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Pastéis de Nata – Palmeira

BPI_9963Uma crónica que esteve para não o ser. Ou melhor, esteve para o ser num outro local que não este. Mas a simpática recomendação de uma leitora da Preguiça Magazine Coimbra e uma ronda de recados a resolver na Baixa levaram-me a entrar na Pastelaria Palmeira, chutando para canto o texto previamente agendado.

Conheço a Palmeira basicamente de passagem. Só lá entrei talvez uma meia dúzia de vezes para satisfazer uma gulodice repentina a caminho de um qualquer compromisso. Para mim, será sempre aquela pastelaria na Rua da Sofia com o cozinheiro dançante, um boneco articulado com ar de Avô Cantigas que há anos mora na montra, e que mais para o final de ano se veste a rigor para receber o Natal (já não deve demorar a mudar a fatiota). Hoje mesmo tive a oportunidade e a vontade de examinar o local com mais atenção.

Mas vamos por partes. Entro e tiro uma senha. Enquanto aguardo pela minha vez, aproveito para observar e sentir a energia do local e conhecer a oferta. Do lado esquerdo de quem entra, a padaria. Do direito, a pastelaria. Ao centro algumas mesas devidamente policiadas por uma pequena patrulha terrestre de pombas.

A atender contei seis pessoas, e nenhuma tinha mãos a medir. Sinónimo de uma casa sempre repleta de clientes, alguns deles habituais, pois assim que cruzavam os olhos com algum elemento da equipa ou proferiam um ‘bom dia’, logo os seus pedidos começavam a ser tratados sem que precisassem de os proferir verbalmente.

Os pastéis de nata estão em exposição na prateleira de cima, em lugar central. Observo-os e reparo que são de dimensão considerável. Na bandeja ao lado, uma sua prima afastada: uma espécie de nata de massa areada, recheio mais robusto e já com canela em cima. Compro as últimas natas em exposição e é dada ordem em voz alta para renovar o stock ‘outra vez’, o que me leva a pensar que assim que as portas da Pastelaria se abriram, logo um batalhão de natas desapareceu com os primeiros cafés.

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Com a agenda sempre cheia e já a olhar para o relógio, opto por levar uma caixa com exemplares das duas variedades comigo e apresso-me a apanhar o autocarro. O percurso é atribulado e a caixa sofre empurrões e reviravoltas. Convenço-me que com esta dança contemporânea nos transportes públicos o seu conteúdo se transformou numa espécie de açorda e qual não é a minha surpresa quando abro cuidadosamente a caixa e vejo que, embora as natas de massa areada estejam danificadas, as de receita clássica chegam ao destino ‘sem um cabelo fora do sítio’. Cheiro-as, aperto-as e reparo na sua robustez de creme e na massa rija. Assumo que o recheio é gelatinoso e que a massa é seca, pois só assim se explica a sua resistência a tão difícil viagem. Dou a primeira dentada a medo e logo se desvanecem todas as dúvidas. Não me vou alongar para não cair em clichés que envolvem música celestial e sensações de estar a flutuar. Depois de, ainda de boca cheia, soltar o meu amplo reportório de calão, tento manter a seriedade gastronómica que me é pedida (e que eu na verdade nunca tive) e analisar cada detalhe da consistência e sabor da massa e do recheio, mastigação e… que se lixe a seriedade! Funciona tudo na perfeição e derrete-se na boca que é uma categoria, não precisa de canela nem de café, nem de descrições minhas. Fiquem apenas a saber que se arrisca a ser o melhor pastel de nata de Coimbra e ainda vou a meio do périplo.

Ataco mais um e o meu cérebro entra automaticamente em modo pop-romântico dos anos 1990. Ainda com a última dentada mal mastigada, a banda sonora dispara em registo Mariah Carey e declaro: ‘I can’t live, if living is without you’.

 

Pastelaria Palmeira | Rua Sofia 13 a 15

Texto de Rita Alcaire
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 17 de Outubro de 2014)

1 comment

  • Maria Augusta Monteiro

    Na minha vida de 65 anos, foram sempre os melhores pasteis, que o meu querido Tio e Padrinho Sr. Manuel Quintaneiro me oferecia. Obrigada por tão belo comentário, coincidencia das coincidencias, publicado no dia que fez 9 meses que o meu querido Padrinho partiu, paz à sua alma e de todos os que fizeram parte da nossa família, que já estão junto de DEUS. A sua afilhada Maria Augusta.

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