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Missão: Antártida

BPI_9677Em Setembro passado foi lançado o novo Atlas Biogeográfico do Oceano Antártico, pelo Scientific Committee on Antartic Research. Este trabalho é fruto da cooperação de 147 cientistas, de 91 países e 22 instituições. Entre eles está um português, o investigador do Instituto do Mar (IMAR) da Universidade de Coimbra, José Xavier. A Preguiça ficou em pulgas para saber mais sobre este Atlas e esteve com o investigador, numa conversa tão fascinante que só apetece acompanhá-lo na próxima expedição.

A trabalhar há vários anos na Universidade de Coimbra, no IMAR, José Xavier, biólogo marinho, professor e investigador, divide o seu tempo em duas metades: uma cá e outra no British Antartic Survey, em Cambridge. De uma forma geral, todo o trabalho que executa está relacionado com as alterações climáticas e como estas afectam o planeta. “Uma das melhores partes para estudar estas questões é uma parte da Antártida que está a aquecer mais, a Península Antártica. Quero perceber como é que os animais que dependem do mar são afectados, como é que lidam com isso e perceber também o que vai acontecer aos recursos marinhos como sejam os peixes, as lulas, os camarões, etc.”.

José Xavier explicou-nos que 2014 foi um ano em cheio no que diz respeito a publicações de grande impacto mundial. Em Agosto, a revista Nature publicou um artigo onde se definem as áreas prioritárias que a comunidade científica que faz investigação na Antártida deve ter nas próximas duas décadas. “Primeiro, houve um Fórum online onde qualquer cientista pôde submeter as questões que achava importantes investigar na Antártida e em Março, na Nova Zelândia, vários especialistas convidados, de diferentes áreas, analisaram esses resultados”. O investigador foi o único português a estar presente nesse grupo de especialistas.

Através do artigo da Nature podemos então saber que áreas são essas. “Vão desde o clima, ao degelo, à evolução do planeta, à astronomia, ao que vai acontecer aos oceanos, que é a parte que me toca”, explica. No entanto, gosta de deixar bem claro, “os oceanos a nível global. Como as águas da Antártida são tão frias, quando o gelo derrete, afunda. Essas águas têm uma assinatura, uma característica e podem chegar, em grandes profundidades, mais ou menos até às ilhas Canárias. Quando começam a subir, porque aquecem, trazem nutrientes da Antártida misturados. Ou seja, esses nutrientes fazem parte da produção primária das nossas águas. Estamos interligados e percebemos que a investigação que fazemos tem de ser global e multidisciplinar”.

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Passemos agora ao que nos trouxe aqui: o Atlas Biogeográfico do Oceano Antártico. O objectivo deste trabalho foi “fazer uma inventariação das espécies que existem na Península Antártica”. Em quatro anos de trabalho, foram encontradas mais de 9000 espécies, sejam de grande profundidade, de superfície, residentes ou migratórias. Através, por exemplo, de fotografias e mapas podemos perceber também onde essas espécies estão distribuídas e as áreas onde existem em maior abundância. Para José, é importante “perceber onde estão, perceber o seu papel na cadeia alimentar, desde os predadores de topo até às plantas, e com isso ajudar na sua protecção e conservação”.

Pinguins, focas, baleias, lulas, albatrozes, andorinhas do mar, são alguns dos animais que fazem parte do dia-a-dia deste biólogo marinho. A sua contribuição para este Atlas prende-se especificamente com “rever o que se sabe ao nível da biodiversidade das lulas no oceano Antártico”. Neste compêndio, “fizemos um update de onde as lulas foram capturadas por redes de pesca e uma revisão de tudo o que foi apanhado desde o século XVII, desde que alguém foi para a Antártida, até hoje. Isto para saber onde as lulas estão distribuídas, onde são mais abundantes, quais são puramente antárticas e quais também existem noutras áreas ou até quais podem no futuro ser comercializadas”.

A trabalhar com lulas desde 1997, a labuta de José com estas criaturas no oceano Antártico não se fica por aqui, é muito mais profunda. Para as analisar em pormenor não usa a captura por redes de pesca, mas sim através dos predadores naturais. “Metemos aparelhos estilo GPS nos animais, nas costas ou nas pernas, para saber onde se vão alimentar de lulas. Além disso, fazemos análises ao seu sangue ou abrimos o estômago para ver o que comeram”.

Para leigos como nós, desvendamos aqui um dos muitos procedimentos que a equipa de José segue. Os albatrozes são alguns dos animais seguidos pelos olhos artificiais destes investigadores. Quando estes animais alimentam os seus filhotes, através do bico, incluem as lulas como ingrediente da dieta. Ora, os pequenos albatrozes conseguem digerir toda a alimentação, menos os bicos das lulas, que se instalam no seu estômago. Quando estão prontos a deixar o ninho, vomitam tudo o que não conseguiram digerir. “Nós analisamos então esses bicos das lulas e é possível saber de onde veio a lula e o que andou a comer”.

Técnicas e procedimentos à parte, a motivação é outro elemento essencial para que o fascínio nunca se perca e para que a coragem e vontade de fazer várias expedições à Antártida não esmoreça. José já conta com oito expedições feitas. “O que me motiva a continuar é o querer descobrir. Quando cheguei à Antártida a primeira vez, percebi que era um planeta dentro de outro planeta. Os animais, os icebergues, as tempestades, fazem parte de um ambiente completamente diferente”. Todas as viagens são projectadas com dois a três anos de antecedência e planeadas ao dia. “Tudo é equacionado ao pormenor e as questões de segurança são levadas ao extremo”.

Perguntámos se já apanhou algum susto valente. “Sustos há sempre. Já atravessámos a Antártida num navio com mais de 100 metros de comprimento e a abanar como uma casca de noz”, relembra. A verdade é que ali “é o ambiente que dita as regras, havendo dias que não dá para fazer nada. O mais valioso é que todos se ajudam uns aos outros”.

Sendo o único continente que não pertence a ninguém, a Antártida é povoada, para além da biodiversidade que lhe compete, por imensos investigadores que trabalham em prol do bem comum. “A Antártida é regida por um Tratado assinado em 2010 que diz que ela deve servir a ciência e a paz. Estão mais de 50 países a trabalhar lá e a tratar de questões que têm implicações planetárias”.

Com uma expedição já marcada para o próximo ano, José e a sua equipa continuarão a centrar-se no estudo do oceano Antártico como um todo. Perceber os riscos e os impactos que mares e animais hoje correm e quais as medidas de protecção e adaptação a serem tomadas. A nível global.

Por fim, deixamos uma pequena adivinha que este investigador não resistiu a colocar-nos. Porque é que os ursos polares não comem pinguins?

Alguém adivinha?

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 10 de Novembro de 2014)