Vá, tem muitos finais do segundo tipo. Mas isso provavelmente também se deve ao facto de conseguirmos ver melhor quando uma coisa acaba mal, do que quando uma coisa acaba bem. Isto é, uma história de amor entre duas pessoas, se acaba, é porque automaticamente teve um final infeliz. Se não acaba… bom, se não acaba, terá de eventualmente acabar, porque há-de chegar a altura em que um dos indivíduos morre e, claro, se alguém morre, é um final triste.

Perante um raciocínio tão pessimista, só há uma conclusão a retirar: o melhor mesmo é ir aproveitando enquanto dura. Porque melhor do que antecipar o fim, é viver a felicidade do momento. Até porque nunca se sabe quando é que no ecrã das nossas vidas irão aparecer aquelas duas palavrinhas: The End.

(Publicado a 21 de Novembro de 2014)

This is not a love story

Nunca gostei de histórias de amor. Rebuscando a memória, só me consigo lembrar de um livro que tenha lido por iniciativa própria e cujo enredo gire em torno de uma história de amor. Devia ter 13 anos e pus-me a ler Wuthering Heights/ O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë. Recordo-me de pouca coisa do livro: tenho ideia que o Heathcliff é um bocado doentio, e que, no final, morrem todos. Ou, pelo menos, morre o Heathcliff. Sim, acho que é isso.

Na escola, no tempo em que havia Português com letras A e B, li também Amor de Perdição (que, como o nome indica, está cheio de tragédias e gente a morrer) e Viagens na Minha Terra, que, para quem não sabe, além da passagem de Almeida Garret pela Azambuja inclui ainda a triste história de Joaninha. A Castro, de António Ferreira, que narra a história de Inês e Pedro, é duplamente uma tragédia. E também li essa, graças à elevada carga horária das aulas de Português.

Mas como dizia, fora da escola, longe das obrigações, histórias de amor nunca foram comigo. Se tentar listar os 10 livros de que mais gosto, tenho a certeza de que lá no meio não há grande espaço para o amor. E, se houver, deve ser só num livro. O Falecido Matia Pascal, Gente Independente, A Good Man is Hard to Find, Bartleby, L’Étranger: nenhum deles é título de obra que se preocupe muito com o amor.

Sou capaz de ver, ocasionalmente, filmes sobre histórias de amor, mas no geral, não é isso que me interessa. Quando leio, as questões que me preocupam são outras. Viver com outra pessoa não é difícil. Difícil é conviver comigo mesma (ou será própria? Nunca sei…). L’enfer, c’est les autres, dizia Sartre. Eu acho que o inferno somos nós. Ou eu, neste caso.

Para mim, este ano tem sido um pequeno inferno. Ou melhor: um purgatório. Houve desafios, dificuldades, dores e sacrifícios aos molhos. Chorei muito, mas também ri bastante. E dou por mim, frequentemente, a olhar o vazio e a pensar que a vida, afinal, é uma grande anedota. E que Deus (acredito nele, no Grande Arquitecto) é o maior troll que já existiu. Um troll com um grande sentido de humor e uma imensa ironia: é, no mínimo, irónico, que não me interessando as histórias de amor, seja esse o sentimento que me tem ajudado a resistir às dificuldades.

O amor é provavelmente a melhor coisa (e também a mais extraordinária) que se pode sentir. Mas atenção: não estou a falar apenas do amor «romântico» (chamemos-lhe isso). Falo também (e principalmente) de amor fraternal, amor paternal, amor entre familiares ou entre amigos. São esses sentimentos e esse afecto que me têm feito continuar. E melhorar, também.

Como dizia, a vida é uma grande figura de estilo. É irónico que tenha sido através dos obstáculos que me tenha transformado numa pessoa melhor, mais consciente dos meus defeitos e virtudes e mais atenta aos outros. É curioso que seja preciso dar um passeio até ao inferno para que, subitamente, nos vejamos rodeados de nuvens fofinhas, anjinhos, uma biblioteca espectacular, tempo livre e muitos Michael Fassbender (é assim que imagino o paraíso).

Nesta altura já vejo muitos cenhos franzidos e pessoas a reler o título do blogue para terem a certeza de que não se trata de Paulo Coelho. Tranquilizem-se: sou só eu, uma criatura de cabeleira farta e franja. Um indivíduo que de há seis meses para cá pragueja diariamente perante o que quer que seja que o espante ou irrite. E que continua a usar o sarcasmo como instrumento fundamental para sobreviver ao inferno dos outros. No entanto, nada disso invalida que me sinta contente por perceber que, finalmente, à beira dos 30, começo a ter uma vaga ideia de como é que «isto» funciona: com muito amor e uma dose diária elevada de palavrões.

(Publicado a 5 de Novembro de 2014)

Just do as I say

Há dias em que é difícil acordar, sair da cama, abrir a porta e sair de casa. Dias em que não apetece contar piadas, ou conviver. Dias em que a vida se parece resumir, simplesmente, a uma obrigação.

Normalmente, em relação ao Minudências, tenho duas regras: não escrever do fundo do poço e não me ausentar mais do que duas semanas.

Esta semana, tive de optar por infringir uma das duas: ou escrever das profundezas de um buraco, ou não escrever durante mais de duas semanas. Escolhi desobedecer à primeira.

Dormi uma longa sesta, não comi, ouvi música deprimente (PJ Harvey a cantar «Red Right Hand», a canção do ex-namorado), vi a parte final do Syriana e li um pouco de Histórias de 1 Minuto, de István Orkény, o livro que me encontro a ler. Depois de tudo isto, dei por mim sentada na cama, com algum receio e a pensar se estaria deprimida.

Felizmente, após breve reflexão, concluí que, não, não estou deprimida. Sinto-me apenas só e este foi um mau dia.

Soa ridículo, certamente, à maior parte das pessoas. Mas a verdade é que, apesar de existir uma linha que separa a depressão da tristeza, por vezes, essa linha é ténue. E só depois de alguns anos de infeliz treino se começa a perceber se entrámos na espiral depressiva, ou se, simplesmente, estamos tristes.

Ora, eu estou triste, apenas. E é um estado perfeitamente legítimo. Hoje em dia compreendo que o é. Mas durante muitos anos de mal-estar, achava que não podia, simplesmente, sentir-me triste. Porque estar triste não é fixe. Estar triste afasta as pessoas (um certo tipo de pessoas, não os amigos, claro) e mata a nossa vida social. Se esta existir previamente, claro.

Depois de anos a deprimir, governada pela minha solidão – que aprendi a amar, também, em períodos em que me foi imposta, além dos outros, em que foi uma escolha pessoal – cheguei à conclusão que, de facto, há uma grande pressão para sermos felizes, para nos divertirmos, para estarmos bem. Sempre. E é aí que reside o busílis da questão: é humanamente impossível, creio, estar sempre bem. E nem sequer é um bom ensinamento.

Não tenho filhos, só pequenos parentes. Mas espero que eles, ao contrário desta idiota, percebam que, por vezes, podem sentir-se tristes ou abatidos. Espero que, ao contrário desta idiota, venham a saber que é permitido sentirem-se assim. Que é normal, em determinadas alturas da vida, estar triste. E não, como esta idiota, deixarem-se dominar por uma espécie de pressão social que nos diz que não é bom estar sozinho e que só temos amigos, ou somos populares, se estivermos sempre bem.

Espero que, ao contrário desta idiota, não venham a sofrer por isso. E que não demorem tempo a aprender – como esta idiota – que estar triste faz parte da vida (afinal, as desilusões, a dor também vêm no pacote) e que estar só também é preciso, de vez em quando. O importante, de facto, é mesmo o equilíbrio. E aqui a idiota só espera estar cá, no futuro, para ajudar os agora pequenos a serem grandes e equilibrados. E quando se sentirem tristes.

(Publicado a 31 de Outubro de 2014)

Silêncio!, que se vai ler um livro

«C’est le soir où près du métro
Nous avons croisé Modiano»

Quando na semana passada li que o Nobel da Literatura 2014 tinha sido atribuído a Patrick Modiano, foi nestes dois versos que pensei instintivamente. É que a primeira vez que ouvi falar do escritor foi através desta canção, «Le Baiser Modiano» de Vincent Delerm.

Foi também o Vincent Delerm que me fez interessar por Georges Perec. Ouvira-o uma vez a recitar «Je me souviens», de Perec, enquanto convidado do Neil Hannon num qualquer espectáculo.

A música e a literatura sempre se deram bem e eu fico contente por esta relação, porque têm muito em comum e ambos fazem as pessoas muito felizes. A mim, pelo menos, fazem.

A banda de Neil Hannon sempre foi um dos melhores exemplos de fusão musical e literária: o nome The Divine Comedy diz tudo. E «The Booklovers» é, em si, uma cantiga muito catita.

Claro que, para mim, a música mais “literária” de sempre é «Killing an Arab», dos The Cure. O trecho,

«Standing on the beach
With a gun in my hand
Staring at the sea
Staring at the sand
Staring down the barrel
At the arab on the ground»

Descreve basicamente o momento fundamental, o ponto de viragem da narrativa em O Estrangeiro, de Albert Camus. E sempre que trauteio esta cantiga, lembro-me do pobre Mersault.

Mas há mais canções a evocar livros. Aparentemente, dizem, «Sympathy For The Devil», dos The Rolling Stones, parte de um dos meus livros preferidos, Marguerita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. No entanto, não há gatos falantes na canção, nem no videoclip. O que é uma pena. O que não se ia ganhar em  visualizações no YouTube.

Os Klaxons têm uma canção intitulada «Gravity’s Rainbow», tal qual o livro do Pynchon. Questiono-me se a dose de psicadelismo será a mesma. Mas duvido.

Fãs de Nirvana, rejoice! Porque o Kurt deve ter gostado mesmo do Perfume, de Süskind. A tal ponto que escreveu a «Scentless Apprentice».

E depois há todo um conjunto de canções homónimas de livros: Pet Sematary (Stephen King/Ramones), «The Rocket Man» (Ray Bradbury/Elton John), 1984 (George Orwell/David Bowie), Journey To The Centre Of The Earth (Júlio Verne/Rick Wakeman), Venus in Furs (Leopold von Sacher-Masoch/The Velvet Underground), ou For Whom The Bell Tolls (Ernest Hemingway/Metallica). Posso ter-me esquecido de mais alguma, mas caso queiram contribuir, estejam à vontade.

Parece-me natural que ambas as artes se contaminem e há ainda uma longa história de amizades entre músicos e escritores. De certeza que há autores que gostam de escrever ouvindo música, do mesmo modo que haverá músicos que lerão livros em busca de inspiração. E o que eu gostava de ouvir, um dia, uma cantiga dos One Direction inspirada na Récherche… Ou no Guerra e Paz… mas é melhor sentar-me. E aguardar em posição de repouso.

(Publicado a 16 de Outubro de 2014)

Prémio (Ig)Nobel

No mundo dos nerds literários, o dia de hoje foi assim como que a cerimónia dos Óscares: toda a gente a olhar para a televisão (ou para o computador) à espera que um senhor que traz um papel na mão diga o nome do eleito.

Felizmente não é um acontecimento com más piadas, embora tenha pena que não haja red-carpet. E, tal como os Óscares, gera dinheiro.

É mais um motivo para vender uns livros. Mas não serei hipócrita: sim, sou daquelas pessoas que, mal se conhece o nome do vencedor, vai investigar o que este escreveu e prepara-se para gastar mais uns trocos em livros. E depois já posso dizer: «Ah, sim, o vencedor do Nobel… Gosto muito, sim, principalmente do livro X. Já do livro Y nem tanto». E digo isto com um ar de uma certa superioridade, como quem percebe muito do assunto, enquanto saco do meu cachimbo.

Ou então não. Mas só porque não fumo. E porque não tenho nenhum cachimbo.

O Nobel da Literatura é um prémio catita, claro, mas a sua natureza é igual à dos outros: há sempre vencedores e derrotados. E com isso vem muita bílis. Pela visibilidade que tem está sujeito a uma maior quantidade de ácido e a um escrutínio público superior. É por isso que muitas vezes a Academia é acusada de tomar posições políticas. Ou decisões questionáveis.

E é aí que a coisa se complica. Nunca soube muito bem que posição tomar quanto ao facto de uma instituição ligada a uma arte assumir partidos políticos ou a defesa de um ideal político. Porque é bom enquanto a instituição defender a democracia. Mas e se a instituição defender ideais fascistas?

Faz-me lembrar a política de não-política da UEFA. Durante os jogos das competições europeias não pode haver qualquer tipo de bandeira ou estandarte que evoque partidos políticos ou publicite algum tipo de ideologia. Isto é óptimo quando pensamos em claques de futebol que gostam de levar suásticas gigantes para as bancadas dos estádios. Depois, pode ser que aconteça como me aconteceu há tempos, quando soube que um clube fora multado porque os seus apoiantes agitaram uma bandeira palestiniana durante o jogo. Pensei para comigo, instintivamente, «Que gajos fascistas!». Mas depois lembrei-me que a política da organização é «No politics».

Imediatamente, pensei numa frase que costumava ouvir muitas vezes na escola, em criança, quando era castigada por tabela, porque alguém se portara mal: «Mas não fiz nada!», dizia eu. E respondiam: «Pois, mas paga o justo pelo pecador.» Desde então que acho que distinguir justos de pecadores é uma estupidez e um mau ensinamento. Acima da liberdade mora a responsabilidade. E a capacidade de a saber assumir. E o resto, isso, são tretas; são só coisas estúpidas de se ensinar a crianças.

(Publicado a 10 Outubro de 2014)

Freedom!

Recomendam estufado de bebé, sentam-se em cadeiras humanas e coleccionam aforismos para viver a vida de forma absurda. Os autores aqui referidos são três (Jonathan Swift, D.A.F. de Sade e Georg Christoph Lichtenberg), mas no total são mais de quatro dezenas.

Não é um exército, mas podia ser. Podia ser uma companhia de humor negro. E o seu tenente seria André Breton. Não porque lhes seja superior, mas porque foi graças a ele que se efectuou a recolha que se pode ler na Antologia do Humor Negro.

Existiu, em tempos, uma versão portuguesa da obra. A que tenho é britânica. Mas, se a Segunda Guerra Mundial não tivesse acabado, talvez não sobrasse nenhuma edição original: o livro foi publicado pela primeira vez em 1940 e imediatamente banido pelo governo de Vichy. Felizmente, apesar da guerra, salvou-se Breton e a obra e, em 1947, a Antologia foi republicada.

Este é só um exemplo. Livros proibidos e queimados existem provavelmente desde que existem livros e regimes não-democráticos. E, actualmente, mesmo em democracia, há livros que continuam a ser banidos. O fenómeno é tão actual que há alguns anos foi criada a Banned Books Week, uma celebração das obras proibidas que são, tantas vezes, as mais apetecidas dos leitores.

É um marco que serve para comemorar a liberdade. Assim uma espécie 25 de Abril literário que dura sete dias. Com ele, vêm as listas e algumas notícias relacionadas com livros proibidos. E há de tudo um pouco. Novelas gráficas, banda desenhada, romances, livros de não ficção… o mesmo parece aplicar-se aos motivos da proibição: porque são demasiado explícitos, porque abordam temas que não devem ser abordados, ou porque sim, simplesmente. Afinal, quantas vezes os regimes autoritários não gostam de usar o argumento «porque sim»? Se não o fizessem, talvez deixassem de ser autoritários.

Este ano, no top 10 de challenged books (livros que alguém tentou ver retirados de bibliotecas ou de escolas, devido ao seu conteúdo) da American Library Association, o lugar cimeiro pertence à série «Captain Underpants». Diz que a linguagem é ofensiva e há violência. Em segundo lugar surge Toni Morrison, com The Bluest Eye. O argumento é que aqui há sexo explícito. Ao saber disto, pensei onde estariam as Cinquenta Sombras de Grey. Ao que parece, o soft porn de E.L. James é para meninos, ao lado da vencedora do Prémio Pulitzer, Toni Morrison: a trilogia do cinzento só ocupa o quarto posto. No último lugar do pódio está The Absolutely True Diary of a Part-Time Indian, que conta a história de um rapaz índio que frequenta uma escola tipicamente americana. Diz-que o livro incita à pornografia e ao racismo. Acho que deve ser extraordinário, já que incentiva a pornografia e nem sequer tem imagens.

Em quinto lugar está «The Hunger Games». O motivo: a perspectiva religiosa ilustrada na série. Sim, claro. Num país onde o fanatismo religioso é um problema, a raiz deve residir na trilogia de Suzanne Collins, seguramente. A Bad Boy Can Be Good for a Girl ocupa o sexto lugar. É a história de três raparigas que namoram com o mesmo rapaz. E sim, o sexo, juntamente com drogas e álcool parece ser o problema. Looking for Alaska, de John Green (é o mesmo de The Fault in Our Stars, o tal do filme), e The Perks of Being a Wallflower, de Stephen Chbosky, ocupam as posições seguintes e o problema apontado é o mesmo: o sexo explícito envolvendo adolescentes em idade pré-adulta. Em 9.º e em 10.º lugar, o problema é parecido: violência. Depois há as nuances: o satanismo em Bless Me, Ultima, de Rudolph Anaya, e a política em «Bone», uma série de comics de Jeff Smith.

Não conheço nenhum adolescente americano, excepto aqueles dos filmes. Mas do que me lembro da minha adolescência, quanto maior a proibição, maior a curiosidade. Por isso, se calhar proibir os livros é capaz de não ser a melhor prática. Digo eu, que já não sou adolescente. No entanto, esta lista parece-me útil: pode ser que agora o livro de Toni Morrison esgote. É que se é mais explícito que as Cinquenta Sombras de Grey, pode ser que finalmente assim alguma boa literatura chegue às mãos de muitos leitores.

(Publicado a 25 de Setembro de 2014)

Great Expectations

Quando alguém se queixa da velocidade da ligação à Internet, ou vejo adolescentes (ou até graúdos) em pânico porque se encontram num sítio onde não há wi-fi, institivamente penso em Bach.

Reza a história que quando era organista em Arnstadt, Johannes Sebastian Bach, homem de poucas viagens, tirou um mês de licença para poder ir assistir a um concerto de Dietrich Buxtehude. Buxtehude era organista em Lübeck, a cerca de 320 quilómetros de distância de Arnstadt, e Bach, para assistir ao concerto, teve de viajar a pé.

Eu nasci em 1985, o que significa shoulder pads, fartas cabeleiras e bigodes, The Power of Love a tocar na rádio, e outros êxitos que ainda devem passar diariamente na M80. Foi o ano em que Garcia Márquez publicou O Amor em Tempos de Cólera e Patrick Süskind o seu famoso Perfume. A Internet já existia, mas ainda não era usada comercialmente. Os computadores ocupavam espaço e os telefones usados não chegavam muito longe.

Durante anos, as minhas principais fontes de informação foram a família, a televisão e os livros. Ainda assim, a biblioteca foi um espaço ao qual só consegui aceder com frequência a partir dos 10 anos. E, não, não passei a infância numa aldeia no interior do país: morava a cerca de 45 minutos de carro de Coimbra. A biblioteca que havia antes dos 10 anos era itinerante, logo, mensal. Eu ansiava pela sua chegada, até porque a vontade de ler era tanta que esgotava rapidamente os livros que trazia para casa todos os meses. E havia sempre a pressão da escolha: escolher bem era muito importante, pois só voltaria à biblioteca daí a um mês. Mal me recordo dos livros lidos durante esses anos, mas lembro-me com clareza do quanto gostava desse dia do mês em que a biblioteca chegava à vila.

Aos 10 anos mudei de escola. E com as novas instalações veio uma biblioteca. Era uma biblioteca escolar, farta em enciclopédias e clássicos gordos, como Guerra e Paz. Como não imaginava que fosse possível ler tais livros em tempo útil, passava intervalos e feriados a folhear enciclopédias. Principalmente as de História de Arte, porque tinham imagens e legendas que podiam ser lidas em pouco tempo. Foi aí que descobri que Florença devia ser um lugar maravilhoso, cheio de arte. E foi por isso que, anos depois, quando me perguntaram para onde queria ir estudar, não tive dúvidas em responder Florença.

