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42 | Cláudia Pinto

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It’s all about the journey

No ultimo ano-e-pechinchas escrevi um blog de uma dúzia de cidades diferentes, dois países, de uma vida em constante rotação solar e lunar. Galáctica. O segredo último do universo, da vida e de tudo -42- é não entrar em pânico. Começar, acabar, recomeçar, negociar, sempre em frente a aprender coisas.
E dançar. Dançar é importante.

Semanalmente ou aos soluços articulei as teclas com o tico e teco e com alguns astros e pensei que podia levar-vos a viajar comigo na minha cabeça, nos meus dias e noites. O blog servia também como uma espécie de kit de costura que se poe no fundo da mala. O clip do Mcgyver. O paracetamol efervescente. Mas agora tenho de viajar mais leve. Para não sair muito do Douglas Adams, só com o guia e uma toalha.

Acabo este blog onde o comecei: num café da Praça da República. Um pitstop de reparações cósmicómicas. Início de etapas e fita de meta. Espero que tenham gostado da viagem. Agora é continuar a espetar o polegar e esperar a próxima boleia.

(Publicado a 16 de Outubro de 2014)

The Fortress of Solitude

Surgiu há umas semanas, a altas horas da madrugada, uma pergunta honesta, feita honestamente. Não sei se a pergunta foi feita, ou antes lançada, em jeito de honesta provocação, ou com a honestidade das altas horas da madrugada, em que já só há lugar para o conforto honesto de estranhos ou a sabedoria honesta dos companheiros de noite. E eu respondi, porque já tinha pensado naquilo várias vezes, e até chegado a uma conclusão. Ainda bem que alguém perguntou.

A pergunta era, muito prosaicamente: “Qual é a cena das mulheres e dos músicos?” Entenda-se que este rapaz achou que as três mulheres que ali estavam compreendiam toda a generalidade do sexo feminino, e não as via como três pessoas, só pessoas, diferentes. Poderá ter até usado, em alternativa muito comum, “Qual é a vossa cena pelos músicos?” Não sei se ficou satisfeito com a resposta em si, ou com o facto de alguém lhe ter respondido. Honestamente.

Não quis generalizar em tratados anti-generalização, nem usar peúguinhas. Respondi por mim, mulher. Respondi, não porque é a “nossa” cena, nem porque sou “as mulheres”, mas porque já tinha pensado naquilo várias vezes, e vou a concertos, e fico horasehoras a ver e a ouvir instrumentistas, compositores e intérpretes – homens e mulheres, note-se – e já tinha chegado a algumas conclusões. Não falei de todos os artistas em todas as artes, nem de géneros musicais em concreto.

Uma das conclusões é que ver um homem a interagir com um instrumento musical, o seu, é uma espécie de atalho a lado nenhum, portanto paradoxal, porque permite o acesso ao inacessível, tangendo o intangível. Primeiro temos a música, que nos dá tanto a tantos níveis, mas que não está a vir do vácuo. Não, a música está a vir dali, daquele ali e agora, que também é a soma das horasehoras e anos que modelaram a relação daquele ser humano e daquele objecto, em indissociável mix de técnica e criação, em síntese de mente-corpo. Uma ficção auto-biográfica com índice remissivo em braile: tudo o que ele sabe e sente, e tudo o escolhe revelar ou omitir, as memórias irrecuperáveis, a solidão, a amizade, a perda e o sonho e tudo o resto. É uma espécie de voyeurismo consentido, respondi. Exibicionismo amoral, respondi. Às vezes sugere ou provoca mesmo uma excitação sexual, respondi, no sentido em que os corpos – o do músico, e da ouvinte, eu – comunicam nos sentidos, mediatizados por uma entrega e um prazer que nunca é igual, e nem sequer monogâmico. É uma espécie de inveja, respondi, porque só recebo e nada de tão puro posso dar de volta, nada que equipare aquela beleza.

A mim agradam-me os homens que têm o seu mundo longe do mundo, impenetrável e ilimitado, onde podem ser felizes e infelizes ao mesmo tempo e ninguém vê. Um mundo longe da “rat race”, do anacronismo fútil da generalização sexista, dos carros caros e das mulheres mais ou menos fatais. Gosto de os ver assim, idealizados e transcendentes, enquanto movem o corpo todo e fecham os olhos e suam e mordem a língua e fazem todas as caretas exigidas pela magia. Esses homens, que fazem música e a tocam, e que naqueles momentos não precisam de mais ninguém, esses homens eu posso amar, sem ciúme, de perto e de longe, com o corpo e também sem ele.

E assim respondi eu. Com menos palavras, claro, que já eram altas e honestas horas da madrugada.

(Publicado a 23 de Julho de 2014)

Living on the edge.

Os rituais são sempre os mesmos, uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo: café, cigarros, abrir a página branca, mais café. A primeira frase é sempre apagada. Sempre. Poderá voltar mais tarde lá pelo meio, ou ao fim, que sempre fui inepta a saber os princípios meios e fins das coisas. Mas depois dos primeiros solavancos, a coisa dá-se, com cinza a cair em cima do teclado e o café a esfriar.

As rotinas são sempre as mesmas, uma espécie de etimologia comum entre rota e rito. O mesmo quiosque, o mesmo maço de tabaco e uma raspadinha. Há sempre algumas variações subtis: nem sempre raspo no mesmo balcão; nem sempre bebo bica, às vezes é abatanado.  A âncora da familiaridade que permite andar um pouco ali à volta, e que se pode levantar e fundear de novo um bocadinho ao lado, um bocadinho mais à frente, ou em qualquer outro sítio do planeta. Haverá rito e rota em qualquer sítio do planeta. Se fizermos isto muitas vezes, conheceremos o fundo de muito mar.

Fala-se em zona de conforto, onde se inclui tudo isto que nos é familiar e onde temos algum controlo, onde achamos que ninguém dá por nada, porque já não damos por ela. Ir de chinelos à rua levar o lixo, ficar a dever o euro que vamos levar mais tarde, numa relação mútua em que já não somos estranhos, e nos vamos permitindo respeitar alguma estranheza nos outros. É preciso paciência e atenção. É preciso perceber que nada pára, ainda que tudo pareça imóvel. E de repente todos os dias são iguais e já é quarta feira outra vez, mas outra, e não a mesma que parece ter sido ontem. E, de repente, morreu o pai à senhora do quiosque, aumentou o preço do café, tive um sonho mesmo estranho. E, de repente, amanhã será quinta, outra vez. E não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, e a água não é a mesma água, diria Heraclito.

O limite do conforto é relativo e negociável, mas também instintivo e visceral. É beijar um desconhecido, de chinelos, e ficar a dever-lhe um euro que podemos pagar ou não mais tarde.

(Publicado a 10 de Julho de 2014)

When they go marchin’ in

“Os santos”, todos juntos! Uma cambada deles todos num mês só! Uma amálgama de referências em meia dúzia de dias: lisboa, sardinhas, arraial, fogueiras, manjericos, bairros, casamentos, martelinhos, marchas (que nada têm a ver com a referência da música que dá título a este texto – ou terão? Vão consultar o google e depois digam-me). A festa pagã ritualizada a abraçar o calendário cristão, o nosso protector ou padroeiro favorito a dar-nos graças e favores. E só me apercebi disto tudo a tentar explicar isto tudo a um turista escandinavo. E a ver na cara protestante, ou ateia, dele, a confusão, o horror, o horror… “mindblowing!” Qual o sentido? O sentido é festa, claro! E nem lhe soube explicar se o S. João do Porto era o João Baptista ou o João Apóstolo do Apocalipse! E explicar o alho porro em inglês, hã?

Ainda bem que não tive de disputar com nenhum italiano a velha questão altamente patrióticóevangelistóowhatever do St. António: Lisboa ou Pádua? Este santinho, nascido Fernando e estudado em Coimbra, não me diz nada. Um betinho dos Olivais que carrega “o menino” e salva as mulheres da solteirice em grandes números, como se da peste negra se tratasse. Redime-se um bocadinho por ser a entidade das coisas perdidas, o que é irónico quando colocado ao mesmo nível das noivas e dos casamentos. E mesmo isto é algo confuso: mas é ele que as recupera, ou ele que as esconde, para nos lembrarmos dele sempre que deixamos as chaves no bolso das calças que foram para a máquina? Conforta-me saber que as pessoas distraídas têm alguém que olhe por elas. Deviam saber o “responso de St. António”* de cor desde tenra idade. Ou deviamos antes ensiná-las que há coisas que devem permanecer perdidas, ou que são irrecuperáveis.

Quanto a santos e mártires, lembro-me daquela lista enorme a marchar pelo Evangelho de Saramago afora, página após página de sangue e horror e empalamentos e desmembramentos e morte. Aprendi a reconhecer santos ao longe, em livros, igrejas e museus: Sebastião, o belo general romano com as setas a trespassar o corpo quase nú. Jerónimo, vestido de vermelho dos cardeais, tradutor e intelectual, rodeado de livros. Catarina, culta e teimosa, torturada numa roda medieval até a roda se partir. Estes são os meus santos favoritos, mas nunca recorri a nenhum deles. De santo e louco todos temos um pouco, dizem. Ah, e a santa Gertrudes de Nivelles, padroeira dos gatos e dos loucos. Ah, e já agora, promovo o flautista de Hammelin a santo, que esse sim, era músico e salvou uma cidade da Peste Negra. Aqui está: o sentido é festa, para afugentar os males!

Responso a Santo António
(para encontrar coisas perdidas)

Se milagres desejais,
Recorrei a Santo António;
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais.

Recupera-se o perdido,
Rompe-se a dura prisão,
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte,
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são.

Recupera-se o perdido… (repetir)

Todos os males humanos
Se moderam, se retiram,
Digam-nos aqueles que o viram;
Digam-no os paduanos.

Recupera-se o perdido… (repetir)

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo
Como era no princípio, agora e sempre
Ámen.

(Publicado a 12 de Junho de 2014)

The mind killer*

“Some people are afraid of nothing”: um excelente teaser de um filme de há alguns anos, que consegue a brilhante ambiguidade dos extremos do medo, de ter medo de nada, e não o ter de coisa nenhuma.  “We have nothing to fear but fear itself”, outra grande frase que sempre andou por aí em filmes.  Na categoria de “coisas que toda a gente tem”, e “coisas que se adquirem com o tempo”: o medo. Epá, mas isto é muito vasto. Epá, mas disto quem percebe são os psicólogos e esses. Não é nada, percebemos todos, sentimos todos, encolhe e dilata todos os dias entre o racional e o irracional, o consciente e o inconsciente e o sub-consciente (psicólogos, é a vossa deixa!).  Há quem tenha medo das chamas do inferno. Há quem tenha medo das mulheres, e da Virginia Woolf. Mas de onde aprendemos o medo? Da biologia, da cultura, do trauma, da cultura do trauma, das histórias que nos contam em quinta mão desde que nascemos. É disto tudo, junto. E acumula, como o açúcar nas veias, até nos paralisar.

Eu tenho medo de aranhas. Sou dessas. Tem qualquer coisa a ver com a forma como estas se movem, e com uma panóplia de filmes e tamanhos que estas podem ter. A única boa aranha é uma aranha morta. E montes de gente que não tem medo fala dos seus benefícios, na natureza e o seu direito a viverem. Mas também tenho muito medo da extrema-direita. É uma comparação parva, eu sei. Mas ambos me dão uma tensão no corpo sempre que penso que são reais e andam aí no mundo, perto de mim, mais ou menos invisíveis. Dois, então, toda eu me contraio. A possibilidade de serem muitos e de estarem organizados/as e terem um plano põe-me em pânico. Mas o pânico não me protege, só me expõe e me impede de agir*. Já não sei se estou a falar de aranhas.  Estou a comparar um medo irracional com um racional, obviamente, mas a somática é a mesma. E também não conseguirei demover nenhum deles de fazerem o que acham que têm de fazer com dialécticas de doismaisdois.

