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Santos da Casa no Ar

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O Festival Santos da Casa está no ar. Até ao próximo dia 25, Coimbra recebe vários artistas da música portuguesa, em vários locais da cidade, num festival que já é uma referência no panorama da cidade. A Preguiça foi até à Rádio Universidade de Coimbra (RUC) falar com Fausto Silva e Nuno Ávila, os seus promotores, e ficámos com a certeza de que a música portuguesa está viva e recomenda-se.

Fausto Silva e Nuno Ávila dão-nos música portuguesa há 23 anos, com o programa Santos da Casa, todos os dias das 19h00 às 20h00 na RUC. O caminho que os levou a andar de mãos dadas com a música começou cedo, para ambos. “Embora tenha começado por outros programas, nomeadamente o Canto Lusitano, trabalho na música portuguesa há 29 anos e desde que a RUC é RUC”, contou Fausto Silva. “Aos 16 anos comecei a fazer um fanzine de música portuguesa, juntamente com uns amigos. Gostava muito de rádio, já ouvia a RUC e ao divulgar o fanzine no seu programa, o Fausto mostrou interesse e deixou as portas abertas para fazer algo. Entrei para a RUC em 1989”, relembrou Nuno Ávila.

Curva aqui, contracurva ali, esta dupla juntou-se em 1992 e desde aí não mais se perderam de vista. Com algumas variações de horários ao longo do tempo e com passagens ocasionais de outras pessoas pelo programa, o Santos da Casa mantém-se intocável, quase, arriscamos a dizer, como uma verdadeira entidade sacra. Algo que se explica por um inegável, e potente, amor à causa, pois só assim é possível que todos os dias, sem excepção, se faça um programa de rádio.

Mas nem só de amor vive o Santos da Casa. “Vamos ver concertos, conhecemos quem organiza os concertos, falamos com as bandas e conhecemos os espaços. Isso faz toda a diferença, porque a certa altura já são os músicos que vêm ter connosco. Fazemos pesquisa, descobrimos e estamos em contacto constante com promotores e organizadores de eventos. Se ficássemos aqui fechados, já não havia programa”, explicou Nuno assertivamente. “Se há quem tire tempo para ir à caça, ou à pesca, ou faça colecção de selos, nós fazemos colecção de música portuguesa e gostamos muito de a divulgar. É falso aquele chavão de que não há produção suficiente que justifique uma maior divulgação. São seguramente lançados mais de dez discos por semana e atrevo-me a dizer que três deles têm tanta ou mais qualidade do que muitos artistas internacionais”, disse Fausto de forma convicta.

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É com a certeza da qualidade que a vontade de mostrar e divulgar a música portuguesa não esmorece no espírito destes dois exploradores. E hoje é mais fácil do que no passado. “Antes, havia o problema de grande parte das gravações serem de má qualidade. Hoje não, é tudo relativamente bem gravado e por isso, vamos mostrando e divulgando tudo o que nos chega. Fazemos muitas estreias no nosso programa”.

Vamos ao que nos trouxe aqui: o Festival Santos da Casa, que este ano vai na sua 17ª edição. E também ele tem uma história para ser contada. “Em 1999, a rádio fazia 13 anos e passou-nos pela cabeça colocarmos 13 bandas a tocar ao vivo no mini-auditório Salgado Zenha na Associação Académica. Esses concertos eram sempre à hora do programa e transmitidos em directo. Correu tão bem ou tão mal que a partir daí nunca mais parámos”. Tendo começado por habitar um único local, o bar Le Son, na Pedrulha, hoje em dia tem como imagem de marca a itinerância pela cidade. “A ideia é percorrer a cidade e tentar que haja sempre locais novos em cada festival”.

Esperam-nos então vários dias com concertos de bandas e artistas portugueses, conversas informais e projecção de vídeos, em locais como o café Santa Cruz, o Teatro Loucomotiva, a Tabacaria da Oficina Municipal do Teatro, o Salão Brazil, a FNAC e o mítico corredor da RUC. Para saber o que acontece e quando, basta aceder ao facebook do Festival.

Para Fausto e Nuno não existem dúvidas de que a música portuguesa está vivíssima. “Temos tudo em termos de estilos musicais e coisas muito boas. Desde a electrónica, o jazz, a música mais tradicional, o pop-rock, o heavy metal, o fado ou a música experimental. Quando chegamos ao fim de um ano e temos uma lista de cerca de 700 discos editados em Portugal e em que pelo menos 70 desses discos são bons, comparando com os melhores estrangeiros, é sinal de alguma coisa”. No entanto, admitem que os portugueses ainda precisam de apurar o gosto para o que se faz por cá. “Hoje em dia as pessoas já vão gostando mais da música portuguesa e vão-se apercebendo que temos boa música, bons grupos e bons artistas. Mas infelizmente ainda é a visibilidade internacional que facilita o reconhecimento interno. Às vezes era preciso que as pessoas não soubessem que são portugueses”.

Com cada vez mais festivais dedicados à música portuguesa, Portugal começa a dar sinais de que afinal o que é nacional é bom. O festival Santos da casa é um exemplo e podem comprová-lo por estes dias. Nuno Ávila fez um apelo: “muitas das bandas que estamos a trazer estão a vir a Coimbra pela primeira vez. São bandas com valor, apostas seguras e que merecem ser ouvidas. Vão ver e depois não digam que não trazemos cá ninguém”.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 15 de Abril de 2015)