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Noite de cantar aos vivos

BPI_0797– Vamos cantar alguns temas do cd (que vamos apresentar no Dia da Mulher, em 2015) e outros que nada têm a ver com esse novo trabalho, mas sim com o dia, o Dia dos Finados.

– Quando saírem do TCSB, as pessoas vão levar a imagem da queimada, do esconjuro, da aguardente…

– Um ritual que se associa comummente à bruxaria…

– Mais por folclore. Será mais correcto falar de paganismo quando referimos as nossas práticas tradicionais.

– De feitiçaria… E daqui a nada estamos a falar dos druidas (risos) …

O entusiamo é grande, até porque as cantoras de que este texto fala têm actuado raras vezes em Coimbra (sem contar aqui com algumas participações e colaborações com outros artistas), onde residem. A convite d’ A Escola da Noite, as “Segue-me à Capela” vão cantar aos vivos no apelidado “Dia dos Mortos”, no Teatro da Cerca S. Bernardo, em Coimbra, no próximo sábado.

Conversando com os elementos das “Segue-me”, salta à vista a preocupação com a pesquisa, com os aspectos vitais da cultura popular portuguesa, tantas das vezes aqui e ali escondidos, com a atmosfera de outros tempos e com as suas marcas.

Não admira: este colectivo feminino canta desde 1999, misturando sons antigos com sons muito novos, assumidamente na busca dos pontos de ligação entre o cancioneiro musical e os vários momentos do ciclo anual. Ora o momento que dobra o calendário para Novembro, na nossa tradição, está bem distante da celebração do Halloween, festejo de origem anglo-saxónica recentemente importado, ponto assente.

O principal instrumento? A voz, sempre a voz… Porque “ gostamos de ouvir os lugares da voz, os silêncios das palavras e a harmonia surpreendente que estas cantigas guardam”. E por isso mesmo cantam à capela. Com estas sete mulheres (número mágico e auspicioso) acrescentam-se novas linhas que conferem aos temas uma imagem diferente, “modernizada”, ou melhor, contemporânea, sem lhes retirar o sabor e o saber ancestrais das versões originais (muitas delas vindas das recolhas de Giacometti, Veiga de Oliveira, José Alberto Sardinha e do próprio GEFAC-Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra). Aliás, uma marca distintiva das “Segue-me à Capela”, para além da recriação dos cantares tradicionais, são os arranjos interpretativos vocais – fantásticos, fantásticos.

Instrumentos de percussão (de entre os quais se destaca o adufe, totalmente do mundo do feminino…) e elementos cénicos apenas servem o objectivo de amplificar a voz, acentuando a atmosfera ora de festa, de folia, de religião, de trabalho, ora de drama…

No universo da música tradicional portuguesa, é considerado um dos projectos mais originais este que conta com as vozes de uma médica, uma magistrada, três professoras, uma psicóloga, uma investigadora. Catarina Moura, Margarida Pinheiro, Maria João Pinheiro, Mila Bom (estas quatro vozes fazem parte da formação inicial do grupo…), Ananda Fernandes, Ana Marques e Joana Dourado afirmam a importância da relação de fruição dos seus cantares: “esse é o nosso retorno”.

E tudo começou com uma experiência de mulheres à capela, no GEFAC, de onde várias vêm (a saber: Ananda Fernandes vem da Brigada Victor Jara; Joana Dourado e Maria João Pinheiro do Órfeon Académico de Coimbra).

Logo no início, a participação no Intercéltico (Porto) levou-as ao Folk de Segóvia que, por seu turno, lhes abriu a porta para imensos festivais em Espanha, onde apresentaram mais espectáculos do que em Portugal.

O primeiro cd logo esgotou (ainda hoje muito procurado…) e há vontade de o reeditar. Mas primeiro há que apresentar “San’ Joanices, paganices e outras coisas de mulher”, dentro de meia dúzia de meses, um cd-livro dividido em sete capítulos.

Com esta referência incontornável no panorama da música tradicional ibérica, a noite de sábado no TCSB será especial e garante uma festa grande, à volta da música, da queimada galega e da encomendação das almas, do esconjuro, do exorcismo que, segundo as lendas ancestrais, nos protege dos maus espíritos e dos feitiços… De lado não ficarão “Senhora do Almortão”, “Macela-São João” e “Alvíssaras”, canções emblemáticas do seu reportório.

Motivos de sobra para celebrar os vivos…: Vamos segui-las?

Texto de Teresa Carreiro
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 31 de Outubro de 2014)