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O Teatrão: “Três Irmãs”

BPI_9118O Teatrão estreia hoje, dia 1 de Julho, a sua nova produção. Partindo da obra “Três Irmãs” do autor russo Anton Tchekhov, esta é uma peça em quatro actos, em quatro espaços diferentes da cidade. A Preguiça esteve com o encenador brasileiro Marco António Rodrigues que, numa construção dramatúrgica livre em conjunto com a companhia teatral, coloca em diálogo o passado, o presente e o futuro do nosso país.

“Três Irmãs” é um texto clássico que sobrevive ao passar do tempo e que tem tudo para ser trazido para os dias de hoje. “É uma peça que foi escrita em tempos de mudança e transformação social, económica e política na Rússia. É uma visão muito concreta do que está a acontecer e que carrega uma certa antevisão do que vai acontecer”, explica Marco Rodrigues. “Trata-se de uma burguesia aristocrática que sofre uma grande transformação encarnada através de uma personagem, a esposa de André, o irmão mais novo, que apresenta uma série de mudanças representativas dos novos tempos”.

A peça de Tchekhov centra-se na casa onde vivem as personagens. Esta é a metáfora para todo o conjunto de temas abordados: o país, a sociedade, as relações, o sentimento de pertença.  Para o encenador é muito claro. “Podemos fazer a transferência deste argumento para a presença cada vez mais avassaladora da sociedade de consumo e da cultura de massas, apoiada no fenómeno dos media”, afirma. “Percebemos que existe hoje uma mudança estrutural forte e que esse é um factor determinante nas transformações que afectam o indivíduo. Esta austeridade que tolhe, seja pela diminuição dos salários, o corte das reformas ou o aumento dos impostos. E esta questão macro vai atingindo os indivíduos e vai mudando as relações, nomeadamente a relação familiar que é talvez a relação mais nuclear da sociedade. É toda esta configuração que faz as três irmãs hoje”.

A peça conta com cinco personagens (as irmãs Prozorov: Irina, Macha e Olga, o irmão André e o militar Verchinin) e estrutura-se em quatro actos. Cada um acontece num espaço diferente da cidade, pretendendo atingir o simbolismo desejado. A acção centra-se em Irina Prozorov, a irmã mais nova, que terminou o curso de Comunicação Social e recebeu uma bolsa para fazer um documentário sobre a vida dos portugueses.

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O 1º acto é na Casa Municipal da Cultura, um sítio que representa a espera e onde Irina começa a gravar o seu documentário. Segundo o encenador, “este primeiro momento é um sítio burocrático, normatizado. A regra do jogo começa aí, com a normatização das relações e também do consciente, porque tudo é politicamente correcto. As manifestações singulares dos indivíduos são punidas por essa macro estrutura do politicamente correcto. Este é um lugar onde, se houvesse autorização, seriam colocadas algumas questões”.

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No 2º acto, passado no Museu do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, a modernidade começa a fazer-se sentir, desde logo porque Irina começa a dominar as técnicas da comunicação. Aqui mexe-se no passado mas de forma a limpá-lo, ressaltando apenas aquilo que importa guardar, como uma espécie de memória selectiva, servindo o Museu como cenário para a dualidade da oferta e da procura.

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O 3º acto é na Liga dos Combatentes de Coimbra, onde a nossa história vai ser remexida através do encontro com A Revolução. O passado torna-se inquieto e interfere com força na contemporaneidade. Aquilo que está em causa é a identidade e qual o seu valor. E o documentário continua a rodar.

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No 4º acto, o ponto de encontro é o jardim da Oficina Municipal do Teatro. As irmãs foram expulsas de casa e encontram os seus bens à venda. O privado é um bem disponível, que se vende na haste pública. A tentativa é a de entrar novamente na casa e recuperar o que se julga perdido.

Apesar destes quatro actos terem um fio condutor que procura ‘a casa portuguesa’, que explora as relações entre o público e o privado, entre os cidadãos e o Estado e que tenta perceber onde estamos e para onde vamos enquanto sociedade, Marco António Rodrigues refere que “cada acto é um espectáculo com a sua estrutura própria. Eles estão articulados, mas ao mesmo tempo fecham-se em si”.

Dentro da proposta “Ver a pé, Andar de perto”, mote da programação d’O teatrão para este biénio, “Três Irmãs” é feito para incomodar, no bom sentido. “Pode não resolver, mas é importante socializar a angústia e potencializar a consciência. A peça tem muita ironia de segundo grau. Até que ponto vamos perdendo identidade enquanto indivíduos? Pensamos por nós ou por estruturas que nos vão manipulando?”.

Em cena até ao próximo dia 1 de Agosto, as datas e roteiro dos espectáulos devem ser consultados através dos meios disponíveis d’O Teatrão. Em Setembro, a peça contará com uma temporada em sala.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires 

(Publicado a 1 de Julho de 2015)