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Hernâni Caniço

largoHernâni Caniço é médico, docente universitário e voluntário. São esses os três “empregos” do presidente da Saúde em Português, organização humanitária com sede em Coimbra, que tem 16 profissionais a postos para integrar uma “missão de alto risco”, de combate ao ébola, na Guiné-Bissau. Há várias coisas que demolia, se pudesse, na cidade onde escolheu viver. Uma delas, o provincianismo.

Gosto de Coimbra porque…
Aos 12 anos, após grave acidente de viação em Fazendas de Almeirim, Ribatejo, decidi que iria ser médico em Coimbra. Revejo-me em Coimbra, onde vivo, amo, sofro. Foi a imagem e idolatria na adolescência e a capacidade de luta e paixão estudantil na juventude, é a qualificação e a profissão médica, a emoção de (ainda) acreditar em Coimbra. Coimbra p`ra ser Coimbra, mais três coisas há-de contar, ser humano, ser activo, e pela solidariedade lutar.

Figura mais emblemática da cidade:
Zeca Afonso, que conheci no Congresso da Oposição Democrática em Aveiro em 1973, será sempre a minha referência, pela humanidade e rebeldia, pelas trovas de encanto e pela luta, amargura e alegria. Manuel Alegre, pela voz e resistência. E os meus amigos que partiram… e não voltam mais.

Em Coimbra, irrita-me…
Que a cidade permita que as palavras sejam pisadas, que não assuma a sua coluna vertebral de Coimbra solidária, que a inovação técnica e científica, o exercício da cidadania e o valor das pessoas não sejam reconhecidos intramuros. Irrita-me ainda a dependência, a bajulação, o autoritarismo, a servidão, a corrupção, a doutorice e o complexo de inferioridade por antítese.

Sítio preferido:
O Mondego, as suas serenas águas, as árvores e ramadas sibilantes, os espaços verdes adjacentes vivos, a fauna piscícola em agitação, os sons túrgidos da corrente, as correntes da força da natureza indomável, as aves e pássaros diferentes de Hitchcock, a tranquilidade e a paz, para onde vais rio que eu canto. A vida é água a correr, diria António Gedeão. A Universidade, os Monumentos, o Jardim Botânico, o Choupal, tudo o que é património apesar de nem sempre ser valorizado por (alguns) munícipes e (alguns) eleitos mais preocupados com guerras espartanas, regimes palacianos, lugares de ocasião, ego elevado, diz-que-disse e job for the boys.

Melhor esplanada:
A esplanada na Praça da República, vulgo ”A Praça”, para quem conheceu um espaço de contestação, união e liberdade, através de “piscinas” preparatórias da revolução, de concentrações da massa estudantil, intelectual ou operária, de apertada vigilância dos opressores qual lago do breu, de fruição de ideias que mudam o mundo. Infelizmente, a esplanada e a Praça andam ao sabor do advento económico e economicista, sem margem para o não lucro, sem respeito pelo passado, sem reporte da memória, sem retrato de sentimentos, utopias e ilusões.

Melhor sítio para comer:
Os restaurantes do quotidiano, Sereia do Mondego e D. Elvira. Pela confecção alimentar, a atenção sem pressão ou servilismo, a proximidade e a familiaridade entre as pessoas. Os restaurantes gourmet, em criação e com preços módicos, quando existirem nestas condições e conciliarem apreciadores e estatuto.

Melhor sítio para beber copos:
O Bar Galeria Santa Clara, pela envolvência ambiente, acto de cultura, área paisagística, lazer e bem-estar, adequação ao tempo e espaço. O Feito Conceito, pela agitação estudantil, explosão de palavras, sons e desabafo, álcool sem estado puro, conceitos sem preconceitos. Falta-me a Cervejaria da Fábrica…

O que faz no dia do cortejo da Queima das Fitas?
Faço a minha vida profissional e solidária como todos os dias. Enquanto as minhas filhas foram estudantes, acompanhei a entourage da Queima, incluindo o cortejo, por compreensão e afecto. Mas durante 10 anos não existiu Queima em Coimbra. Após a crise académica de 1969 a 1974, não houve Queima porque o luto académico assim o indicava. Existiram então arremedos de Queima, organizados por sectores afectos ao regime político, contestados por quem assumiu a liberdade e a democracia como apanágio de vida. De 1974 a 1977, já em liberdade, não houve Queima, por turbulência de acção, resistência à tradição e outras prioridades e motivações. Fui estudante de 1971 a 1977. Só se pode ter saudade do que se vive. Eu tive o luto e a luta, sem Queima.

Onde costuma estacionar quando vai à Baixa? Dá moeda ao arrumador?
Em qualquer parque e lugar, onde não transgrida, lamentando a escassez de lugares, a dificuldade de parqueamento próximo do local de destino em função do tempo disponível, a falta de civismo do(s) condutor(es) que descarregam as frustrações ao volante considerando-se Fangio ou Fittipaldi, e a objectiva caça à multa na falta de outros recursos ou proventos económicos para a (i)moral e os costumes. Dou moeda ao arrumador, habitualmente contrariado, por me confrontar com o dilema entre a falta de oportunidades e sortilégios que caracterizam (alguns) arrumadores, e o oportunismo e degradação de percursos de vida que a sociedade organizada deveria contemplar apoiar para que a dignidade da pessoa não estivesse em causa. Não esquecer que muitos destes prestadores de qualquer coisa, serviço ou mendicidade, são vítimas de tráfico de seres humanos, competindo ao cidadão precisamente a cidadania e não virar a cara para o lado.