Quase todas as histórias que nos contam de pequeninos têm uma pequena moral de consequência. O papão, o homem do saco. De desafio à autoridade, de desobediência, uma conquista pessoal ou colectiva de espaço e liberdade. Às vezes corre mal, às vezes corre bem: é a diferença entre o “herói” e o “irresponsável”. Alguém arriscou fazer alguma coisa, saber de experiência, pensar por si mesmo, ser curioso, salvar o dia, seguir a sua consciência, sem medo de caixas, árvores de fruto, lobos (muitas fábulas nos deram o medo de animais, outras nos tiraram esse medo) ou leis anacrónicas de reis tiranos. Histórias, muitas dessas, de pessoas que tinham segurança e privilégio e arriscaram tudo isso. Quem mais tem, mais medo tem de perder o que tem, parece-me. E quem nada tem, tem aquele medo de ir perdendo o pouco que é. Há o medo do desconhecido e medo de voltar ao que já conhecemos. E nisso somos todos iguais com medos diferentes. Eu tenho medo de aranhas, e também de noites de trovoada. Há quem construa muros altos com arame farpado. Há quem tenha exércitos. Pessoas com muito medo são assustadoras.

*Litany against fear

I must not fear.
Fear is the mind-killer.
Fear is the little-death that brings total obliteration.
I will face my fear.
I will permit it to pass over me and through me.
And when it has gone past I will turn the inner eye to see its path.
Where the fear has gone there will be nothing.
Only I will remain.

Bene Gesserit Litany Against Fear – From Frank Herbert’s Dune Book Series

(Publicado a 29 de Maio de 2014)

In illo tempore

Lembro-me do tempo em que a idade de cada um não era tema de conversa. E esta frase sugere que já tenho idade para me lembrar de um tempo passado onde que a idade não era tema de conversa. Na altura, nenhum de nós tinha grande coisa a que chamar de “passado”, ou “percurso” ou “carreira”. Agora é diferente. Agora, o tema surge como uma varejeira que não larga o pedaço de carne vermelha deixado fora do frio.

Esta semana alguém escreveu uma crónica bastante sombria e vaga sobre os trintões. A cronista parecia estar a passar um mau bocado com a sua idade, e a dos amigos próximos, e começou a fazer generalizações que soam bem no papel, assim a verdades absolutas, ainda que bidimensionais. Nós, os trintões, estamos à nora, à toa, algures no meio de não se sabe o quê, à espera de não se sabe bem o quê, diz ela, ou eu assim o li. Em parte é verdade, mas parece que agora a história reza mais da parte “vencida”. E atenção que este “vencido” tem um desdobramento semântico para prazos temporais.

A biologia deu-nos um timeline e a cultura foi mais ou menos atrás. Uma curva gaussiana que dita o padrão de sucesso, e os desvios. Mas aparte as coisas normais da degeneração do corpo, nós não vamos ser os velhinhos que vemos hoje na rua, completamente desligados do seu tempo que é este. Se não quisermos, não vamos ser assim, mas é o que eu ouço nas conversas dos trintões: a nostalgia por um estado de graça em que não sabíamos o que era o passado, o futuro ou o fracasso, e vivíamos no eterno presente feliz da ignorância. Ainda não nos tinha morrido alguém, ainda não nos tinha nascido ninguém. Éramos fora do tempo. E agora, trintões, descobrimos que somos velhos e novos ao mesmo tempo e que isto do binarismo é uma treta, e que há mais do que 2 condições, negociáveis. É uma espécie de segunda adolescência: revista e aumentada, confusa e desencaixada, com o corpo a mudar. E tema recorrente de conversa.

Estar nas laterais da curva tornou-nos mais auto-conscientes, e por isso permanecemos nas laterais da curva.  Sentimo-nos vivos dentro do tempo vivo, e não encontramos o “pause”.  Alguns com pena, outros com revolta, outros resignados, outros convictos e orgulhosos do seu desvio de padrão, com resposta na ponta da língua. É possível que estejamos numa mudança de paradigma, mas ainda em negação. Temos medo de ditar o novo paradigma de estar no meio dos timelines da biologia e da cultura, porque perdemos as balizas do sucesso e do insucesso.

Aconselho a irmos lendo algumas teorias da física quântica sobre a não existência do tempo. E a abrandar nas curvas se estiver a chover.

(Publicado a 17 de Maio de 2014)

“But I, being poor, have only my dreams” *

Não é natal, nem é a obrigação costumeira, mas oferecer prendas (passe-se a redundância) a pessoas é uma tarefa longa, cansativa e angustiante. É uma luta com a imaginação, a menos que alguma estranha contingência faça coincidir a oportunidade, o objecto ideal e o cashflow com a capacidade de os reconhecer, à oportunidade e à idealidade do objecto. É uma luta com a interpretação que temos das pessoas de que gostamos, quem elas são e do que gostam, e com aquilo que elas podem interpretar de nós, do nosso sentido prático, estético, whatever. Tudo num objecto, ou num gesto presenteado. E não tem nada a ver com dinheiro, penso eu, que não ligo a “esse” valor das coisas e que gosto de pessoas que também não ligam muito a “esse” valor das coisas. Estou porventura a sobrevalorizar a coisa, a abusar de um conceito idiota de fetichização da amizade, ou do afecto. Ad absurdum.

Todos nós já falhámos redondamente nisto a dada altura. E todos nós, ou assim o espero, já acertámos pelo menos uma ou outra. Um certo certeiro, em que o/a presenteado/a tenha ficado mesmo contente. Um orgulho. Lembramo-nos das duas situações sempre que temos que lidar com isto. Todos os anos. Várias vezes por ano. Uma canseira. Já corremos riachos de internets à procura “daquele” livro ou cd ou t-shirt. Já fizemos um bolo à última hora. Já embrulhámos cenas em jornal. Já arriscámos os lavores e a bricolage. Já ligámos às mães, namorados e irmãos. Queremos impressionar: está no âmago do nosso superego autocêntrico. No fim, não é isso que interessa. E sabemos bem. É termos mais um ano, mais um dia. É serem as pessoas que nós gostamos a presentear-nos com a sua existência. O resto são caquinhos, tarecos, bricábraques altamente fixes que podem dizer ao mundo que fomos nós que oferecemos. Toma, embrulha!

*
Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Y. B. Yeats

(Publicado a 1 de Maio de 2014)

Rear window

Ao estudar Shakespeare conheci um termo muito interessante para o qual não encontro agora equivalente em Português: eavesdropping. É a estratégia teatral de haver um personagem a ouvir em segredo (atrás da porta, de uma janela, etc) a conversa de alguém, que é normalmente mal entendida, sem contexto. Isto faz a trama avançar (ou adensar) para a morte (na tragédias) ou para a peripécia amorosa (nas comédias).

Na casa partilhada no centro da cidade onde estou a habitar há um pátiozinho onde podemos fumar, ladeado em cova por janelas de várias casas. Por força do vício, passo lá algum tempo, ou vou lá muitas vezes. Não havendo vista para nada, há “ouvista” para o invisível, que ecoa sem contexto por cima do meu cigarro, como a roupa estendida e as gaiolas dos passaritos.

Assim, pelas minhas contas, há uma família de indianos (podem ser paquistaneses, ou do bangladesh, ou dessa zona e mais não digo que isto já quase me comprou guerra alheia aqui na rua de rivalidades históricas, geográficas e comerciais), com uma criança. Fala a mãe, fala o menino e, de vez em quando, o pai. Imagino que falem da loja, da família, dos vizinhos, da necessidade de tirar boas notas na escola. Imagino que falem por skype para o outro lado do mundo, onde também chove, e onde também faz sol, e onde também é importante ter boas notas na escola. Imagino que pensem em ter mais um filho, para este não sair tão mimado e aprender a responsabilidade de ser irmão mais velho. Imagino na sala papeis e revistas e livros em várias línguas. Na cozinha, chocapic e um calendário com a imagem de Ganesh.

De outras janelas vem a conversa de bairro envelhecido: fulano que teve um AVC, o filho de sicrano que foi para Inglaterra trabalhar, a botija de gás que está a acabar, a greve do lixo, o IVA sobre o sal. Na praça mais próxima, um frik quarentão com um rato branco ao ombro fala com os amigos de política internacional, da Crimeia e da ONU, turistas comem gelado “artesanal” e decidem onde vão à tarde, um hipster afogueado arrepende-se de ter vestido aquele casaco vintage de fibra, as pombas coxas debicam beatas em silêncio…

A vida avança no palco, a trama adensa-se, em cada janela uma tragédia ou uma comédia em potência. Não uso auscultadores e não me sinto mal por isso.

(Publicado a 22 de Abril de 2014)

What sweet music they make

É mais discreto do que a inclinação “cães ou gatos”. Nem sequer é um debate, uma discussão. Não sei se é uma orientação, mas pode ser uma preferência. É sem dúvida uma fatalidade, no sentido em que, por mais que não se queira ou se goste ou se precise, a noite acontece sempre. A noite acontece todos os dias.

E a noite é uma coisa fantástica. E as coisas fantásticas moram algures entre a fatalidade do medo e do fascínio. De algo que sempre se conheceu e que não conheceremos verdadeiramente, não na sua total dimensão. Por um lado vem à memória toda a vida natural dos documentários (que eu nunca morei no campo, por isso é esta a minha referência): as plantas que se abrem e fecham, os animais que caçam, cegos e agudos na pouca necessidade de cor e na vital presença de outros sentidos. Os cheiros, os sons. Por outro lado, penso na noite e nas cidades humanas, e a noite é outra coisa e no entanto a mesma. Na noite humana há luz, e há cores e sons que, podendo ser os mesmos, significam outra coisa. Há outras espécies ou plumagens. Outras linguagens de entendimento e ambiguidade entre o medo e o fascínio.

Lembro-me do “Night on Earth” do Jim Jarmush ou do “After Hours” do Scorcese, e do bordel do João Canijo em “Noite Escura”. Todos dizem que a noite é dos amantes, dos poetas, dos padeiros, polícias e putas. Os pios e os púdicos (já que estamos numa de aliteração) e os protelariados, os presos e os putos, esses terminam-se com o crepúsculo e recolhem-se e dormem, para se recomeçarem de manhã. Vamo-nos revezando uns aos outros à superfície, como se o planeta não tivesse espaço para andarmos todos cá em cima ao mesmo tempo,e por isso nos dá noites pequenas e grandes e dias pequenos e grandes em diferentes paralelos e meridianos. Se o planeta negoceia com mais ou menos justiça essa órbita, os humanos também o podem fazer, mas é engraçado quando estes mundos (as pessoas do dia e as pessoas da noite), estas metades de mundo, se cruzam, arrogantes e/ou compassivos, às horas do render, cada um dono da sua verdade, da sua circunstância, temperatura, som e cor.

Eu acredito que podemos permutar a consciência desperta e o sono regenerador entre as duas metades, e sorver o atavismo de ver mais uma alvorada ou um pôr do sol. Sonhar de dia e ir à praia de noite. Amar cães e gatos com a nossa parte felina e canina.  Mas sim, vá, admito que pode haver uma orientação, ou uma preferência. A minha é a dos astrónomos.

(Publicado a 7 de Abril de 2014)

The Misfits

Todas as cidades os têm. Todas as vilas, aldeias os têm. De vários níveis de não-encaixanço. Em português é qualquer coisa como os inadaptados, e em português do brasil, os desajustados. Eu gosto da expressão “outcasts”, que é muito parecida, mas é mais ambiciosa, porque envolve um dentro e um fora, e ao omitir a agência de quem mete quem de fora, abre lugar para muito mais conversa. Mais recentemente recuperou-se a expressão freak, ou “frik”, que saltitou do incorrectíssimo voyeurismo mórbido do século XIX para ser aplicada a todos aqueles que preferem (se é que é uma preferência) destacar-se de uma certa “normalidade”.

