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“diante de mim, mais demorada do que nunca”

BPI_6583“diante de mim, mais demorada do que nunca” é o título da exposição de João Nora, que o CAPC apresenta até ao próximo dia 28. Entre as projecções de vídeo, os objectos e, sobretudo, as pinturas que a compõem, estivemos diante do artista e conversámos sobre esta série de trabalhos, bem como sobre algumas (outras) imagens com que vê o mundo. O tempo não podia ter passado da melhor forma e o que permanece vai ficar, também, aqui.

João Nora vive e trabalha em Coimbra e pinta todos os dias. Já o faz há tempo suficiente para contar com um vasto número de exposições no currículo, apresentadas em diversos espaços e contextos. Actualmente, também dá aulas de pintura e de desenho e frequenta o curso de doutoramento em Arte Contemporânea no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.

Esta exposição parte de uma vontade que João começou a sentir de se afastar de um programa rígido e definido, algo que caracterizava os seus trabalhos anteriores. “Sempre estabeleci uma linha programática muito definida, sabia exactamente o que ia fazer. E esta série começa com o não querer seguir um programa e pintar só o que quero pintar”.

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As imagens com que nos deparamos ao longo deste percurso representam o interesse genuíno que por elas nutre, seja “pelo lado formal, pela carga simbólica ou o pelo seu lado plástico”. E para além de tudo, sublinha, “as suas possibilidades poéticas”. A poesia é a grande orientadora de “diante de mim, mais demorada que nunca”. “A poesia pode estar de forma mais evidente numa flor de lótus, ou num nenúfar a nascer branquinho, mas também pode estar num corpo esventrado, depende de quem vê. Não me interessa a poesia enquanto construção de um discurso, mas a poesia por si só”.

Com intenção de fazer a catarse de algumas inquietações e receios pessoais, acabando por se expor intimamente em alguns aspectos, João admite ter colocado nestes trabalhos uma atitude de resistência. “No estado actual das coisas, de proliferação fácil e rápida da imagem, pintar é um acto de resistência. Resistência contra o fugaz, contra o fácil, contra o efémero. Resistência política nesse sentido”, explicou. É também por isso que somos convidados a demorar, a permanecer, como se o tempo fosse feito de outra substância. Várias camadas de leitura estão em interacção constante com os espectadores, numa exposição que não é fácil nem imediata. Requer uma descodificação, uma atribuição atenta e cuidada de significado, o nosso e o do autor.

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“diante de mim, mais demorada do que nunca” é o título escolhido para esta série de obras e vem do século XIX: “tem origem num excerto de Bernardo Soares que é a marcha fúnebre para Luís II da Baviera, um tipo romântico que morreu de forma mais ou menos incógnita”.

Neste momento a trabalhar em várias séries distintas, João afirmou que não acredita na inspiração quando lhe perguntámos onde encontra a significação com que trabalha. “Em várias lados, em vários instantes, em ideias que tens, mas que depois tens de as trabalhar. Se calhar não gosto de lhe chamar inspiração, não gosto da ideia romântica da inspiração, é isso. Quero fugir da ideia do artista enquanto génio criativo, enquanto ser iluminado. Acho que não somos”.

Resta agora deixarmo-nos levar por estas imagens que se apresentam aos nossos olhos e que anseiam por serem vistas. A poesia está no ar.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 18 de Fevereiro de 2015)