Por um motivo semelhante, durante muito tempo, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia que queria ser arqueóloga. Descobrira a profissão numa enciclopédia juvenil e a descrição que aí lera parecia-me perfeita.

Os livros foram sempre uma parte muito importante da minha vida e não consigo imaginar como deve ser viver sem eles. Mesmo agora que sinto dificuldades em ler, porque algumas preocupações e pouca disponibilidade mental insistem em bloquear o processo, sinto falta da leitura, de saber mais. À cautela, não vá eu conseguir superar o bloqueio por instantes, mantenho um ou dois livros na mesa de cabeceira, sempre à vista e à mão de semear.

Actualmente, não preciso de me deslocar à biblioteca para ler: tenho as minhas próprias estantes de livros. Ainda assim, de vez em quando recordo a expectativa que sentia uma vez por mês, ao ver a carrinha da Fundação Calouste Gulbenkian dobrar a esquina e parar ao fundo da rua. E muitas vezes não havia o livro que eu queria ler e era obrigada a contentar-me com o que havia. E frequentemente escolhera mal e o livro não me agradava.

Hoje tenho quase 30 anos, muitos livros, pouco dinheiro e meia dúzia de sonhos (nos tempos que correm, sonhar vai-se tornando mais difícil). Mas deixa-me feliz pensar que não tenho de fazer mais de 300 quilómetros a pé para ouvir um concerto. Nem tenho de esperar um mês para poder ler um livro. E, felizmente, tenho uma ligação à Internet decente.

(Publicado a 18 de Setembro de 2014)

Eat, Drink and Laugh

Vomitar, chorar e rir. Não é uma lista sobre as minhas actividades favoritas; é só a enumeração do que considero libertador. E claro, um pouco nojento. À excepção do riso.

Morei e estudei em Coimbra durante muitos anos e, durante esse período, descobri que o vómito não é uma coisa tão terrível. Em casos de má disposição (quer seja física ou mental), o melhor mesmo é pôr tudo cá para fora. O processo não é agradável, mas no final, fica-se muito aliviado e aprendem-se lições importantes para a vida, como: «Não voltar a fazer misturas», ou «Da próxima vez, comer alguma coisa primeiro».

Quanto ao choro e às lágrimas, não precisei mudar de casa para compreender que chorar constitui um processo libertador. Desde tenra idade que as minhas glândulas lacrimais registam uma grande actividade. No entanto, só em anos mais recentes compreendi que eram, na maior parte dos casos, uma forma de libertar raiva, frustração ou apenas uma tristeza profunda. Há quem prefira o grito: para mim o choro é mais eficaz. Mas, ao fim e ao cabo, o princípio é o mesmo: é pôr tudo cá para fora no estado líquido.

O riso deve ser o acto mais limpinho. Não envolve excreções, nem fluídos corporais. Contudo extremamente físico: os músculos da face movem-se, o corpo contorce-se. E dos três, é o que no final nos faz sentir melhor. Sou apologista que, em vez psiquiatras/psicólogos britânicos prescreverem livros de auto-ajuda para pacientes deprimidos (falei sobre isso em Fevereiro, no post «Se numa noite de Inverno um indivíduo…»), o Serviço Nacional de Saúde devia comparticipar a compra de bens culturais passíveis de provocar riso e esquecer tristezas. Assim, tipo ter direito a descontos na FNAC por cada temporada de Little Britain comprada. Ou receber bilhetes gratuitos para peças de autos de Gil Vicente. Programas de humor passariam em sinal aberto: Curb Your Enthusiam para todos! Um Louis C.K. em cada casa! Oh, seria fantástico!

Nunca um provérbio fez tão sentido: «Rir é o melhor remédio». E o melhor de tudo, é que não tem de envolver a toma de químicos ou substâncias sintéticas.

(Publicado a 12 de Setembro de 2014)

Turista literário

Agosto está aí. E com ele, além do melhor dia para casar, vêm as férias, sinónimo de praia, sol, areia, mar e miúdos a gritar. O calor, contudo, parece andar tímido, arruinando os anseios de muito boa gente que só dispõe desta altura para as desejadas férias.

Estas coisas não me afectam. Não porque seja uma pessoa muito superior a estas coisas, mas simplesmente porque não vou ter férias. Portanto, provavelmente Agosto será um mês santo, sem bêbados a cantar às 2.00 da manhã junto à janela do quarto e com muitos lugares vagos para estacionar o carro.

Mas se pudesse ir de férias, se pudesse ir passear, sei bem o que faria: ia até Praga.

Sei que não é propriamente o lugar mais associado ao Verão (parece que nem praia tem), mas nunca fui lá e estou a ler Bohumil Hrabal. E isso, caros, faz toda a diferença.

Comecei a ler Uma Solidão Demasiado Ruidosa há pouco mais de uma semana. O livro é pequeno, mas como tempo disponível para a leitura é coisa de que não disponho em abundância, ainda não terminei. No entanto, não faz mal. É um livro tão bom, mas tão bom, que vale a pena fazer como os gelados e ir comendo (lendo) devagarinho.

É sobre um homem que trabalha num depósito de reciclagem a prensar papel. Faz isso há 35 anos e sonha com o dia em que se reformará, ainda que goste muito do que faz. Os livros fazem parte da sua vida e nem se imagina sem eles. Os mais belos, salva-os e leva-os para casa. De tal forma que, depois de três décadas de trabalho, já tem mais de duas toneladas de livros espalhados pelo apartamento e quase já nem tem espaço para se mexer.

Aparentemente, nada há de extraordinário nesta história. Mas desde o primeiro parágrafo que as palavras parecem executar uma sinfonia perfeita, harmoniosa. E o modo como Hanta (a personagem principal e narrador) exprime a sua paixão pelos livros e pelas ideias é sublime. Chego a ansiar por uma profissão semelhante à do senhor. No entanto, quando ele descreve a cave onde trabalha e as pilhas de papel que apodrecem e os ratos com quem convive, o desejo desaparece, vá lá perceber-se porquê.

Mas estou a desviar-me do que me trouxe aqui: Praga.

Pouco sei em concreto da cidade. Sei que é a capital da República Checa, que deve ter muita cerveja, um rio e uns edifícios do tempo do Império Austro-Húngaro. E um prédio que parece que está a cair, desenhado por Frank O’Gehry. Talvez saiba uma ou outra coisa mais sobre Praga, mas para já, é disto que me lembro.

Sei, contudo, que é a cidade de Kafka, de Hrabal e de Kundera (ainda que este se tenha pisgado há décadas para França). E conhecendo o que escreveram, sinto curiosidade em saber mais sobre o lugar onde viveram e que parece ter exercido sobre eles tanta influência.

Não estou sozinha neste tipo de curiosidade. O turismo literário é coisa que prolifera por aí. Em Lisboa, por exemplo, existe até um grupo ou associação (cujo nome não recordo agora) que organiza passeios pela Lisboa de Fernando Pessoa ou de José Saramago (embora a Lisboa de Saramago seja essencialmente a do Ano da Morte de Ricardo Reis).

Dado que a certa altura da nossa vida todos acabamos por nos transformar turistas, uma vez ou outra, parece-me ser esta uma boa forma de descobrir uma cidade, através dos olhos de um autor. Teremos sempre a nossa perspectiva, claro: é importante, inclusivamente, que se consiga desenvolver uma; mas olhar para um edifício através das palavras de um escritor, observando-o pelos nossos olhos, é um exercício, no mínimo, entusiasmante. Pelo menos para mim.

E com isto me vou. Adeus, e até ao regresso da Preguiça. Boas férias! 🙂

(Publicado a 31 de Julho de 2014)

Leituras de Verão

Durante muito tempo, o Verão era a altura em que mais lia. Os dias de férias eram muitos, às dezenas, e as horas longas. E eu lia. À sombra, ao sol, na areia, na relva, sentada ou deitada.

Os livros lidos também ascendiam à(s) dezena(s), independentemente da dimensão. Devorava as narrativas, tragava as histórias umas a seguir às outras: os escalpes cortados pelo Juiz Holden (Blood Meridian), o desfasamento mental de Ignatius C. Reilly (A Confederacy of Dunces), os jovens pseudo-intelectuais argentinos de Pola Oloixarac (Las Teorías Selvajes), A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge, foram todas lidas num desses Verões.

Do que vou ouvindo por aí, este fenómeno não me é exclusivo. O metro, o autocarro, e os transportes públicos em geral, a par das praias no Verão, parecem ser os principais locais onde decorre a leitura. E não é de censurar: o tempo parece ser um bem cada vez mais escasso e o pouco que resta para o ócio é preenchido com outras actividades. Até porque há muito mais escolha, muito mais coisas com que ocupar os tempos livres. Ou talvez seja apenas uma ilusão: a variedade é a mesma, em termos numéricos e o que mudou foram apenas as preferências dos ociosos.

De qualquer modo, como padeço do «mal» da leitura (é um problema, se considerarmos o preço a que o livro está), leio em qualquer lado. Excepto na cadeira do dentista. E enquanto durmo.

Deveria, contudo, na minha opinião, haver uma espécie de «reading code», no que respeita ao local e ao tipo de livro indicado a ler nesse espaço. Ou nessa altura do ano. Algo semelhante ao facto de as vindimas se realizarem em Setembro, porque é a época das uvas.

Por exemplo, uma pessoa não deve ler Gente Independente, de Hálldor Laxness, ou Fome, de Knut Hamsun, no Verão, na praia. Ou mesmo Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch, de Alexander Soljenítsin. Todos se situam em locais frios, com neve e temperaturas abaixo dos zero graus. Torna-se difícil usufruir das narrativas deitado na areia quente da praia, com as ondas de um mar ameno à nossa beira. Quando terminei Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch, apercebi-me das dores que sentia no pescoço e compreendi que tinham origem no livro: as descrições do frio eram tão verosímeis que involuntariamente me encolhia durante a leitura, como se também eu sentisse as temperaturas siberianas.

Mas os problemas não terminam aqui: há também certos temas que não combinam muito bem com a beira da piscina e dias de sol. Há livros que se lêem melhor de noite. Li, de António Lobo Antunes, O Que Farei Quando Tudo Arde numa espreguiçadeira, numa tarde soalheira e num consultório enquanto esperava pela minha vez e devo dizer que não vão muito bem com a leitura: porque não se trata de uma narrativa soalheira e porque o ruído de uma sala de espera perturba a concentração requerida para ler o homem (Lobo Antunes). O mesmo se passa com Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto: o ruído dos consultórios de dentistas e das brocas, não ajuda à leitura. E, já agora, nunca leiam Elfriede Jelinek de dia. Não leiam A Pianista em público, se forem do sexo feminino. Há cenas muito verosímeis e podem dar por vocês (como eu) a fechar as pernas e a contorcerem-se de dores imaginárias, tal o realismo da escrita. E depois parece-se uma pateta de livro na mão e esgares esquisitos.

Há, também, livros adequados a determinados lugares e cuja leitura recomendaria vivamente no sítio X ou Y: se, como eu, tiverem a sorte de passar férias entre o Minho e a Holanda, leiam La Coca, de Rentes de Carvalho. Se pensarem ir para o Alentejo, levem Levantado do Chão, de José Saramago, numa sacola. Se forem para perto de Mafra, incluam nas malas um exemplar do Memorial do Convento (nunca mais o edifício parecerá o mesmo). E se porventura forem afortunados o suficiente para viajar até à Islândia, A Raposa Azul, de Sjón, ou qualquer livro de Halldór Laxness, irá transformar o modo como percebem a realidade do país. Mas independentemente do lugar, o que importa mesmo, é ler. E apenas isso.

(Publicado a 17 de Julho de 2014)

To be, or not to be, that is the question

«Choose a life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers… Choose DSY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit crushing game shows, stucking junk food into your mouth. Choose rotting away in the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself, choose your future. Choose life… But why would I want to do a thing like that?»

Trainspotting, Irvine Welsh

Todas as pessoas da minha geração, de idade superior à minha, devem estar familiarizadas com esta citação, embora dificilmente a conheçam do seu suporte original, o livro. O filme popularizou o livro, deu-lhe uma nova capa e apresentou ao mundo Danny Boyle (que hoje em dia será mais popular por Slumdog Millionaire) e Ewan McGregor. Eram os anos 90 e a Internet não fazia parte da vida das pessoas comuns. Já as dúvidas que vão assolando os jovens adultos, essas devem permanecer mais ou menos as mesmas.

Não cresci nos subúrbios de Edimburgo como as personagens de Trainspotting, mas dúvidas sobre escolhas a fazer são coisas que me afligem com frequência. Depois há aqueles dias em que não apetece pensar, porque é coisa que gera alguma dor. Não a equivalente a partir um pé, mas talvez ao nível de uma entorse: aleija, limita a locomoção, mas não impede a continuação de uma vida relativamente normal. O sofrimento que pensar em demasia provoca é algo semelhante. Não impede a continuidade da vida, mas vai moendo.

A verdade é que tomar decisões e fazer opções não tem piada nenhuma. (Há um sketch de Monty Python em que alguém subitamente diz: «Oh, you’re no fun anymore». E ser forçada a fazer escolhas é uma coisa que me faz sentir assim.)

Antes dos 18 já há que fazer escolhas. Mas depois da maioridade é que os problemas começam. Até então (pelo menos no «meu tempo» era assim), o que mais se desejava era poder optar por A ou por B, sem qualquer condicionamento parental, ir aqui ou acolá, comer isto ou aquilo. Depois vem a «liberdade» e a «maioridade». E então estamos tramados.

Recordo-me sempre da frase: «Não há almoços grátis». Tomar decisões é isto. Deixamos que nos paguem o almoço na altura, mas depois é que vem a verdadeira cobrança.

Aos 18 escolhi o que pensava ser a minha vocação. Pensava que a escolha de um curso superior correspondia à vocação (ao que eu pensava ser a minha vocação). Era assim que funcionava. Devia escolher o que gostava de fazer. Hoje concluo que provavelmente o que se passou foi apenas uma mudança de paradigma. Contudo, ainda existe – parece-me – uma ideia de que a profissão/formação deve corresponder à vocação. É uma concepção errada, pelo que vejo. E olho para mim.

O que é uma vocação? Consultei a Enciclopédia Luso-Brasileira da Cultura, mas esta apresenta uma definição primeira que além de longa é muito difícil de compreender à primeira. Depois diz que tem raiz latina e que significa «acto de chamar» e está ligado ao «chamamento» de Deus. Finalmente refere que se usa para designar uma inclinação ou talento pessoal. Considerando esta parte final, concluo que a minha vocação é, e sempre foi, ler. A certa altura da vida, achei que escrever é que era a minha vocação, o que me dava prazer, porque, efectivamente, me fazia feliz. Como aquelas pessoas que vão aos concursos de televisão, que contam que desde pequeninos cantam, que costumavam subir a um banquinho e faziam espectáculos para a família, eu escrevia. Escrevia em casa, na escola, tinha cadernos diversos, uns para os textos sobre o tema X, outros dedicados ao tema Y. Copiei também muitos escritos alheios, poesia sobretudo, a partir dos livros que ia encontrando por casa.

O tempo avançou e ao fim de alguns anos, tornou-se claro – na minha mente apenas – que o jornalismo era o meu futuro. Meu e de muitas centenas de pessoas. Não gostava muito de notícias, mas pareceu-me natural: ia poder escrever.

Saiu tudo ao contrário, como era de esperar. E eis-me, hoje em dia, escrevendo pouco, mas lendo muito, fazendo na verdade aquilo sempre me fez muito feliz e nunca me trouxe desgostos, e que surgiu antes da escrita: ler. Descubro agora, com mais de uma década de atraso, que a minha vocação é simplesmente ser leitora. E que para as vocações nem sempre há profissões correspondentes. Como ser mãe, suponho. Ou simplesmente ajudar os outros.

Não há nobreza de carácter em ser leitor. Nem há honorários. Os ganhos e a remuneração processam-se em géneros: ideias ou conhecimento. Em inglês existe uma palavra que traduz perfeitamente o que pretendo transmitir, o que sinto ganhar ao ler: «enlightenment». Não há nenhuma entidade externa, patronal, que me pague para ler. Cheguei a pensar que seria possível e talvez o tenha sido, de facto, em séculos passados. Monge copista deve ter sido a profissão mais próxima disso que existiu. Hoje é impossível, porque o conhecimento, a abertura das mentes (o «enlightenment» passa por isso, também) não produz riqueza tangível. Já a emoção, o escândalo, a lágrima no canto do olho, sim, continuam a ter impacto aos olhos dos leitores, dos públicos. Um desejo voraz de sentir emoções instantâneas, uma espécie de Caprisonne sentimental parece varrer os jornais, os livros, a Internet. Pensar é uma actividade demasiado exigente, envolve transpiração mental, é equiparável a um arrastar contínuo de blocos de pedra para a construção de uma pirâmide. Por isso, o melhor mesmo é ficar pela emoção. Não vá uma pessoa aleijar-se.

(Publicado a 10 de Julho de 2014)

Proactividade, produtividade e prolificidade

Se há palavra mais idiota e inútil, mas também tão usada é proactividade. É uma merda de palavra. E pior fica quando escrita segundo o Novo Acordo Ortográfico: proatividade.

As entidades empregadoras gostam muito dela. Estão sempre a recorrer a ela. Claro que quem acaba por sofrer com a proactividade são os empregados.

Consulto um dicionário para me esclarecer apropriadamente sobre o significado da expressão. Diz este que se trata da «capacidade que alguém ou algo tem de fazer com que determinadas coisas aconteçam ou se desenvolvam». E fico deprimida: não sou sequer uma pessoa proactiva na minha vida pessoal. Não possuo essa fantástica capacidade de «fazer com que determinadas coisas aconteçam». As coisas vão-me acontecendo. Para o bem e para o mal.

A expressão tem o seu quê de místico, de criativo. Fazer as coisas acontecer como quem faz acontecer comida. Ou um romance. Contudo, embora haja muitos autores que fazem romances acontecer a cada ano (e pensa-se em António Lobo Antunes), felizmente a proactividade não parece ser uma maleita de que padeçam na sua maioria. Aliás, tenho a impressão (não comprovada) de que não se publicaram tantas novidades no último ano. Mas posso estar enganada.

Não tenho nada contra as novidades, mas gosto particularmente de ver obras esquecidas (ou quase) serem resgatadas e regressarem às prateleiras das livrarias como se fossem novas.

Regressando à proactividade, que anda de mãos dadas com a produtividade, questionei-me sobre quem seria o autor mais rápido a fazer acontecer um romance. Até agora creio que um dos mais velozes, se não o mais rápido, é Stendhal, tendo concluído A Cartuxa de Parma, romance de cerca de 500 páginas, em 52 dias.

Consultei o oráculo (vulgo Internet) e não obtive a resposta que queria. No entanto, fiquei sabendo que John Updike, um tipo que até escrevia bons livros, foi um dos mais prolíficos autores do seu tempo, com uma boa relação qualidade/velocidade: quase um livro por ano. Dizia ele que um dos principais problemas dos autores era encarar a escrita enquanto hobby. Se assumissem a literatura como um trabalho, um emprego como outro qualquer, não havia problemas de inspiração ou afins. Georges Simenon, pai do Inspector Maigret, foi também muito produtivo e assinou cerca de 200 livros, durante a sua vida. Stendhal escreveu muitos menos, um décimo do total de Simenon. Mas tenhamos em consideração que escrevia à mão…

Proactividade, produtividade, prolificidade… são palavras comumente associadas a sucesso. «Quanto mais melhor», parece ser a regra. E a pressão é muita. Mas às vezes o que faz mesmo falta é um Bartleby que diga «não». Quão libertador seria se, por um dia, qual escrivão de Melville, pudéssemos dizer «I would prefer not to»…

(Publicado a 26 de Junho de 2014)

Curb your enthusiasm

Ce que je sais de la morale, c’est au football que je le dois.