Desta diferença, há os padrões de escolha e de infelicidade. Há os da contingência e os do acidente. Há os do esgotamento e do encosto, os da liberdade, os do não dever satisfações. Há muita margem entre as margens e os marginais. Há os que não são aceites e os que não querem ser aceites. Da diferença, há regras diferentes, e há o vergar das regras. Dos comuns encaixados, ajustados e encastrados, e caretas-betinhos-totós, há uma diferença de linguagem, cores e códigos, como várias espécies aparentadas dentro de um mesmo ecossistema.

Maior parte das pessoas que conheço evitam muito a muita concentração desta diferença marginal. Mau aspecto, mal frequentado, barulhentos, violentos, mal-cheirosos, cravas. E no mesmo saco vão os hippies, sem-abrigo, pedintes, bêbedos, malucos, respigadores, eles e os seus sacos, mochilas, cobertores, cães e litrosas e vinho de pacote. Os leprosos do século XXI. A culpa é do sistema, do país, dos pais e das mães, do jogo, da televisão, da droga, do mau tempo, da má sorte, da falta de ambição, da falta de jeito, de vontade, de justiça, de porrada. E nem é por existirem, é por ocuparem o espaço público. Tirem-nos da minha frente que estão a bloquear a vista para o rio.

O espectro da marginalidade urbana é vasto e inesgotável. E incontornável porque é esse espectro que contorna todas as coisas. Porque as pessoas ou não querem saber ou querem saber demais, lavar as mãos disso ou impor-lhes a seu sapo-nosso-de-cada-dia. E eles, por sua vez, não querem saber de nós, nem nos obrigaram a escolher nada disto, se é que escolhemos de facto alguma coisa disto. São os desapossados e os despojados entre os impotentes e os desesperados numa luta por espaço e reconhecimento. E ninguém está safo de passar a “margem”, principalmente porque ninguém sabe onde ela está.

E isto é apenas uma reflexão num dia banal. Há coisas com solução partilhada e outras eternamente irremediáveis. E eu ainda não consigo perceber bem a diferença entre elas.

(Publicado a 20 de Março de 2014)

Whiskers on (grumpy) kittens

Algumas coisas parvas que as pessoas fazem e que me irritam um bocado.

Andar na estrada quando há passeio. Normalmente velhinhos. Porquê? Para não estragar a calçada portuguesa? Figurantes do GTA?

Dizer que o que era preciso agora era outro salazar. Se houvesse outro salazar não podiam dizer que era preciso outro salazar. Parece-me óbvio, e nasci depois dessa senhora.

Ensinar crianças a dizer palavrões. Toda a gente devia saber ler e escrever aquilo que diz. E saber limpar o seu próprio rabo antes disso, já agora.

Cortar unhas em sítios públicos. São projecteis cheios de bactérias. Pior que pintelho no gelado.

Dizer arrogantemente “isto não fica assim” no fim de uma discussão. Pressupõe vir aí uma novela com o Breyner cheia de processos e famílias poderosas. Não vem. Fica assim.

Controlar o que os outros adultos vestem, comem, bebem ou fumam. E mandar bitaites. O livre arbítrio é uma merda, mas é meu e teu, ainda que algumas teorias mais maradas da Física possam dizer que não há nada disso.

Dizer que “sim, mas do bom”, em que aqui o “bom” não é uma questão de apreciação sensorial e pessoal, mas o dito do cânone (ou o anti-cânone): a crítica do “bom vinho”, as estrelas do “bom cinema”, depois de ler um “bom livro” à lareira. Comprovados por (pelo menos) 5 pessoas publicadas, de referência idónea, e 30 dos seus amigos com tempo e dinheiro. Porque os nossos sentidos nos enganam é que usamos a expressão “guilty pleasure”. Como a masturbação. E depois de beber um vinho médio a acompanhar um peixe congelado a ouvir daniela mercury (sozinho e às escondidas) e aquilo até saber mesmo bem, crescem-nos pêlos por todo o lado, ou ficamos cegos.

Códigos de cores: para os clubes de futebol, para os partidos políticos, para se referir a pessoas. Só compro isqueiros rosa pálido com bonecos, mas evitando dragões, águias, leões, laranjas, rosas, armas, setas, hello kitties e nossas senhoras de fátima. Não tem? Deixe estar. É melhor do que traição ideológica.

Perguntar pela tese, trabalho ou família às 4 da manhã. É indecente. É sádico. É falta de conversa. Vou começar a dar grandes secas às pessoas a ver se param com isso.

Assobiar na discoteca, por cima da música, o mais alto que se consegue, insistentemente. Há sempre o gajo que assobia. Pára com isso. Já.

É como as coisas favoritas da Maria, mas ao contrário. E pessoas que (dizem que) não gostam de musicais também me fazem comichão.

(Publicado a 06 Março de 2014)

Atonement

Há pouco tempo acabeçou-me uma memória daquelas remotas-muito-remotas, daquelas incomodas-muito-incómodas-tão-insuportávelmente-dolorosas que, à falta de dinheiro ou pachorra para terapia (a eufemística “ajuda profissional”), venho catartizar aqui para o blog. Esta coisa da memória, como já tinha comentado há uns tempos, é difícil, porque não sabemos à partida que momentos de hoje nos iremos lembrar no futuro. À partida, tudo é banal e tudo é significativo, por isso tiramos tantas fotografias do almoço e do gato a dormir no colo como da festa de aniversário ou daquela viagem irrepetível. Com a nova cultura a-tender-para-a-irresponsabilidade do YOLO – you only live once -, esquecemo-nos frequentemente do bom travão moral que é o OPOLOT –  other people only live once too.

Já todos fomos crianças e quase todos gostamos muito de crianças e todos temos ideias mais ou menos entrincheiradas sobre as crianças, as nossas e as dos outros. E eu já fui criança há muito tempo atrás. As patetices que posso fazer agora nada têm nada a ver com o “alimentar a criança que existe em mim”, porque são patetices de adulto e, se a patetice for bem grande, envolve a polícia e o tribunal e não uma palmada bem dada ou o pedo-psiquiatra ou o castigo da consola ou da tv. Por mais que custe aos adultos, as crianças têm vidas secretas, sozinhas ou entre pares, em que a lógica dos adultos está ausente e a violência psicológica, não deixando ferida ou negra na pele, não tem noção de si própria, e é tudo “garotice” para ser preterida pelos bons momentos.

Lá há muito tempo, num tempo estrangeiro, era uma vez, em que eu era criança de escola primária e tínhamos classes em vez de anos, e eu era de terceira, as crianças em terras pequenas iam a pé umas com as outras para casa ou para o trabalho dos pais. Grupinhos, amiguinhas e coleguinhas, gargalhadas e uma pseudo-segurança de criança com rotinas iguais. Durante um tempo, não sei bem quanto, o meu grupinho de escola-casa de 4 ou 5 garotas, divertia-se a ir todo o caminho a insultar – com gargalhadas e piadas parvas – uma garota de mais ou menos a mesma idade, que tinha a circunstância de ir à mesma hora para casa com o irmão (mais) pequeno. O bullying, que só lhe posso chamar isso agora, era focado na coisa mais idiota e estúpida e imbecil do mundo: a mãe da miúda vendia peixe no mercado. Na lógica imbecil de grupo, das crianças que éramos, isso era tão mau como ter óculos ou ser gago. Conseguimos, naquela distância-tempo diária, fazer crer àquela menina que ser filha de peixeira era a pior coisa do mundo, e que provavelmente ela cheirava mesmo a sardinha e a carapau. E enquanto conto isto, não me lembro do nome mas lembro-me da cara da menina, apavorada e sem resposta, mas sem nunca ter chorado (teria de ser forte para proteger o irmão), e sinto-me a pior criança de 8 anos que alguma vez existiu. Fui uma mariazinha que foi com as outras mariazinhas entediadas. Se tivesse uma máquina do tempo ia até lá e dava-me uma bela palmada bem dada, ou levava aquela menina e o irmão pela mão até casa. Os meus pais, de classe trabalhadora e humilde, nunca me induziram essa mentalidade de comportamento e nunca mais fiz nada do género, na escola ou fora dela. Nem nunca praxei sequer. Penso nisso de tempos a tempos, e não me consigo desculpar. Agora, enquanto conto isto, neste outro tempo estrangeiro, penso na mulher que essa menina se fez, no amor que tem à sua mãe, que trabalhou tanto no mercado e em casa para a criar e proteger, e no amor que terá aos filhos que vai deixar à escola antes de ir trabalhar tanto, quiçá no mesmo mercado, para os criar e proteger. Não sei se ela se lembra, ou se terá esquecido. Nunca soube nada dela, a não ser isso.

Por mais que custe aos adultos olhar para as crianças que foram, quando o fazem invariavelmente optam por uma óptica selectiva de ternura e nostalgia, do que foi feliz e correu bem, e guardam os demónios do passado para a tal “ajuda profissional”, ou para escrever coisas atormentadas. Por mais que custe aos adultos, há memórias dessa vida secreta de criança que só o tempo de adulto pode resolver. Só que o YOLO é tão real como o OPOLOT e, não tendo eu acesso a uma real máquina do tempo, não resolve nada.

(Publicado a 28 Fevereiro de 2014)

The thickened plot, ou a mestria de evitar os spoilers

Adoro viver no século XXI. Pois que anda por aí um zunzun na net e nas redes sociais sobre a nova série da HBO True Detective. E eu, que num noite de bulimia narrativa vi os 5 episódios que saíram, faço o meu zunzun também. Não vou fingir fazer crítica, que gosto de policiais e mistérios, gosto de enigmas e simbolismo, em todas as expressões artísticas. Sou mais parcial ainda, porque gosto também de ir conhecendo os estados profundamente decadentes da América, com o seu Bible Belt e a sua obsessão pelo diabo. No Louisianna, fiquei a saber, dizem “poh-lice”, há espaço que nunca mais acaba e gente muito estranha. São coisas que me interessam. Quando alguma coisa me fica a moer a curiosidade felina, deixo-me perder no hipertexto, foruns, comentários e reviews, enciclopédia e trabalhos universitários sobre particulares anteriormente imponderados. Até ficar tonta com tanta informação. Mas é só de vez em quando. E esqueço-me da maioria das coisas.

Já tinha anotado no meu pequeno “vade mecum” vir a escrever qualquer coisa sobre o eterno derby “livro vs filme”, mas acho que ia provavelmente diletar sobre o 3D e o psicadelismo. Assim, encontrei no zunzun – que ainda é um envergonhado bjbjbj – do True Detective, a pista que viria a compor o ramalhete retórico. O bom de se viver no século XXI é que podemos perguntar tudo ao amigo de toda a gente que sabe tudo, viu todos os filmes e leu todos os livros. E sem que ninguém veja, nas horas roubadas ao sono, perguntamos ao amigo (vamos chamar-lhe G.) muita coisa.  E através de um mistério policial ainda a decorrer chegamos à literatura do século XIX, antologias de contos do século XX e a todo um reciclar de referências que crescem em labirinto, do romance ao poema, à lenda, à televisão e à internet. E que em vez de te dar a solução do mistério te leva a mistérios ainda maiores e mais densos. Em vez do desenlace, empurram-te para o meio do novelo. “The plot thickens”.Que este mundo da literatura, lembro, está cheio de segredos e superstições. Que ainda se é rigoroso dizer “os poemas atribuídos a Homero” e cuidadoso em não dizer o verdadeiro nome da “peça escocesa” perto de um teatro.  E quanto maior a celebridade, mais mitos. Quanto mais obscura a teoria da conspiração, mais culto. Que a literatura altera as realidades reais e as percebidas também é muito verdade. Que é tão libertadora como é perigosa, se levada à letra, indiscutível. Lembro-me de ler qualquer coisa sobre a onda de suicídios que se seguiu ao sucesso de Werther, de Goethe, ou da quantidade de gente que acha que é vampiro ou lobisomem, ou o anti-cristo. Gente que se perdeu em busca de Shangri-la, Eldorado e Atlântida. Não tão grave, claro, como a quantidade de garotos infelizes que todos os dias esperam a sua carta de Hogwarts.Pequenos grandes dramas do primeiro mundo. Porque, no geral, há muita coisa que o texto não diz, e odiamos não saber. Somos cépticos e queremos acreditar que a verdade está “out there”. Queremos chegar lá primeiro, ser o Holmes e não o Watson. Ser o Mulder, e não a Scully. Ser a Velma e não o Scooby-doo. Ter a epifania, o clique. Mas isso dá trabalho e implica perdermo-nos no novelo a dada altura. Sermos cientistas e pensadores, empíricos e especuladores. Argumentistas. Até ficar tonto com tanta possibilidade, mas só de vez em quando.

