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‘The End of Everything’

BPI_3156 Uma polaroid de Marilyn Monroe. Na parte inferior, uma anotação a caneta onde se lê: ‘The End of Everything’. Foi aí que ancorou a inspiração para o título do primeiro trabalho discográfico a solo de Tracy Vandal.

Quiseram os acasos da vida que Boz Boorer, guitarrista e director musical de Morrissey, estivesse a passar uma temporada no Algarve, onde ele e a sua companheira Lynn Boorer têm uma residência de férias equipada com um estúdio de gravação chamado Serra Vista. “Perguntei-lhe se estava ocupado e disse que tinha músicas que gostava de gravar. Ele respondeu ‘Apanha o autocarro e vem cá ter. Temos quatro dias para gravar!’”

Descreve o processo de gravação do disco como um momento muito especial, sem interferências, com uma dedicação total à criação artística. “Ele pega em qualquer instrumento musical e basta-lhe ouvir os dois primeiros acordes para perceber imediatamente como é a música completa. Sabe exactamente onde a música pode ir”. As faixas vocais foram todas gravadas ao primeiro take, quando Tracy pensava estar apenas a ensaiar. Esta fórmula revelou-se a melhor para captar os sentimentos presentes em cada faixa: “Para mim o mais importante é conseguir a emoção certa quando canto, o que aqui iria acontecer de qualquer forma porque estava mesmo a viver aquele período”, explica, referindo-se a um momento de isolamento e de tristeza profunda que experienciava e que permeia todo o disco.  É que se o nome do álbum foi buscar inspiração a um registo fotográfico alheio, as faixas que o compõem são autobiográficas e um testemunho profundamente pessoal.

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A atmosfera negra e densa que se sente em quase todas as letras e harmonias musicais do disco vêm de uma profunda dor física e emocional, na sequência da luta travada contra um cancro que que a acompanhou ao longo de anos. Para o tom assombrado e melancólico de ‘The End of Everything’ muito contribui também a voz de Tracy Vandal , muito característica e dotada de um timbre fora do comum que recentemente ganhou mais profundidade.
“Estava muito doente quando escrevi as letras e as harmonias do disco e estava também em profundo sofrimento devido a um desgosto. Sentia-me muito isolada e era a primeira vez que estava a deixar o medo de lado e a verbalizar os meus sentimentos na forma mais próxima possível das emoções que sentia interiormente, na esperança de que alguém me ouvisse e compreendesse.” Nas palavras da autora: “Tudo o que está em cada uma das canções deve ser levado à letra e mesmo assim não chegará perto da escuridão e da tristeza da minha vida real.”

Assim, nas cinco faixas que compõem ‘The End of Everything’ partilha connosco as suas reflexões sobre as diferentes possibilidades de morte, as longas horas sentada à janela, sozinha e olhando para o vazio; as deambulações pela casa em busca de uma bebida e as suas recordações de juventude e todas as histórias e momentos que a fizeram chegar, tal como é, até ao momento presente.

The beginning of it all…
Conhecida principalmente como a voz dos Tiguana Bibles, Tracy Vandal tem uma longa carreira de criação artística e ligada à indústria musical que passa por ter integrado cerca de uma dúzia de bandas e trabalhado como técnica de som e como DJ.
“Sinto-me muito feliz por ser de Glasgow. A maioria das bandas que eu admiro agora são de lá. Isso só me ocorreu quando era adolescente. E foi uma surpresa porque eu pensava que odiava Glasgow, que odiava a Escócia”.

Sempre foi apaixonada por música. Envolve-se na cena musical com 15 anos, quando começa a frequentar o 13th Note, o emblemático bar, restaurante e clube nocturno local onde conheceu várias pessoas do circuito musical, que vieram mais tarde a ser conhecidas internacionalemnte.
A primeira delas foi Alex Kapranos (actualmente vocalista de Franz Ferdinand), com quem começou a organizar noites musicais temáticas e veio a formar um duo musical. Uma relação muito profícua que terminou quando, num momento de ânimos exaltados, lhe atirou com um Toffee Crisp à cabeça e foi despedida.

Aos 17 anos fez formação para ser engenheira de som em aulas leccionadas por Alan Rankine (The Associates), figura de referência para Tracy. “A formação era paga e portanto podia ganhar algum dinheiro extra, fazer música e estar com pessoas que admirava”. Entre os seus colegas de turma estava Stuart Murdoch, que veio pouco tempo depois a formar os Belle and Sebastian, banda indie pop de culto que chegou a fazer as primeiras edições físicas do seu álbum de estreia Tigermilk (1996) no âmbito desta mesma formação, uma edição rara e valiosa cujo valor ascende hoje aos milhares de libras.

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Estávamos então em finais dos anos 1990. Nesta altura, havia em Glagow várias bandas compostas exclusivamente por mulheres, inspiradas em grupos de referência como The Raincoats e The Slits. Por isso, o convite para integrar uma delas não tardou e passa a ser vocalista e guitarrista das Dick Johnson, um trio de garage rock composto por duas guitarras – instrumento aprendeu a tocar nessa altura – e uma bateria. Editaram cinco singles e tiveram algum reconhecimento, apesar da muita timidez (e falta de qualidade musical, segundo a própria Tracy). “Costumávamos beber uma garrafa de uísque cada uma, só para conseguir subir ao palco”. Um dos seus singles foi produzido por Jad Fair (Half Japanese) e Richard Kern (realizador e fotógrafo underground norte-americano) chegou a fazer registos fotográficos da banda.

Uma noite, actua com os Penthouse, banda liderada por Charlie Fink (que mais tarde veio a ser vocalista de Blood Safari). Conhece o guitarrista da banda, Jon Free, e fugiu com ele nesse mesmo dia para Londres, onde viveu durante vários anos. Na capital britânica trabalhou como engenheira de som durante cerca de seis anos no Hope & Anchor, reconhecido espaço que recebia diariamente bandas de todos os géneros musicais, mas que ficou muito conhecido pela sua ligação à estética e sonoridade punk. Até que um dia, já grávida do seu primeiro filho, é atingida por uma viola baixo num concerto de heavy metal e decide parar.

Em 2000 dá à luz o seu primeiro filho e integra mais uma banda, os Lincoln. Esta agremiação muiscal torna-se bastante conhecida no circuito country alternativo, lança cinco álbuns ao longo da sua carreira e realiza várias tournées com bandas como os Calexico, Lambchop e Tindersticks. Os seus companheiros de banda eram um pouco mais velhos e com vários filhos cada um, o que tornava a vida na estrada muito complicada. As condições dos locais onde actuavam não era boas e isso fez-se ressentir nos ânimos da banda. Com o encerrar de mais um projecto, seguiu-se um interregno na actividade musical.
É então que conhece Victor Torpedo (Tédio Boys, The Parkinsons, Blood Safari) em Londres com quem desenvolve uma relação pessoal e artística que a trouxe até Portugal, onde vive actualmente, e ao nosso conhecimento. “Home is where I live, as far as I’m concerned. So home is Coimbra.”

‘The End of Everything’ foi lançado em 2014 pela Lux Records. Tracy Vandal inicia em Fevereiro de 2015 uma digressão nacional de apresentação deste trabalho discográfico.

Agradecimentos a Carlos Dias e Bruno Pires pelas entrevistas gravadas.

Texto de Rita Alcaire
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 15 de Janeiro de 2015)