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Marionet: “Ego”

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Nos próximos dias 17, 18, 19, 25 e 26 de Abril (sexta e sábados às 21h30 e domingos às 16h00) a Marionet apresenta no TCSB a sua mais recente produção: Ego, uma peça de Carl Djerassi. A Preguiça foi até ao Pátio da Inquisição assistir a um ensaio e conversou sobre este trabalho com o encenador, e actor, Mário Montenegro, que não fez questão de disfarçar a notável admiração que sente pelo autor.

Carl Djerassi é cientista, amplamente reconhecido pelo seu papel na invenção da pílula contraceptiva, mas é também escritor, uma dedicação que surgiu já depois dos seus sessenta anos. “Carl Djerassi escrevia peças dentro daquilo que designou como um género, a ‘ciência no teatro’”, explicou Mário. “Esta peça talvez seja a que menos se enquadra nesse género, mas surgiu essencialmente pela vontade do próprio autor em fazê-la em Portugal e em português, dada a grande inspiração que teve em Fernando Pessoa”.

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Ego, escrita em 2003 e estreada em Londres em 2004, surge agora em Coimbra (após ter corrido o mundo) pela mão da Marionet que desde 2011, a propósito da peça Cálculo, mantém contacto com o autor, entretanto falecido em Janeiro. “Esta peça é financiada e comissariada pelo Carl Djerassi, com o acordo dos familiares e nomeadamente do filho, com quem vamos dialogando e que vem ver a peça”.

Apesar da forte ligação ao universo de Fernando Pessoa, podem encontrar-se nesta peça muitas outras referências e universos. “Todas as suas peças abordam um pouco de tudo, mas sempre com um verdadeiro conhecimento de causa e profundidade, nada superficial”. E uma dessas referências é o próprio Carl Djerassi, que admitiu tratar-se de uma peça autobiográfica. “Ele mesmo disse que se espalhava nestas três personagens e que não dava a chave para descobrir o que é o quê”.

Com três personagens em cena, Ego retrata a história de um famoso escritor de bestsellers que sofre de ‘insegurança produtiva’, ou seja, insegurança pelo seu trabalho e consequente necessidade do reconhecimento dos outros, nomeadamente dos críticos literários, por aquilo que escreve. “A personagem vive com essa dificuldade em lidar com a sua insegurança produtiva, precisa de saber se as pessoas gostam dele pela escrita em si ou porque já é um autor de bestsellers”. Essa dúvida leva-o a forjar o seu suicídio e a criar um heterónimo literário, um alter-ego renascido. O único ponto de ligação entre o escritor e a sua vida anterior é o seu psicoterapeuta, que a certa altura será também consultado pela esposa que se julga viúva. “O psicoterapeuta está no meio da relação dos dois e cria-se assim um triângulo muito curioso entre estes três personagens, todos fortes e importantes no desenrolar da história”.

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Para Mário, também tradutor da peça, estamos perante uma “escrita elegante e inteligente, com um humor fino e inteligente. É uma peça impregnada de uma cultura vasta e onde os diversos temas se relacionam de forma perfeita, desde culinária à psicanálise, sem esquecer a grande inspiração em Fernando Pessoa”. E por falar em Fernando Pessoa, não pode esquecer-se a coincidência desta peça se encaixar no ano em que se comemora o centenário da revista Orpheu, na qual o escritor português colaborou.

Para além da peça, irá realizar-se no bar do TCSB uma conversa informal, com intervenientes escolhidos a rigor. É no Domingo, dia 19 de Abril (às 18h00), e o tema é “A influência da obra e heteronímia de Fernando Pessoa na peça Ego”, com especialistas da área de literatura e Fernando Pessoa e da psicanálise (António Apolinário Lourenço, professor na FLUC e José Luís Pio Abreu, psiquiatra e professor na FMUC).

Se queremos tratar bem dos nossos egos, é aconselhável assistir a esta produção da Marionet.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 8 de Abril de 2015)