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5 espaços, 5 coletivos, 5 criações

O produto dos trabalhos realizados no âmbito do Projecto Formativo Workshop#1 // Instalação, Fotografia & Som, que decorreu entre novembro de 2013 e maio de 2014 sob a coordenação da compositora e fotógrafa Patrícia Sucena de Almeida, deu-se agora a conhecer à cidade de Coimbra através de um conjunto expositivo que a Preguiça foi visitar.

Esta actividade formativa (o workshop#1) resultou de uma parceria constituída pelo Teatro Académico Gil Vicente e o Curso de Estudos Artísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e destinava-se a um público de espectro amplo englobando músicos e compositores, bem como a fotógrafos profissionais e amadores. Neste sentido, conceberam-se seminários e laboratórios de criação que ofereceram aos formandos a possibilidade de experimentar o trabalho em grupo sobre as práticas artísticas em título (instalação, fotografia & som) em diversos lugares destinados para o efeito: o TAGV, a Casa das Caldeiras, o Jardim Botânico de Coimbra, a Faculdade de Letras e o Colégio das Artes.

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O Herbarium#1 resulta do colectivo formado por Carina Martins, Frederico Dinis, José Crúzio e Luísa Baeta e ocupa o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Trata-se de uma instalação concebida para o interior de um edifício de planta centrada, situado na quadra central do Jardim e construído nos finais do século XVIII. Esta intervenção conjuga a imagem e o som, como as demais instalações produzidas no âmbito deste projecto, em perfeita integração com o espaço albergante. Entrando no húmido recinto pétreo, de cujas paredes flui uma transpiração dessazonada e constante, somos confrontados com um ambiente-outro, ainda que preso ao espírito do próprio Jardim, ao Horto e à Natureza, com a sua capacidade de produzir efeitos de densa tranquilidade e recordando-nos o remanso da flora, quando experimentada através do olhar, e a doçura da fauna atravessada pelo ouvido. Subjacente a este projecto partícula está esta ideia de transubstanciação da natureza em obra, ou a recriação de um novo e alternativo ecossistema que comunga perfeitamente com o espaço que o alberga, irmanando-se com ele de uma forma muito singular e permitindo-nos esquecer a própria realidade, porque a escala se reduz à nossa, e porque os sons nos possibilitam uma imersão especial.

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Seguindo para o Colégio das Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, permitimo-nos a visitar o projecto de Arnaldo Carvalho e Liliana Mendonça titulado (Des)Analgesias que interveio na Escadaria. O título da instalação instiga a um conjunto de pensamentos que nos remetem para um lugar concreto de reflexão: o analgésico e o seu contrário. O escadório do Colégio das Artes mascarou-se com uma estrutura que convida ao usufruto dos degraus e à observação das imagens que se nos oferecem no decurso da descida, todas relacionadas com a Dor. As várias dores do homem expõem-se através das imagens que nos pedem à demora e oferecem-se através do som, com os seus compassos perturbadores. Viajamos, integrados nesta instalação, através do abandono, da solidão, da miséria, do sofrimento da carne, do sacrifício, do castigo e depois, já na subida do lanço esquerdo, através do vazio e do nada. Presidiu a esta instalação o interrogatório sobre a nossa forma de conviver com as imagens violentas que nos assolam constantemente, obrigando-nos à apatia que nos livra do desconforto. Na realidade, o homem é, desde sempre, confrontado com imagens dolorosas e de privação, facto que o obrigou a desenvolver ferramentas de analgesia. (Des)Analgesias intenta, precisamente, romper esse vidro protector e purgar-nos desse processo para que possamos dar-nos conta da nossa própria humanidade.

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No foyer do teatro Paulo Quintela, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, podemos experimentar O Legado, de Natália Rodrigues e Sara Leonardo. Esta dupla ideou a obra de acordo com o espaço para o qual foi concebida e com as inquietações de dele advêm, relacionadas com o Teatro. O que está por detrás da cena do palco, o que reside para além do olhar do espectador, o que antecede e fecha o espectáculo ou, numa palavra, os bastidores e o trabalho criativo que se sistematiza até vir a lume constituem as forças motrizes deste projecto que, sem fugir à norma fulcral do workshop formeiro, concilia a imagem e o som. Para fruir a obra somos forçados a entrar numa estrutura quadrangular forrada com fotografias niveladas ao nosso olhar. Entrando nesse cubículo sentimo-nos como num microteatro, num teatro de viagem ou num teatro-outro a que raramente assistimos mas que nos é tão familiar.

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dimensões (in)temporais é a proposta de Bruno Lisita e Vítor Garcia, integrada na emblemática casa das máquinas do Edifício das Caldeiras e que evoca lugares e sons que nos convidam a exercitar a memória.  As fotografias impressas enquadram-se no interior dos seis nichos criados pelas aberturas das câmaras das caldeiras, espaços de onde saem os sons recolhidos nas ruas e cafés da cidade, bem como na parede de tijolo. A par destas imagens fluem outros conjuntos, projectados nas caldeiras (dos anos trinta do século XIX) e abarcando as paredes fundeiras por onde passa o filme em dois eixos, um horizontal e outro vertical, criando o movimento que as cidades assumem, em veios de gente que transmigra constantemente. Este jogo contínuo com os espaços e o diálogo entre o físico (a fotografia) e o imaterial (o som) marcam esta instalação que estimula, como as peças remanescentes deste ciclo de cinco obras, os vários sentidos humanos que se articulam para nos dar a conhecer cada peça.

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Na Sala Branca do TAGV somos convidados a visitar a de|cisão, um projecto de Cristina Fernandes, Daniele Eckstein, Hermano Noronha e Margarida Neves e que nos fala da anomia. A instalação convida-nos a espreitar para as fotografias presas nas paredes dentro de estruturas em cartão. Vemo-las como se olhássemos através de um óculo (a percepção do espaço em profundidade) ou através de uma moldura em caixa. O efeito gerado por estes múltiplos e diferentes caixilhos é a recriação das paredes da Sala Branca que se fantasiam e relevam sem deixar adivinhar o que escondem, a menos que nos acheguemos a cada uma delas. Ao centro desta composição suportam-se quatro impressões em papel que moldam um claustro. Entrando nesse lugar, ou na arquitectura dentro da arquitectura, aquietamo-nos ao som de Bach que nos ensina sobre a harmonia que o homem ainda pode alcançar se construir atendendo a uma plêiade de valores e de referências, ou qualidades cujos nomes se vão esquecendo no tempo. Apesar dos atropelos constantes, dos arremessos, das insondáveis acções desprovidas de sentido, apesar da anomia e das cisões, ainda há esta possibilidade de decidir, ou de escolher os caminhos que queremos perpetuar.

E a viagem termina no foyer do TAGV que resume todos os caminhos que este projecto global nos solicita a empreender. Resta, depois deste périplo pelas cinco intervenções que nos chamaram a experimentar cinco lugares alterados, pensar na valia deste projecto formativo que congregou formandos e formadores, bem como as instituições envolvidas no processo, permitindo a cada membro das várias equipas de trabalho abrir as asas e voar, através das criações que se desenvolveram e expuseram, oferecendo-se à cidade num discurso que enceta tantas possibilidades.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 27 de Outubro de 2014)