(Publicado a 20 de Fevereiro de 2014)

Ó leonilde

Os filmes de domingo à tarde que não metem longas perseguições de carros e assaltos a aeroportos falam sempre do amor romântico (ocidental, burguês e heterossexual) como uma coisa predestinada. Bonita, aparentemente complexa mas no fundo simples, e predestinada para aquela altura específica. Na vida real do amor, percebemos de compatibilidades e de rotinas, de dúvidas e de do medo de errar, das pressões sociais e dos relógios biológicos. Quando disse a um amigo meu que esta semana iria escrever sobre o amor, porque vem aí o “Dia dos Namorados”, ele riu-se à gargalhada. E eu ri-me à gargalhada com ele. Já antevíamos todos os clichés que ardiam sem se ver e os ventrículos a jorrar sentimento.

Para cada panela há um testo, diz uma certa sabedoria popular, que também já foi muito a favor de casamentos arranjados. Também há um contra-dizer muito azedo para a teoria de sermos, cada um e uma de nós, um “floco de neve” singular e inimitável. Esta última é uma teoria de especialidade, e o amor, sentimos porque sabemos (psicossomaticamente), é sermos especialmente especiais para alguém especial, exclusivos naquele lugar especial. Andar de bracinhos abertos num país do Norte no Inverno, até que o tal floco nos caia no nariz, no meio dos olhos. E é só um, um de cada vez. Essa é a teoria do domingo à tarde. Para os outros que não gostam do frio, há o matchdotcom e outros mecanismos que acompanham a coisa, que vão desde o “posso apresentar-te o meu/minha amigo/a?” até ao “falta só limar ali umas arestas naquela personalidade, porque de resto é fantástico/a”.

Gosto da metáfora do floco porque não me entendo bem, a um nível muito hormonal, com a ideia de incompletude. Agrada-me contudo ainda mais a ideia de átomo, indivisível e inteiro, cheio de neutrões e protões e electrões e propriedades, que quando unido em molécula com outro/s átomo/s, funciona de outra forma, com novas características e comportamentos mas não deixa nunca de ser o mesmo. E há moléculas que funcionam muito bem, que conseguem ter mais valor do que os seus átomos sozinhos. Outras são tóxicas. É como tudo. Não me peçam um tratado de físico-química, que não sei nada disso mas acho que dá para perceber o que quero dizer.

Apesar de muitas vezes entender isto do amor e das relações como uma coisa que acontece aos outros em formato reality show, não sou uma pedra. Se fosse, estava aqui a falar de diversidade genética e reprodução e a bradar contra a família e os casamentos como instituições burguesas e isso tudo. Sou um floco igual aos outros, mas igual à minha maneira. Preocupa-me os padrões do “amor”, das promessas e dos contratos, dos direitos e das propriedades, as exigências, os egoísmos, as paciências, de haver letras miudinhas, alíneas e vazios legais onde acho que não sei encaixar. Preocupa-me haver toda uma espécie de “jogo”, com campeonatos e campeões, talentos e aptidões, treinos e pontuações subliminares que tens de proteger de tudo e de todos. Um jogo aparentemente vital onde se vai passando de nível e, se perderes, tens de começar tudo outra vez. Ah, e depois há aquilo de “tem de dar luta”. Uma seca. Não sei quem foi o imbecil que tinha demasiado tempo que se lembrou dessa.

Não sei jogar nada. Competição e estratégia são os meus handicaps mais evidentes, se calhar é por isso. Átomos, sim, moléculas, sim. É mais a minha cena. E existem em todo o lado, ao contrário da neve.

(Publicado a 13 de Fevereiro de 2014)

Mark-up language

Nestes últimos dias, foi impossível ignorar – quase tanto como foi impossível ignorar o mau tempo e o mau debate da praxe – os filmes-prenda do aniversário do Facebook. Um videozinho assinado pelo Mark (o filho pródigo) e pela anónima “equipa” dos algoritmos, em mash-up de fotógrafo do casamento e pai da noiva. Sou eu que sou esquisita, azeda e desconfiada, já sei, mas aquilo arrepiou-me à brava. Estou a dramatizar, como sempre. Lá vi o meu “filme”: dois anos (“late bloomer”) de posts atomizados em dois minutos. Se fosse mais sensível do que esquisita, diria que tinha tido dois anos absolutamente aborrecidos e popularuchos, e sem interesse nenhum para ninguém, principalmente para mim mesma. Dois anos em que não esteve a família, os amigos e o mundo (nenhum outro nome apareceu no vídeo, só o Mark a sorrir-me em aprovação) mas apenas eu, sozinha, a colorir o “livro” com crominhos de variável proveniência, frases discutivelmente engraçadas e/ou “profundas”, e recortes de imprensa mais ou menos crípticos. Fiquei chocada com o meu egoísmo e alheamento nos últimos dois anos. Obrigada, Mark e equipa, pelo gesto, mas não era preciso incomodarem-se.

Sou eu, eu sei, que sou tão esquisita como sensível, que achei aquilo uma pseudo-fofice de muito mau gosto, a cena de “ver a vida a passar-te à frente dos olhos”. Uma certa vida, claro está, cada um a sua, uma vida mais ou menos pública(da), com os sucessos seleccionados de entre picos de gostos. Em powerpoint. Com uma música lamechas. Como aquela retrospectiva dos Óscares da homenagem às glórias do passado, aos que morreram no ano que passou. E assim, de repente, estão o Mark e a equipa a esfregarem-me na cara que “colhes o que semeaste”. Como um jogo marado de blackjack em que eles detêm este baralho de momentos que são meus e não são, a ser jogado para meu ganho, pois então, mas em que me posso lixar à grande ou ganhar à grande. E eu sei que a banca nunca perde.

Consola-me saber que o meu “livro” é, como muitos, melhor que o filme, e nem chega sequer aos pés do rascunho da vida offline. Podiam, acho eu, ter feito um algoritmo mais jeitoso, que contasse uma história com personagens e diálogos. Eu teria ficado muito mais contente (sendo eles que fazem anos e não eu) se me tivessem mostrado um videozinho, em powerpoint e com música lamechas, de como o Mark gere as políticas de privacidade do seu enorme álbum-baralho de informação, que me mostrasse a quanto estavam as acções da casa à hora de fecho do PSI-20 no dia do aniversário. Um documentário, por exemplo, onde pudesse ver as carinhas lambuzadas da equipa a malhar o código dos algoritmos, e saber quantas horas trabalham por dia a censurar fotos de maminhas.

E porque sou uma gaja sensível, podiam ainda pôr uns gatinhos.

(Publicado a 6 de Fevereiro de 2014)

Deus ex machina

No teatro clássico, os eminentes deuses desciam ao palco suspensos por uma grua para salvar os heróis da iminente morte. Quando tudo parece perdido, o tipo desactiva a bomba no último segundo, consegue resgatar o antídoto para injectar o amigo que já está a ver a luz no fundo do túnel, chega o helicóptero para salvar o náufrago inconsciente há uma semana na jangada, já meio louco e com meia perna. E a gente pensa “Ah!, pronto!” e respira fundo e cancela a coroa de flores. A verosimilhança não é para aqui chamada. A plausibilidade, enfim, não sabemos, isso varia muito. Para usar a gíria sarcástica dos modernos memes: “seems legit”

Sempre gostei desta expressão do deus da máquina, porque sofro muito quando os heróis morrem no fim, e ainda bem que há artifícios na ficção, porque a vida real é uma catadupa de previsibilidades e estatísticas, de que já falei há uns tempos. Mas eu ia aqui em direcção à ideia de máquina e ia intersectar isto com uma espantosa ideia brilhante do “ghost in the shell” e fazer um carrinho à dicotomia cartesiana: no que toca ao nosso corpo, tanto somos o deus como a máquina que o carrega, dependentes de uma frágil corda e cheios de imperfeições de engenharia. No mundo ocidental, pelo menos, a ideia de uma mente pura que passe ao lado das leis da física e da gravidade, da decadência celular, da contingência e do acidente, é remotamente traduzida por um jocoso e ambíguo “ao menino e ao borraixo mete deus a mão por baixo”. Seems legit.

Saber os limites do deus e da máquina, do espírito que habita a concha que também vai construindo, é tarefa para toda a vida, e no limiar de ambos encontramos o tempo e o incontrolável. E encontramos ainda a sociedade, o Calgon e as bagas goji. Se o polegar oponível é superioridade evolutiva, se o amor é hormonal, se a loucura é genética, se a idade está na cabeça, se a dor se anula com meditação, se a cor de pele define os direitos, se os genitais definem a inevitabilidade da cozinha ou do berbequim, se a mescalina faz viajar entre dimensões de espaço tempo – e o que disto é natural ou artificio, se é que isso importa – ainda está para ser definido numa espécie de jogo de xadrês entre a espada e a parede. É no limite da dúvida que debatemos todos os dias a ética e a moral, os nossos medos e as nossas conquistas.

Nem sei se quero ter um corpo templo, de mármore perfeito e impoluto, onde tenha de baixar a cabeça e aprender um catequismo e repetir mantras e viver cheia de rituais e disciplinas. Até posso, às vezes, cheia de culpa e medo de arder no inferno do colesterol, entrar lá em dias santos de salada e fazer uma espécie de penitência de chá e ar puro, mas morar lá sempre e até muito tarde ia aborrecer-me. Contudo, não quero que me falhe num bombardeamento, e vou sempre metendo umas velas, reparando as infiltrações no telhado e caiando as paredes. E, se me der na veneta, ainda fecho a marquise do templo ou grafito-lhe a abóboda. Entre o deus e a máquina, venha o diabo e escolha.

(Publicado a 30 de Janeiro de 2013)

Hoje

Não disse que iria eu mesma comprar as flores.
Não deambulei pela cidade anotando os meus passos corriqueiros.
Não acordei insecto nem persegui um cetáceo
como uma louca.
Não reescrevi nenhum Testamento. Não desci ao inferno a buscar ninguém.
Não sofri o amor, nem esbanjei a solidão.
Não deixei fins por fechar. Não dissolvi fragmentos nem baralhei trilogias.

Não postei o que comi, nem fotografei a gata ou as magnólias.
Não foi hoje que descobri como desembaciar os vidros,
para poder limpar-lhes a respiração com a manga.

Não me endividei com o espaço, não faltei com a hora marcada.
Não usei aspas. Não usei o parágrafo.
Também não me usaram a mim.
Nem me atrevi a formatar. Amanhã veremos.

