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Quando a alma ganha a voz

BPI_5538“Ary, o Poeta das Canções” é um espectáculo que estará em Coimbra na próxima sexta-feira (dia 5), no Conservatório de Música de Coimbra. Num destes dias fomos ter com o protagonista e ficámos então a conhecer Joaquim Lourenço, a voz que dá voz ao poeta. Podemos começar por dizer que estivemos perante um contador de histórias nato e que a conversa podia ter demorado horas. Já se vai perceber porquê.

Joaquim desde sempre se sentiu um auto-didacta. Nasceu no início da década de 70 no Ribatejo, apresentando-se como “um filho da guerra de África”, e foi com nove anos que recebeu a sua primeira guitarra, oferecida pelo pai. “Aprendi a tocar sozinho, gravando na memória aquilo que ouvia na rádio e na televisão. Mais tarde, gravava mesmo as músicas e depois com a guitarra tirava os acordes e a harmonia dos temas”. Na adolescência apaixonou-se pelo jazz e teve algumas aulas no Hot Club.

Foi nos anos 80 que se deparou com Zeca Afonso, uma referência para a sua geração e portanto, para si também. “Passei a conhecê-lo a partir dum concerto que ele deu, já doente, no Coliseu e que foi gravado para a televisão e editado em disco”. Imbuído num verdadeiro espírito musical, Joaquim e alguns amigos começaram a tocar pela rua e ao vivo em bares.

O tempo passou e chegou a altura de pensar numa carreira académica. Entrou em Sociologia, na Faculdade de Economia, viveu em Coimbra durante vários anos e hoje diz que “foi nesta cidade que tudo começou”. Com objectivos sempre ambiciosos, queria terminar o curso com o maior sucesso possível e assim foi. No entanto, a certa altura do percurso sentiu um desencanto. “Eu queria estudar a condição humana e a relação do Homem com o outro. A certa altura vi-me em volta de outras questões e, quando comecei a fazer investigação, percebi que me tinha enganado no casting. Algo me disse que não era o caminho”.

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A esse algo, atribuiu logo um significado: “sentia um grande apelo criativo”. A viola, que tinha ficado no saco, voltou a apanhar ar e foram feitas as pazes com a criatividade e a criação artística. Nos finais da década de 90, ainda em Coimbra, passou por diversas experiências musicais. Desde o pop, ao jazz ou à digressão com a banda Além Mar, Joaquim foi escrevendo a sua pauta.

De repente, deu-se uma revelação. “Ouço a notícia da morte do Frank Sinatra e vi um documentário sobre ele na RTP. Aquilo foi talvez a minha epifania”. Ficou fascinado pelo intérprete que cantava aquele clássicos americanos que já conhecia e não perdeu tempo. “Fui à Almedina e comprei a discografia toda dele”, relembra contente.

Ao longo de uma audição entusiasmada dos temas que Sinatra cantava, Joaquim descobre que também ele cantava nos mesmos tons. “Tinham-me convencido por essa altura que tinha jeito para cantar e disseram-me até para ir para um coro”. Esteve durante um tempo no coro da Gulbenkian e considera que aí ganhou algumas “técnicas”.

É em 2000 que estreia um espectáculo chamado ‘Só Nós Dois’. Acompanhando a sua voz com um piano, Joaquim fazia uma viagem pelos clássicos americanos e, na segunda parte, os clássicos portugueses. ‘E depois do adeus’, ‘Maria vida fria’, ‘Amélia dos olhos doces’ ou ‘Deixa-me rir’, eram parte do repertório. Após várias actuações, decide fazer o espectáculo só com temas portugueses. “Os nossos clássicos são muito ricos. Foram beber aos americanos mas também à canção francesa. Então era o melhor dos dois mundos”. Com novos arranjos musicais, onde considera misturar o classicismo com a contemporaneidade, levou a música portuguesa a percorrer o país.

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Ainda não satisfeito, faz as malas e vai para Nova Iorque durante três anos. Percebeu que tinha uma maneira muito expressiva de cantar, como fazem os actores no teatro musical, e a cidade que nunca dorme era a forma de tirar a limpo se a representação fazia sentido. “Estive pela Broadway mas também fiz teatro independente e mais alternativo. Foi muito importante trabalhar na sincronia de várias artes em cima do palco”.

De toda esta experiência americana, retirou uma das aprendizagens essenciais para o que faz hoje em dia. “A produção é muito importante. Às vezes acaba por ser tão ou mais importante que cantar bem e que ter música de qualidade. Aqui em Portugal não sabemos vender bem o nosso produto, não sabemos comunicá-lo”. Crente na qualidade do nosso país e na existência de excelentes artistas, Joaquim acha que o caminho passa pela exportação do que fazemos culturalmente. “O país não tem outra saída a não ser a nossa cultura”.

É baseado neste forte apreço pela cultura portuguesa, que surge a sua admiração, e consequente trabalho, pela obra de Ary dos Santos. O seu fascínio pelo poeta é notório e explica-o de olhos e coração abertos. “O país há 40 anos tinha 40% de analfabetos. O Ary tem este mérito de num país assim, de gente que nunca tinha aberto um livro, muito menos de poesia, ter posto toda a gente a cantar os seus poemas. Isto para mim é um milagre!”. Tendo escrito o seu primeiro poema para ser musicado em 1969 (‘A desfolhada’), Ary dos Santos escreveu 600 canções. “Ele consegue chegar a todas as faixas etárias e classes. É um poeta popular mas ao mesmo tempo liricamente sofisticado. Percebeu que não queria ficar na prateleira, como a maioria dos poetas, e passados 50 anos há canções que toda a gente ainda canta”.

Considerando as canções de Ary eternas e representativas dos ciclos da História e da condição humana, “parece que foram escritas hoje”, Joaquim cria em 2009 o espectáculo “Ary, o Poeta das Canções” e que anda em digressão há cinco anos. “Não canto estas canções num sentido oportunista pelo que se está a passar. Este espectáculo conta uma história, que é a do nosso país desde os anos 60 até hoje. A forma como alinhei e liguei as músicas é uma narrativa”.

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Para além da sua voz, Joaquim faz-se acompanhar por um pianista, um saxofonista, um contrabaixista, um guitarrista, um baterista e uma bailarina, que dá “outra cor”. E claro, é também o produtor. Mas para além da música e da dança, existe uma componente de reflexão. “É a humanidade portuguesa a confrontar-se com a sua história e o seu presente. Está ali muito da nossa realidade”. Para apelar ainda mais aos sentidos, existe uma componente multimédia com imagens antigas e actuais do país.

Importa também referir que a bilheteira reverterá integralmente para a Liga dos Amigos dos HUC. “O Ary era socialmente comprometido. Faço jus ao poeta e a cada sítio onde vou, escolho uma instituição ou uma causa local que precise e que faça sentido ajudar”. No próximo ano, ainda estará na estrada e mais tarde, segue-se a internacionalização. “É uma missão que tenho: levar isto lá para fora”.

Através de dezoito canções, Joaquim Lourenço garante uma viagem em primeira classe. E como disse o poeta:

«Tem defeitos, é certo. Como todos nós.
Sonha, às vezes demais,
Fala, às vezes no ar
Mas quando dentro dele a alma ganha a voz
É tal como se fosse o som do nosso mar,
Se pudesse falar…»

(O Amigo Que Eu Canto)

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 03 de Dezembro de 2014)