Albert Camus

Começou o Mundial de Futebol. Que alegria. Para os alemães. E para os holandeses e italianos. Para nós, fazendo jus ao tom do fado, está a ser uma miséria. É nesta altura que fico contente por não ter visto o jogo (tinha de ir ao supermercado e aproveitei a hora do jogo para evitar filas). Apesar de até gostar da bola, para ver cenas deprimentes bastam-me os filmes do Lars Von Trier. Ou os livros de Buzzati.

De qualquer das formas, porque a minha avó sempre diz que tristezas não pagam dívidas (o que é realmente uma pena, porque estaríamos ricos), falemos de bola, das alegrias da bola e de literatura. Até porque têm muito que ver. E neste ponto não há sarcasmo algum.

Os autores são homens e mulheres de carne, músculo, gordura e osso. Por isso não é de espantar que além do prazer da literatura se entreguem a outros mais mundanos, como é o caso do futebol. Muitos são, com efeito, adeptos fervorosos. Como, supostamente, Salman Rushdie.

Há alguns anos ofereceram-me um livro da sua autoria, intitulado Pisar o Risco (do qual nem gostei muito, na verdade). Trata-se de uma obra de não ficção, uma colectânea de alguns textos seus publicados em jornais ou proferidos em conferências e coisas que tais. Falando da sua vida, um dos aspectos abordados pelo autor era a sua devoção pelo clube inglês Tottenham. Durante anos, Rushdie assistia aos jogos e torcia pela equipa da qual aprendera a gostar. Creio que durante os anos em que teve de permanecer incógnito devido à fatwa que lhe foi imposta via os jogos apenas pela televisão. Mas disso já não me recordo eu.

Muito antes de Rushdie, já era conhecida a paixão de Albert Camus pelo futebol. Na obra que deixou incompleta e que tem um forte cunho autobiográfico, O Primeiro Homem, é evidente o seu amor por este desporto. Camus chegou mesmo a ser guarda-redes de uma pequena equipa na Argélia. O futebol, descreveu-o como uma influência extremamente positiva na sua vida. E ter sido guarda-redes parece que previa a existência da angústia na sua escrita.

Mas baliza era também o lugar predilecto de Sir Arthur Conan Doyle, que assumia funções de guarda-redes na sua equipa amadora em Portsmouth.

Talvez por se tratar de um jogo muito popular no Reino Unido desde há séculos, muitos autores britânicos não se coíbem de expressar o seu amor pelo jogo. J. K. Rowling chegou mesmo ao ponto de assistir aos jogos do West Ham United disfarçada após o sucesso da saga «Harry Potter». E não se pense que a autora é uma excepção entre as mulheres. Jo Shapcott, distinguida pela Rainha britânica com a Gold Medal for Poetry, é uma grande adepta do Arsenal, chegando a descrever a estratégia de Arsène Wenger como poesia tão boa, ou melhor, do que a que escreve.

Do lado masculino, o mais conhecido fã de futebol será, sem dúvida, Nick Hornby, ou não fosse ele o autor de Fever Pitch (Febre no Estádio) que tem como tema central os seus mui adorados Gunners. Anthony Burgess, o “pai” de A Laranja Mecânica ou A Clockwork Orange (não confundir com a selecção holandesa), Ian McEwan, o autor de Expiação (Atonement), Julian Barnes e Martin Amis são apenas alguns dos escritores que não têm peias em admitir que gostam de ver a bola.

Contudo, nenhum deles consegue bater Stephen Fry: desde 2010 que é, além de apresentador de televisão, dirigente desportivo no Norwich City Football Club. Ah, poizé. Bater palmas e cantar hino todos conseguem, mas dirigir um clube? Beat this!

(Publicado a 19 de Junho de 2014)

Os tempos modernos

Não sei o que é que o jornalismo tem que o faz ser a profissão mais recorrente dos super-heróis e/ou personagens literárias. Isto é: tenho uma vaga ideia do porquê; só não compreendo como é possível terem-se equivocado tanto.

Do Clark Kent ao Tintin, passando pelos autores que exerceram, de facto, a profissão, o mundo literário está cheio de jornalistas. São, até, mais do que as suas mães. Mas, na realidade, uma coisa não tem que ver com a outra. Pelo menos, não são lineares.

Um bom jornalista não é sinónimo de um bom escritor. E um bom escritor não é necessariamente um bom jornalista. São actividades diferentes, escritas distintas e é melhor mesmo não misturar as coisas.

Na família, desde há muito que me dizem que deveria escrever um livro. Graças ao Senhor que nunca caí na asneira de o fazer. Tenho consciência das minhas limitações e, como tal, espero nunca poluir o mundo ou não gastar bytes com linhas de texto ficcionadas que sejam da minha autoria.

Serei mais clara: o que um bom escritor deve ter em imaginação, um bom jornalista deve ter de realidade. Não escreverei ficção nunca pelo mesmo motivo: porque capacidade imaginativa é coisa que me falta. Não veio inscrito no meu ADN. Contudo, felizmente, tenho uma boa capacidade de percepção da realidade: apreendo com facilidade o que me rodeia e consigo interpretá-lo. Agora, se me pedirem para inventar uma história para contar a criancinhas… bem, aí a coisa é capaz de se tornar difícil. Mas é para isso que existe a Carla Maia de Almeida, o André Letria ou o Afonso Cruz: para facilitarem a vida a criaturas como eu.

Mas se há algo transversal e fundamental a ambas as profissões é o escrever bem. E, infelizmente, hoje em dia, parece-me que nesse aspecto, autores e jornalistas se distanciam. Nos jornais surgem com frequência artigos muito mal escritos e redigidos. De tal forma que fazem doer os olhos. E a alma.

Quando andava na escola primária, a professora costumava aconselhar que lêssemos muito. Não fazia juízos sobre o que devíamos ler. Apenas insistia que lêssemos. Dizia que fazia bem, que era bom para saber escrever. Sempre gostei de ler, por isso não era sacrifício nenhum, mas ainda hoje penso nesse simples conselho. Que foi tão importante para a minha vida.

Não sou jornalista, nem nunca fui (nunca tive carteira de jornalista, nunca pude dizer que o era). E a minha passagem pelas redacções foi muito breve. Mas elucidativa. A tal ponto que rapidamente pensei que afinal não era aquilo que tinha desejado: eu escolhera aquele curso superior porque gostava de escrever, acima de tudo. E dera comigo a fazer isso, mas sem tempo para reflectir ou desenvolver profundamente o que estava a dizer. E senti-me uma simples proletária da informação e não uma jornalista: fazia as perguntas que devia fazer, obtinha as informações que devia obter e plasmava-as no papel. Lead, corpo da notícia. O quê, quando, onde, quem. Como e porquê. Título, primeiro parágrafo. Informação hierarquizada. Simples factos. No meu primeiro emprego, ainda estagiária, num sábado, fui cobrir uma conferência de imprensa. Falei com o responsável da empresa que organizara a conferência. Fiz algumas perguntas. Regressei à redacção. Fiz um telefonema para uma pessoa que estava do lado oposto ao da empresa, do lado dos consumidores. Tomei nota das declarações. Fiz uma notícia. Tempo gasto: 30 minutos. Espaço da notícia: três quartos de página. Tudo de forma bastante mecânica. E percebi que era uma proletária na linha de montagem informativa. Uma versão pós-moderna do Charlie Chaplin em Modern Times. E assustei-me.

Pela nossa saúdinha, o jornalismo nem sempre foi assim. E nem todos os jornalistas dão maus escritores. O que se passa é que o mundo mudou. Os meios mudaram, assim como as pessoas. E as necessidades alteraram-se. O problema, a meu ver, é que se continua a fazer jornalismo como antigamente. E os jornais continuam a funcionar como antigamente. Sim, agora já não são máquinas de escrever, nem telexes, nem imprensa com caracteres móveis. Mas o procedimento é o mesmo. Assim como as fórmulas. E, infelizmente, os maus hábitos.

PS – Na semana passada não houve Minudências. Aos leitores que terão notado a ausência, as minhas desculpas, mas foi o meu aniversário e envelhecer é uma actividade que pode ser cansativa

(Publicado a 05 de Junho de 2014)

The importance of not being seen

«Mr. E. R. Bradshaw, will you please stand up!» e… boom! É assim um dos meus sketchs favoritos de Monty Python, que resume com grande clareza a importância de não ser visto.

Não ser visto é uma coisa bastante útil. É o sonho de qualquer vítima de bullying. É o paraíso de um voyer. Mas não só.

Não ser visto significa não ser incomodado pelos que nos rodeiam. É estar só, tranquilamente. Isto quando não ser visto é uma opção. (Há situações mais infelizes, bem sei. Mas, vá lá, vamos tentar não cortar os pulsos hoje, sim?)

Há alguns autores que são conhecidos por não serem vistos e por ninguém saber como são sequer fisicamente. A verdade é que o registo que deles existe se limita às suas obras e a fotografias a preto e branco com três décadas ou mais. É, sem dúvida, uma opção, um modo de vida. E que deve fazer a cabeça em água aos indivíduos dos departamentos de Comunicação e Marketing. Quer dizer, talvez não: certamente encontram de imediato um ângulo e uma forma de vender tudo. Até água, durante um dilúvio.

Creio que J. D. Salinger deve ser o autor mais famoso por não aparecer. Se bem que muito se deve à popularidade e à controvérsia afecta a The Catcher in the Rye (À Espera no Centeio), mais conhecido como «o livro que assassinos ou potenciais assassinos costumam ler».

Salinger morreu há poucos anos, em 2010, concretamente. E viveu quase meio século tentando passar despercebido. O que não devia ser muito difícil, porque a cara que lhe conheciam era a de uma foto a preto e branco, sem rugas, com cerca de 30/40 anos. Em finais do ano passado estreou um documentário sobre o escritor. É o trabalho de um tipo que passou uns quantos anos a tentar captar uma imagem do homem. Mais precisamente, uma imagem do pobre do Salinger a ir buscar o correio. Do pouco que vi no trailer, parece uma cena má de vigilância retirada do Cops. O resto do filme são testemunhos de gente conhecida (na sua maioria actores, como o Philip Seymour Hoffman) sobre a sua relação com o livro e a obra do autor. Não deixa de ser um pouco triste e confrangedor: o que o homem mais queria era apenas sossego e que o deixassem em paz. E só deve ter conseguido depois de morto.

Vivinhos da silva estão os outros dois exemplos de que me lembro: Thomas Pynchon e Dalton Trevisan. A diferença entre ambos (além da nacionalidade e da língua) é que um, ninguém faz a mínima ideia como é, e o outro, às vezes ainda o conseguem apanhar de esguelha. Mas dos dois, o que me mais me diverte é o autor de Gravity’s Rainbow (O Arco-íris da Gravidade), porque aparece ocasionalmente na série The Simpsons. É um senhor que tem um saco de papel na cabeça. Como ninguém lhe conhece a cara e ele não a quer dar a conhecer, é assim que é representado em boneco. A única foto que existe dele deve datar do início da adolescência e mostra um garoto com dentes salientes. Pela saúde do senhor Pynchon, espero que hoje em dia, tendo 77 anos de idade, os dentes já não estejam assim. Mas, se calhar já nem os tem…

Quanto ao vencedor do Prémio Camões 2012, as imagens disponíveis de Dalton Trevisan são um pouco mais recentes, mas, ainda assim, o autor prefere manter-se discreto. De tal maneira que não compareceu na entrega do dito prémio e é conhecido como «Vampiro de Curitiba», exactamente como o livro da sua autoria. Isso não impede que toda a gente continue a tentar entrevistá-lo ou vê-lo. Ainda assim, quem passou tantos anos sem ser visto, há-de ter prática em não ser visto. E provavelmente todas as tentativas de o(s) encontrar hão-de continuar a ser falhadas.

(Publicado a 24 de Maio de 2014)

Dicionário dos lugares não imaginados

O que faz os lugares são as pessoas. E os edifícios e a paisagem e… as pessoas. Como um livro ou uma narrativa: podemos ter cem páginas que descrevem o Ramalhete, a casa da família Maia, mas o livro torna-se mais interessente a partir do momento em que nos introduzem as personagens que nos farão companhia ao longo das centenas seguintes.

A editora Tinta-da-China lançou recentemente o Livro dos Lugares Imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi. É uma obra jeitosa, onde figuram todas as localidades possíveis e imaginadas que, de acordo com muitas obras de ficção, existem no planeta Terra. Os adeptos de ficção-científica devem sentir-se frustrados ao cruzarem-se com o livrinho: não inclui lugares que se localizem fora do nosso planeta. A justificação, segundo diz a Wikipedia, é que só assim (excluindo os outros planetas), o livro poderia ser de «manageable size». (Subitamente recordo-me de H.R. Giger, o pai do Alien tal como conhecemos a criaturinha, que faleceu há poucos dias e de quem poucas pessoas se recordarão.)

Na altura não dei muita atenção ao livro (por motivos que aqui não interessam para nada), mas agora sinto vontade de o folhear. Porque os lugares evocam as pessoas, o calor humano, a amizade. E evocar o Shire é pensar nos pequenos hobbits de pés peludos e Ents de linguagem imperceptível.

A menção à trilogia Senhor dos Anéis não é totalmente inocente. Ocorreu-me subitamente, ao pensar em lugares imaginários, a Terra Média, o Shire e Mordor. Mas ao recordar-me do mapa da Middle Earth, pensei naquela que é uma das melhores histórias sobre como a amizade deveria ser.

Claro que isto não deve ser tomado literalmente: não quero dizer que agora, para sabermos se alguém é nosso amigo, devemos convidá-lo a ir connosco para dentro de uma fornalha gigante por causa de um anel. Apenas queria dizer que ter bons amigos é tê-los presentes nas ocasiões de festa e partilhar com eles os motivos de celebração. E vê-los juntar-se a nós, sem que lhe tenhamos pedido, num momento em que estamos na merda. Sim, estar na merda não é uma cena fixe e fazer companhia a alguém que está na merda não é nada agradável. Ainda assim, os amigos são pessoas tão espectaculares que se oferecem para estar connosco nessas alturas. Desculpem se fico maravilhada com isto, mas acho que é realmente algo admirável.

E é por isso que o melhor que guardamos dos lugares por onde passamos são as pessoas. Ainda que estar só, algures no mundo, não seja um drama, a verdade é que a companhia dos bons amigos (ou das pessoas que conhecemos e que acabam por se tornar bons amigos) muda a nossa visão do espaço. Os edifícios ficam mais alegres, o céu mais luminoso e os jardins mais verdes. As ruas deixam de ser intermináveis e caminhar por elas torna-se agradável. É a melhor transformação que já vi operar numa cidade. E tudo por causa da companhia de um amigo.

(Publicado a 16 de Maio de 2014)

Regressar

Todos conhecem a história de Ulisses. Aquele gajo que foi para a guerra e esteve sete anos fora de casa. Provavelmente a história que deu origem à outra: «O meu marido foi à rua comprar cigarros e nunca mais voltou».

Mas, mais importante do que a partida é o regresso. As partidas podem ser difíceis, mas quem se lixa é quem fica no ponto de origem. Quem parte, por mais dura que lhe seja a partida, segue para um novo lugar, com novas dificuldades, novos desafios. Sente saudades, pois, mas não sentirá a ausência dos outros que ficaram sem ele no ponto de partida.

Os regressos afectam todos de igual modo: os que ficaram e os que partiram e agora retornam. E é por isso que a Odisseia é um clássico: porque retrata uma condição universal, humana, que pode afectar qualquer indivíduo em qualquer momento da história.

Recentemente passei bastante tempo a conviver com O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati. A primeira edição do livro data de 1940. Contudo, o seu enredo não ficará nunca fora de moda: o fluir contínuo do Tempo, a Partida, o Regresso, são temas que fazem parte da vida humana.

Há, particularmente, um momento em que o regresso é perfeitamente ilustrado no livro. A personagem principal, que estivera fora da sua cidade natal durante alguns anos, regressa, decidida a fixar-se aí. Nesse período em que regressa, encontra-se com uma amiga próxima. E o fosso que o tempo cavou entre eles, a inexorabilidade da Mudança, são profundos.

A literatura não é um manual de instruções para viver (Georges Perec pode, contudo, contestar esta ideia). Mas ajuda a compreender a realidade. Talvez se aproxime mais de um dicionário: permite-nos compreender o significado de determinados termos, acontecimentos, ou temas.

Por isso, ler, enriquece-me. Não me torna a pessoa mais feliz à face da terra, infelizmente, mas nem as drogas conseguem tal efeito a longo prazo. E pelo menos a literatura não provoca tantos danos no cérebro. Já quanto ao preço, deve estar ela por ela.

(Publicado a 1 de Maio de 2014)

As time goes by

O tempo é o elemento mais inexorável que existe. Não houve jamais quem o conseguisse domar. É talvez, por isso, o elemento mais democrático que temos. E, como Dino Buzatti diria em O Deserto dos Tártaros: «Parecia que tinha sido ontem, porém o tempo tinha-se consumido igualmente, com o seu ritmo imutável, igual para todos os homens, nem mais lento para quem é feliz, nem mais veloz para os desventurados».

O Deserto dos Tártaros é, provavelmente, uma das obras em que a passagem do tempo é mais bem retratada. O fluxo do tempo e a sua passagem chega a ser cruel para as personagens e não lhes dá hipótese dele se libertarem. É um livro intimidante para quem pensa que viverá para sempre ou que o tempo é mutável. Não é recomendável a jovens adolescentes, em suma.

Recentemente, o tempo tornou-se, para mim, objecto de reflexão. O tempo e a memória, duas instâncias que parecem dar-se muito bem e aparecem até de mãos dadas. Estou quase a chegar a um novo dígito e tenho reparado que já posso contar duas décadas de memórias vivas. O ponto alto foi quando, há poucos dias, encontrei alguns livros infantis muito bem conservados que têm, pelo menos, 20 anos na minha posse. Os livros e um boneco chamado «Barriguitas», que alguém terá oferecido à minha irmã ou a mim e que se conservou impecavelmente durante duas décadas. De tal forma que foi legado, entretanto, ao mais recente membro da família, cuja idade ainda se pode contar em meses.

E subitamente, as décadas instalaram-se na minha memória: há 11 anos entrei na faculdade, há 10 fui viver para Itália e tenho amigos íntimos que conheço há 18. É assustador. Principalmente quando pensamos que somos muito jovens e, no meu caso, seremos sempre a irmã mais nova.

Não quero com isto dizer que me sinta «velha». Sinto apenas, de modo intenso, a passagem do tempo. Principalmente quando o sujeito a cálculos. Porque, na realidade, parece-me que não foi há muito tempo que terminei a licenciatura, por exemplo. Ainda me recordo dos professores e de algumas situações concretas de forma muito viva.

O tempo e a memória deveriam, portanto, entrar em conflito: ele é preciso, irredutível, concreto; ela é traiçoeira, falível, mutável. Quantas histórias existem nas famílias com várias versões? A mãe conta de uma forma, o tio de outra e o irmão tem também a sua própria versão. E, apesar da sua falibilidade, a memória continua a assumir um valor incalculável. Ela é útil e importante. Se não soubermos como foi o passado, como poderemos, então, lidar com o futuro?

OK, certo, bem sei que, em si, a memória não se vende, nem se compra. E por isso, tantas vezes é relegada para segundo plano, atirada para longe, por não representar uma fonte de riqueza tangível. Mas, sem memória, que somos e que seremos no futuro? Que poderemos fazer com o tempo que temos pela frente?