Hoje, um dia de sol injusto, não quis nada mais perigoso
do que estrear um poema, tirado do plástico, com a etiqueta à mostra,
que pouco mais sei fazer com as mãos geladas.

Hoje caio onde descanso.
Hoje sou generosa e dou tempo.
Poupo os amigos que lêem opinião experiente e comentário informado.
Amanhã veremos. Poderei precisar dele
para uma gargalhada,
ou um grito.

(Publicado a 23 de Janeiro de 2014)

Meta

Não, não é a dos leitões, sosseguem o copo de frisante e pousem a rodela de batata frita.

“Meta-” como naquele prefixo de umbiguismo, sobre si mesmo: um filme que mostra a filmagem de um filme ou desse mesmo filme, um livro que narra o autor a escrever o livro, e por aí. Estratégia de muitos poetas, escrever o poema que diz a escrita o poema, ou poesia, a meta-literatura ilustra muitas vezes a “angústia do guarda-redes antes do penalti” que é o confronto com a página em branco, e a dificuldade que é parir qualquer coisa ainda informe, e não saber que nome lhe dar.

Mais cedo ou mais tarde teria de vir o post sobre postar. Postar como muitos postam, sabendo porque o postam e como o postam. Podia embalar por aí até ao nonsense, mas a verdade é que isto provoca ansiedade. Há dias em que sinto um profundo desprezo pela humanidade e fico calada porque me apetece mandar todos para a Sibéria, outros dias revelam-me uma cobardia para a ficção, outros em que só me saem meias palavras em versos completos. Escrever na primeira pessoa é como andar nu na rua, mas de olhos vendados. E ler gente brilhante é ainda mais angustiante: quero aquelas sinapses perversas, aquela coragem! E a inveja é coisa feia, e por isso volto a uma gestação cautelosa. A escrita permite isto, backspacebackspacebackspace, em vez do desafogo imediato e esbracejado da enunciação oral. E depois fica tudo muito bonitinho, sem perdigotos nem copos tombados em cima da mesa, ou cinza no casaco, e tenho de usar a palavra Sibéria para não mandar ninguém para “o cimo do mastro”. E tanto por dizer.

E preciso que se saiba que para escrever 400 palavras escrevi 2000 ou 3000. Que o backspacebackspacebackspace guarda os meus impulsos e o CTRL-Z não me pede explicações. Que o produto acabado, uma vez publicado, não é um “desabafo”, porque o leitor ou a leitora não é meu amigo, é uma posteridade e eu estou de olhos vendados. é um artefacto que me girou entre as mãos algures entre o tique-taque e o pezinho-de-lã, 7 cigarros e uma bica demasiado curta. O meta-artefacto foi talhado num teclado onde faltam algumas teclas e isto é uma metáfora. Ou uma meta do género.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 16 de Janeiro de 2014)

We’ll always have January

Esta coisa do ano novo e do ano transacto e dos balanços e inventários, das listas, desejos e resoluções diz-nos que somos muito organizados a médio prazo. Bem-intencionados. Que aceitamos conselhos. Que não só estamos dispostos, mas que também queremos, acima de tudo, mudar. Dizemos a nós próprios que muita coisa não está bem. Dizem-nos que podemos sempre ser melhor. Quer nos comparemos a Cristo, ao amigo em topo de carreira aos 25 anos, às fotografias de há 7 anos atrás ou à actual namorada do ex-namorado, a frustração concentra-se nervosa nesta época e decidimos fazer coisas por nós e pelos outros. Vamos fazer cenas boas. Vamos deixar de fazer cenas más. É agora, é já, é simples! Dia 1! Como se a malta tivesse estagnado toda algures ali a meados de Setembro de um qualquer ano passado à escolha e precisasse de um empurrão do calendário.

Nesta fúria de início de ano, estive quase quase a tesourar uma bela franja em frente ao espelho, num momento sacrificial abrãamico, até que a divina insegurança me susteve o gesto e temperou a maluqueira. Fui antes pintar as unhas com a acetona ao lado.

Numa altura de celebração rotineira de uma volta solar, acontece que tudo nos lembra que somos seres imperfeitos e incompletos, em termos absolutos e em termos relativos: a família que vai pressionando ao de leve, as mil sociedades a que queremos pertencer e as outras mil que negamos ou repudiamos, a filosofia generalista da hetero-auto-ajuda das redes sociais, a imagem idealizada de um homo excelsus que Darwin nunca nos deu. E somos apanhados numa esquizofrenia do “muda!” e do “nunca mudes!”, do “autêntico” e das “modas”. E é cansativo, isto. Confuso, no mínimo, descobrir onde acaba o bebé e começa a água do banho. Encontrar o ponto G da verdade e da motivação. Há objectivos objectivos mas não há uma sacana de uma estratégia. Arghhh! Olha, pronto, não deu. Computer says “no”.

No final dos balancetes, cada um juiz, júri e carrasco das suas decisões em formato enlatado de lista de compras e programa eleitoral, a indulgências com que nos perdoamos no fim de fevereiro já não nos dão direito a julgar o vizinho. Nos entremeses, dá para ir percebendo que temos problemas com coisas drásticas e pequenos passos; com abrir precedências e concretizar coisas que não voltam, nem com o devido tempo nem com, ou apesar do, muito  e sofrido arrependimento. É tudo muito urgente em janeiro, mas a paciência é uma virtude em junho, e um-dois-tcha-tcha-tcha, passo doble, e cerra!

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 09 de Janeiro de 2014)

Coração de papelão

Num texto que li há uns anos e voltei agora a ler, Umberto Eco mencionava três tipos de memória: a orgânica (a dos nossos neurónios), a mineral (das pedras onde se inscreveram hieróglifos e, digo eu, os fósseis, mas também a dos computadores), e a vegetal, que é a dos livros, os de papel. Acho que ele não se importaria, na sua apologia das bibliotecas, que eu aqui inclua também na memória vegetal todas as folhas de rascunho, cadernos e post-its, das portas de casa de banho e dos troncos de árvores a canivete.

A memória é toda ela orgânica, parece-me, pois vai nascendo, madurando e decaindo, mesmo a das pedras e dos discos duros. Toda ela se altera, variando com o tudo que está ao lado, as instituições, os sentidos privilegiados, a erosão e as estações do ano, a alocação interna ou externa e a necessidade imediata ou aleatória do acesso àquele detalhe. Pessoalmente, a minha memória cresceu desde que o telemóvel agora guarda os números todos e eu não tenho de os memorizar, mas ainda assim tenho uma folhinha de papel na carteira para as emergências, “não vá o diabo ser de Celas” (sic).

Toda a gente sabe coisas de cor(ação), e aproveito para lembrar a bela expressão inglesa que manteve o étimo, “to know by heart”. Toda a gente fica com memórias debaixo da língua que só vai recuperar naqueles minutos antes de adormecer e não no exame, na noite de quizz ou na conversa pertinente. Toda a gente tem momentos de esquecer o nome daquela colega de liceu e lembrar do nome do bartender do Barco do Amor. Toda a gente tem medo de esquecer alguma coisa importante, esquecer aquilo ou esquecer tudo. E, a dada altura, toda a gente já quis esquecer alguma coisa importante, esquecer aquilo ou esquecer tudo. Pois, mas não funciona assim. Vamos alternando entre papel, pedra e tesoura.

Eu queria falar era de livros, dos e-livros e de toda a memória dos livros, mas não consigo, porque eles estão sempre a mudar. Perguntei no outro dia a um amigo que livro seria ele, num contexto extremo de Farenheit 451, em que todos os livros fossem pessoas e memória orgânica de tecido neuronal. Ele não me soube responder. Eu também não sei que livro seria: que história, para além da minha, sempre a mudar, eu conseguiria contar e repetir literalmente literalmente (não é gralha), para sempre. Que livro conseguiria eu “saber de coração”?

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 12 de Dezembro de 2013)

The final frontier…

É impossível chegar a Washington DC e não sentir uma “aura“. Com a modesta geografia do mapa contrasta a concentração das legendas do poder, do conhecimento e da autoridade: Casa Branca, Biblioteca do Congresso, Banco Mundial, Academia das Ciências, FMI e FBI, e por aí fora, na esmagadora arquitectura neoclássica de duas dúzias de quarteirões a uma escala… bem, de poder e autoridade. Se era para impressionar, conseguiram, ainda que me ocorram algumas cenas do Forrest Gump e não consigo evitar um pequeno esgar.

Pensei que vinha tirar umas chapas tipo postal ilustrado quando os meus spider senses disparam! Museum of Air and Space! Pedras lunares, fatos de astronautas, cápsulas, foguetes, diagramas, fotos, telescópios!! Aiopá aiopá, quero la saber dos presidentes em salas ovais e em cadeiras de ferro e dos heróis das batalhas e da constituição cheia de emendas! Pronto, não é a NASA, mas é a metonímia. O poder aurático dos objectos quasi-únicos presentes em qualquer museu ou galeria. E mais próximo que tenho de naves espaciais, mesmo que sejam apenas adereços de um filme caseiro. Quero la saber, nunca será uma desilusão.

Deixem-me aqui apoiar o humorista Louis C.K. quando goza com as pessoas que se queixam da Ryan Air: ESTÃO A VOAR, CARAMBA! A voar de um país para outro! A publicidade é chata mas não é escorbuto! Pronto. Se já voar ainda é para mim uma espécie de magia, conseguir vencer a gravidade de um planeta inteiro… Eu tirava o chumbo dos dentes e ia, sem pensar duas vezes, a comer de uma bisnaga e a urinar para um saco. Compreendo perfeitamente a personagem do Ethan Hawke no deslumbrante Gattaca! Como espero viver o suficiente para ver regressar a primeira missão tripulada a Marte!

No fim do liceu, o meu brilhante oh-captain-my-captain professor Soeiro ilustrou-nos o significado da palavra awe (em awesome e awestruck): chegou pela primeira vez ao Japão durante a noite e de manha quando abriu a janela do quarto… Awe! O monte Fuji! Mesmo ali! Um sentimento religioso de pequenez: awe! Oh! Aiopá. São as maravilhas no mundo, e para mim é o universo como maravilha. O meu maior sonho é ver a Terra la de cima como se fosse uma bolinha de stress e Oh! E depois olhar para o escuro do outro lado, para aquelas luzinhas a brilhar a toda a volta como uma cidade à noite sem sul nem norte e, depois de uns segundos de silêncio, “Aiopá!”