Onde é que não leva um amigo de visita à cidade?
Ao Estádio Cidade de Coimbra, porque não tem público que se veja, ao Teatro Gil Vicente porque as cadeiras não são confortáveis e vai haver um peditório para a sua recuperação, ao Metro Mondego porque não existe, ao Centro de Congressos a concluir até 2000 e não sabemos quando, ao Jardim da Sereia pela degradação e companhias, ao Museu da Cidade e da Lusofonia porque não foi pensado. A olhar para o chão, para onde adultos e crianças sem educação despejam objectos e consumíveis, inutilidades, piriscas e secreções humanas (inclui preservativos), permitem dejectos do seu cão e não os recuperam, não cuidam de vegetação e canavial. A observar  o casario, os arranjos murais e estruturas de acesso rodoviário que não vêem tinta, cimento ou pedra há anos, ao contrário de vilas e aldeias cuidadas, por inépcia e desleixo de proprietários na cidade dos doutores, e ausência de programas de reabilitação municipal. A fazer uma caminhada ou percurso pedonal, porque não existem trajectos urbanos adequados e disponíveis para prática do exercício físico sem encargos e promoção de estilo de vida saudável.

Se pudesse demolir alguma coisa em Coimbra, o que seria?
A urbanização dos jardins do Mondego. Noutra fase, a Torre do Arnado. Demolia ainda o provincianismo, o sebastianismo, o egoísmo mais o snobismo e cismo…

Um espaço desaproveitado:
Os auditórios ao ar livre, junto à Igreja de Santo António dos Olivais (com capacidade para 600 lugares) e na Quinta de S. Jerónimo (mais pequeno). O Choupal, apesar da preservação da vida animal e flora, pela falta de percurso turístico organizado e regular, insuficientes actividades de vida saudável e recursos logísticos e degradação de áreas não reabilitadas. A mata de Vale de Canas, pela falta de iniciativas colectivas que juntem e aproximem pessoas, em fruição e acontecimentos.

Melhor espectáculo que viu:
O concerto da campanha “Salvar vidas no Haiti!”, designado “Dar a Voz pelo Povo do Haiti”, em 2010 (a última vez que vi o TGV esgotado), um espectáculo de solidariedade com as vítimas do terramoto, organizado por Saúde em Português, com Vitorino, Brigada Victor Jara, Sofia Victória e Luís Figueiredo, Inês Santos e Paulo Figueiredo, entre outros. Um concerto do cantor cabo-verdiano Ildo Lobo, líder dos Tubarões, pouco antes do seu desaparecimento prematuro, com a sua voz tonitruante no TGV e a magia da música das ilhas, intercontinental e da lusofonia. A exposição de pintura de Álvaro Simões “Triângulo do Mar – Caravelas da Solidariedade”, a exposição fotográfica de Pedro Medeiros “Mercadoria Humana”, ambas no âmbito de projectos de Saúde em Português, e a exposição de escultura de Pedro Figueiredo “Simbiose”.

Último museu que visitou:
O Museu Nacional Machado de Castro, que deveria ser considerado a Bíblia da Arte em Portugal, quer pelos cidadãos de Coimbra, quer pelos arautos da capital do império, merecedor de promoção e investimento, porque a política deve ser um acto de cultura.

Para relaxar/estar sozinho…
Repouso no meu minúsculo jardim, aprecio e valorizo a família, passeio no Parque Verde do Mondego, (re)visito a Praça da República, medito sobre o meu percurso de vida.

Para me informar sobre o que acontece em Coimbra…
Leio diariamente o Diário de Coimbra e As Beiras e semanalmente o Campeão das Províncias. Sou aderente a todas as páginas sobre Coimbra que conheço nas redes sociais. E descobri a Preguiça… Lamento a pouca informação e impacto de Coimbra nas notícias nos órgãos de comunicação social nacionais, excepto por acções de faca e alguidar, diatribes politiqueiras, troca de influências ou aberrações tipo Entroncamento (não só sobre Coimbra…).

Estou a responder a este inquérito…
Em casa, num domingo, sorumbático e chuvoso, após as compras de mercado e constatar a mobilização das pessoas pelos centros comerciais, ir e vir, ver e não comprar, ignorar ou apreciar, ar taciturno e pouca chama.
Enquanto respondo ao inquérito, reflicto sobre os múltiplos trabalhos da semana que aí vem, e outra, e outra,…, decorrentes da vida activa e da dedicação aos doentes, ao trabalho docente e ao voluntariado nacional e internacional.

Questionário de Carina Fonseca

(Publicado a 05 de Novembro de 2014)