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A Impossibilidade Poética de Conter o Infinito

BPI_9724  A Preguiça foi visitar, no dia da sua inauguração, a exposição de Edgar Martins, comissariada por Catarina Pires e patente na Sala da Cidade (o antigo Refeitório do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra) até 3 de janeiro de 2015.

Trata-se de uma iniciativa organizada e produzida pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, a Agência Espacial europeia (ESA), a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal de Coimbra, sob a coordenação geral de Sérgio Seixas de Melo.

A Impossibilidade Poética de Conter o Infinito constitui-se como um dos mais recentes trabalhos de Edgar Martins, realizado entre 2012 e 2013 nas instalações da ESA (European Space Agency) que acolheu o artista, permitindo o seu trabalho fotográfico no interior das suas restritivas instalações, facto que resultou num conjunto de 60 imagens das quais se seleccionaram 15 para esta exposição coimbrã. Para além do conjunto de fotografias, esta mostra conta ainda com a projecção de um vídeo sobre o trabalho do artista, bem como com um conjunto de 15 objectos e instrumentos científicos que fazem parte do espólio da ESA e que se exibem agora pela primeira vez.

Foi com grandes expectativas que chegámos à exposição, porque o título consubstanciava o início de uma experiência que não podíamos perder. Perguntávamo-nos então sobre a impossibilidade poética de conter o infinito, ou da impossibilidade real de conter o infinito, ou se o infinito pode sequer conter-se, e esta indagação teórica foi-nos guiando os passos no interior do velho Refeitório do Mosteiro de Santa Cruz.

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Logo à entrada da sala deparamo-nos com duas fotografias simétricas, de grande formato, obtidas a partir da Grande Câmara Europeia de Ensaios Acústicos (ESA _ ESTEL, Noordwijk, Holanda) que nos convidam a iniciar uma viagem especial. À nossa esquerda oferecem-se ao olhar duas imagens que correspondem a uma luva espacial do Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin (Cidade das Estrelas, Federação Russa) e a um capacete de um fato SCAPE utilizado pela tripulação durante as operações de abastecimento dos lançadores e cápsulas espaciais (Porto Espacial Europeu CSG, Koukov, Guiana Francesa). Bastavam estas peças, fronteiras à réplica do modelo Node 2 ou Harmony (o módulo utilitário da Estação Espacial Internacional) do Centro Erasmus (ESA – ESTEC, Noordwijk, Holanda) para que começássemos a emergir num território de silêncios e de suspensões, recuando ao tempo em que as viagens espaciais possuíam uma energia única, prenhe de mistérios, activando a imaginação e agilizando os sentidos, porque das imagens verte-se um odor característico que o tempo decidiu nunca apagar, porque as referências ao espaço nos são familiares e, embora nunca as tenhamos vivido, conseguimos entendê-las como se as conhecêssemos por dentro. Esta é, justamente, uma possibilidade poética.

Nesta primeira sala somos imediatamente impelidos a pensar na Odisseia de Kubrick e Arthur C. Clarke que nos traduz este mesmo pensamento visual, bem como o ambiente feito de lentidão, de suspensão, de paz, de uma tecnologia muito bela e de um silêncio estrelar.

Passando à segunda sala vemos o pórtico móvel para o sistema de lançamento da missão Vega (Porto Espacial Europeu, CSG, Korkou, Guiena Francesa) e a rocha lunar encontrada por Eugene Cerman da missão Apolo 17 em 1972 (Space Expo, Noordwijk, Holanda), fotografada de tal forma que não a adivinharíamos à primeira observação. Na parede lateral à nossa esquerda mostra-se o grupo soberbo de seis objectos e instrumentos científicos sob pano de fundo amarelo. À sua frente exibe-se a grande imagem do Laboratório de Ensaios Acústicos (IABG, Hobrumn, Alemanha) que nos surge com um forte sabor pictórico.