E muitos de nós procuramos esta anti-adrenalina – o sangue parece que congela em vez de acelerar – de se ser “o menor” em vez de “o maior”. De ser a improvável e singular parte em vez do todo, e dessa forma sentirmo-nos um bocadinho mais completos quando não somos mais do que pó de estrelas.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 5 de Dezembro de 2013)

Dear sir(s)/ lady(ies), atenienses…

Invejo aqueles que nunca escreveram uma carta de apresentação a pedir emprego. Também lhes chamam carta de “motivação”, e acho que é porque é preciso estar-se mesmo motivado ou motivada para escrever aquela coreografia bem educada de convenções sobre fórmulas sobre dicas com o incontornável “o meu sonho sempre foi trabalhar com a excelente empresa de v. excelência”. É uma valsa no escuro com o fantasma da ópera.
Se ele há coisa mais constrangedora é escrever uma carta (leia-se email) dirigida a um ignoto sujeito e tentar convencer o ignoto primeiro leitor da carta (que porventura não será o mesmo ignoto a quem me dirigi) a passar a missiva à (gnota) pessoa responsável pelo recrutamento. É uma situação, no mínimo, mercantil (“vão ganhar taaanto dinheiro se me contratarem”) e, no máximo, circence (“olhem para mim maravilha da natureza que estudei aqui e ali e tive estas notas e sou a melhor coisa depois da batata frita”). A carta não pode ser nem vaga nem descritiva, nem demasiado branda (que pessoa sem imaginação!) nem demasiado espalhafatosa (ih, que pateta!). E dez mil vezes passada pelo escorredor ortográfico até ficar sequinha.  Se calhar sou eu que dou demasiado valor a isso.
Pensei eu, um dia, provavelmente ao ver “As Teias da Lei” ou a “Ally McBeal”, ou até a ler O Mercador de Veneza, que viesse no futuro a usar a retórica para salvar alguma vida humana inocente de uma justiça draconiana. A retórica, despojada hoje do estatuto de “arte liberal”, é posta ao serviço da necessidade de convencer alguém a ler uma coisa que não tem retórica nenhuma, o CV. É todo um exercício de auto-estima. Imagino toda a retórica que é todos os dias apagada dos computadores e da memória, sentindo que falhou, mas que na verdade nunca teve hipótese.
No meu top ten de palavras/expressões arrepiantes, logo a seguir a “acta” vem “carta de apresentação”. Em todas as cartas – arrepio – de apresentação altamente “motivadas” que tenho de escrever só me apetece dizer:
“Caro senhor /senhora,
vamos tomar um café ali ao lado e eu faço-te um desenho. Vamos falar de uns livros, de uns filmes, da questão israelo-palestiniana, do Dão ou do Douro, de ervilhas com ovos escalfados, de mulheres e de que maneira falamos quando falamos de mulheres. Vamos falar de quantas vezes por mês choramos, quantos palavrões dizemos por minuto, quantos décibeis usamos em quantos deles. Vamos falar do zombie apocalipse, de casos perdidos, de intransigências virginianas e de listas de compras. Depois de falarmos mais um bocadinho se calhar vou perceber que nem quero trabalhar para si, e nem precisei de ler o seu CV.”
Mas gasto o meu latim a escrever nessas cartas outras coisas parvas e muito menos interessantes, e como não tenho jeito nenhum para isso continuo desempregada… perdão, freelancer!

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 28 de Novembro de 2013)

B(re)aking B(re)ad

Nunca fui muito esquisita com a comida. Só não vou à bola com coisas que parece que acabaram de sair do estômago de alguém, tipo açorda e esparregado. Também não sou alérgica a nada, percebo o básico da nutrição e gosto muito de cozinhar, para mim e para os outros, por isso houve dias em que passei horas a tentar reproduzir as lulas recheadas da minha mãe ou a afogar as codornizes em molho de ostra e amêndoas, e outros dias passados a “reddon” e a “Eukiá” aquecidos no microondas directamente no taparuére.Temos de comer e pronto. O resto é cultura. Magia. Bioquímica.Tradição. Vício. Gula. Tédio. Estrelas michellin e programas de televisão. Que se lixe os frescos, os naturais, os lights, as fibras, os bifidus e os caseis imunitas desta vida. Fumo um maço por dia, tenho o destino traçado e o palato um bocado confuso! Se houver há, se não houver, improvisa-se da lata e imita-se até virem dias melhores em que milagrosamente acordaremos num planeta pré-industrial onde nenhum bicho cagou na fonte da água. Cada um no seu, claro.Tudo isto porque agora estou nesta sociedade diversa e paranóica e sofri a tentar arranjar sal grosso e a ver clementinas a 6 dólares o quilo. Sofro com as confusas variedades de alface. Sofro muitíssimo porque a pizza aqui devia ser o sonho de qualquer italiano, e eu devia levar para casa uma mala extra só com pepperonis. Sofro também com (e por) um amigo alemão-suiço que se recusa a comer chocolates americanos, beber cerveja americana, e por aí fora, quando eu sei que ele só tem é saudades de casa. Ele tem o lar na boca, como todos nós. Sofro muito quando percebo que afinal não percebo assim tanto de comida porque não percebo assim tanto do mundo. Somos o que comemos? Estou feita ao bife… com um coração de manteiga.
Fomos a uma performance onde havia vestidos cobertos de pão. Vários tipos de paposecos, carcaças e bicos em padrões geométricos, com sementes, sem sementes, de trigo, de centeio, todos com gluten e provavelmente nada kosher!  O público sentado à volta levantava-se à vez e ia tirar um pão do vestido de uma das moças, e comia comunalmente. A ideia era partilhar ritualmente o pão (e o vinho, que era de borla) num ambiente dinâmico e meio esotérico com projecções e música. Expliquei a uma velhota que estava sentada ao meu lado, entusiasmadíssima com aquilo tudo, que se houvesse ali ao lado um pratinho de azeite quente com um dentinho de alho para molharmos o pãozinho, isso é que era falar! A comida junta-nos e afasta-nos. À volta da mesa, em frente ao computador, em doses individuais em fornos de pão comunitários, de geração para geração, de país para país para cidade e aldeia. Aquele que já partilhou a sua comida com um desconhecido, ou já recebeu com gratidão comida de um desconhecido, sabe do que é que eu estou a falar.
Texto de Cláudia Pinto
(Publicado a 21 de Novembro de 2013)

It was a dark and stormy night

Começam assim muitas histórias de terror, mistério ou suspense. Chama-se convenção de género: o leitor ou leitora já sabe o que lá vem, cria um conjunto de expectativas e claro, quanto mais usada a convenção, mais subversível se torna. Aproveito a passagem do Halloween para fazer uma pequena catarse de pré-meia-idade remetendo a confissão e a partilha para os anos mais negros da minha vida, há bastantes luas atrás, em que… bem, eu era gótica. Era, fui, ainda sou um bocado, bem vistas as coisas. Acho que o Coppola teve muito a ver com isso em 92, mas eu antes em miúda já gostava do Exorcista e do Stephen King. No liceu tive uma paixoneta pelo Eurico, o presbítero. Hoje em dia acho que já foi tudo dito sobre vampiros.Mais do que uma fase, foi uma face que não consigo separar (“podem tirar a gaja do gótico mas não conseguem tirar o gótico da gaja”). Explorei-a com filmes clássicos, literatura variada, muita música, e boa companhia. Mais do que uma realidade muito maquilhada, foi uma descida ao Hades da imaginação, do trágico, do cénico e do encenado, arquitectura sacra e viagens no tempo, incenso e bruxas, tabuleiros de Ouija e garrafas de absinto, veludo, flores secas e rendas. Em Coimbra havia as Noites Escuras no Califa, e bandas de Goth Rock e Dark Folk, e os Mission vieram tocar à Queima das Fitas. Ainda não tinham construído o auditório na Faculdade de Direito e havia ali umas belas ruínas. Ainda havia freiras enterradas no lodo de Santa Clara-a-Velha.Há milhares de piadas internas sobre góticos e góticas, muito humor (negro) sobre todo o aparato social que envolve os seres meio-mortos-meio-vivos que sofrem muito e não gostam de ir à praia, presos num limbo existencial entre o enfado com o mainstream e o ser-se muito cool com apenas duas ou três cores. Os góticos conseguem rir-se de si próprios, mas não à gargalhada. Alguns até reconhecem a luta de classes. É um meio variado, meio urbano e meio rural. Como é que se tira um gótico de cima de uma árvore? Corta-se a árvore. Quantos góticos são precisos para mudar uma lâmpada. Nenhum, que eles usam a luz de velas. O gótico eventualmente ri-se: Hum.Há muitas luas atrás, eu já na altura era um bocado rafeira, porque vinha das atmosferas musicais de Seattle e da Califórnia e gostava de andar no mosh e nas cidades movimentadas. Continuo um bocado rafeira, e sempre sem medo disso. O gótico levou-me à ficção científica e à música electrónica, manteve-me na poesia e nos concertos, deu-me belas vozes e belos tempos. De alguma forma que ainda não sei bem interpretar, esses anos formativos (como eu mimo esta expressão!) deram-me algumas ferramentas para lidar com a morte, a dor e a saudade que viria depois. Aí, quando a realidade te tira o ar, quando não há alquimia vitoriana que te valha, já não há música que seja triste, ou negra.Cristo morreu, Bella Lugosi também, e eu própria tenho dias de sombra.
Texto de Cláudia Pinto
(Publicado a 16 de Novembro de 2013)

Once upon a time in

Andei a evitar a crónica de viagem. Não queria ser um Cadilhe. Mas não posso fugir mais à necessidade catártica de fazer sentido destes dias-a-dias fragmentados de excesso de informação. Ontem sentei-me e escrevi um poema. E, num sentido prático, quanto mais escrever agora, menos tenho de contar depois. Nova Iorque não é “A América” e é a América, com todos os estereótipos e todas as invulgaridades que encontramos em cidades, se estivermos atentos. Aliás, aqui é mais fácil dar tudo como adquirido: é tal e qual como nos filmes e nas séries, e isso é uma boa vantagem.

Controlado o sistema de transportes e o mapa do centro e periferias (PATH, MTA, LIRR, Ferry), a moeda (singles, quarters, dimes e pechinchas), as transacções-contas-de-cabeça (gorjetas obrigatórias e os preços sem imposto que nunca batem certo) e as perguntas da praxe (cream and sugar?, cashback?), resta-me ir pondo check! na minha lista cinematográfica de subúrbio e metrópole: garage sales and thrift stores, check!, telemóvel em chinatown, check!; bar local à pinha para ver o basketball (Go Brooklyn Nets!), check!, bagel com cream cheese, chili hotdog, pepperoni pizza, cheesecake, pumkin pie, check! Tudo em recipientes de papel, esferovite ou plástico, check! Ratos no metro e esquilos no parque, check! Wall St. yuppies e shopping-cart homeless people, check! E a lista vai por aí, sirenes e algemas, papparazzi e celebridades, velhotes italo-americanos de charuto no bolso (ganhei um novo respeito pelas agências de casting), avant-garde nas galerias de copo na mão… tudo uma grande odisseia onde não dá para pôr “pausa” e ir descansada à casa-de-banho e à cozinha.

Depois há todo um sentido vintage dos edifícios, das pontes e dos portos, dos equipamentos em ferro forjado, dos relógios e dos bares, dos azulejos por lavar, dos carros amassados e das limusines brancas, do emaranhado de fios eléctricos. Partilham de uma época própria, que não é bem 2013, mas que também não é 1999 nem 1982. Nova Iorque é um filme de época incógnita de um género muito próprio, híbrido (quase “steampunk” no inverno, com o vapor a sair das tampas no chão) que nunca tem fim. Com Morricone.

E depois há o silêncio da rua. Nesta cidade tão alta e tão urgente, de buzina na mão, onde toda a gente fala sozinho para a ausência do smartphone, e ajuntamentos anunciam a Segunda Vinda do Senhor, sinto quase uma espécie de estática. As janelas estão fechadas e não se partilham headphones. Desço ao metro para ouvir música e, se tiver sorte, dançar um bocadinho.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 7 de Novembro de 2013)

Eleven o’clock

Farta de andar às voltas nas avenidas quadriculadas a subir e a descer as escadas sujas do metro em busca de temas para escrever a tempo e horas noutro fuso horário, que entretanto também já é outro, assinalo a minha desistência temporária da coerência, meio lamechópoética meio ai-que-não-me-quero-expor, com um chorrilho de coisas avulsas que um dia vão surgir em formato sério ou em formato “ode para um heterónimo desbocado”. Primeiro: nós em português escrevemos frases longuíssimas (remeto para a frase anterior, exemplar!). Segundo: o Hudson é mais belo do que o rio que banha a minha aldeia, mas também não é, porque o Hudson não é o rio que banha a minha aldeia. Terceiro: as ideias numeradas são completamente parolas.

