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O Teatrão: “Terrenos Baldios”

BPI_5339Terrenos Baldios, inspirado na obra Os Sonhos de Einstein de Allan Lightman, não podia ser o nome mais adequado para a nova peça d’O Teatrão, em cena entre 8 a 30 de Maio. É onde vamos pisar e pelas melhores razões. Sendo o público uma parte integrante desta peça, espera-se uma troca de experiências que dará trabalho, como se quer. A Preguiça falou com a encenadora brasileira, Joana Mattei, e preenche mais um pouco a vossa imagem do que esperar.

Joana Mattei, é a primeira a confessar que este trabalho é um resultado do seu percurso de vida. “Sempre me senti e fui percebida como uma pessoa fora do meu tempo. Sempre questionei tudo e todos, basicamente desde que em criança me perguntaram quanto era um mais um. Para mim não podiam ser dois, não tinha lógica”. Para sustentar esta ideia citou uma frase que, essa sim, lhe faz sentido: “A matemática é muito estranha quando aplicada às pessoas, porque um mais um pode dar vários resultados diferentes”.

Munida dessa necessidade de fazer questões, juntou ao seu currículo o estudo de áreas como física quântica ou medicina oriental. O espírito não sossegou, mas consolidou-se uma consciência distinta do mundo. “Existe um caminho, existimos nós, que é onde ele se manifesta, e existe o acto de caminhar. No meio disso, existem os desvios e as escolhas que fazemos”, explicou. “Hoje em dia, o que é um desvio? Onde está? O que é um caminho? Para mim, o desvio está no lugar do tempo e do espaço, que estão doentes. Ou melhor, a nossa relação com o tempo e o espaço está doente”.

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A tentativa de entender o tempo em que vivemos é a proposta de Terrenos Baldios. “Um tempo fragmentado, onde as pessoas não estão onde estão, onde se vive em função do outro mas não em relação com o outro. Um tempo e um espaço manipulados pela sociedade de consumo, que nos seduz e empurra cada vez mais”. Joana Mattei acredita que tudo está a mudar e que a forma como o mundo se organiza vai colapsar. “A ligação que temos com o fim do mundo é muito importante aqui, porque ela vai acabar da forma como existe. Mas neste caos em que vivemos, ainda é possível ter encontros potentes. E acima de tudo, ainda podemos fazer escolhas, mesmo que por vezes a margem seja pequena”.

Através de um trabalho posterior e intenso com os actores, onde os seus próprios desvios foram questionados, reflectidos e trabalhados, escolhas é também o que somos convidados a fazer nesta peça. Não só mentais. O público, o quarto actor em cena, age e reage com os actores sempre atentos e perante um espectáculo que apresenta um caminho muito próprio, que é afinal o de todos. “Se questionamos a relação com o outro, o espectáculo tem de ser com o outro. Há encontros, consigo próprio e com o outro, e há partilha, há uma criação em conjunto”.

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Imagem, tempo, espaço, corpo, caminho, escolhas, sonhos, são algumas das palavras que ganham força e ecoam durante toda a peça e, espera-se, depois também. A acompanhar a experiência, uma banda sonora intensa e profunda, passando por Sigur Rós ou as sábias palavras de Paulinho Moska em O Último Dia.

Para além da temporada para o público em geral (às quintas e sextas às 21h30 e aos sábados às 17h00 e 21h30) e as sessões para as escolas, realizar-se-á em torno desta peça a oficina “Um prólogo para desfrutar e aproveitar o espectáculo” (dias 9, 16 e 30 às 16h00) e a conversa “Ditadura do Tempo” (dia 16 às 18h00). Tudo na Oficina Municipal do Teatro.

Joana Mattei não deixa fugir a mensagem de que é preciso acreditar na mudança e trouxe à conversa uma reflexão de Eduardo Galeano. Em tom de homenagem, deixamo-la aqui: “Este mundo está grávido de outro!”

Bom espectáculo!

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 8 de Maio de 2015)