Na terceira sala podemos ver o modelo do Ariane 5 em lego (Museu Espacial do Poeto Espacial Europeu CSG, Guina Francesa) e a reinante entrada do campo de testes de carga útil para ensaios com antenas (Compact Poyload Test Range, CPIR, Holanda). Na parede à nossa direita mostra-se uma teia de cablagem utilizada durante os testes da cápsula espacial da ESA Bepi Colombo. Estas fotografias afrontadas impregnam o olhar de tal forma que somos levados a procurar-lhes as marcas dos pincéis, pelo impacto do colorido contrastante e pela densa plasticidade das formas. No topo da sala temos o complexo para a preparação da carga útil 55 – edifício de abastecimento e propergóis de lançadores e cápsulas espaciais que nos esmaga pela grandiosidade e higiene daquele espaço sem escala, bem como pelo resultado da fotografia ludibriante e mascarada de desenho.

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Seguem-se os expositores individuais, no corredor à nossa esquerda, onde se apresentam 11 objectos e instrumentos científicos que a ESA emprestou, pela primeira vez, para integrar a exposição de Edgar Martins. Cada uma destas peças possui uma história particular, como o Cubo de Rubik que foi usado pelo astronauta da ESA Jean-François Cleroy em três missões espaciais (história verídica aproveitada por Alfonso Cuarón no seu premiadíssimo filme Gravity) e que encarna esta ligação entre a vida, com todos os seus momentos, os seus tempos específicos, as suas experiências quotidianas, e o universo na sua imensidão poética.

Recordando o trabalho do autor que, de resto, já nos presenteou com outras exposições em Coimbra, colhemos um conjunto de informações que nos permitem levantar alguns véus sobre esta impossibilidade poética, perfeitamente integrada no âmbito das suas próprias inquietações artísticas. Perpassa na obra de Edgar Martins um olhar ávido e incandescente, deslumbrado pela realidade na sua ampla ambiguidade (o que é o real?), pelo espaço, pelos lugares (a paisagem, os sítios, a urbanidade, a praia e também a efemeridade e a precaridade que podem traduzir as conjunturas ou os possíveis recomeços…) e, acima de tudo, pela reconfiguração no sentido da beleza. E neste caminho que o artista percorre fitando o belo serve-se da fotografia como um recurso, ou como um portal que lhe permite oferecer ao receptor o temário que está para além daquilo que pode ver-se através das suas imagens. Este constante engodo, esta realidade esquiva, ou a irrealidade real, é permitida ao artista através da manipulação das imagens que constrói como um pintor meticuloso.

Edgar Martins imerge constantemente na metáfora e na poesia, colhido pelo chamamento simbólico transformador, pela possibilidade de ampliar e reduzir o mundo, pelo afoito questionamento sobre a matéria, e também sobre a sua força, a sua ambiguidade e a sua capacidade transformante. Mas não é só sobre a matéria que a sua obra reflecte, pois que também aborda a sua própria antítese que não conduz, necessariamente, à não-matéria, mas abre portas à possibilidade de uma imaterialidade que não se conforma no discurso escrito, mas antes através dos espaços dilatados e suspensos, e do tempo longo e quase imóvel que sobrevoa as suas obras.

O discurso de Edgar Martins permite-nos viver a sua própria interpelação sobre a verdade, ou sobre a autenticidade do real que trespassa o seu trabalho com uma implacável capacidade técnica e que nos oferece descrições de um real que se filtra e desmaterializa para consubstanciar outra realidade que é a expressão da sua própria linguagem, frondosamente estética e artística.

A impossibilidade poética de conter o infinito reflecte, também, todas estas exaltações que encandeiam o nosso olhar, que nos confundem e que nos causam múltiplas e profundas incertezas.

Ainda que tentemos alcançar com as nossas mãos o todo do universo, ainda que possamos ambicionar abarcar este espaço inquietante e sem fim através da lógica, da matemática, da física e dos tantos feitos e instrumentos científicos por nós gerados, jamais conseguiremos penetrar nas suas profundezas, tão fecundas quanto ainda ignotas e inimagináveis, porque insondavelmente amplas.

Este problema de escala afigura-se-nos através das imagens da ESA de Edgar Martins que nos logram o olhar habituado ao quotidiano onde nos movemos habitualmente, traduzida numa diáspora sedutora entre o mundano e o transcendental. Não há vida a habitar estas configurações, não há personas, não há referências humanas que nos permitam discernir a realidade dos espaços, dos materiais ou dos horizontes silenciosos. Há, sim, esta impossibilidade em colher o infinito que, sob um olhar poético, se transforma em tudo.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 13 de Outubro de 2014)