Quanto às comparações, inevitáveis e que toda a gente acha que quer ouvir, entre o que conhecia de Portugal e o que estou a conhecer de Nova Iorque, tenho umas quantas. Maddie McCann e Avonte Oquendo: a menina inglesa desapareceu da casa de férias no Algarve enquanto o adolescente afro-americano de Queens desapareceu à porta da sua escola. A mobilização massiva nesta cidade de 12 milhões de habitantes em busca deste rapaz autista (que não fala) afastou-me das novelas policiais que entretanto se fizeram sobre o caso McCann e levaram-me a especular sobre o destino que terá tido este menino perdido há 3 semanas nestas ilhas implacáveis. A minha racionalidade não dá para muito, e fico angustiada com a minha imaginação. Que sobrevivência, que solidariedade encontrará Avonte entre a noite e os ratos, os baldios e os túneis, a gente apressada, os loucos e os bêbedos, rodeado de água por todo o lado e sem uma gota para beber?

Eu não ia falar disto. Ia falar do Halloween e das cores vivas das abóboras e das maçãs caramelizadas, dos olhos das pessoas grandes e cansadas que mexem as máquinas no porto e das folhas das árvores autóctones. De chocolates e de casas enfeitadas. Ia falar destas coisas celebratórias, deste folclore consumista. Ia compará-lo com qualquer coisa lá da terra, como se fosse tudo muito diferente. Ia guardar estas coisas para um dia fazer uma ode. Mas quando penso no fuso horário e que o texto está atrasado penso em Avonte (e Maddie, Rui Pedro, e todos os meninos perdidos, mas principalmente nas suas famílias) e vem-me à cabeça uma mensagem de serviço público, moralista e paranoica, do final dos anos 60 americanos: “It’s eleven o’clock, do you know where your children are?” Não sabemos, pois não? Andam aí nos bolinhos e bolinhós.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 31 de Outubro de 2013)

Malheur

Nos primeiros anos da faculdade estudámos um conto do Edgar Allan Poe chamado “The Man of the Crowd”. Interessou-me na altura como o mestre das caves escuras, enterrados vivos, emparedamentos, gatos pretos e casas góticas falava magistralmente do rebuliço da cidade em movimento e do anonimato da metrópole. Poe, percebi, tanto era claustrofóbico como agorafóbico. E um bêbedo, mas isso muita gente sabe. Voltei a Poe, tantos anos depois, sentada numa praça em Nova Iorque, rodeada de gigantes e de formigas.

Um dos meus hobbies favoritos é fazer “crowdspotting”: ficar quietinha num sítio de passagem e ver gente a correr de um lado para o outro. Inspirar a diversidade, tecer histórias de 30 segundos sobre aquele um e aquela outra, ouvir-lhes as conversas ao telefone com efeito de Doppler, treinar as estatísticas e os padrões. Perceber em quê é que a Union Square é parecida com a Praça da República e com a porta dos Armazéns do Chiado. Passa-se por ali. Passam-se panfletos, colam-se cartazes, reúne-se para as manifs, vende-se (tudo), compra-se (cenas), pede-se (dinheiro e paz no mundo), dá-se (tanga), fuma-se (à pressa), canta-se (hare krishna), namora-se (à distância). Tudo ao mesmo tempo a toda a volta.

Uma rotunda onde há um relógio. É uma adrenalina, uma espécie de droga que primeiro dá tonturas e depois embala e adormece. Por momentos até se pensa que aquilo é “o centro”, e é bom estar no “centro”. E é bom ser invisível, escondida à vista de todos, com o tempo a contar para baixo e para cima, e à minha volta, para todos menos para mim, que estou ali parada a suster a respiração dos carros, dos autocarros, dos skates, das bicicletas, dos carrinhos de bebé, dos sapatos da moda.

O homem de Poe não era “na multidão” mas “da multidão”, e isso é belo e assustador. A multidão torna-se as paredes sem porta, a casa em decadência, o morto-vivo, e tudo faz sentido, e fico mais claustrofóbica e agorafóbica, e escondida à vista de todos. A epigrafe do conto de Poe era, no cosmopolitanismo pré-modernista, “Ce grand malheur*, de ne pouvoir être seul”. Uma espécie de maldição ou infelicidade, não conseguir estar sozinha. Por isso procuro estes centros, no meio de gigantes e formigas, para embebedar-me de cidade.

* Ironicamente, da porta dos Armazens do Chiado lê-se, sobre uma porta em frente, “Au bonheur des dames”.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 24 de Outubro de 2013)

SPSS

À falta de uma religião científica, existem as seculares probabilidade (ou probabilidades) e a estatística (singular disciplinar de estatísticas). Uma dá-nos a “fé” e a outra a “verdade”. Assim justificamos os preconceitos, as expectativas, e a esperança, em massa social com molho de tomate. Assuntos delicados para abordar levianamente em poucas palavras de toca-e-foge, não é?

Há uns anos os meus amigos das ciências exactas explicaram-me que a probabilidade de uma pessoa ser atingida por um raio e a de ganhar o euromilhões situavam-se na mesma casa de zeros. Fiquei a pensar: mas milhares de pessoas jogam todas a semanas com a esperança que lhes calhe o prémio, mas muito poucas acreditam mesmo que lhes vá cair o raio em cima num dia (noite, é sempre noite) de tempestade. Muitas das que jogam no euromilhões também pensam, enquanto puxam pelo carrinho a 190 km/h (numa noite de trovoada), que as estatísticas “más” são coisa exagerada e que acontecem aos outros: aos que conduzem mal em estradas más, aos mal dormidos e aos bem bebidos. Metemos e tiramos variáveis nas probabilidades e estatísticas (que sobem e descem constantemente, nervosas, como os mercados) a nosso bel-prazer, muito pouco científicos e muito beatos que geralmente somos. Acredito piamente que sempre que acendo um cigarro fico mais próximo de uma eufemística “coisa má”, e menos piamente de todas as vezes que como uma alheira frita com batatas fritas e ovo a cavalo. O que não mata, provavelmente – ou probabilisticamente – engorda.

Somos estatisticamente um povo “pobrete mas alegrete”, com probabilidade a piorar. Tudo isto comprovadíssimo com inquéritos telefónicos a 1045 pessoas da rede fixa por uma empresa independente com trabalhadores recém-licenciados a recibo verde com probabilidade de não renovarem contrato e estatisticamente a abandonar o país e a esperança. 745 pessoas da rede fixa dizem que o que é preciso é saúde, 250 dizem que só com uma bomba é que vamos lá, 1045 assinaram o contrato da rede fixa e 350 desses não pagaram a conta deste mês. Será mais ou menos assim, estatisticamente? Provavelmente. (E nem me ponham a falar sobre margens de erro, que me dá ganas de abrir já aqui uma folha de cálculo!)

As probabilidades e a estatística é um jogo entre optimistas e pessimistas. Um meio copo de onde todos bebemos. Na cultura popular, a sorte favorece os audazes, quem vai ao mar avia-se em terra, o que tem de ser tem muita força, quem não arrisca não petisca, quem anda à chuva molha-se. E em noite de trovoada, com muito azar estatístico, até apanha com um raio.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 17 de Outubro de 2013)

A luz no fundo do caixote

As mudanças são sempre cansativas e complicadas. Seja casa, carreira, cidade, sejam forçadas ou voluntárias, circunstanciais ou planeadas. Complicadas porque exigem uma negociação mais ou menos feroz entre o presente em trânsito, o passado a carregar em analogia, e um futuro que não se sabe bem. Cimeiras, protocolos, concílios, tratados, cedências e acordos. Exigem um sentido prático de espaço, energia e planeamento que vai ter de berrar seriamente com uma lamechice pegada. Somos, no fundo, acumuladores. “Hoarders” barrocos. “Quem guarda velho ganha novo”, diz o povo. Uma bela tanga.

É, no geral, muita informação a gerir em pouco tempo. Coisas, cenas, “stuff”. Caixotes ou sacos, para quantas viagens? Escadotes e estantes. Devoluções e livros de instruções. Gatos escaldados e águas frias. Nomes de ruas e interruptores. Paragem à porta ou garagem. Tendinites e luxações. Berbequins e extensões. A dúvida caturra do “tem mesmo de ser?” E, no final, afinal, o que fica e o que vai. E se podemos arranjar bracinhos amigos para carregar as tralhas, há aquela parte da selecção e embalamento onde não queremos bracinho nenhum, mas onde precisamos de um só coração saudável e bem orientado, um bocadinho empedernido.

Falo de horas – dias! – de arqueologia pessoal nas gavetas e nos armários, a reviver – chafurdar! – no cotão as linhas espirais de sedimento calcário com que o caracol faz a sua casa. Há que separar o boletim de vacinas dos brinquedos dos cereais, os naperons das tias das peúgas tristes, os albuns de fotos das t-shirts “para dormir”, o peluche oferecido pelo ex e os brincos comprados na Irlanda. Encontramos coisas que não estavam perdidas, mas apenas esquecidas atrás das gavetas. Depende tudo, acho eu, do bom estado, não das coisas, mas da memória do disco externo.

Há muita edição, hesitação, até vergonha revisionista, quando aquelas pantufas com elefantes, já meio estropiadas pelos gatos, nos lembram agora, olhos nos olhos, que tudo fez sentido a dada altura, e agora já não. A mudança pode ser “a” boa desculpa, ou então ainda se arranja um cantinho naquele último caixote.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 10 de Outubro de 2013)

Quem quer ser milionário?

Um conceito operacional de ficção, no meu livro de conceitos operacionais (edição de autor, no prelo) é tão simplesmente, para não complicar muito, “uma história que não é a minha”. É de alguém outro, noutro sítio que eu não sei, mas não a minha. Não tem nada a ver com facto versus imaginação, se bem que muitas vezes imagino que a minha vida é uma novela que está a ser escrita numa cave no México ou na Venezuela a 2 euros/hora a recibos verdes, mas com menos maquilhagem e, vá lá, com muito menos drama. Portanto, neste caso concreto, é uma questão de perspectiva e de “suspensão voluntária da descrença”. Diria mais, e explicarei, é uma questão de sobrevivência.

Ora bem, esta pessoa aqui tem um trabalho temporário que é físico e mecânico. No hotel onde trabalho a contra relógio, de bata e avental, sou a menina do aspirador, que faz camas, empurra os carrinhos de roupa branca pelos corredores, e sorri fofinha para os hóspedes quando pára para lhes dar passagem. No hotel onde faço pesos, abdominais, passadeira, step, aerobicófitness e cardiopump 8 horas por dia a recibo verde, o cérebro descansa de pensamento complexo. Há uma rotina, protocolo e guião que nos poupa o neurónio. O Teco, esse neurónio, vai de férias. O Tico, o outro neurónio, que é hiperactivo com défice de atenção, entra em acção.

De bata e avental, já fiz duas seasons de Downtown Abbey, com reprimenda da governanta e tudo. Já fui “Maid in Manhattan” como a Jennifer Lopez nos domingos à tarde, mas sem milionários no fim. Já cantei karaokes de “I want to break free”, de saia de lantejoulas e bigode, com todo o efeito dramático de uma rainha. Depois cansei-me dessa e fui a orfã Annie em “It’s a hard knock life ”, mas sem milionários no fim. Já fiz “Tigre e Dragão” a desdobrar lençois engomadíssimos, Ralph Machio em wax on/wax off, Hulk em fúria a levantar camas como se fossem Ford Fiestas, Missão Impossível com sprays de Diesina. Cinderela a falar com os passaritos pela janela aberta (mas sem milionários no fim). À noite, ia jurar que vi duas meninas gémeas perto do elevador. Enquanto uns se preocupam com o bolor das paredes, eu preocupo-me com Cluedos (foi o bagageiro, na cozinha, com uma tenaz da lareira).

