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A química da vida

BPI_2688Sérgio Rodrigues, doutor em Química Teórica e professor no Departamento de Química da Universidade de Coimbra, lançou recentemente um livro onde pretende tornar a química mais visível aos nossos olhos. “Jardins de Cristais: Química e Literatura” é o título e foi sobre a obra que falámos com o autor. A descoberta não podia ter sido mais interessante.

A vida não é estanque. Os acontecimentos sucedem-se e ligam-se e as ideias vão surgindo, muitas vezes sem lhes conseguirmos atribuir uma causalidade. Foi isso que aconteceu com Sérgio e com a história deste livro.

Sendo a preocupação com a divulgação da química algo que sempre o motivou, é nos últimos anos que dá por si a pensar de uma forma mais consciente na ideia de existir “uma certa invisibilidade da química no mundo em que vivemos”. Ora, algo que não faz sentido, visto que “qualquer coisa em que agarremos, um tecido, um gravador, um livro, ou outro objecto qualquer, tem um aspecto químico”.

Normalmente, quando se tem noção da química, é por maus motivos. E portanto, trata-se não só de tornar esta ciência mais visível como também de a mostrar ao mundo de uma forma positiva. “Tal como o professor Jorge Calado chamou a atenção quando fez a apresentação do livro em Lisboa, as pessoas não se interessam pela química quando está tudo bem. Só se lembram da química quando algo está mal ou quando querem ver um problema resolvido. Por isso, aqui, mostro a química também de uma forma positiva”.

A ligação com a literatura surgiu de forma quase automática, não fosse Sérgio também um leitor convicto. “Há uns anos li um artigo de um autor que por acaso é químico e em que dizia que a química aparecia muito pouco na literatura. Achei que aquilo não fazia sentido e comecei à procura. Nesta procura, percebi que em qualquer livro que pegasse, havia química. Nem que seja a trivial química dos sentimentos, do amor e do cérebro, que aliás está bastante presente no meu livro”.

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Considerando que estava a ser muito ambicioso no início, em que se queria afastar da trivialidade, dos temas clássicos como a poluição, a alquimia, ou as poções venenosas, rapidamente se apercebeu que essa ambição era possível de concretizar. De facto, a química, os seus conhecimentos e práticas estão presentes das mais variadas formas nos mais diversos, e importantes, livros da história da humanidade.

“A literatura do século XIX apresenta uma série de obras em que os personagens principais são químicos, ou então uma clara intenção de mostrar a química, que na altura era a ciência mais excitante. No século XX, a maioria dos escritores não tem essa intenção. No entanto, na sua reflexão do mundo em que vivem, a química está naturalmente lá”, explicou de forma confiante. “Aliás, isso foi o que mais me fascinou: tentar encontrar aquilo que os autores não pensaram explicitamente”.

Este livro não surge no vazio, porque Sérgio já tinha escrito alguns textos sobre o assunto no blogue “De Rerum Natura”. A escolha dos autores e das obras literárias foi vasta e não se limitou aos clássicos da literatura. “Fui também aos autores de supermercado ou de aeroporto. A minha ideia era mostrar aquilo que as pessoas lêem e que a química está lá, no que lêem, independentemente do que seja. Cada um encontra aqui o que quer”.

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Ao longo de uma viagem intensa e inovadora, em que a química e a literatura quase se (con)fundem, encontramo-nos com Karl Marx, Fiodor Dostoiévski, William Shakespeare, Goethe, Robert Musil, Saul Bellow, Camilo Castelo Branco, Miguel Torga, Luís de Camões ou Paulo Coelho. Isto só para referir alguns, poucos até.

Para além do grande objectivo de aproximar as pessoas da química, fazendo-as ganhar consciência de que a química está nas suas vidas, Sérgio quer também contribuir para o “diálogo entre as duas culturas: as ciências e as humanidades”. “No livro procurei não subalternizar nenhuma das duas áreas: nem a química, nem a literatura. Pode haver uma harmonia entre as ciências e as humanidades. Aliás, esta é uma guerra antiga. A cultura e o conhecimento estão muito para além de uma só área. É da mútua troca de experiências e comunicação que surge o avanço”.

Com prefácio de João Lobo Antunes, este livro pode ser comprado em qualquer livraria ou plataforma de venda online. E como é referido nesse mesmo prefácio: «…tal não pode deixar de inspirar a gratidão particular que merece toda a obra que nos revela o que não conhecemos, que faz incidir uma luz de um jeito tal que a verdade ganha outro esplendor, que traz aquela consolação única, aquela ‘vicarious happiness’ de que falava C. S. Lewis».

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 26 de Janeiro de 2015)