Outro nome bom para memória, é história. Também é curioso é que, em português de Portugal, a História, a sequência de acontecimentos de um povo, uma nação, um país, ao longo de um tempo, se escreva do mesmo modo que as narrativas que contamos e legamos uns aos outros, quer se seja um autor, ou uma avó. E quem sabe se esta palavra, com duplo significado, não conterá em si um ensinamento ou algo a aprender.

(Publicado a 25 de Abril de 2014)

Never quit your day job (II)

Oscar Wilde aconselhava os jovens autores a não viverem da sua arte e a manterem os seus empregos para que pudessem viver condignamente. No entanto, há pelo menos uma mão cheia de autores que contaram com a arte de escrever para viver (ou sobreviver). E alguns são hoje considerados autores de obras-primas, não obstante.

Devem ter tido o azar de lhes calhar uma notória ausência de outros talentos. E à guisa disso, tiveram de se apoiar no seu talento criador para se sustentarem. Alguns foram bem-sucedidos e ganharam muito dinheiro, outros simplesmente conseguiram sobreviver e contribuíram para manter o mito do artista genial que morre pobre, mas depois de morto vale milhões.

Alexandre Dumas foi provavelmente um dos escritores mais bem-sucedidos do seu tempo. Desde a sua primeira peça, aos 27 anos, que o homem nunca teve um flop. Todas as suas peças e romances (inicialmente publicados em jornais, em formato folhetim) foram muito aclamados no seu tempo. Se Dumas não arrecadou uma grande fortuna, foi simplesmente porque gastava mais do que ganhava com as suas amantes e habitações luxuosas.

Hoje em dia a sua obra encontra-se traduzida em mais de 100 línguas e é certamente um dos autores franceses mais lidos de sempre. Quem nunca leu Os Três Mosqueteiros ou O Conde de Monte Cristo na adolescência que atire a primeira pedra.

Com uma vida muito atribulada, que envolveu pelotões de fuzilamento, prisões na Sibéria e adição ao jogo, Fiódor Dostoiévski dependeu, a certa altura da sua vida, da escrita para sobreviver. Com muitas dívidas para pagar, Dostoiévski fazia o que melhor sabia fazer: escrever. E foi assim que deixou Crime e Castigo, O Idiota e O Jogador para a posteridade. Mas, se a sua vida não tivesse sido tão atribulada, seria a sua obra extraordinária como é?

No outro continente, Herman Melville viveu uma vida triste. Pelo menos é assim que a entendo. Inicialmente professor, devido a um desaire nos negócios do pai, Melville tornou-se marinheiro e viveu durante algum tempo nas Ilhas Marquesas. Foi a partir daí que começou a escrever. E os seus primeiros livros, de que já ninguém se lembra, foram um êxito na época. De tal modo que Melville se convenceu de que seria possível viver da escrita. Infelizmente, os livros que se seguiram aos três primeiros sucessos não foram bem aceites. Moby Dick foi um desastre e passou quase totalmente despercebido na época em que foi publicado.

Depois disso o autor continuou a escrever pequenos contos para revistas, mas sem grande popularidade. Entretanto começou a trabalhar nos serviços alfandegários e continuou a escrever, embora sem o anterior sucesso. Durante cerca de 30 anos após a sua morte, o autor esteve esquecido, até que em 1930, graças à publicação de uma biografia sobre o autor, a sua obra voltou a ser alvo da atenção dos leitores tendo então Moby Dick tornado-se um clássico. Que permanece vivo até hoje.

(Publicado a 17 de Abril de 2014)

Never quit your day job

Palavras sábias que resumem o conselho mais valioso que Oscar Wilde terá deixado aos jovens autores: «Make some sacrifice for your art and you will be repaid but ask of art to sacrifice herself for you and a bitter disappointment may come to you.»

Ou seja: não estejam à espera do sucesso literário para viver porque a coisa pode correr mal. Mais uma prova de que a literatura não foi feita para enriquecer. Escrever livros talvez até dê dinheiro, mas literatura da boa, da que se torna memorável, é difícil. Aposto que a J. K. Rowling, o Dan Brown e o Robert Patterson têm uma opinião diferente, mas estou em crer que daqui a 50 anos a malta não vai citar as suas obras. Excepto no caso da J. K. Nessa altura os miúdos de hoje já serão avós e é possível que contem histórias do Harry Potter aos netos.

É difícil viver da literatura, hoje e sempre (ou quase desde sempre). E é por isso que muitos autores, pessoas avisadas, seguiram o sábio conselho de Wilde e dedicaram-se à escrita nos tempos livres, mantendo o seu emprego.

Um dos mais conhecidos empregados bancários de sempre foi T. S. Eliot, que durante o dia trabalhava para o Lloyd’s Bank e fora do expediente escrevia The Waste Land. Finalmente, ao fim de oito anos, mudou-se para a editora Faber and Faber, onde foi responsável pela publicação de autores como Ted Hughes e W. H. Auden.

Kafka, por sua vez, trabalhava numa companhia de seguros e à noite devia sonhar com homens transformados em escaravelhos. Brincadeiras à parte, realmente o pobre do homem devia morrer de tédio durante o horário de trabalho.

Jorge Luis Borges também tinha um emprego estável e fixo, mas neste caso, era um emprego de sonho: tendo começado a trabalhar na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, mais tarde viria a tornar-se o director da Biblioteca Nacional. Uma vida no meio dos livros, literalmente.

Um dos mais recentes laureados com o Premio Nobel da Literatura, o poeta sueco Thomas Transtromer, trabalhou durante muitos anos como psicólogo em instituições correccionais para jovens, enquanto ao mesmo tempo ia publicando poesia. Pergunto-me se a profissão lhe traria inspiração para a escrita…

Harper Lee, a autora de To Kill a Mockingbird, trabalhou durante vários anos para uma companhia aérea e foi durante esse período que escreveu a obra que a tornaria imortal. Ainda assim, não a tornaria memorável para toda a gente, uma vez que a maior parte das pessoas deve associar o título ao filme popularizado pela interpretação de Jack Nicholson.

São todos autores diferentes, com estilos distintos. Em comum terão apenas o facto de serem autores nos tempos livres. No tempo que dispunham à vontade para transportar a sua liberdade para o papel. E ainda bem que o fizeram. Só temos a ganhar com isso.

(Publicado a 12 de Abril de 2014)

Dias especiais, internacionais, mundiais e afins

Ontem foi o Dia Internacional do Livro Infantil. Como Hans Christian Andersen nasceu a 2 de Abril, foi esse o dia escolhido para a celebração. Eu não entendo muito bem esta cena de haver um dia dedicado a uma coisa, mas percebo que os jornais e os media precisam de temas light para se entreterem. É difícil arranjar assuntos sobre que falar todos os dias.

Vá, reconheço que há coisas que devem ser assinaladas para que a malta não se esqueça delas, e até acho que esta do Dia Internacional do Livro Infantil não é má. Mas depois lembro-me que também há o Dia Internacional do Livro, comemorado a 23 de Abril, porque parece que Miguel Cervantes e William Shakespeare morreram nesse dia. O que é estúpido é que afinal, por causa de diferenças de calendário, parece que Shakespeare não morreu nesse dia, mas sim 10 dias depois. Portanto, ficamos com o falecimento do espanhol a servir para marcar o dia. Até aqui tudo bem, mas… para que precisamos de um dia para o livro em geral e outro para o livro infantil? Parece-me um pouco redundante.

E eis que, subitamente descubro que a poesia também é celebrada, existindo o Dia Mundial da Poesia, comemorado a 21 de Março, e o Dia do Poeta, assinalado a 20 de Novembro. Podiam criar um Dia do Romancista e um Dia do Não-Ficcionista. Teria a sua piada.

Impelida pela curiosidade e sabendo que a principal responsável por tantos dias internacionais e mundiais é a ONU, fui ao site dos senhores. Fiquem portanto sabendo que a 19 de Novembro se celebra o Dia Mundial da Casa-de-Banho. No mesmo mês, mas a 6, comemora-se o Dia Internacional para a Prevenção da Exploração do Meio Ambiente na Guerra e nos Conflitos Armados (ainda bem que este blogue se chama Minudências). No mês antes, a 15 de Outubro, é assinalado o Dia Internacional das Mulheres Rurais (soa discriminatório. Então e as mulheres urbanas?). Mas há mais dias especiais: da Amizade, da Felicidade, da Preservação da Camada do Ozono (nesse dia não usem aerossóis, amiguinhos), das Viúvas, da Diversidade Biológica, entre muitos outros que me parecem demasiado específicos e minuciosos. Fico com a sensação que as pessoas na ONU não têm muito com que se entreter diariamente.

Alargando o âmbito da pesquisa, descobri ainda outros dias peculiares. Ao que parece, a 21 de Janeiro, nos Estados Unidos, assinala-se o National Hug Day. E a 14 de Março, o Pi Day, que tem, inclusivamente, o apoio da Câmara dos Representantes e a brilhante coincidência de ser também o dia de aniversário de Albert Einstein. A Universidade de Princeton, onde o senhor trabalhou durante mais de 20 anos, para comemorar o dia realiza um concurso de sósias de Einstein (oh Deus).

E continuo e descubro coisas ainda melhores: na primeira sexta-feira de Agosto tem lugar, anualmente, o Dia Internacional da Cerveja; a 6 de Maio, assinala-se o Dia Internacional Sem Dietas; a 15 de Outubro, é o Dia Mundial de Lavar as Mãos. Mas o prémio de melhor dia deveria ir para 28 de Maio: Dia Nacional da Masturbação. É só gente feliz. Até eu, que faço anos nesse dia…

Depois há outros dias que costumo assinalar e que me retiram toda a autoridade para falar com seriedade deste assunto: o Star Wars Day (4 de Maio) e o Towel Day (25 de Maio). O primeiro não é oficial, mas os fãs da saga celebram-no por todo o mundo (eu incluída), ou não fosse «May the 4th» tão parecido com a frase «May the Force [be with you]». O segundo também é fruto de cromice: é um tributo a Douglas Adams, o criador de The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, e nesse dia, através do globo, os fãs vão para a rua com toalhas, porque, de acordo com a série, nunca se deve largar a toalha quando se viaja pela galáxia. À boleia.

(Publicado a 3 de Abril de 2014)

Que a força esteja connosco

Ele há dias em que uma pessoa acorda a sentir-se o Chewbacca. Não peluda (pode acontecer, mas não é o caso), mas com vontade de fazer aqueles sons com que a criatura comunicava. O desespero é grande, a falta de vontade maior, e só apetece enfiar a cabeça entre as mantas. Porque a fome dá sinal através de ruídos no estômago, levantamo-nos e lá vamos dar umas dentadas a qualquer coisa. Olhamos pela janela, o tempo está uma merda e quando damos conta, nem sabemos qual o dia da semana em que nos encontramos.

Estar desempregado e desocupado é mais ou menos isto.

Claro que há estratégias para ultrapassar os diversos sentimentos expressos no primeiro parágrafo. Claro que toda a gente tem conselhos para dar. Claro que há muitas pessoas na mesma situação e «não devemos desanimar». Claro que o desemprego «pode ser uma oportunidade». Tantas coisas que são tão claras, e, no entanto, só nos apetece mandar os que as dizem à fava.

Estar desempregado é uma merda, pá. E não, nada do que nos dizem é claro. É tudo muito nebuloso, pelo contrário. E, por vezes, negro, até.

Há que fazer contas à vida. Há que fazer contas ao tempo. Um amigo meu, na mesma situação que eu (Mas eu não te disse que há tanta gente assim?, ouve-se), dizia-me uma vez que acordava às 10.00 e que o primeiro pensamento ao olhar para o relógio era: «Ainda tenho tantas horas pela frente até ao dia terminar». O tempo, que até à desocupação parecia um bem escasso, subitamente multiplica-se de forma bastante perversa. Faz-me lembrar aquele provérbio que diz que «não há fome que não dê em fartura». É isso tudo. E depois as barrigas explodem e uma pessoa já não sabe o que fazer com tanta abundância.

Depois há a escassez. A escassez do dinheiro. E, apesar de haver quem diga que é possível viver do sol, bom, caros, o karma é tão tramado que o astro pouco se tem dignado a aparecer. Portanto, ainda que fosse possível viver do sol e não de comida (que se tem de pagar com dinheiro), estamos lixados, porque só chove.

Os asiáticos é que sabem: o importante é o equilíbrio. Graças ao nosso desequilíbrio, vemo-nos então cheios de tempo, mas de bolsos vazios. O que significa que finalmente temos tempo: o tempo que desejávamos para viajar, para descansar, para nos divertirmos, para dormir, para estar com os outros, para ver aquele filme que queríamos ver desde há muito, para fazermos aquele workshop que gostávamos de fazer, mas… não temos dinheiro. Ficamos com muito tempo para fazer nada. E depois dizem-nos que temos de ser proactivos e empreendedores. Que não nos podemos entregar à tristeza ou ao desânimo. Pois é, dizem muitas coisas. Mas a maior parte do tempo eu só tenho vontade de mandar todos à fava. Porque, curiosamente, quem tem muitas teorias e muita coisa para dizer, na maior parte dos casos, nunca esteve desempregado ou desocupado e não faz a mínima ideia do que é isso. Portanto, façam-me (nos) um favor: calem a boca. Estar desempregado na minha idade não é o fim do mundo e eu sei disso. Infelizmente (para mim), não é primeira vez que isso me acontece, mas a verdade é que, felizmente, tenho uns pais porreiros e, embora não me agrade regressar à casa deles, sempre me receberam de braços abertos e sem recriminações. O que me custa mais é mesmo ver pessoas extremamente talentosas, com espinha dorsal, com muitas mais dificuldades (económicas, principalmente) do que eu, na mesma situação de desemprego que eu. Isso sim, é que é uma merda.

(Publicado a 28 de Março de 2014)

Chamem-me Ishmael

A minha avó sempre me disse (e continua a dizer) que «o espanhol nunca gostou de um bom começo». Não sei que espanhol é esse de que ela fala, mas eu, que não sou de Espanha, gosto. Aliás, desde os bancos duros de madeira dos anfiteatros da FLUC que me disseram que era importante «esgalhar» um bom começo (de reportagem, ou uma boa introdução a uma grande entrevista, era a isso que se referiam, acho eu). E fiz fé disso. Fiz tanta que a coisa acabou por correr bem e tive boas notas e umas palmadinhas nas costas pelos bons começos que esgalhei nas peças finais do curso. E pronto, foram os meus dois nano-segundos de sucesso. A partir daí foi sempre a piorar. Se calhar a minha avó tem mesmo razão: um bom começo não é sinónimo de boa continuação. Ai, eu.

Mas como também há quem diga que «são as excepções que confirmam a regra», há, de facto, bons começos que são bons prenúncios de excelentes continuações. Que provam que há livros com bons princípios, bons meios e bons fins. E há inícios dos quais todos os leitores que já os leram se recordam.

Se disser «Call me Ishmael», as memórias evocarão a grande baleia, Moby Dick e respectivo livro. Igualmente, quando alguém me fala n’ O Estrangeiro, além de começar a trautear a canção dos The Cure, «Killing an Arab», penso em algo como «Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.» Se falarem em Kafka, lembro-me de bicharada e maçãs podres, e recordo-me automaticamente da primeira frase de A Metamorfose: «Quando uma manhã Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos, viu-se na sua cama transformado num monstruoso insecto.»

São frases de abertura emblemáticas, que mesmo quem não leu ainda já conhece. Nunca li Anna Karenina, mas sei como começa: «Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.» O mesmo dirão outros de alguns dos livros que mencionei acima. As frases foram tão bem «esgalhadas» e são, ao mesmo tempo, tão extraordinárias, que impelem-nos a continuar, para que se dê seguimento à leitura, porque se o tipo conseguiu escrever aquilo logo no início, pá, então lá para o meio ainda deve ser mais espectacular. (A não ser que se trate da minha avó. Nesse caso seria motivo para suspender a leitura e lançar o livro pela janela. Coisa boa dali não poderia vir.)

Isto é um tema recorrente quando se fala de livros. Durante os meus tempos no «meio», de vez em quando lá surgia uma selecção das melhores frases de abertura. Recentemente o jornal The Telegraph fez uma infografiazinha com as 30 melhores frases de abertura. Como seria de esperar, são, na sua maioria, de obras de língua inglesa. Mas lá pelo meio ainda incluem Tolstoi, Kafka, Camus, Garcia Marquez e mais uns poucos.

Mas o que a maior parte dos leitores desconhece é que existe uma frase que é considerada a pior frase de abertura de um livro de sempre (talvez a minha avó considerasse, portanto, tal início um bom agouro e lesse o livro), de tal forma, que existe até um concurso anual com o nome do famigerado autor: The Bullwer-Lytton Fiction Contest. Todos os anos, indivíduos de todo o mundo podem candidatar-se com o pior que conseguirem escrever. E são premiados por isso.

«It was a dark and stormy night», começa o pior parágrafo de ficção jamais escrito. E continua: «the rain fell in torrents — except at occasional intervals, when it was checked by a violent gust of wind which swept up the streets (for it is in London that our scene lies), rattling along the housetops, and fiercely agitating the scanty flame of the lamps that struggled against the darkness.» A frase foi retirada da obra Paul Clifford, que o escritor da época vitoriana Edward Bullwer-Lytton publicou em 1830.

A mesma frase, que acabou por se tornar também ela emblemática, mas pela sua má qualidade, também serviu de inspiração ao criador dos Peanuts, Charles M. Schulz. São várias as tiras em que Snoopy, sentindo-se inspirado, decide escrever um livro. E surge no balão acima da sua máquina de escrever a frase «It was a dark and stormy night», que Snoopy usa para abrir todas as suas narrativas, que posteriormente envia para editoras para que sejam publicadas. Infelizmente, apenas recebe como resposta cartas de rejeição que se vão tornando cada vez mais agressivas, porque Snoopy não desiste do seu sonho literário, mas os editores não estão para aí virados, de modo algum.

Não creio, contudo, que este seja considerado o pior começo – quem leu Margarida Rebelo-Pinto, ou outras coisas como livros da Harlequin certamente conseguirá encontrar aí uns tesourinhos mais deprimentes, mas infelizmente parece-me que os responsáveis pelo departamento de Inglês da Universidade de San Jose (que promovem o concurso anual Bullwer-Lytton) não sabem falar português e lêem coisas que não literatura dita «feminina». Uma grande lacuna, a meu ver.

(Publicado a 19 de Março de 2014)

A perfect day

As coisas boas da vida não custam muito dinheiro. Claro que não estou a pensar em caviar, ostras ou champagne. Ou em viagens de iate ou sequer em férias em Capri. Falo de coisas pequenas, em que a felicidade gerada é inversamente proporcional às suas dimensões.

Hoje fez sol. Mal acordei e abri as janelas, uma luz imensa inundou o apartamento. Havia vento, mas isso não parecia afectar o céu que não via azul desde há semanas. Resolvi, por isso, dar um passeio. Há já algumas semanas que tenho tempo de sobra e, por isso, decidi fazer algo que até então me fora impossível: visitar a exposição do Museu do Prado em Lisboa.

Apanhei o metro, depois dirigi-me ao autocarro. Como a sua vinda parecia demorada, fui-me a pé pelas ruas da cidade, de paragem em paragem, enquanto ele não vinha. Fiz algo que não fazia há anos, há uns cinco, talvez: caminhar sem pressas, observando os transeuntes, olhando para as fachadas dos edifícios, pensando na vida e saboreando o calor do sol.

Pela primeira vez vesti uma camisa, ainda que preta, e soube-me bem o vento no rosto e nos cabelos. Pensei, de facto, que as coisas que nos são agradáveis podem custar muito pouco, como o preço de uma viagem de metro (embora estas estejam cada vez mais caras).

Cheguei ao Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), onde a exposição ainda se encontra patente, e cometi o erro estúpido (que estupidamente me está sempre a acontecer), de empurrar a porta, quando no puxador estava escrito «Puxe». Fiz uma careta pensando no quão idiota era e reparei que o segurança se ria, também. E ri-me eu, de igual modo. Sentia-me bem disposta.

