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Da pluralidade do olhar

DSC_4626 “Não é um espaço museológico, é uma espécie de museu pop up”, nas palavras de Delfim Sardo, que assim resume o espírito do lugar, um espaço não convencional, sem compromisso a longo prazo com questões de programação e etecetera… Lá iremos.

Na génese da exposição Primeira Pessoa Plural está o projecto do arquitecto João Mendes Ribeiro – a encomenda de um armazém e escritórios que Albertino dos Santos lhe fez para o seu conjunto de empresas relacionadas com produtos de pintura e reparação automóvel. E irá ter essa função. Já tem (parcialmente). Contudo, a dada altura, quando se viu o edifício ganhar forma e corpo, surgiu a ideia de aí instalar parte da sua colecção notável de arte contemporânea (portuguesa e internacional), oferecendo-a à fruição pública durante três semanas. Porque se pretendeu que a exposição respirasse, fosse “enxuta”, num esforço essencial de depuração, nem todas as peças couberam nos quase 1600 m2 de área coberta…

Este novo edifício é composto por dois volumes: um espaço de comércio e de escritórios, outro destinado a armazém, uma nave grande, e há um percurso coberto, um passadiço que os une, criando um parque interno.

Desenhar um armazém foi, para João Mendes Ribeiro, uma estreia na arquitectura industrial. Conhecendo o seu trabalho e a sua assinatura, não surpreendem os temas fortes que se encontram na obra agora terminada – um edifício relativamente neutro do ponto-de-vista dos materiais. Um deles consiste na materialidade do edifício, que lhe confere uma expressão muito abstracta de espaço não acabado e uma unidade muito forte – a chapa ondulada funciona como cofragem do betão, funciona como revestimento, funciona como filtragem da luz (nas caixilharias). “Faz todo o edifício”, afirma. Trata-se de um espaço despojado, com as infra-estruturas visíveis, ” no osso” – as “entranhas” destapadas –, o que implicou um esforço maior, para que tudo ficasse à vista. O que, “no confronto com a arte contemporânea, funciona muito bem”, refere Mendes Ribeiro.

Ora esta Primeira Pessoa Plural, com curadoria de Delfim Sardo (que lhe reconhece espessura, corpo, densidade), relaciona-se com a arquitectura e obriga o visitante a percorrer a nave, o que permite estabelecer e perceber facilmente essa relação. Também o dispositivo para a exposição – paredes-casulo de três metros que não tocam as paredes do próprio edifício, aparentemente rudimentares e, sem dúvida, de carácter efémero – foi desenhado pelo mesmo arquitecto, por razões que se prendem com a escala e com o pé direito (como é que as obras poderiam sobreviver em tal imensidão…?).

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Por outro lado, e porque a sua localização, na Adémia (zona industrial de Coimbra), fora do tecido urbano, contém referências caóticas na sua envolvência, houve um propósito de qualidade – pretendeu-se que este volume dignificasse o espaço público. Não há aqui ruído, não há aqui conflito: consegue absorver a vizinhança, qualificando-a.

O nome singular desta exposição de arte contemporânea de Ana Cristina e Albertino dos Santos, Primeira Pessoa Plural, não é tão-só um paradoxo – afinal, encerra a pluralidade de um olhar duplo na demanda de outros. “Uma colecção é sempre o nosso olhar”, lembra António Albertino dos Santos. E o resultado contém diversos tipos de arte, diversos olhares, uma pluralidade de artistas, uma pluralidade de temas. E a ideia de movimento, de continuidade na arte. Depois, junta-se o olhar do curador, criando a coerência que se percepciona ao percorrer as salas. Mais: são dois colecionadores e “só há um ‘nós’ em arte, sem isso não existe, só existe a possibilidade”, nas palavras de Ana Cristina. Plural, plural, sim. E agora inclui os espectadores visitantes.

