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Este país é para nós

   BPI_6510Gal: farpas para um país sem lobbies é a mais recente produção do projecto BUH! e espera por nós no próximo Sábado, dia 24, no Salão Brazil. Ricardo Seiça Salgado, aqui incorporando a persona Ricardo C’est Ça, e Bruno Relva são os performers que, garantem, não vão deixar ninguém indiferente. Numa tarde sob chuva intensa, a Preguiça foi a S. Silvestre assistir a um dos ensaios e na conversa com Ricardo, ficou a saber como tudo aconteceu e como tudo se irá passar.

A performance GAL: farpas para um país sem lobbies teve origem em 2006 após Ricardo se ter dedicado à leitura d’As Farpas de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão ao mesmo tempo que se sentia viciado em assistir ao Canal Parlamento. “Essa é a raíz: a leitura d’As Farpas e o vício no Canal Parlamento, em 2006. Bastou-me quase a leitura do primeiro volume para perceber que retirando a contextualização e as referências da época, 1871, toda a análise descritiva e interpretativa que faziam da sociedade portuguesa e da governação portuguesa acima de tudo, coincidia com o que estava a acontecer. E ainda nem sequer era uma República”.

No ano passado, Ricardo ficou outra vez atento ao Canal Parlamento e percebeu, perante a constatação que “a governação continua a cometer as mesmas falácias”, que estava na altura de resgatar a performance anterior. Sendo assim, como explicou, trata-se agora de uma reperformance. “Não é fazer uma reposição no sentido teatral, mas sim uma reinterpretação. Uma reperformance permite olhar para o que se fez antes e adicionar, subtrair, mantendo a vitalidade original”. É precisamente esta reinterpretação que justifica a criação da persona Ricardo C’est Ça, alguém que faz a performance de um outro e que sobe ao palco.

E no palco, Ricardo C’est Ça é acompanhado por Bruno Relva, guitarrista com quem já trabalhou noutros momentos. A guitarra é uma presença constante, e fundamental, ao longo de todo o espectáculo, acompanhando a palavra e conferindo-lhe uma musicalidade provocatória. É da interação entre os dois elementos que a força emana.

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GAL: farpas para um país sem lobbies compõe-se em duas partes. Na primeira, entramos em contacto directo com o texto de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. “Vou buscar a ossatura da análise sofisticada dos autores e tiro toda a carne que são os adjectivos e as descrições de Portugal da época. Fica aquilo que eles pensam que o Estado seria, aquilo que as pessoas que governam esse Estado seriam ou como se comportam”, explicou de forma convicta. Tal como já n’As Farpas se denunciava, a “nossa República reproduz a mesma podridão”.

Na segunda parte, é apresentado o Manifesto Nómada, onde a improvisação ganhará corpo. “Ao contrário de 2006, que era uma paródia e em que foi feito um Manifesto pró-GAL, agora mantém-se a paródia mas leva-se um pouco mais a sério. O sentido é o de tentar dar algumas pistas para como ultrapassar esta apatia, esta passividade, ou esta incapacidade, que se sente e que muitas vezes vem de pessoas activas na nossa sociedade”. A esperança de um começo ou a esperança de que haja um espaço de possibilidade é o mínimo que se augura com este Manifesto.

Para Ricardo, leitor atento de vários autores no ramo da teoria crítica e da filosofia contemporânea, “é ao nível da forma e da atitude com que encaramos o pensamento e as ideias, como se formam e como as usamos, que está a resposta para a mudança. Ao encararmos o pensamento como acção mudamos a atitude, mudamos o modo de ser”. E o que interessa em GAL, este novo país que tem como cidadão predilecto o/a nómada, é exactamente “esse momento em que a ideia surge e depois, claro, o que fazes com ela”.

Este Manifesto tem por inerência uma performatividade futurista, “que quer aniquilar o passado e activar uma mudança”, advogando uma resistência e, acima de tudo, uma marginalidade sem centro. “O problema é que por muito inteligentes ou pró-activos que sejamos, resistimos. E o Estado apropria-se dessa resistência e usa-a para deter poder. Por exemplo, a primeira coisa que o primeiro-ministro diz quando há uma manifestação de milhares de pessoas é que é saudável e que faz parte da democracia. Esta é a estratégia do Estado para se auto-conferir mais poder. Portanto, não há que transformar o Estado, há que aniquilá-lo”.

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Ao longo de 60 minutos, os espectadores vão sentir-se desafiados e provocados. Irão ser confrontados com autenticidade, com garra e se tudo correr como esperado, as suas vidas não mais serão as mesmas. “Pode gostar-se ou não, mas ninguém vai sair indiferente. Não vou fazer teatro, não vou ser delicodoce e não vou estar com rodeios. Vamos incomodar o cérebro das pessoas, que vão ver genuinidade pura na persona Ricardo C’est Ça e na atitude do Bruno. É isso que vai agarrar as pessoas: não vão ver representação”.

Inserido na programação da Associação Cultural projecto BUH!, que nasceu em Coimbra em 2000, e fazendo parte de uma dilogia, este espectáculo conta ainda com o envolvimento de César Coelho, Sónia SP e Pedro Medeiros. A performance será seguida pelo concerto de Subway Riders, escolhidos pela sua particularidade de improvisação e portanto, incorporando o espírito que se pretende.

Ricardo fez questão de agradecer a todos os apoiantes deste projecto, bem como deixar uma mensagem para os curadores do nosso país. “Estejam atentos! Arrisquem! A arte está muito dependente de vós e neste tempo de crise, vocês são muito importantes para assegurar uma identidade arrojada. Leiam os portefólios e apostem também em projectos marginais como este. Sejam os olheiros da arte! A arte portuguesa já está bem representada mas pode ser ainda mais vital na sua afirmação”.

Vamos ganhar coragem e arriscar neste espectáculo com data única. Vamos conhecer GAL, onde o humano ganha a sua verdadeira condição.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 20 de Janeiro de 2015)