Lá entrei e rapidamente percebi que vinha ao engano. Quer dizer, mais ou menos: eu ia ali por causa do Brueghel. Só não sabia que o grosso da exposição era de Jan Brueghel e não de Pieter Brueghel, o Velho, o dos quadros de paisagens geladas e povoados de figurinhas pequeninas. E permitam-me agora que me defenda: não sou entendida em História de Arte e assim. Mas percebi, do que fui vendo nos museus, que realmente os quadros do homem me agradavam. Tinham piada. É como os de Hieronymus Bosch. Dá gozo e tem piada olhar aquelas criaturas esquisitas e disformemente surrealistas dos seus quadros. Quando a vida parece tão pequena e o mundo um lugar onde nos cruzamos demasiadas vezes com filhos da puta, é repousante olhar para telas como as que vi no MNAA. Os detalhes de cada pássaro minúsculo, as cores, a própria composição dos quadros são reconfortantes. A beleza natural é encantadora, claro, mas a beleza criada por um punho humano é impressionante. E acima de tudo reconfortante. Acolhedora, até. Faz-nos crer que talvez haja salvação. Que algo de bom e transcendente é possível. Faz-nos acreditar que o mundo ainda tem coisas boas para oferecer. E a preços baixos.

(Publicado a 06 de Março de 2014)

Era uma vez…

Há dias em que a vida é uma merda. E apenas isso. Dias em que o que eu mais queria não era a paz no mundo, mas sim viver num mundo decente. Se vivesse num mundo justo, em que as pessoas se respeitassem umas às outras, não havia necessidade de desejar a paz no mundo, porque a paz seria um dado adquirido. Sem merdas para complicar.

Infelizmente, muito infelizmente, o mundo e a vida não são como eu quero. Bem sei que é desejar muito, desejar o impossível, mas sou moça de fácil contentamento e contentar-me-ia se as pessoas se esforçassem por respeitar as outras. Isso seria o suficiente.

Era fantástico se as pessoas deixassem de se aproveitar umas das outras, se parassem, por dois segundos, de deixar de pensar no que poderão lucrar com outrém, se se deixassem de olhar como se estivessem a fazer as contas de quanto poderão ganhar mais com a pessoa X, comparativamente com o indivíduo Y.

Ah, seria tão bonito. Mas não é assim. Eu sei que a vida é uma selva. E que a malta dos empregos das grandes corporações, da consultoria, da banca, dos investimentos e afins gosta de ser colocada no mesmo patamar dos predadores e gostam que lhes chamem «tubarões», por exemplo.

É curioso esse recurso ao mundo animal, para ilustrar as suas características. E gostam de escolher sempre os bichos mais perigosos e que estão no topo da cadeia alimentar. Não me parece que haja algum deles a querer ser designado de «elefante», ou «panda», ou «porco» (se for na China, toda a gente quer ser um porco. Mas lá o bicho assume outro significado e, acreditem, se lá vivessem também gostariam de ser comparados a um). Todos gostariam de ser aves de rapina, como as águias, mas esquecem-se com demasiada frequência que os abutres também são aves de rapina. E que gostam de se alimentar de carcaças.

Pensando nesse desejo de equiparação aos bichos, recordei-me das fábulas de Esopo e de La Fontaine, onde os animais, pobres deles, são antropormofizados. Os bichos assumem traços, defeitos e virtudes humanos, coitados. Agora vêm os homens querer ser como eles. Melhor seria se os deixassem sossegados. Os bichos matam e comem-se uns aos outros porque é a sua natureza. Os instintos guiam o seu comportamento. Já o homens são criaturas que além de instintos, nascem e vivem com uma capacidade que é a de criar coisas, a tal ideia de «cultura». Os homens também matam para comer, pois claro. Mas se se matam uns aos outros, raramente é para viver. Recorrem a argumentos como religiões, credos, opções políticas ou mesmo sexuais. Os bichos, felizmente, são mais simples: é preciso comer para viver. Para comer é preciso matar. E assim vão vivendo. Já os homens, parece-me que podiam viver bem junto de judeus, muçulmanos, católicos, monárquicos, ou homossexuais. Não creio que passem mais fome por conviver com pessoas diferentes de si. Mas eles lá saberão. E continuarão a matar-se no futuro. Infelizmente, disso tenho quase a certeza.

(Publicado a 27 de Fevereiro de 2014)

Se numa noite de Inverno um indivíduo…

… se deitar a ler Camus, é bem provável que no dia seguinte já não acorde. Terá provavelmente ingerido um frasco de comprimidos para dormir antes de o fazer. E estará, certamente, muito, mas muito deprimido.

É que o Inverno, diz-se que é propício à tristeza, à nostalgia, à instrospecção e outras coisas que tais que nos põem de cenho franzido.

E o que tem isso que ver com Albert Camus? Ora, e há lá leitura que mate mais rápido a esperança do mesmo modo que um exterminador «limpa» um ninho de ratos? Assim de repente, é o que assoma com maior facilidade à memória. Mas estou certa de que haverá mais. A literatura (embora a poesia mais, até) sempre foi lugar dado a desencantos. Mas também muito terapêutico, diz-que.

Até há bem pouco tempo pensava a literatura (e a escrita, no geral) seria terapêutica para quem a faz, os seus criadores.  Mas depois comecei a ler diversos relatos sobre médicos que prescreviam idas a bibliotecas a pacientes. Naturalmente, não se tratava de fazer uma caminhada de 30 minutos diários até ao edifício da biblioteca local; o objectivo era a leitura. E a leitura de determinados livros considerados terapêuticas para malta deprimida, ou abatida, ou que basicamente estava a passar um mau bocado, mas ainda não estava demasiado mal da cabeça.

Creio que isto terá acontecido no Reino Unido, mas não sei se depois terá sido importado por americanos. De qualquer modo, não me parece que fosse uma ideia bem sucedida por cá. Não pela falta de bibliotecas públicas – felizmente ainda as vai havendo – mas pelos índices de leitura. Acho que as pessoas ainda vão preferindo uns comprimidos a ler calhamaços.

De qualquer modo, intrigada pela medida e pensando nas amarguras da minha vidinha, fui espreitar a lista de títulos, e aí pensei que a cura ainda me matava: eram só livros de auto-ajuda. Tinham nas capas palavras como «felling better», «how to overcome» e eram todas muito coloridas e alegres. Afinal era esta a solução para a depressão? Ora, para isso (pensei eu) mais valia pôr-me a ler Crime e Castigo ao som de Debussy, ou do Requiem de Mozart numa banheira cheia de água com um secador de cabelo ligado à tomada da electricidade. Depois pensei melhor e ao esforçar-me por encontrar livros animados, ou que nos dissessem algo como: «vá, a vida não é uma coisa tão difícil e complicada e podemos ser todos felizes», conclui que não me recordava de nenhum que dissesse algo desse género. Talvez a literatura (e eu) esteja(mos) condenada(s) a ter de olhar a vida como ela realmente é. E como diria o Eric Idle num dos episódios de Flying Circus: «Oh, you’re no fun anymore».

(Publicado a 13 de Fevereiro de 2014)

Parabéns a você, menino Facebook

O Facebook fez 10 anos e já vai a pé para a escola sozinho. Quando nos conhecemos, ele era muito pequenino, tinha pouco mais de três anos, ia a caminho dos quatro, e era muito primitivo, se pensarmos no que é e como é hoje.

Recordo-me que não tinha chat incorporado e só podíamos conversar com os amiguinhos via mensagem privada ou nos comentários dos status e das fotos. E permitia pouco mais do que isso. Não havia cá eventos e a malta entretinha-se a responder a quizzes que, durante um breve período de tempo, estiveram na moda. Houve também um período em que escolhíamos cinco coisas para cada situação: as cinco coisas que levo comigo ao sair de casa. Os cinco livros que levaria para uma ilha deserta. Os meus cinco álbuns favoritos de todos os tempos. E assim.

Depois veio o Farmville e os joguinhos entre os amiguinhos. E foi mais uma praga. Ainda joguei aquilo durante um mês, depois de ter resistido à moda uns dois ou três meses. Mas fartei-me. Plantava muitos morangos, porque era coisa que crescia depressa, mas deixava-os apodrecer com frequência, porque durante o trabalho não tinha tempo de os ir colher.

Recentemente, na semana passada, vi aparecer mais uma «moda». Esta mais breve e mais interessante do que cuidar de uma quinta virtual. Listavam-se os 10 livros que mais nos marcaram, mas num exercício que não se queria demasiado demorado ou reflectido. As primeiras pessoas que vi responder eram jornalistas culturais. Depois vi alguns amigos simplesmente leitores, alguns ex-colegas de trabalho e alguns escritores. Era uma espécie de corrente, porque depois de elencarmos os 10 títulos, tínhamos de chutar a bola para mais 10 amiguinhos que ainda não tivessem participado.

Não tenho por costume participar nestas coisas. Como aquelas que, se não partilharmos a imagem X dentro de cinco segundos com 1863 pessoas da nossa lista de contactos, morremos de uma morte lenta e dolorosa e todos os gatinhos do mundo serão exterminados por uma raça de extraterrestres que invadirá a terra e comerá todos os felinos do mundo. Mas esta espécie de corrente pareceu-me interessante. E, claro, respeitando a liberdade de expressão, culturalmente vincada ao nascimento da Internet (eu redigi uma dissertação de mestrado sobre este aspecto: liberdade de expressão e criação na era da Internet, valha-nos o Senhor), ninguém era obrigado a participar.

Lá fui elencando os livritos de que me fui lembrando como os mais marcantes. Isto é, pensando nos que lera e me tinham deixado a pensar neles durante dias, fosse pelas personagens, fosse pelas suas histórias. Atirei a bola a alguns conhecidos e amigos e fui também lendo as suas listas. É curioso como as nossas mentes funcionam e como é a nossa natureza: depois de ter terminado a minha lista e tê-la partilhado, fiquei a olhá-la e apercebi-me que todos os títulos elencados continham personagens principais atormentadas. Na verdade, quase todas as narrativas giravam em torno de uma personagem, apenas e, em alguns casos, o próprio título do livro reflectia essa tendência: O Estrangeiro (Albert Camus), Bartleby (Herman Melville), O Falecido Mattia Pascal (Luigi Pirandello).

Pensando um pouco sobre a selecção que a minha memória havia feito, percebi que, de facto, os livros que mais me marcaram foram aqueles em que senti uma grande empatia com as personagens, com as suas dores, ou, a própria ausência de dor perante circunstâncias terríveis (pelo menos terríveis a meu ver). Senti compaixão por Bjartur (de Gente Independente, de Halldór Laxness), um tipo teimoso, persistente e orgulhoso como o raio, que acaba por ter uma vida tramada. A morte de Gregor Samsa (A Metamorfose, de Franz Kafka), transformado em escaravelho, e mal-tratado pela sua própria família, transtornou-me, assim como os últimos dias que antecederam a execução de Mersault (O Estrangeiro, de Albert Camus). Por Bartleby, o empregado de escritório, senti um vazio enorme, que se estendeu por dias e, com Mattia Pascal, identifiquei-me (por motivos que aqui não irei discorrer, obviamente). E tive pena, muita pena, de Akaki Akakiévitch, o pobre funcionário do famoso conto de Nikolai Gogol, «O Capote».

Pela primeira vez, depois deste exercício, e também ao ler as listas dos amigos e conhecidos, achei que o Facebook até valia alguma coisa. Não só porque permitia perceber um pouco sobre nós próprios e os outros, mas também porque se colecionavam umas quantas e boas dicas para futuras leituras. Mas agora, enquanto pessoa que já estudou a evolução das redes sociais, fico à espera do futuro do Facebook, que espero que não seja semelhante ao do MySpace. Ou do Orkut. Ou do Hi5.

(Publicado a 06 de Fevereiro de 2014)

Quando a realidade supera a ficção

Parece que no início desta semana, ou algures na semana passada (já não sei, ultimamente os dias são para mim todos iguais), entregaram-se Globos de Ouro em Los Angeles e foram anunciados os nomeados para os Óscares deste ano.

Como qualquer criatura comum, gosto de ver filmes. E como algumas pessoas, também gosto de ver os moços e as moças na passadeira vermelha, bamboleando-se perante os fotógrafos. Por isso, porque ajuda a ter tema de conversa e a passar o tempo, estas coisas interessam-me.

Já tinha ouvido falar no filme O Lobo de Wall Street, porque era o filme mais recente de Martin Scorcese, senhor de grossas sobrancelhas que sabe filmar boas histórias. E como o filme até ganhou um Globo (pelo menos um que me lembre) lá fui eu ao cinema.

Ri-me bastante, fiquei a conhecer drogas cuja existência desconhecia até então, e no final do filme percebi que realmente o senhor Jordan Belfort vive e respira e até lhe deu para escrever um livro.

Há já algum tempo me vinha dando conta que há cada vez mais filmes «baseados em factos verídicos», ou, como dizem, «based on a true story» (numa história verdadeira). E a verdade parece ser que a realidade consegue criar excelentes ficções.

A realidade não só supera a ficção, como parece ter-se transformado no tecido com o qual a ficção se veste. Não deixa de ser engraçado, porque quando estudava jornalismo, uma das coisas que falávamos era do jornal enquanto espaço próprio para a realidade, para os factos reais. Não era o sítio onde esperaríamos histórias da carochinha. Mas aquilo eram livros velhos, teorias velhas, sem nada que ver com aquilo que se foi transformando na prática.

Do mesmo modo, crescemos aceitando que o cinema (que não o documental) é o espaço da ficção, das ilusões. E é curioso que cada vez mais seja a realidade o ponto de partida para a ficção. As histórias que vemos nos ecrãs já não são como as do teatro clássico, em que os deuses e os mitos, criaturas inexistentes, eram os protagonistas das narrativas. Hoje vamos ao cinema ver o gajo simples que conseguiu ser bem-sucedido a roubar dinheiro a tipos ricos, a mulher separada do filho que passados 50 anos tenta encontrar a criança com a ajuda de um jornalista. Pessoas que existem ou existiram e cuja história de vida podia, talvez, em circunstâncias semelhantes, ser a nossa. Os mitos e os deuses de hoje são de carne e osso; pessoas como nós, que erram, ou foram simplesmente vítimas da aleatoriedade da vida.

Daqui, várias linhas de pensamento podem surgir: que é natural, então, que todos anseiem pelos seus 15 minutos de fama, que todos pensem que são especiais, que afinal as pessoas comuns têm histórias extraordinárias e que podemos aprender com o vizinho do lado e blá, blá, blá. Honestamente, não sei bem o que pensar de tudo isto. Não sei se se trata de um «sinal dos tempos», se é disto que se faz a contemporaneidade. Não sei. Só sei que prefiro as histórias inventadas, que partem da ficção para construir uma nova realidade. Porque isso é que é o verdadeiro desafio, ao qual nem todos os indivíduos comuns conseguem responder.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 23 de Janeiro de 2014)

10 coisas (ou menos) que as editoras odeiam em mim

As editoras odeiam-me. Não a mim, concretamente (até porque nem devem saber que existo), mas pessoas como eu. Quer dizer, pode ser que nem me odeiem, porque ainda vou ajudando o negócio um bocadinho, dando-lhes uns cêntimos, mas no geral, não devem nutrir afecto por mim.

Não sou especialista em edição e possuo apenas umas luzes no que respeita ao modo como a indústria funciona, mas olhando para as minhas estantes, diria que as casas editoriais me odeiam. As fileiras de livros que se encontram na minha minúscula biblioteca são compostas por livrinhos comprados em feiras do livro, feiras de fundos, ou juntamente com jornais ou revistas, quando não são já manuseados. E isto sem contar com os muitos livros que trazia de bibliotecas públicas e nos tantos outros que os amigos me foram emprestando ao longo dos anos.

O facto é que os livros, na maior parte dos casos, são caros. Mais caros que um bilhete de cinema, por exemplo. E não quero, nem vou ocupar este espaço referindo os números das estatísticas respeitantes aos hábitos de leitura em Portugal e à frequência de actividades culturais, porque não é disso que se trata.

É de assinalar, no entanto, que tenho consciência do facto que, para fazer um livro, é necessário investir algum (muito) dinheiro. Pelo menos para os meus padrões. Por esse motivo, compreendo também porque os preços são como são. Mas isso não faz com que subitamente haja dinheiro a crescer nos meus bolsos, ou que compre livros novos indiscriminadamente e com fartura. Felizmente, para quem quer livros novos, mas não quer gastar muito, de há alguns anos para cá que as edições de bolso em português proliferam. Sempre é mais uma forma de conseguir bons livros a bom preço. E com capas catitas, como são as dos livros BIS da LeYa.

Ao fim destes meses todos, já será óbvio o meu gosto pela leitura. O que se deve ter tornado perceptível neste post, é que também sou forreta. Também gosto, naturalmente, de livros bonitos, livros-objecto, que ficam muito bem numa estante; aquelas edições de capa dura, como as reedições das obras de Agustina Bessa-Luís da Guimarães Editores, com um tom de azul característico e uma simplicidade gráfica que chegou a trazer problemas em distinguir um livro do outro.

Admiro as edições da The Folio Society, ou os livros da Phaidon, cuja qualidade e beleza são indiscutíveis. No enanto, não possuo nenhum exemplar de tais chancelas. Mas não se pense que é pelo preço!, não: simplesmente ficavam mal numa estante cheia de livros de lombadas velhas ou marcadas e há que ser coerente.

(À medida que escrevo isto, entro no site da editora The Folio Society para descobrir que o bonito Moby Dick, de Herman Melville, além de já se encontrar esgotado, custa 195 libras. Suspiro.)

Sem parvoíces à mistura, a verdade é que um livro destes vale o dinheiro que custa. As edições são muito cuidadas, a capa é dura, o papel é bom e depois há as pequenas coisas: na edição de O Som e a Fúria, de William Faulkner, publicado há cerca de dois anos (e igualmente esgotada), foi usado um código de cores para o texto, semelhante ao que William Faulkner desejava que tivesse sido reproduzido quando da publicação do livro, mas que nunca aconteceu. E nunca foi feito antes, creio, porque os custos encareceriam os exemplares para lá do que seria comportável.

Adquirir um livro destes será o equivalente a comprar uma pequena obra de arte. São livros feitos para contemplar, não propriamente para folhear e ler. E, numa altura em que, mais do que nunca, a contenção mora comigo e obras de arte não se encontram ao alcance do meu orçamento anoréxico, consola-me que, independentemente do formato, da capa, ou do papel, o conteúdo de um livro se encontre disponível aos nossos olhos a baixo preço, ou mesmo gratuitamente. Seja numa feira do livro ou numa biblioteca.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 16 de Janeiro de 2014)

Grandes mudanças

Gosto de Portugal. Gosto das pessoas, das paisagens, da comida, de cá viver. Gosto disto. Talvez sinta isso porque tive a oportunidade de morar fora daqui, noutros lugares, noutros países. Foi uma oportunidade, de facto, e convém salientá-lo: fui-me daqui, porque me apetecia. E não porque fora forçada a isso. Mas os tempos eram ainda outros (e parece que foi há décadas, mas foi há menos de uma) e saía-se maioritariamente, parece-me, porque se queria e não porque a isso se era obrigado. Tudo uma cambada de privilegiados, ora essa.

Fui-me e voltei. E ao regressar, veio a certeza de que moro num lugar catita, com pessoas catitas. E é bom sentir isso, colocar a realidade em perspectiva.

Estive em Itália, enquanto fiz Erasmus, e depois, quando estava a terminar o curso, fui para Macau. Aí a mudança foi radical: outro continente, outra cultura, um clima lixado (para mim, pelo menos), o primeiro emprego, e um fuso horário de oito horas a separar-me de tudo o que conhecera anteriormente.

