• Photobucket

Home / Artes / O Simbolismo dos DEMO

O Simbolismo dos DEMO

DSC_1551Numa destas manhãs soalheiras fomos ter com Gil Mac, Margarida Cabral, Cláudio Vidal, Paula Rita e Cheila Pereira, os elementos que compõem a DEMO: associação cultural nascida em Coimbra em 2010. Faltou o Zékinha, que está fora do país e não pôde marcar a sua presença. Conversámos sobre os eventos que a DEMO vai apresentar na 17º Semana Cultural da UC, tendo Camilo Pessanha como grande referência, e não foi difícil que a esta conversa outras ideias se juntassem.

Assumindo-se como um dispositivo experimental, multidisciplinar e orgânico, tal como o nome discretamente indica, a DEMO desenvolve projectos nas áreas das artes visuais e performativas. Com formações distintas, este grupo de performers tem em comum a sua passagem pelo CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra). “Conhecemo-nos no CITAC e foi aí que decidimos trabalhar juntos. Em 2010 sentimos a necessidade de nos legalizarmos para poder trabalhar com independência”. Essa vontade de profissionalização surgiu, curiosamente, no processo de criação de um espectáculo para uma Semana Cultural: Os Divodignos.

Após fundada, a DEMO começou a desenvolver um trabalho de criação e encenação colectivas. “É um dos aspectos que nos caracteriza, para além dos diferentes cruzamentos artísticos que procuramos. Com o intuito de nos desafiarmos constantemente a nível criativo, em cada projecto vemos o que desejamos continuar a fazer ou então o que queremos fazer de diferente”, explicam.

DSC_1544

Com vários projectos na bagagem, a experiência destes artistas passou por locais como Varsóvia, Guimarães, Porto, Coimbra, Hong-Kong ou Macau. “O nosso interesse é irmos à procura de novos colaboradores, de outras áreas, de outros lugares, para desenvolvermos as nossas pesquisas e o nosso trabalho”.

Foi precisamente em Macau que Camilo Pessanha entrou em cena, quando estavam a trabalhar no projecto UWAGA!, um projecto multidisciplinar que através da arte urbana cria uma interacção performática com os transeuntes, fazendo com que as suas opiniões sobre a cidade onde se situam ganhem dimensão pública e consequente espacialização, também ela gráfica. “Em Macau trabalhávamos com um calígrafo que estava a fazer em tempo real os caracteres chineses para as pessoas que falavam chinês. E em todo este processo de investigação, a ler uma espécie de abecedário, encontrei Camilo Pessanha na letra C. Fiquei logo fixado e lembrei-me que tinha um livro dele quando era jovem. Mal cheguei a Portugal fui buscar o livro”, conta Gil.

A partir daqui, e depois de um processo de trabalho, formação e investigação, nasce uma exposição, em colaboração com a oficina ARARA, baseada no universo poético de Camilo Pessanha. “O facto de ser uma exposição tão grande e tão vasta fez pensar nas várias possibilidades a explorar, nomeadamente performativas. Multiplicou-se e expandiu-se aos universos artísticos e literários do Simbolismo ao Futurismo e a toda a geração de Orpheu, como Almada Negreiros ou Santa Rita Pintor. Juntou-se ainda a feliz coincidência da revista Orpheu celebrar este ano os seus 100 anos”.

demo

Surge assim o projecto “Inscrição” (nome do primeiro poema do livro “Clepsidra” de Pessanha), um conjunto de várias iniciativas que teremos oportunidade de desfrutar nos próximos tempos, no âmbito da Semana Cultural da UC. Dois workshops em colaboração com o Clube dos Tipos e a ARARA; a performance Oráculo em colaboração com o Museu Machado de Castro; a exposição Inscrição, em colaboração com a ARARA e com o CAPC; Do Simbolismo ao Futurismo: 100 anos de Orpheu, um laboratório de experimentação e criação em colaboração com o CITAC; três tertúlias dedicadas a Camilo Pessanha em colaboração com a Casa da Escrita e por fim, Hydra & Orpheu, um espectáculo em colaboração com o JACC/Salão Brazil. “No final, tudo desagua no Hydra & Orpheu, vai ser o culminar de toda esta investigação. Aqui a ligação com a música e com os músicos do JACC é muito forte, vai ser mais do que uma banda sonora”.

Quando tentámos saber de onde vem o interesse, e fascínio até, por Camilo Pessanha, as razões não demoraram a surgir. “Há muitas coisas apaixonantes nele. Esteve no exílio e sempre foi uma pessoa isenta e imparcial, talvez também por estar ligado a Direito. Nunca defendeu algo que é tipicamente português, como o compadrio, as relações com o poder e a mediocridade. Seguiu sempre a sua direcção e as suas paixões. Foi também um apaixonado pela cultura chinesa”.

A partilha que a DEMO pretende fazer de todo este universo, de Pessanha a toda a geração de Orpheu, é algo que encaixa com precisão nos dias que correm. “Todo este universo é riquíssimo em várias áreas, não só na literatura e na poesia, como na performance e nas artes plásticas. É importante perceber que a sociedade da época não é assim tão diferente da actual, os problemas são os mesmos e interessa-nos também trabalhar o aqui e o agora”.

É esta a razão do trabalho contínuo e activo que mantêm com os jovens, nos seus laboratórios experimentais. “A questão da juventude é muito importante. Queremos passar a esta juventude que há 100 anos a geração de Orpheu era da idade deles. Todos temos uma palavra a dizer e os jovens mais do que ninguém. Queremos evidenciar as obras e os actos de um universo que não tem muita visibilidade. Há que privilegiar a acção e em tempo de encontros, é interessante transpor este universo de há 100 anos”.

Mais do que qualquer palavra que possamos dizer, o melhor é irem espreitar o que a DEMO tem para oferecer por estes dias. E para não saírem daqui de mãos vazias, deixamos uma pequena lufada de inspiração.

«Eu via a luz num país perdido
A minha alma lânguida e inerme
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme…»
(Inscrição, de Camilo Pessanha in Clepsidra)

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 12 de Março de 2015)