Descoberta a falha na Matriz, o Tico-Neo é o gajo da resistência, que não deixa que “O sistema” lhe vergue a vontade. Ele sabe que são as ficções que nos fazem aguentar. E dança com o fiel aspirador azul, que é muito parecido com o R2-D2 e salva sempre o dia e o afasta do Lado Negro da força. Nesta novela mexicana ainda a ser escrita, chamo-lhe, com sotaque, “Arturito”.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 3 de Outubro de 2013)

Lupins

Ocorreu-me um dia destes, provavelmente numa daquelas viagens de autocarro em que da janela se vê o mundo todo e as suas partes ocultas, listar as coisas a que o hábito português, e os costumes, a cultura e a expressão, obrigam a “pôr de molho”. Sim, admito que sou um bocado essa pessoa: a freak das listas. Ora temos obviamente o bacalhau, a ocasional roupinha, as azeitonas, as barbas (quais não sei), os pés quando cansam… e ainda o grão de bico, o feijão e os tremoços.

Molhar, ou antes demolhar, em que a molha é demorada, é um gesto pensado,  que envolve o planeamento do dia ou da semana. Envolve uma ou mais acções – pôr de molho, mudar a água, tirar da água, mas envolve principalmente a passividade da espera calculada entre o ponto certo das acções. Se for pouco tempo não funciona, se for tempo demais abre-se caminho à criação de vida aquática (conselho: deixar sempre à vista!). Para cada coisa, o seu tempo, a sua medida, e um pouco de “olho” e bom senso. Nesta metafísica não há metafísica nenhuma. Da vida aquática destas coisas, dizem as crianças que o mar é salgado por causa dos bacalhaus que lá vivem, e dizem os outros (quais não sei) que os tremoços são o “marisco dos pobres”, talvez porque não se conhece ninguém alérgico a tremoços, e porque com sal e cerveja marcha tudo com sabor a mar. Aquele que nunca tentou explicar a um amigo estrangeiro (do primeiro mundo, claro, onde nunca se põe nada de molho) o conceito do “very typical” tremoço, a sua tradução, o seu preceito, e os níveis de sal culturalmente aceitáveis, que atire a primeira pedra!  É só nosso, o tremoço, e devia ter um fado, uma marcha popular, um festival (sabem o que é um chícharo?). No entendimento comum, os tremoços não deixam de ser um mistério, um mito urbano. Conhecem alguém que plante tremoço, ou vá sazonalmente para a apanha do tremoço? Alguém já viu um tremoceiro? E o valor nutricional do tremoço, sabem? Aconselhado a diabéticos? É kosher, é halal? Já alguém escreveu uma tese sobre o tremoço?  E um quadro, uma escultura, uma metáfora, em que este produto tão querido seja culturalmente dignificado? Alguém deu tremoços ao Bourdain, ou ao Oliver? Francamente, acho que ninguém quer muito saber, e só por isso somos mais pobres.Findo o verão e fechadas as esplanadas, esquecemos os rituais de fim de tarde e as feiras para ritualmente termos saudades disso nas noites chuvosas de inverno. Como ao bacalhau, às azeitonas, aos tremoços, sazonalmente vamos mudando as águas aos planos, acrescentando sal, tirando sal, secando e demolhando as esperas, para enganar o tempo, a distância e as estações. Nesta cultura de pobres somos prevenidos, parece-me, e imaginativos, porque ao simular em qualquer coisa o sabor do mar teremos sempre perto o sabor da terra. E não há mais metafísica que isto.Texto de Cláudia Pinto
(Publicado a 26 de Setembro de 2013)

Vintage

Alguém me disse uma vez que “Coimbra é cidade mais linda do mundo vista de longe”. Da ponte? Na hora da despedida? Com distanciamento? Na superfície? No postal?

Faz agora esta semana que cheguei a Coimbra, há 20 anos. Vim da particular terra de província (longe) para esta particular cidade, para a universidade em particular. Não vou descrever em 400 palavras os meus verdes anos, a experiência académica, os sonhos defraudados pelo sistema; muito menos usarei o meu tempo de antena para conselhos, avisos e lamentos bairristas. Pelas circunstâncias que se apresentaram, nos idos de 1993, muito jovem, mudei de cidade, sozinha. E por aqui estou, por circunstâncias que se apresentaram entretanto. Tornei esta cidade minha, não por herança, não porque “tem tudo a ver comigo”, não porque me recusei voltar, mas porque calhou, um pouco como uma árvore. E não é melhor nem pior do que outras. É preciso saber jogá-la. Do ponto de vista de uma árvore, com casca grossa, espinhos escondidos, e umas florzinhas muito bonitas que dão alergia a pessoas sensíveis.

Fui ficando, sem que nenhuma de nós – a cidade ou eu – tivesse assinado nada a sangue, sem promessas nem mentiras de “para sempre” ou “nunca mais”. E assim vamos vivendo, na relação mais longa que alguma vez vou ter, com muitas discussões e desentendimentos, espirros e ameaças de motoserra. Eu mudei e ela mudou comigo, e agora somos familiarmente estranhas (ainda) e estranhamente familiares, numa vida organizada em círculos concêntricos em torno de uma rotunda-que-não-é-redonda.

Neste território construi muito daquilo que sou: de mulher, cidadã, pessoa, amiga, com muitas palavras à mistura, porque conheci aqui muitas conversas, muitos livros, muitos poetas, actores, escritores, músicos. Nesta altura da retórica podia puxar galões e fazer um pouco de name-dropping, porque em 20 anos é facil conhecer jovens bêbedos que não sabem que vão ser famosos e famosos com quem é facil embebedarmo-nos. E o contrário que também é verdade: outros que nem por isso, e não é só em Coimbra, que tem fama de muita coisa, e lhe tiram muito pouco proveito. Como qualquer cidade, ao fim de uns anos, de longe e de perto, é um ralo, um ovo, um T0 apalaçado com marquise de alumínio. E uma vista excelente para muita gente que prefere a cave.

Isto tudo para dizer que duas décadas em Coimbra deu-me um ratio funcional para a vida em qualquer lado nos próximos 20 anos: se por cada 20 mentecaptos conhecer um “poeta”, a vida tolera-se.  O mesmo que dizer: por cada 20 coisas que não mudam, há uma singularidade, um particular, uma apresentação de circunstâncias, que muda muita coisa.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 19 de Setembro de 2013)

Os bois pelos nomes

Neste verão, nas festas de Arazede, houve exposição e competição de vacas Holstein Frísia. Leiga como sou em agro-pecuária, penso que deviam ser leiteiras, porque eram pretas e brancas, mas eram, à sua maneira, todas diferentes. Alinhadas a ver pessoas passar, percebi que as mais atentas entretinham-se a dar mentalmente pontuações às nossas humanas proporções, postura, penteado, e capacidades produtiva e reprodutora. A minha vantagem nesta hetero-avaliação simultânea é que por cima de cada cabeça malhada figurava todo o seu BI (que eu lia atentamente), enquanto elas desconheciam por completo a minha proveniência e filiação.  Pois bem, enquanto os pais das bezerras tinham confusos nomes aristocráticos estrangeiros, as mães não eram mais do que letras e números, para que não restasse dúvida de que a paternidade foi paga a preço de ouro, e de que as mães não passaram de meros receptáculos para o investimento.

Shakespeare escreveu mais ou menos assim, para que uma Capuleto respondesse a um Montéquio (sem grande sucesso, no final): “O que é um nome? Uma rosa com qualquer outro nome cheiraria ainda tão doce”. O que é um nome, Romeu? Adão, dizem, nomeou todas as coisas, mas quem nomeou afinal Adão? Nem todas as Helenas são belas, nem os Ivans, terríveis.  Um país a repetir os nomes listados e aprovados dos avós e dos padrinhos em centenas de anos é um país aborrecido e condenado. Os nomes que determinam a nossa identidade antes ainda de nascermos, bem como as identidades – sexual, cultural, social, civil –  que determinam os nossos nomes, não nos devem ditar a sina, assim como não devem garantir propriedade ou privilégio.

Sou pela liberdade dos nomes auto-inflingidos e auto-aplicados na construção da identidade.  Defendo todos os avatares móveis, os pseudónimos e ainda os anonimatos que nunca vêem a celebridade. E por todos os nomes mágicos, e os cifrados, e os de código: os apóstolos cristãos mudaram de nome, assim como os boxeurs e as atrizes de Hollywood. Jeckyl teve de arranjar outro nome para outro “eu” e a “horrível progenia” de Victor Frankenstein nunca teve nome em tantas páginas de morte, solidão e lamento. Ironicamente, foram os leitores que des-bastardizaram a criatura. Ironicamente, José Saramago perseguiu “todos os nomes” em 200 e tal páginas para que o meu vizinho chamasse Saramago ao cão que passeia todos os dias.

Se o nome garante existência na esfera pública, sou pelos amores que ousam dizer os seus nomes. Não acredito em nomes proscritos ou nomes malditos, apenas em nomes com histórias. Ironicamente, antes ainda de ter nascido, quem me nomeou diagnosticou-me, na etimologia “claudicare”, um defeito no pé (no Tendão de Aquiles!) e coxeio como Cláudio, o coxo.

Às vezes, quando caio, acho que gostava de me chamar Pursuit of September Storm, como uma vaca que vi em Arazede.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 12 de Setembro de 2013)

42

Toda a gente sabe que 42 é a “resposta para a questão decisiva da Vida, do Universo e de Tudo”. Assunto tratado, isto está resolvido, próxima pergunta. Aquilo que toda a gente fica agora a saber (agora mesmo) é que este espaço digital numerado vem complementar decisivamente essa resposta redonda e inequívoca.
Lemos blogs porque queremos saber como pensa a nossa contemporaneidade. E se tiver piada ainda melhor. Assim, conseguida esta proeza – epifanía! – de sintetizar em 2 algarismos a minha declaração de intenções para escrever semanalmente sobre “o que para aí anda e o que aqui vai”, assim de uma forma genérica e pouco séria, agora é começar a tirar apontamentos e a recordar platitudes. E prender os leitores. Manietá-los. Numa cave. Alimentados por uma palhinha. Uma palhinha.
Diariamente me lembro que “a realidade é mais estranha que a ficção”, só que com muito mais prosa. O meu mundo contemporâneo e aquilo que gosto de escrever regista em fragmentos as impossibilidades de comunicação e as mecânicas das linguagens e das realidades ficcionadas. As histórias a que vamos atribuindo diariamente LOLs e WTFs.
42 inclui tudo e não nega à partida ciências que desconhece: humor negro e mentiras brancas, parábolas bíblicas e erros de legendagem, receitas de enchidos e librettos de Pink Floyd Webber. Trocadalhos em vinha de ilhos. Cenas da Praça e retalhos da vida de um talhante da Baixa e, de vez em quando, do Casal da Mizarela e do Roxo, quando o vento está de feição.

42 passa a ser o número da porta giratória desta casa de palavras que não é mais do um time-sharing numa urbanização perto da auto-estrada. Para esta “contemporaneidade” ser aqui partilhada – já amassada pela cultura e sujeita ao esoterismo das pulsões sinápticas – ela tem primeiro de se traduzir muitas vezes: da electricidade cerebral da minha cabeça sai o cocktail de vernáculos que vão misteriosamente pelos dedos (polegar oponível incluído) para o código binário e voltam ao Português, e binário outra vez, e cabo co-axial, e ondas de fiel wi em cafés e centros comerciais. Voltam ao Português de novo perante os olhos do leitor ou da leitora, mas já não as mesmas palavras que foram escritas nem a mesma contemporaneidade. É um sub-produto descartável com uma prática embalagem. Um comboio suburbano tipo montanha russa com menos adrenalina e, esperemos, sem o enjoo.
Ao longo destas semanas, 42 deixa aqui de ser um número inteiro e par, para ser um número imperfeito, singular, que nem sequer é primo. 42 não é, caso se questionem, a minha idade, nem a da Vida, do Universo e de Tudo.

Texto de Cláudia Pinto

(Publicado a 5 de Setembro de 2013)