As primeiras semanas foram difíceis (não serve de nada negá-lo): era ainda Verão e eu nunca vivera num clima assim, em que cedo dei por mim a caminhar na rua rente às portas das lojas, tentando aspirar um pouco do ar fresco do ar condicionado. A atmosfera era pesada, húmida, suava-se muito e no final do dia chegava a casa sentindo um fina película de porcaria cobrindo a pele que andara descoberta durante o dia. Acho que devo ter sido afectada pelo jet lag, mas como comecei logo a trabalhar, não me apercebi disso. Sentia-me apenas continuamente exausta.

Dividia o apartamento onde morava com uma moça chinesa oriunda do Continente, ou seja, da China propriamente dita. Ela falava um português irrepreensível e já tivera morado antes em Macau, frequentando a Universidade local para estudar a língua de Camões. Quando nos encontrávamos em casa, ao final do dia, eu estava exausta, queixava-me como boa portuguesa que sou e depois chorava. Não era um sentimento de tristeza que sentia, contudo. Era mais complicado do que isso. Era um caldinho de emoções, em que havia um pouco de tudo. Sentia-me fora do espaço e alguma incompreensão. Não dos outros em relação a mim. Tratava-se de um sentimento de incapacidade de interpretação da realidade em que me encontrava. Tudo acontecia muito rápido e parecia que o cérebro e a sua parte emocional não eram eficazes a processar toda a informação sobre o que se estava a passar. O mundo girava, a vida avançava e eu sofria de uma espécie de delay emocional. As informações do mundo exterior atingiam-me em catadupas e eram areia demais para a minha pequena furgoneta intelectual poder carregar de uma vez só.

A minha companheira de casa, moça de trato dulcíssimo, não me compreendia bem, mas esforçava-se o melhor que sabia para me confortar. E então citava Buda. Nessas alturas, calava-me e ficava a olhar para ela com um ponto de interrogação no meio da testa. Não sabia o que dizer. Era completamente inesperado. Eu ficava confusa e não sabia se devia mandar o Buda para o raio que o parta ou sei lá que mais. As frases começavam sempre do mesmo modo: «Buda diz…». E o Buda até tinha muita coisa para dizer. Pena que na altura eu não estivesse muito interessada no que o gordo tinha para me contar. Talvez tivesse aprendido coisas novas.

Mas até aprendi algumas coisas enquanto lá estive. E havia coisas de que gostava. Mas, passado algum tempo, quando confrontada com a escolha de ficar ou partir, eu não hesitei e regressei. Sentia falta do sol a sério e não de uma rodela luminosa por baixo de uma pelicula cinzenta que cobria o céu. Faltava-me o pão que a minha avó comprava todos os dias ao padeiro local. Faltavam-me livrarias onde ir (embora a Livraria Portuguesa exista e seja um oásis), museus para visitar e tempo livre para passear. E queria ter a liberdade de falar com a minha irmã, ou com os amigos sem ter de pensar «que horas são agora do outro lado do mundo?».

Se tivesse escolhido ficar, talvez agora tivesse mais dinheiro e um cartão gold de uma qualquer companhia aérea. Provavelmente não saberia o que é a crise. Talvez fosse muitas outras coisas. Mas a vida até tem corrido bem, apesar da escolha que fiz: vejo a família com regularidade, consigo comprar livros bons a baixos preços e vejo árvores e verde sem ter de andar muitos quilómetros para o fazer. Claro que a vida não é fácil e diariamente há coisas que gostava que funcionassem de forma diferente ou simplesmente fossem outras. Mas depois como uma fatia de queijo do Rabaçal, bebo um copo de tinto e penso que isto aqui, apesar de tudo, é mesmo espectacular.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 11 de Janeiro de 2014)

Isto não é um top

É Natal, é Natal, dling, dling, dling. Lá, lá, lá, lá. Chegou aquela altura do ano em que se fazem listas do melhor que se fez no ano que está para terminar e balanços e coisas assim. Graças ao Senhor não sou crítica literária, mas gosto de fazer uma retrospectiva do que me aconteceu e do que li durante o ano e decidi apontar aqui alguns dos livrinhos que mais me aprouve ler em 2013. Alerto apenas para o facto das minhas leituras se assemelharem a um sketch «montypythiano» e serem completamente nonsense na sua ordem ou escolha.

Não listarei aqui todos os livros que li. No total, li, até ao momento, 32 livros em 2013. Nem é mau, mas também não é muito bom, creio. Trabalhei durante todo o ano e tive períodos em que, devido à intensidade do trabalho, nem no regresso a casa, de transportes, conseguia ler. Nas breves férias que tive, li como se não houvesse amanhã, para aproveitar a abundância de tempo livre.

Olhando para a lista que tenho à minha frente, percebo que li principalmente livros pequenos, com menos de 200 páginas. Houve uns quantos livros de contos, alguns ensaios e autores repetidos. Li livros de seis escritores portugueses e, à excepção de Saramago, todos estão bem vivos: Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro e Valter Hugo Mãe.

Os estrangeiros dominaram. E, se analisar a lista em termos de nacionalidade, posso dizer que os italianos dominam. De Calvino li dois livros da trilogia «Os Nossos Antepassados»: O Barão Trepador e O Cavaleiro Inexistente. Em 2014 espero ler o tomo em falta, O Visconde Cortado ao Meio. Além de Calvino, li ainda O Turno, de Luigi Pirandello, Prémio Nobel da Literatura em 1934. Não é o meu livro favorito de Pirandello, mas também é bom. Querendo lê-lo, o melhor é começar com O Falecido Mattia Pascal, que tem de tudo o que é bom: humor, uma intriga mirabolante e uma personagem com muitas camadas. Tonino Guerra, mais conhecido como argumentista de filmes de Antonioni e Fellini, também escreveu livros e em português há, pelo menos, O Livro das Igrejas Abandonadas que é simplesmente sublime. A lista de italianos fecha-se com algo completamente diferente: Sandokan, O Pirata da Malásia, de Emilio Salgari. (É que às vezes sabe bem ler livros de aventuras para miúdos.)

Depois, claro, vem uma miscelânea de origens e nacionalidades. Em Março, li Pulp de Bukowski, e em Abril, Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, de Flannery O’Connor, os dois americanos. Em Maio, li A Biblioteca, de Zoran Zivkovic, um escritor sérvio, e em Junho, Closely Observed Trains, de Bohumil Hrabal, autor checo.

No segundo semestre do ano, comecei por ler Three Men in a Boat, de Jerome K. Jerome, um dos livros que mais me fez rir até hoje. Em Agosto, dediquei-me aos amigos argentinos Borges e Bioy Casares, com a leitura de O Aleph e O Sonho dos Heróis. Tive ainda tempo de ler This is not a novel, de David Markson e A Ignorância, de Kundera. Em Setembro, li um livro de ensaios maravilhoso, que toda a gente devia ler: An Elemental Thing, de Eliot Weinberger. Outubro foi o mês de Fausto, de Goethe, e Novembro, de Machado de Assis e Lewis Carroll. Em Dezembro, só terminei ainda a leitura de um livrinho de Brecht e tenho quatro, de diferentes autores, em andamento.

Ao reflectir sobre esta lista, dei por mim a pensar em todas as personagens e respectivos dilemas ou peripécias com os quais me deparei ao longo deste ano. Se ignorar os membros da minha família, o namorado e os amigos, posso afirmar, com toda a segurança, que não tive melhor companhia durante o ano que passou. E, se tivesse de voltar a viver em 2013, voltava a estar com todos eles: na ausência das pessoas de quem mais gostamos, as personagens dos livros (e os livros) são a melhor companhia que se pode ter.

E, já agora, Bom Natal, pessoal.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 19 de Dezembro de 2013)

Quem conta um conto acrescenta muitos pontos

Ontem, gozando de um momento de tédio ao ler o jornal que parecia conter apenas notícias sérias, prestes a fechar o browser, deparei-me subitamente com uma cara familiar que ilustrava uma notícia. Era nada mais, nada menos, que o Lobo Mau. Não temam, uma vez mais, pela minha sanidade mental: o bicho em questão é feito de tecido e comercializado pela Ikea. Comprei dois para os meus piquenos, daí estar familiarizada com a criatura, para mim espectacular, porque traz um extra: a Avózinha, que se pode enfiar no interior do boneco via oral e, posteriormente, remover pela barriga.

Dizia a notícia que, em Hong Kong, o Lobo Mau da Ikea se transformou num símbolo de luta contra a influência de Pequim no território. Trocando por miúdos, o novo chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong (o equivalente ao Primeiro-Ministro de Hong Kong) desde que tomou posse tem tido atitudes que o colocam alinhado com o Governo chinês, o que num território onde a democracia é uma coisa que até parece importante para os cidadãos tem causado algum desagrado entre os locais. Por este motivo e também porque o nome do actual chefe do Executivo de Hong Kong tem um caracter chinês semelhante ao termo «lobo», o senhor ganhou a alcunha de «O Lobo».

Subitamente, lembrei-me de outra notícia que lera há algumas semanas sobre a publicação de um estudo de um cientista de uma universidade britânica que afirmava ter descoberto a origem genética de «O Capuchinho Vermelho», que é afinal de onde provém o Lobo Ikea. Ao que parece, é possível recorrer às técnicas informáticas usadas pela biologia para descobrir a origem de determinados contos tradicionais como é o caso de «O Capuchinho Vermelho».

É uma descoberta interessante que apenas confirma as teorias que afirmam que o número de narrativas existente é limitado. E que há histórias universais. Claro que o facto de Perrault e os irmãos Grimm terem publicado «O Capuchinho Vermelho» ajudou à divulgação do conto. E claro que o conto oral original não é aquele que hoje em dia contamos às criancinhas. Recordo-me de uma edição que reunia os contos de Charles Perrault datada da década de 70 ou 80, em que todas as narrativas terminavam com uma moral, que resumia o objectivo da história. No caso particular d’«O Capuchinho», a moral falava dos grandes lobos que querem «comer» as meninas jovens e incautas, aproveitando-se da sua ingenuidade. Para quem tem mais de 18 anos, percebe-se que se tratava de uma história para adultos. Os contos seriam uma forma de explicar alguns factos da vida às jovens moças solteiras. As histórias com um fim pedagógico, com uma utilidade, as narrativas enquanto modo de transmissão de conhecimento. Nem sempre os livros, objectos onde se concentrava o conhecimento, foram um bem acessível a todos. Não que hoje o sejam ainda, mas hoje será mais fácil aceder-lhes e aceder ao conhecimento. Ainda assim, há dias em que saberia bem escutar alguém contar uma história dessas, mesmo que com moral incluída: é que o que é bom nos contos, ao contrário da vida, é que o final é sempre feliz.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 13 de Dezembro de 2013)

Quem és tu, leitor?

Há algum tempo, deparei-me com um artigo no The Wire, um site norte-americano, que prometia diagnosticar o tipo de doença de que cada leitor de livros sofre. Desconfiada, pois esta é certamente a única maleita da qual não me importo padecer, temi encontrar além de um diagnóstico uma solução. Felizmente não foi o caso.

Contudo, descobri que sofro de diferentes tipologias ao mesmo tempo, problema quiçá derivado da frequência de leitura, que é elevadíssima. De imediato compreendi tratar-me de uma «hate reader». Ou seja, aquele tipo de pessoa que, enquanto lê, vai amaldiçoando o livro e o respectivo autor. Mas lê tudinho desde a primeira página até ao último parágrafo. A única nuance que não se aplicava ao meu caso é que, de acordo com a descrição no artigo, o indivíduo leitor até está a gostar do que lê. Os poucos livros que li e odiei, odiei-os do início ao fim. A Trilogia de Nova Iorque, Paul Auster: detectives e mais detectives e o autor transformado em personagem. Que raio foi aquilo, pá? O Amante, Marguerite Duras: ou, «Lolita versão asiática», relatada na primeira pessoa, num exercício de exaltação do ego da autora. Not my cup of tea. Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami: um triângulo amoroso em que a rapariga de quem o rapaz gosta descobre que é lésbica, vai com a namorada para a Grécia e desaparece. Passei a maior parte do tempo a tentar perceber o que era suposto perceber e depois… nada. O fim e o vazio. Fiquei na mesma, como o outro do anúncio dizia, a propósito da Frize.

Talvez haja em mim algo de masoquista, para continuar a ler até ao fim, mesmo estando a detestar a leitura. A verdade é que recordo-me sempre d’Os Maias, cuja primeira centena de páginas foi excruciante mas, a partir daí, foi sempre a aviar, porque a narrativa e a escrita eram muito estimulantes. Tomei essa experiência como lição e, desde então, dou sempre uma oportunidade ao livro. Claro que no final, quando o livro não se safa, apetece-me atirá-lo contra a parede, como foi o caso de Vida de Adulto, de Pedro Paixão. Mas como queimar livros, ou danificá-los intencionalmente não vai de acordo com a minha filosofia de vida, eles permanecem lá, na estante, num cantinho escuro, para que não tenha de fazer contas às horas perdidas a lê-los.

Recentemente, como ando decidida a ler os clássicos, pus-me a ler o Fausto, de Goethe. Embora tenha tido aulas de alemão, mal comecei a ler a introdução, assinada pelo tradutor, apercebi-me que afinal pouco ou nada sabia do livro. Sabia que havia um diabinho chamado Mefistófeles (que sempre imaginei com uma barbicha semelhante à de um médico meu), o Fausto, o «herói» e a Margarida, a amada do herói. Sabia também que o Fausto vendia a alma ao diabo. Mas o livro é muito mais do que isso. Aliás, só após iniciar a leitura soube que o livro se divia em duas partes e que era, até, escrito em verso. E pronto, venham daí as 600 páginas, pensei. As primeiras 200 foram lidas com grande entusiasmo e estava a gostar verdadeiramente do livro, até que chegou a segunda parte e tudo mudou. Tudo, mesmo. O próprio Goethe escreveu a segunda parte de modo diferente porque só a concluiu cerca de 50 anos depois da primeira. E assim, li as restantes 400 páginas rapidamente, mas sem grande interesse. Apenas para saber como acabava.

Creio, pois, que sou predominantemente uma «hate reader», mas também padeço de outras tipologias: sou uma «delayed onset reader #1», daquelas pessoas que compra livros sempre que entra numa livraria, num alfarrabista, numa feira do livro, mas que depois espera meses e meses, ou anos, até pegar no livro e lê-lo. E quando finalmente o lê, questiona-se porque não o fez há mais tempo, porque a qualidade da leitura é indubitável. Sou também uma «bookophile»: gosto do cheiro dos livros velhos, dos livros novos, e de todos os lugares que tenham livros e gosto de os ter todos alinhados em casa, à vista, para olhar para eles e pensar no que terão dentro. Enfim, sou muitas coisas, ou, à semelhança do poeta, «Tenho em mim todos os leitores do mundo»! Quer dizer, é melhor não. Acho que não me apetece ter em mim uma leitora muito entusiasmada com a trilogia «Fifty Shades».

Texto de Sara Peres

(Publicado a 06 de Dezembro de 2013)

Do sentido das «coisas»

Em tempo de gripes e doenças, regresso a Camus. Isto porque foi-me emprestado um exemplar da revista Lire de novembro, que dedica várias páginas ao centenário do autor, que comecei a ler anteontem, ao pequeno-almoço, no meio de espirros e tosse.

Nas primeiras páginas do «especial» Camus abordam-se as relações que o autor manteve com três pessoas fundamentais para a sua vida e carreira literária: o professor da escola primária, Louis Germain, André Malraux e Martin du Gard. Ainda não cheguei aos dois últimos, porque a minha atenção fixou-se no primeiro relacionamento, o mais antigo e mais significativo, segundo consta.

O texto em que se fala da correspondência trocada entre ambos avivou a minha memória pessoal e recordei alguns dos professores marcantes para mim, ao longo da minha vida. É útil não esquecê-los. Nunca se sabe se um dia a infelicidade dominará a minha vida e, nessa altura, pode ser que queira processá-los, por me terem despertado o interesse para uma carreira suicida e falhada no jornalismo e me terem induzido ao vício da leitura, sem pensar nas consequências que daí poderiam advir.

A influência de Louis German no futuro de Camus foi decisiva. Apesar de todas as contrariedades que pautaram a vida do escritor. E foram muitas. A sua própria morte foi muito estúpida (todas terão a sua percentagem de estupidez): tanto quanto se sabe, Camus teria de fazer uma viagem para Paris e até já tinha bilhete de comboio. Mas o seu editor e amigo Michel Gallimard ofereceu-lhe boleia de automóvel e Camus aceitou. E pronto, um acidente de automóvel e o escritor morreu de imediato. A puta da ironia.

Tudo isto é fonte para grande reflexão e deixar um indivíduo a pensar na vida e o raio. Mas o que queria apenas dizer é que é bom que haja alguém na nossa vida que nos dê importância. Que tenha a sensibilidade suficiente para reconhecer (algum) talento e que nos incentive a perseguir objectivos ou apenas sonhos. Uma palmadinha nas costas pode ser fundamental. E não custa muito dá-la. Nem que seja apenas uma palmadinha verbal, um «muito bem», um «bom trabalho», seguido do nome da pessoa em questão.

Há aquela expressão vulgar «são as pequenas coisas que importam» e que soa frequentemente pateta. Contudo, cada vez mais me parece ser, afinal, uma verdade indiscutível, a par de «quem come chocolate é mais feliz» (disto tenho a certeza que ninguém duvida!). Felizmente, para minha grande alegria, tenho vindo a descobrir que tenho muitas pequenas coisas importantes e que vou fazendo pequenas coisas que importam. E em tempo de Natal (gosto muito do Natal, de passar muito tempo a cozinhar e de jantar com a família – o resto não é para mim Natal, é nada) acho que é bom perceber isso. Digo eu, que todos os dias vou compreendendo que sei muito pouca coisa.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 29 de Novembro de 2013)

Looking at the bright side of life

Tenho por hábito, como já se tornou evidente, escrever para a Preguiça sobre livros e a minha relação com estes, que remonta aos meus 6 anos de idade, desde que aprendi a ler. Deve ser o relacionamento fora do âmbito familiar mais antigo que possuo. Creio, no entanto, que não falo muito sobre a minha vida pessoal no Minudências e assim espero que se mantenha. Mas farei uma excepção desta vez, ainda que não entre em detalhes. Resumindo: estou a atravessar um momento difícil na minha vida. Mas, como sou uma crente na filosofia Monty Pythiana, estou a tentar focar a atenção no lado bom das coisas más. Ou, cintando o grande Eric Idle: «Always look at the bright side of death».

Assim, e a propósito de um acontecimento literário da semana passada, dei por mim a olhar para o lado luminoso da vida. Uma das coisas que mais feliz me deixou em tempos recentes foi o facto de ter tido a oportunidade de conhecer José Rentes de Carvalho, o autor a quem, na semana passada, foi atribuído o Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo livro Mazagran.

No ano passado, já o livro Tempo Contado, que reúne igualmente uma série de crónicas pessoais e é homónimo do blogue que o autor mantém, tinha sido distinguido com o Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE.

Não sei se a maior parte dos leitores saberá, mas este autor «recente», que começou a ser publicado em Portugal em 2009, pela Quetzal, soma já 83 anos. E divide a sua vida entre Amesterdão e Estevais de Mogadouro, em Trás-os-Montes. Passa seis meses em cada um destes lugares. E, comummente, quando vem de lá para cá (e vice-versa) vem de carro, uma viagem que dura uma semana e que, diz ele, «é uma espécie de férias».

Tive o privilégio de o conhecer há poucos meses. Em 2011 estive à beira de poder conviver com o senhor, mas um imprevisto impediu-o. Olhando para trás, ainda bem que assim foi. A curiosidade afinou-se e li, entretanto, três livros dele. De momento, tenho mais três em casa prontos a ler. Um deles autografado, o que muito me alegra.