Delfim Sardo só terá tomado consciência da amplitude desta colecção há poucos anos, apesar da amizade antiga que o une ao casal – “surpreendi-me com a escala, que entretanto cresceu”, conta. O que se pode ver até dia 10 de Maio é uma das montagens possíveis. Muitas obras ficaram de fora, algumas mesmo da shorlist do curador. Deslindar conexões entre elas terá sido o desafio do trabalho curatorial, agrupando-as em lógica, em linhas de sentido – memória, corpo, pintura (a sua relação com a imagem), arquitectura (“com as obras lá dentro, a arquitectura vê-se mais”).

Na nave-armazém e na área destinada a escritórios da empresa, “instalou-se uma espécie de vírus”. E há peças que encontraram ali a sua morada e que lá vão permanecer: a fotografia de Augusto Alves da Silva vai manter-se nas escadas, a explicitar o projecto arquitectónico, e a escultura de Pedro Paiva/João Maria Gusmão encontrou a sua casa no open space (com a luz crua do exterior que rompe pelas clarabóias) destinado aos serviços administrativos da empresa.

A colecção de arte contemporânea AA nasceu de um conjunto de cumplicidades que os dois colecionadores foram cimentando com a comunidade artística, em visitas a galerias e a ateliers – “fomos sempre muito bem recebidos e acarinhados, perceberam o nosso amor sem intermediários pela arte, fundamentado no nosso olhar, e fomos até premiados com alguns trabalhos oferecidos”, explicam os dois AA’s. Depois, galvanizar para este projecto nomes que  há muito são considerados o crème de la crème do universo artístico não foi uma casualidade, foram encontros mais do que prováveis, afinal – todos da cartografia afectiva antiga, todos amigos, todos a olhar para a arte com paixão. “Não precisamos de muitas palavras; não precisamos de legenda com o João (Mendes Ribeiro), nem com o Delfim (Sardo), nem com o João Bicker” (autor do convite, designer gráfico que vem coleccionando prémios internacionais), acrescenta Ana Cristina.

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Esta exposição tem sido alvo de “reacções incríveis e tocantes de artistas, arquitectos, galeristas – o Julião Sarmento disse que isto aqui é um centro de arte contemporânea em qualquer parte do mundo”, afirmam.

Logo na entrada, “O Beijo da Sereia”, em ferro pintado, de Rui Chafes (nome presente em todas as salas), convive com “Sabina”, coluna de Rui Sanches, “uma curvatura deliciosíssima que está na nossa sala, em casa”, refere o colecionador. O entusiasmo com que fala salta aos olhos. Não consegue camuflar “o tal amor radical pela arte”. E pela elegância, sempre norteadora… Já Ana Cristina recorre ao adjectivo “gustativo” para se referir à arte contemporânea, como se se pudesse comer, saborear, gozar lenta e voluptuosamente. Sim: o tal “plural” acontece.

Ainda na entrada está a obra de Patrícia Garrido (“Móveis ao Cubo”), como que a lembrar a compressibilidade dos materiais.

Avançando pela primeira sala, percebemos que nos remete para a memória e somos de imediato confrontados com a “Saída Negra”, de Helena Almeida – uma das primeiras peças adquiridas pelo casal –, um belíssimo conjunto, obra telúrica, vulcânica, que convive espacialmente com caixas de memórias iluminadas (“La Fête de Pourrim”, de Christian Boltanski), introdutoras do tema do Holocausto, da mitologia dos povos perseguidos, através dos retratos de crianças de olhos propositadamente inexpressivos, como luas fundas. Esse espaço tem igualmente presente a II Guerra Mundial, com recortes salteados, num painel de Matt Mullican, e também os trabalhos de Fernando Calhau e os de Jannis Kounellis, entre outros (não faremos aqui referência a todos os que dão forma a esta exposição, a lista é longa, muito).

Após a tensão do espaço anterior, o tema da segunda sala poderia ser a leveza. Aqui respiram as obras de Molder, Bertrand Lavier, Helena Almeida (“Desenho”), Julião Sarmento, André Cepeda… No centro está “Um Sopro”, outra escultura em ferro assinada por Chafes, obra icónica onde se pressente peso, mas que estranhamente parece levitar.