Como dizia anteriormente, a obra completa do senhor começou a ser publicada em Portugal em 2009, mas os seus livros têm várias décadas de existência. Na Holanda. É um caso curioso, porque só depois do sucesso literário lá, nasceu o interesse em publicá-lo cá. Confesso que, no que me diz respeito, foi a curiosidade por um desses títulos com tanto sucesso nos Países Baixos que me fez começar a lê-lo. Com os Holandeses está escrito num registo de crónica, e nele o autor vai falando da sua relação com os holandeses, seus costumes e características, partindo da sua experiência enquanto estrangeiro que habita no país há pelo menos duas décadas. O livro terá sido escrito no final da década de 70, parece-me (falta-me o meu exemplar à mão, para fundamentar, perdoem-me se errar) e é fantástico, a meu ver. Na Holanda foi bem recebido, apesar de todas as falhas apontadas aos nativos. Ao ler-se, percebe-se porquê: o autor é muito inteligente, tem muitas histórias para contar e melhor que tudo: sabe contá-las com grande mestria e com muito humor.

Podia continuar a dissertar sobre a relação que criei com cada um dos livros dele que li, seja La Coca ou O Rebate. O primeiro é uma crónica pessoal que se cruza com o tráfico de droga na região do Minho, mas cujo título se deve a uma conversa com Picasso, já nos capítulos finais; o segundo, é um romance sobre o regresso de um emigrante à pequena aldeia de origem, em que as coisas se complicam graças à esposa francesa que o acompanha. Tenho uma história pessoal com cada um dos dois, mas isso não interessa aqui. O que interessa é que, por um golpe de sorte, pude conviver com o senhor durante 3 dias e partilhar com ele o quanto apreciava a sua obra. Nunca percebi muito bem o porquê dessa necessidade, que via manifestar-se noutras pessoas. Até que me aconteceu. E ainda bem: é bom perceber que ainda existe quem seja objecto da nossa admiração e que tenhamos o privilégio de travar conhecimento com essa pessoa. Nem que seja só para perceber que é de carne e osso. Tal como nós. O que é estranho, é que, ao percebermos que a pessoa é um homem/mulher como nós, cresce ainda mais a admiração. Mas, enfim, também isto não é relevante ao que venho. O que importa mesmo, é que se continue a olhar para o lado luminoso da vida. E a assobiar.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 21 de Novembro de 2013)

Uma Solidão Demasiado Ruidosa

Esta semana não me apetecia escrever. E estive mesmo para escrever nada. Não por falta de ideias (tenho por hábito manter vários temas anotados em agenda, aos quais recorro quando não me consigo decidir sobre o assunto a abordar e, até ao momento, tem sido uma estratégia proveitosa), não pelo pânico da folha em branco (tenho também outra estratégia, desenvolvida no tempo em que trabalhei como jornalista, que costuma resultar), mas simplesmente porque o silêncio me parecia mais proveitoso.

Ainda assim, apesar da vontade de permanecer sossegadinha, caladinha, a chocar uma gripe, lembrei-me que houve alguns acontecimentos literários assinaláveis que ocorreram durante os últimos sete dias e achei por bem mencioná-los aqui. Foram eles:

Os 100 anos de Albert Camus: se estivesse vivo, tinha soprado 100 velinhas na passada quarta-feira, dia 7 de Novembro. Esta foi uma efeméride importante para mim, porque é um autor de que gosto muito. Li três ou quatro livros seus e quando terminei O Estrangeiro sentia uma tristeza imensa: o pobre do homem, personagem central, era apenas incompreendido pelos seus pares e por isso estava na situação em que estava, que era má (vou tentar evitar os spoilers). E eu chorava, porque aquilo era terrivelmente trágico e tinha vontade de interceder por Mersault (é o nome da personagem). Com o passar dos anos, passou-me a dor, mas, de vez em quando, lá me vou lembrando do homem e do próprio Camus, cuja vida foi estupidamente trágica. Em França, apesar do escritor ser um pouco controverso (mesmo tendo ganho o Nobel de Literatura aos 40), assinalou-se a data e, um pouco por todo o lado, se recordou, merecidamente, na minha opinião, o senhor.

Don DeLillo, Paul Auster e J. M. Coetzee em Lisboa: esta semana, Lisboa é um lugar concorrido. Anteontem, Don DeLillo esteve em Lisboa a falar de Libra, livro em que o autor escreve sobre o assassinato de Kennedy, que foi reeditado em Portugal. Diz quem lá foi que lá estavam Paul Auster e J. M. Coetzee, que, durante o dia de ontem, foram ao Museu de História Natural e da Ciência ler umas cartinhas.

Don DeLillo veio a convite do Lisbon & Estoril Film Festival, sendo que já cá tinha estado há cerca de um ano, na altura em que estreou Cosmopolis (a adaptação cinematográfica realizada por David Cronenberg do livro homónimo). Segundo consta, os outros dois senhores também cá estão a convite do mesmo festival. É curioso que tal evento traga tantos escritores estrangeiros a Portugal. No ano passado, veio Enrique Vila-Matas (que me recorde). E no ano anterior, estou certa que outros cá terão estado. Não percebo muito bem porquê. Até porque eles vêm falar de livros, ou no caso de Auster e Coetzee, vêm ler a sua correspondência. Serei só eu que acho que isto pouco ou nada tem que ver com cinema?

Encontro Poesia e Edição, em Coimbra: na terça-feira, em Coimbra, parece que, integrado no programa Mostra Espanha, houve um encontro que trouxe ao TAGV dois editores espanhóis, Manuel Borràs, da editora Pre-Textos, e Fran Alonso da Editorial Xerais, que estiveram à conversa com Jorge Reis-Sá, ex-editor da Quasi Edições.

De acordo com o li, todos foram unânimes ao afirmar que existe uma crise da poesia, porque esta não consegue estar presente nas livrarias e nas escolas. Ao que parece, Manuel Borràs terá declarado até que os leitores «deveriam exigir lugares para a poesia». Acho bonito, sim. Infelizmente, a culpa não é só das livrarias, é também dos editores e, já agora, dos leitores. Não sei de que leitores falam. Não serão certamente dos de poesia, digo eu. Os leitores de poesia que conheço sabem reconhecer a boa poesia e sabem onde ir buscá-la. Tem piada que digam isto, porque se a poesia está assim tão mal, porque é que o último livro de Herberto Hélder esgotou imediatamente e porque é que a Assírio e Alvim reeditou recentemente três obras do mesmo poeta que se encontravam esgotadas há anos e eram vendidas a peso de ouro? Do que vou vendo (e sou apenas uma mera observadora), a crise não se limita à poesia. A crise atinge a literatura e os livros. Dizer que há uma crise da poesia é dizer que apenas esta sofre. E isso não poderia estar mais longe da realidade.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 14 de Novembro de 2013)

Entrando docilmente nessa noite serena

Ou, pervertendo o original de Dylan Thomas: «do go gently into that good night». E segue a declaração de interesses: não sou amiga da poesia. Não tomo chá com ela ou vamos juntas às compras. Não somos amigas, pronto.

Não nos relacionamos mal, contudo. Gosto dela e até aprecio a sua companhia. Mas só às vezes. É como aquele «amigo/a» de quem gostamos, até, mas com o qual temos medo de passar demasiado tempo, porque não queremos apanhar seca. [OK. Uma pessoa assim como eu.]

Ainda assim, já li Dylan Thomas, Wislawa Szymborska, Herberto Hélder, um poucochinho de António José Forte, Al Berto, e.e.cummings, William Blake e mais uns quantos, creio. Estes são os que moram nas minhas estantes ou que por lá já passaram (excepto o António José Forte).

Enfim. Não sei muito sobre ela, a verdade é essa, muito embora já tenhamos sido apresentadas há muito tempo. O que se passa é que as nossas relações não começaram da melhor forma.

Deixem-me ser exacta: o problema da minha ausência de intimidade com a poesia não vem do momento em que nos conhecemos. Quando me foi apresentada, até correu tudo bem: devia ter entrado há pouco tempo na idade dos dois dígitos e lia alguns clássicos portugueses, como Camões ou Florbela. Não me recordo de reflectir muito sobre o assunto ou tema, mas soava bonito.

Entretanto cresci mais uns anos e acabei por ter Português A, no ensino secundário. O extermínio da beleza da poesia e a professora da altura conduziram a um afastamento. Com alguma dor, até.

Só recentemente, há cerca de quatro anos, por influência de um caro amigo, recuperei o velho interesse e recomecei a ler poesia. Sempre por recomendações. Nunca nos tornámos íntimas, e achei melhor confiar no conselho de quem é leitor mais experiente do que eu.

Portanto, não sou a melhor pessoa para avaliar a qualidade de um texto poético. Mas diz que anda por aí muito poeta nacional de categoria. E curiosamente, a poesia, que não vende, vai vendendo. Talvez porque a lógica do mercado não a conseguiu dominar e esta deixou-se estar no seu nicho, sossegada, mas sustentável.

Lembrei-me disto porque soube que foi ontem apresentado na FNAC de Coimbra o novo livro de poesia de Luís Quintais, Depois da Música (Edições tinta-da-china). Este é o terceiro livro da colecção de poesia coordenada pelo Pedro Mexia nesta editora, que não tinha propriamente uma «tradição poética». É coisa rara, nestes tempos, ver editoras inaugurarem colecções de poesia e, ainda para mais, com obras de autores contemporâneos, porque, como disse, por mais prazer que possa gerar, é um género pouco marqueteiro. E talvez pelos motivos que aqui expus: porque é preciso conhecê-lo bem, para entendê-lo. Se calhar, a poesia sente-se mais do que se lê. De qualquer modo, eu cá continuarei com os meus velhos hábitos, visitando-a de tempos a tempos e cumprimentando-a sempre que a vir atravessar a rua.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 07 de Novembro de 2013)

Da desigualdade de géneros

Como na vida, na literatura as percepções que se têm de determinados géneros são quadradas. E erróneas. Ao longo dos últimos quase três anos, tenho lido muito sobre descriminação e sobrevalorização de alguns géneros literários. As vítimas usuais são o policial, o terror, a ficção científica e a fantasia. Pelo menos são as que vejo serem atacadas com maior frequência.

É como se pertencer a um género, que não seja o poético, ou o romance, não seja legítimo. E nem quero entrar na questão do conto. Houve muitos gritos de revolta, muitas «bandeiras» queimadas, depois do anúncio do Nobel da literatura, porque a senhora Alice Munro só escreve contos. Não é dada aos romances. E, ao que parece, para muita gente (boa e má), o conto é uma arte menor e só quem, coitadinho, não nasceu iluminado pelo dom do romance, é que a pratica.

Aproveito isto para dizer que não tenho formação filosófico-literária, ou vice-versa. Como diria um professor do departamento de Filosofia da Universidade de Coimbra que me deu aulas durante um semestre, nós, os que frequentávamos o curso de Jornalismo, não possuíamos capacidades mentais suficientes para compreender determinados temas da área da Filosofia. E, por isso, não poderei almejar compreender determinados assuntos dessa área.

Adiante. Consciente das minhas limitações, posso apenas dizer em minha defesa que sou um ninguém (qual Frei Luís de Sousa) que gosta muito de ler livros e que o faz com regularidade sempre que pode. Por isso, a minha opinião vale quase nada. Mas já que tenho este espacinho para «botar faladura», aproveito-o.

Acho que essa coisa da hierarquia de géneros é uma questão inexistente. Pelo menos para mim. Um livro que é bom, sê-lo-á sempre bom. Seja lá qual for a classificação de género. Há bons policiais, do mesmo modo que há bons livros de ficção científica e excelentes contistas, que o fazem maravilhosamente. Jorge Luis Borges, que é maravilhoso, nunca escreveu um romance. Só contos. E fazia-o muito bem. Philip K. Dick escreveu contos de ficção científica que ainda hoje continuam a ser comprados para adaptações cinematográficas, porque são bons. Stephen King escreve bem. Aposto que a malta salta no sofá, com os sustos, ao lê-lo. Arthur C. Clarke. Isaac Asimov. J. R. R. Tolkien. George R. R. Martin. Esta gente escreveu bons livros, pá. (E assinava com iniciais.) Que importa se pertencem ou não a um género?

Que importa se um escritor é bom contista e mau romancista? O que importa é se os contos que escreve são bons. Eu cá gosto muito de contos. Às vezes compro livros de contos, porque são de leitura rápida e, com a convicção de quem teve formação em Jornalismo e que crê que é bom quem consegue dizer muito, com muito pouco, uso-os para avaliar a qualidade e o meu gosto em relação ao autor. Mas eu sou ninguém, reitero-o.

E pronto, com isto me vou. Mas antes de ir, quero apenas deixar aqui uma nota: agradeço aos santinhos todos os dias o facto do Kjell Askildsen se ter dedicado só ao conto. É que se o homem escrevesse o que escreve num romance, ou a malta morria de tédio, ou deprimida. E isso é que ia ser uma razia.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 31 de Outubro de 2013)

Vem aí o russo

Há cerca de uma semana, li num dos blogues do jornal The New York Times,  que uns investigadores tinham chegado à conclusão, depois de terem realizado um estudo, que ler nos torna melhores pessoas. Principalmente se os textos lidos forem de Tchékov.

E agora vejo leitores erguerem sobrancelhas, com um ar desconfiado. Não temam. O que o estudo demonstrou, na verdade, não foi a capacidade dos russos nos transformarem (isso parece que desde o tempo do Crime e Castigo que está amplamente comprovado); o que o artigo publicado na revista Science afirma, é que as pessoas que lêem ficção literária, como a de Alice Munro, ou de Tchékov, conseguem melhorar as suas capacidades sociais, nomeadamente, criar empatia com os seus interlocutores.

Diz o estudo que os leitores que lêem livros desse género, ao invés de ficção popular, ou de livros de não ficção, são obrigados a exercitar mais a imaginação, porque muito do que lêem tem de ser inferido para que possa ser compreendido.

Ao ler isto, pensei de imediato na quantidade de psicólogos atirados para o desemprego por causa do diabo do russo. Vi faculdades de Psicologia encerrar, substituídas por bibliotecas cheias de alta literatura. Uma verdadeira revolução.

Depois pensei em Tchékov e no que li e já vi em cena da sua autoria. E ainda que não tenha assistido a nenhuma representação de O Tio Vânia, de O Cerejal, ou mesmo de Três Irmãs, achei que os tipos que realizaram o estudo deviam ter uma amostra muito peculiar. Quiçá mesmo, uma minoria.

Desconheço o grau de popularidade do senhor nos Estados Unidos. Mas estarei a ser pretenciosa ao pensar que para se compreender as personagens de Tchékov é preciso ser-se já «boa pessoa»? Ou estar já predisposta a isso, a conseguir criar empatia?

Penso isto, apenas porque ao assistir a uma representação de algumas das peças de um acto escritas pelo senhor, vi, nos esgares ansiosos dos actores que representavam as personagens, situações que, ainda que apelando ao riso, pelo rídiculo que comportavam, ilustravam pessoas reais, como eu e tantos outros, comidos pelo peso do dia-a-dia e das obrigações sociais. No entanto, ri-me, como as outras pessoas que assistiam. Era, como quem escorrega na casca de banana, a cómédia do lado trágico da vida que estava em palco. Um trágico comum, a que assistimos diariamente, mas que creio que, mesmo exagerado pela arte, pode passar despercebido, se quem vê não reflectir frequentemente sobre o que é isto que andamos a fazer todos os dias.

Mas claro que se trata apenas do que penso e, como tal, é uma ideia subjectiva. Não se apoia em estudos científicos, conduzidos em ambientes controlados e com amostras previamente seleccionadas. Não tem validade. É só a opinião de quem se enamorou por Tchékov por causa de meia dúzia de personagens com tiques nervosos e à beira de um ataque de nervos. E que nelas se viu reflectida, se não de corpo inteiro, pelo menos de perfil.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 24 de Outubro de 2013)

A very good year

Frankfurt acabou e já se anunciou o Nobel. A vida continua. Mas com um bocadinho menos de agitação.

Voltando aos prémios literários (não só ao Nobel), parece que este ano pertence às senhoras: o prémio Nobel de Literatura foi para Alice Munro; o prémio LeYa deste ano foi para Gabriela Ruivo Trindade, com o livro Uma Outra Voz; lá fora, esta noite anunciou-se o vencedor do prémio Man Booker, o mais relevante para a literatura anglo-saxónica, que foi este ano para a neozelandesa Eleanor Catton, que é ainda a pessoa mais jovem a receber esta distinção. Aqui ao lado, anunciou-se de ontem para hoje que Clara Sánchez ganhou o prémio Planeta, um dos mais ambicionados do mundo: 601 mil euros para a vencedora.

No ano passado o Man Booker já tinha ido para Hillary Mantel, a única pessoa a vencer este prémio por duas vezes, mas os restantes prémios foram atribuídos a homens.

Está, por isso, a ser um bom ano para as mulheres. Nunca tive «sentimento de classe», fui feminista ou lutei por igualdade de sexos. Talvez porque durante muitos anos, até começar a trabalhar, nunca senti que fosse tratada de modo desigual em relação aos meus pares do sexo oposto.

Quando comecei a trabalhar, o caso mudou de figura. Mas demorei ainda algum tempo até perceber. Lentamente, compreendi que o facto de ser do sexo feminino fazia com que o sexo oposto me tratasse com maior gentileza. Não me incomodava particularmente, claro, até ao dia em que percebi que, por ser rapariga, era tratada com menor respeito do que os homens.

De qualquer modo, creio que nunca discriminei os sexos nas minhas preferências culturais. Gosto de ler homens e mulheres, ver filmes de homens e mulheres, ouvir música tanto de homens como de mulheres. Naturalmente, a estatística dirá que, ainda assim, há mais homens nas minhas escolhas do que mulheres. Mas a culpa não é inteiramente minha: só recentemente é que as mulheres começaram a ter mais destaque e a tê-lo na mesma medida que os homens. (E não, não estou a falar da Miley.)

Em minha defesa, devo dizer que há várias autoras que me fascinam pelo modo como escrevem e que aprecio particularmente: Flannery O’Connor, Carson McCullers e a Dulce Maria Cardoso. Ao tentar lembrar-me de livros assinados por mulheres que já li, encontro ainda a Lídia Jorge (de que gosto), a Pola Oloixarac e a Mary Shelley, assim de repente. E a qualidade é algo que não lhes escapa. Ao contrário do que sucede no género comummente designado como «literatura feminina».

A «literatura feminina» são aqueles livros de capas rosa, com uns brilhantes ou uns dourados, que vêm, por vezes, em saquinhos ou com ofertas. Costumam ser «calhamaços», até. Quem os faz diz que são senhoras que os compram. Mas a verdade é que a maior parte dos compradores de livros são do sexo feminino. Independentemente do género literário. As mulheres lêem mais do que os homens. Porque escrevem menos do que os homens? Não sei. Já ouvi dizer que, como lêem mais, têm um sentido crítico mais apurado e preferem não escrever, porque pensam que a qualidade dos escritos não igualará a das leituras. Não sei se corresponderá à verdade. O que é certo é que, se o sexo feminino não se dedica à escrita literária tanto quanto o masculino, não será por causa do que afirma o senhor vencedor do prémio Nobel de Literatura V. S. Naipaul: as mulheres que escrevem são inferiores. Disso tenho a certeza.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 17 de Outubro de 2013)

Shutdown

Esta semana, embalada na onda norte-americana, passo pela Preguiça apressada, a correr, só para anunciar que não há post. É semana de Feira do Livro de Frankfurt e o Brasil é o país convidado de honra. E, como já é hábito, anuncia-se o vencedor do Prémio Nobel durante a feira.

É graças a estes dois acontecimentos, que esta semana não mandarei bitaites sobre edição e literatura. Porque a edição e a literatura me engoliram.

Só para que tenham ideia: a feira é tão grande, que há autocarros para as pessoas se deslocarem entre pavilhões. E, naturalmente, estar a par de tudo o que se lá vai passando diariamente é um quebra-cabeças.