Prosseguindo a visita, o tema da terceira sala parece dedicar-se ao corpo. No meio está uma das esculturas de Django Hernández, “Circle, no motion”, peça circular que reúne as costas de onze cadeiras da sua escola em Cuba. É neste espaço que vamos encontrar o esquisso (grafite sobre papel) de A. Warhol, “Male Nude”, de grande ambiguidade sexual (a fazer pensar no hibridismo do corpo), logo seguido do erotismo de três obras de Julião Sarmento – num jogo de presença-ausência da mulher. “Cinzas de Pasolini”, do omnipresente Rui Chafes, ladeiam dois Mappletorpe, e há ainda lugar para “O Azul do Céu”, de Jorge Molder, para as telas de João Penalva e para uma peça/miradouro/terraço de Miroslaw Balka (aço e instalação eléctrica).

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A quarta sala não será bem uma sala – um corredor, uma passagem? É onde se encontra a primeira tela que os colecionadores adquiriram, em 1993, da autoria de Ângelo de Sousa, que reúne também esse lado simbólico, seminal, afectivo. Diogo Pimentão está aqui representado com várias obras, e é também onde os três rádios-gravadores portáteis, uma peça de Rui Toscano (“From Point A To Point B”), desvendam o som que nos acompanha na visita – o barulho de aviões, constante, insistente. Como se não se tratasse de um (futuro) armazém, mas de um hangar. “A poética da viagem”, nas palavras do colecionador.

“Eu acho que isto é uma sala de museu”, é assim que apresenta o último espaço expositivo da nave, que proporciona a grande escala das obras. É onde se cruzam João Pedro Croft, as cores intensas do óleo sobre tela de João Queirós, o jogo de espelhos de Michelangelo Pistoletto, provocando uma multiplicidade de imagens, e mais… Na parte de trás respiram as obras de Cabrita Reis.

Avançando pelo passadiço sobre-elevado, em direcção aos (futuros) escritórios, é preciso tempo para olhar “Life Balance” (de Sophie Whettnall), o primeiro vídeo a apreciar, e “Wheels”, da dupla João Maria Gusmão/Pedro Paiva, filme 16 mm, entre outros. E as três peças de bronze dos mesmos autores, as fotografias encomendadas a André Cepeda (do novíssimo edifício onde tudo acontece, que acolhe a exposição), que se vão manter num dos gabinetes de trabalho. Termine-se em beleza, ou com mais beleza, com “A Gruta” e “O Inferno”, as “lanternas mágicas” (assim apelidadas, entre risos, por Ana Cristina) de Francisco Tropa, que em Veneza encantou estes colecionadores. E pare-se com deleite, demoradamente, em “She was my la jetée”, filme super 8 e vídeo, do norte-americano Slater Bradely.

Depois, bom, depois de “encerrarem para reflexão”, a dupla Albertino-Ana considera a possibilidade de idealizar um museu particular, permanentemente aberto às instituições, comunidade artística, escolas e amigos. Ponto assente: terá de ser desagarrado do mainstream da lógica do funcionamento público, estatal, de tudo o que isso transportaria de” dificuldades, constrangimentos de horários, incompetência nos lugares de destaque, burocracia…”. Nas palavras de Ana Cristina: “Há espaços fabulosos aqui tão perto… Poderia ser o ponto de partida para ir buscar outras peças, de outros colecionadores, criando acontecimentos efémeros…”.

Primeira Pessoa Plural pode ser visitada nos dias 8, 9 e 10 (entrada gratuita). E deve ser olhada à luz do que Delfim Sardo diz – “… a arte é, no melhor dos casos, sobre esta dádiva e sobre a conversão da singularidade da escolha no plural da partilha”. Experimente-se totalmente essa fruição.

Texto de Teresa Carreiro
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 04 de Maio de 2015)