Depois há o anúncio do Nobel, que é sempre o mesmo problema: sintonizam-se os browsers no sítio da Academia Sueca, esperamos 10 minutos a olhar para imagens de uma porta fechada, com muita gente e flashes numa sala, a porta abre-se, sai um senhor a ler uns papéis em sueco, balbucia umas coisas difíceis de perceber e a partir daí é ver quem consegue decifrar o nome proferido primeiro, para fazer o anúncio do vencedor em primeira mão. Só vos digo: tremo de pensar que o Nobel possa ser atribuído ao escritor africano Ngugi wa Thiog’o. E pronto, se o grande terramoto que está para vir esta semana não me matar, prometo momentos literários inspiradores para a semana. (Ou não. Se não calhar.)

Texto de Sara Peres

(Publicado a 10 de Outubro de 2013)

Traduttore traditore

O tradutor é um traidor. Bom, nem sempre. Só às vezes, quando a intraduzibilidade do texto lhe dificulta o trabalho. Deveria ser só às vezes, claro, mas já se sabe que maus profissionais os há em todo o lado.

Lembrei-me dos tradutores, tantas vezes negligenciados no meio editorial (e os revisores, também), porque esta segunda-feira, dia 30 de Setembro, foi dia de São Jerónimo, padroeiro dos tradutores. Diz-se por aí, no mundo, que este Jerónimo foi o tradutor oficial da Bíblia do grego e do hebraico para o latim. Por esse motivo, foi incumbido, depois de canonizado – ser santo não são só direitos, também há os deveres – de proteger os bibliotecários e os tradutores das suas aflições, seja qual for a sua natureza. Consigo imaginar, de imediato, os tradutores do Inferno, do Dan Brown, que foram fechados num bunkerzinho enquanto trabalhavam, de olhos lacrimejantes dizendo coisas como «Auxília-me, São Jerónimo!», ou «Valha-me São Jerónimo, que não consigo encontrar um equivalente desta expressão em farsi!». E imagino, imediatamente, o pobre do santo, lá na sua nuvem-escritório, no Paraíso, sem mãos a medir, porque desde The Casual Vacancy, de J. K. Rowling, que não tinha tantas encomendas em simultâneo.

Na verdade, os tipos passavam os dias fechados a traduzir, sem telemóveis, ou acesso à Internet, mas estavam instalados em hotéis. Não me parece que fosse um sofrimento atroz. Mas – que fazer? – o facto lá serviu para encher o espaço de alguns jornais durante alguns dias e reforçar toda a estratégia de marketing em torno do livro.

Agora num tom mais sério: não sei se os tradutores se remetem a São Jerónimo, ou sequer se têm uma figurinha de São Jerónimo em casa, mas, há casos em que deviam fazê-lo. Ocorrem-me, de improviso, dois ou três. Mas o mais badalado e polémico foi o caso de The Infinite Jest, de David Foster Wallace. Embora tenha começado a publicar nos anos 90 e já nessa altura fosse premiado, o autor só viria a ser publicado em Portugal em 2012, quatro anos depois de se ter suicidado.

Para estreia do autor, nada melhor que o seu livro mais emblemático (e maior, em termos de dimensão), The Infinite Jest. A publicação foi muito aguardada, tendo sido criada uma plataforma em que se podia ir acompanhando a evolução da tradução até ao lançamento. Independentemente do resultado, foi, sem dúvida, um trabalho hercúleo: a versão portuguesa tem 1200 páginas. E ler o original é igualmente um desafio.

A dupla que traduziu o livro deparou-se com enormes dificuldades – não eram principiantes, assinale-se – e foram entrevistados por diversas vezes no decorrer do trabalho. A discussão e a expectativa eram grandes em relação ao resultado e, quando finalmente o livro foi lançado e chegou às livrarias, foi esmagado. Não pela qualidade da obra, mas da tradução. Haverá erros, certamente – pessoalmente, ainda não me dei ao trabalho de pegar no tijolo que é o livro –, mas dado o tempo em que foi feita e as características do original, sejamos um pouco tolerantes para com os senhores.

A verdade é que os tradutores são um pouco como os revisores: é muito fácil lembrar-mo-nos deles apenas quando falham. Só nessas ocasiões os leitores se apercebem da sua existência. O que não se sabe é que, tantas vezes, quando no resultado final surgem dois ou três erros, ainda assim, o trabalho pode ser bem sucedido, porque só apareceram aqueles, e não os 371 erros que existiam inicialmente.

Mas, enfim, o problema não percerá em exclusivo aos profissionais, mas aos mecanismos da memória: é que em casos de sucesso, esta tende a não funcionar muito bem.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 03 de Outubro de 2013)

To adapt or not to adapt, that is the question

Na semana passada, no meio de dores de barriga, tentando aliviar o sofrimento, andei a ver trailers de filmes que estrearão nos próximos meses e acabei a ver vídeos de filmes recentes, que perdi. Ao fazê-lo, apercebi-me da quantidade de películas adaptadas a partir de obras literárias e fiquei a pensar nisso, que se trata de um fenómeno cada vez mais comum.

Desde que as sagas Harry Potter e The Lord of the Rings foram convertidas em filmes que a indústria cinematográfica parece ter ficado impressionada com o poder de bilheteira dos livros. Não estou a dizer que antes disso não se adaptavam obras literárias ao cinema – o Frankenstein nasceu num livro da Mary Shelley e anda por esses écrans há décadas – mas há algum tempo para cá que parece que as produtoras de cinema andam a comprar direitos para adaptações como se não houvesse amanhã. A coisa ganhou tal importância desde há uns anos que, na Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento editorial do mundo, se criou um local específico onde se negociam direitos para adaptações a outros meios.

Não creio exagerar quando falo disto. Lembrem-se dos não-sei-quantos filmes da série Twilight, da saga Hunger Games, dos filmes de super-heróis de BD que transformaram as editoras em produtoras cinematográficas, em The Girl With The Dragon Tatoo, e agora, até na trilogia soft-porno Fifty Shades of Grey. Gone Girl, romance de Gillian Flyn estreará em filme em breve, com o Ben Affleck. É a loucura. Anda tudo doidinho para descobrir um novo best-seller, como se não houvesse gente capaz de inventar um argumento.

O pior parece-me ser o sacrifício da qualidade dos filmes. Tudo é «adaptável», aparentemente. E, no entanto, há muitas coisas difíceis – mesmo impossíveis – de converter em imagens. As palavras certas conseguem, em determinadas situações, criar imagens maiores do que uma tela de cinema. Depois espantam-se que às vezes corra mal, como The Great Gatsby, Anna Karenina, ou On The Road (os filmes, pois).

Claro que as editoras batem palmas e ficam contentes, porque sempre se vendem mais uns livros. E criam aquelas sobrecapas hediondas com a imagem do cartaz, ou um actor qualquer. E subitamente parece que o filme é que «conta» a história original e o livro é só merchandising. (Ao dizer isto, faço um teste: escrevo o título do romance do Tolstoi no Google e a primeira entrada remete para o filme, no site da IMDB. Fico danada.)

Mas o cinema não está sozinho: a televisão também entra no pedaço – The Game of Thrones (adaptação da série literária A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin), The Pillars of Earth (da série homónima de Ken Follet) ou True Blood (transposição de The Southern Vampire Mysteries).

Bom, mas adiante. Não vale a pena queixar-me ou choramingar. Se o filme servir para que a malta se interesse um poucochinho pelos livros já não é mau. Ainda assim, o que era mesmo, mesmo fixe, era que houvesse mais livros de autores nacionais adaptados, além do Saramago, ou da Agustina – que deve ser a autora portuguesa com mais histórias adaptadas, porque o Manoel de Oliveira já tratou de converter algumas em filmes. Isso é que era supimpa. Até porque há muita coisa boa por aí para ler em português e que se recomenda.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 26 de Setembro de 2013)

A vida íntima de uma obra-prima

«A vida íntima de uma obra-prima» é o título de uma série de documentários produzidos e emitidos pela BBC, que passaram na RTP 2 há uns anos. Diz-me a Wikipedia que o programa teve início em 2001 e que terminou em 2010, portanto, cá terá passado a meio desse período. Era uma série em que cada episódio se centrava em torno de uma obra – quadro ou escultura – abordando o modo como havia surgido ou como se havia tornado popular. Tenho pena que tenha acabado e que não tenha alargado o âmbito além das artes plásticas. Divertir-me-ia muito se aplicassem a fórmula a livros, por exemplo, mas como parece que ninguém na BBC está interessado no que penso, ficamos assim.

Talvez sugestionada pela notícia da semana passada, a propósito do quadro que se descobriu ser da autoria de Van Gogh, voltei – uma vez mais – a perder o meu tempo em reflexões inúteis, que ocorrem, normalmente, quando não quero pensar nas agruras da vida. Depois da notícia em questão e do post anterior, deitei-me a pensar sobre pessoas que em vida não tiveram reconhecimento ou que viram a sua obra ser censurada, mas depois de morrer, através do esforço de terceiros, se tornaram famosas.

Van Gogh é, realmente, o caso mais emblemático e o melhor exemplo de pintor que viveu pobre e sem que ninguém soubesse quem era, mas que depois de morto foi a loucura. No seu tempo, o muito que pintou não alcançou notoriedade, embora o seu irmão Theo fosse negociante de arte. Reza a história que Theo morreu pouco depois do Vincent e, se hoje sabemos quem o homem é, devemo-lo à cunhada, que após a morte do marido, se viu a braços com milhares de telas e desenhos e fez tudo o que podia para promover a obra do pintor. Actualmente ninguém sabe o nome da senhora, mas o esforço compensou, parece-me: sejam girassóis, noites estreladas, auto-retratos, o quarto amarelo em Arles, tudo se transformou em sinónimo de «Van Gogh». Isso ou simplesmente orelhas cortadas, claro.

Nas artes literárias – coisa de que percebo um poucochinho mais, mas pouco – há casos semelhantes. O mais conhecido é o de Franz Kafka. Não creio que haja muita gente que se possa gabar de ter um sobrenome que originou um adjetivo, como Kafka com «kafkiano». Mas se não fosse Max Brod, amigo do escritor, que depois da sua morte ignorou o seu último pedido, de queimar os textos, ninguém saberia quem foi o senhor que escreveu a história do homem que acordou uma manhã transformado em escaravelho.

Existem outros três casos literários que me fascinam, e que me interessam mais, porque não são tão conhecidos, mas que merecem ser registados, mais não seja, pela qualidade dos seus escritos: Mikhail Bulgakov, Boris Pasternak e John Kennedy Toole.

Os dois primeiros, autores russos, vivendo na União Soviética, tiveram problemas com o regime, como seria de esperar, dada a natureza das suas obras. Bulgakov, que escrevia peças de teatro para viver, chegou a ser dispensado das suas funções. Nos seus últimos anos de vida, já com grandes dificuldades, decidiu escrever um romance surreal em que criticava ferozmente o regime comunista. Diz-se que a primeira versão do manuscrito ainda ardeu na lareira, num acesso de desânimo, mas que Bulgakov acabaria por reescrever o romance. Pouco tempo depois de o terminar, teve o azar de morrer e, cerca de três décadas depois, após muitos esforços, a sua esposa, que serviu de inspiração à personagem feminina do romance, conseguiu finalmente publicar o livro. E é por essa obra, Marguerita e o Mestre, que Mikhail Bulgakov se tornou conhecido internacionalmente, já depois de morto.

Por sua vez, Boris Pasternak escreveu Doutor Jivago, romance que não terá agradado muito às autoridades soviéticas, uma vez que a sua publicação foi impedida na União Soviética. Felizmente, graças ao contrabando e à persistência do editor italiano Giangiacomo Feltrinelli, o manuscrito chegou a Itália, onde foi publicado originalmente, não em russo, mas em italiano. Não fora o senhor Feltrinelli e nunca teriamos ouvido falar nem no Pasternak, nem no Doutor Jivago. E certamente Boris Pasternak não teria sido premiado com o Nobel, no ano seguinte à publicação do livro, em 1958.

O terceiro e último caso, pelo qual nutro grande carinho, é o de John Kennedy Toole, quase um desconhecido entre nós, mas cuja obra, Uma Conspiração de Estúpidos, surge em todas as listas anglo-saxónicas de livros a ler antes de morrer. Embora escrito na década de 60, foi rejeitado pela primeira editora à qual foi enviado e só viria a ser publicado muitos anos depois do suicídio do autor. Algures em 1980, a mãe do escritor decidiu enviar o livro a um editor, que, embora reticente, aceitou ler o manuscrito. Apesar de inicialmente contrariado, parece que rapidamente percebeu que tinha em mãos uma obra notável. O facto é que o John Kennedy Toole viria a ser distinguido com o Pulitzer, postumamente, em 1981, o que, para mim, é um bom incentivo à leitura. Digo eu que li e ri como uma louca ao longo das 300 páginas da Conspiração.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 19 de Setembro de 2013)


Outrora. E agora?

«E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando»

Luís de Camões, Os Lusíadas [Canto I, 2]

No início de Os Lusíadas, Camões faz uma declaração de intenções, propondo-se eternizar as acções e/ou a obra daqueles que levaram o nome de Portugal por esses mares fora – etc. – e usa estes dois versos. O resto da História já todos conhecem e não é para aqui chamada.

Não sou uma grande admiradora de Os Lusíadas, nem do Camões (eu cá sou mais Peregrinação, do Fernão Mendes Pinto), mas sempre que penso na importância da literatura, evoco esta ideia: um autor que deixe obra escrita consegue libertar-se da lei da morte. Os textos ganham vida própria, tornam-se – de certo modo – autónomos, mas o nome do autor permanece associado à obra. Assim se espera, pelo menos.

É um pensamento reconfortante – até mesmo para os existencialistas, para quem «isto» é tudo um grande absurdo banhado na aleatoriedade. Não é à toa que todos os existencialistas escreveram e publicaram livros. O que se passa, e que tem vindo a angustiar-me, é que, não só pela lógica do mercado – esse sacana, raios partam o Adam Smith –, a verdade é que há muitos autores que se deveriam ter libertado da lei da morte e que parecem condenados ao esquecimento. Daqui a algum tempo, já ninguém recordará os seus nomes, quanto mais os livros que escreveram.

Na semana passada fui alvo de piadas entre amigos porque assumi a minha ignorância em relação ao Augusto Abelaira, autor de Bolor e Outrora, Agora. O senhor faleceu há 10 anos e antes da semana passada, eu não sabia que ele existira. Ressalvo aqui que tenho uma lacuna enorme no que respeita à literatura portuguesa do século XX. Li pouca coisa e, à guisa de justificação – não é desculpa, bem sei, mas ele há bibliotecas grandes como o mundo e tanto para ler –, deixei que traumas associados ao facto de ter tido Português A durante três anos me afastassem dos autores portugueses do século passado. Temia-os e evitava-os com medo de ser perseguida pela sua obra em sonhos – neles a Sophia surgia qual Storm (X-Men), evocando ondas gigantescas, e o Luís de Stau Monteiro ateava fogueiras em que me via arder em agonia a gritar «Felizmente há luar!».

Como já disse, esta explicação não justifica a minha conduta mas, ultimamente, tenho percebido que há muitos autores que até eu conheço (!), que começam a ser esquecidos – e pior: assim que uma certa geração desapareça, receio que, com ela, se vá a memória desses autores. É grave, pois. E não há tecnologia que os salve.

Quando os livros desaparecem dos lugares visíveis das livrarias – e desaparecem cada vez mais depressa – solta-se a engrenagem do esquecimento. Pode ser que alguém, na blogosfera, num qualquer Tumblr, no Facebook – através do Citador –, evoque o Carlos de Oliveira, ou o Fernando Namora, mas é uma memória efémera e rapidamente, do mesmo modo que surgem, esses nomes são reenviados para um qualquer sítio obscuro onde não há GPS que os encontre.

Durante muito tempo acreditei que por existirem livros – a versão tradicional, em papel – estava garantida a preservação da memória e que se um tipo fosse realmente bom, isso era suficiente para permanecer vivo, que é como quem diz, para continuar a ser lido. A verdade é contrária e esse é apenas um pensamento ingénuo: se não forem reeditados, os livros perdem-se – depois encontram-se em alfarrabistas dos bons, valha-nos isso – e pior, perdem-se os autores, cujos nomes se diluem no esquecimento. Quero acreditar que é possível recordar o Vergílio Ferreira ou o Almeida Faria – que está bem vivo, mas cuja obra estava «morta» até a Assírio & Alvim a ter começado a reeditar no ano passado – longe dos escaparates das livrarias. E com eles, lembrar Uma Abelha na Chuva, ou O Rio Triste num dia qualquer.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 12 de Setembro de 2013)

A importância de se chamar Minudências

Ter um nome é importante. E dá jeito. Confere uma identidade, faz sobressair uma coisa no mar de coisas iguais que a rodeiam. Um nome individualiza. Distingue. Foi por isso que, para aqui chegar, às «Minudências», demorei alguns dias. OK, vários. Mais de uma semana. Uns 10 dias. E tive ajuda.

Mas permitam que me apresente.

O meu nome é óbvio, figura nesta página, associado àquele rosto de franjas. O que importa dizer é que tenho, felizmente, uma ocupação ligada a livros, literatura e cenas assim, e que, por esse motivo, esse será um tema recorrente por estas bandas. Não será o único, certamente, mas ocupará algum espaço.

A esse propósito, e voltando aos nomes, quando pensava na identidade deste estaminé, e como defini-la através de um título, dei por mim, em conversa com um amigo, à hora de almoço, a fazer trocadilhos com nomes de livros. E há muitos que se prestam a isso (nós estivemos nisso quase 60 minutos completos). Um dos meus favoritos é Se Numa Noite de Inverno Um Viajante, do Italo Calvino. O Calvino (um dos meus escritores dilectos), além de ser autor de uma obra genial, era bom com os títulos. Este é provavelmente um dos melhores, mas há mais. O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, é outro. Nunca li, mas diz quem sabe, que é um livro com muitas qualidades, nomeadamente, a dimensão, que é grande.

A nível nacional, se há quem saiba esgalhar títulos peculiares é o Afonso Cruz: Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, O Pintor Debaixo do Lava-loiças, Jesus Cristo Bebia Cerveja. E o melhor do Afonso, é que os livros são tão bons e originais quanto os seus nomes.

Também gosto muito de Última Paragem, Massamá, do Pedro Vieira. Como ele próprio diz, não é qualquer um que consegue meter Massamá no título de um livro. Mas ele conseguiu e, só por isso, merece toda a nossa admiração. E um abraço, vá.

(E à medida que penso nisto, percebo que há tantos títulos em português que são muito bons… e sem sair dos romances.)

Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, do Mário de Carvalho, é um clássico. Queda Que as Mulheres Têm Para os Tolos é frequentemente atribuído a Machado de Assis, embora se creia que o seu autor era belga. A Arte e o Modo de Abordar o Seu Chefe de Serviço Para Lhe Pedir um Aumento, de Georges Perec, é bastante peculiar, claro. Mas ele era um autor muito dado a títulos que evocam a ideia de manual de instruções: A Vida Modo de Usar é o mais conhecido.

Para terminar – enquanto ainda faz sentido e antes de se tornar ridículo: acreditem, podia estar nisto o dia todo – falta apenas evocar o título que inspirou o nome deste post: A Importância de Se Chamar Ernesto, de Oscar Wilde. Conheci, em tempos, um rapaz de seu nome Ernesto e, se ainda hoje me lembro dele, é porque quando se falava nele, pensava no texto. Nunca li A Importância de Se Chamar Ernesto, mas a verdade é que ao pensar no título, fico com vontade de o ler. Não sei se era intenção do Oscar deixar o nome a pairar na memória, mas, de facto, resulta.

Texto de Sara Peres

(Publicado a 5 de Setembro de 2013)