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Os enigmas da mente

BPI_9103 Sendo o cérebro um órgão cheio de ‘mistérios’, existem naturalmente pessoas com uma grande vontade de os desvendar. E uma delas é Tiago Reis Marques, cidadão de Coimbra, investigador e psiquiatra. A Preguiça aproveitou uma das suas vindas à cidade e, numa conversa que poderia ter durado horas a fio, ficou a saber algumas das batalhas que Tiago anda a travar no mundo da ciência.

Foi enquanto frequentou o curso de Medicina da Universidade de Coimbra que o fascínio pelo cérebro começou a tomar conta do próprio cérebro de Tiago. “Nos últimos anos da minha formação apaixonei-me por esse órgão e essa paixão foi crescendo. Havia muito a noção de que o cérebro era tratado pelos neurologistas e que talvez a mente fosse para os psiquiatras. Mas descobri que afinal são só dois adjectivos dados a uma mesma coisa e que é esta complexidade que nos distingue de todos os seres vivos. Realmente, na nossa espécie de homo sapiens, o cérebro atingiu uma evolução brutal. Fui então para a especialidade de psiquiatria”.

No segundo ano da especialidade, onde começou por ter uma formação marcadamente biológica e a tentar perceber o porquê de algumas patologias mais complexas, Tiago concorreu ao Prémio Nacional de Investigação em Psiquiatria com um trabalho de investigação sobre A disfunção sexual em doentes com patologia psicótica (vulgarmente conhecida por esquizofrenia). “Basicamente este trabalho consistia em tentar perceber o porquê da disfunção sexual, se era um factor intrínseco à doença ou uma reação secundária da medicação”. A conclusão a que chegou foi que “a própria doença tem consequência a nível do desejo”.

O prémio foi ganho (o primeiro entre outros que se seguiram) e a medalha consistiu em passar três meses no Institute of Psychiatry do King’s College London, integrado no Maudsley Hospital, onde ainda hoje trabalha, considerado a maior escola de psiquiatria de Londres e da Europa, bem como uma das três melhores a nível mundial. “Fui para lá no terceiro ano da especialidade. Ao fim de três meses, convidaram-me para mais três e depois para mais três. No fim desses noves meses, o então presidente do Instituto, Sir Robin Murray, convidou-me a ficar e financiar o meu doutoramento. Sei que também tive sorte e que cheguei numa altura em que havia dinheiro e em que se estava a iniciar um mega projecto no qual eu tive a hipótese imediata de me encaixar”, relembra contente.

O projecto que integrou estava inserido na área da neuroimagem, uma área “onde sempre quis trabalhar” e onde realizou o seu doutoramento em patologia psicótica. Para quem não sabe do que se trata, Tiago explicou que neuroimagem é “um conjunto de métodos através dos quais conseguimos penetrar a barreira que é o crânio e assim visualizar o cérebro. Eu olho através de algo muito específico: a difusão tensão de imagem (o chamado DTI)”. O cérebro é constituído pelos neurónios, que são a parte funcional, que pensa, e que comunicam por via química através dos neurotransmissores, e por uma série de elementos de suporte, que são vias de ligação. “O que observo são essas auto-estradas do cérebro e os diferentes feixes que se formam”.

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O tempo passa e Tiago especializa-se cada vez mais. Artigos publicados, prémios e bolsas de investigação ganhos, aulas e orientações de teses, fazem parte do seu dia-a-dia. Trabalha em projectos de investigação em rede, nomeadamente com os Estados Unidos, “num consórcio de estudo sobre as ligações cerebrais”. Actualmente, este investigador trabalha em duas frentes de acção.

“Tenho trabalhado recentemente no estudo do funcionamento químico do cérebro, utilizando uma modalidade que se denomina por PET (tomografia de emissão de positrões) ”. Trocando novamente em miúdos, Tiago está a estudar uma enzima do cérebro, a PDE10, que até hoje não existia capacidade de estudar, e que se expressa em zonas cerebrais relacionadas com doenças psicóticas. “Esta enzima só se expressa no cérebro e todos nós a temos. Não sabemos a diferença de quantidade dessa enzima em pessoas com e sem doenças psicóticas. Neste momento estamos a estudá-la e tentar desenvolver fármacos que a inibam. Como costumo dizer a brincar, trabalho no futuro viagra cerebral”.

A outra linha de investigação em que Tiago se apresenta e na qual já trabalha há alguns anos é a relação entre cannabis e esquizofrenia.  “Todas estas doenças são multifactoriais, ou seja, têm uma componente genética, mas também têm uma componente ambiental”, explica. “A cannabis é um factor de risco. O que tenho vindo a estudar é o impacto da cannabis de grande potência (com elevados níveis de THC) não só em doentes, como em todas as pessoas”. Aproveitando a oportunidade para aprofundar, Tiago disse-nos que “de facto, a cannabis de alta potência afecta de forma negativa as conexões cerebrais, que passam a não fazer-se de forma correcta. Começar a consumir cannabis de alta potência na adolescência tem consequências muito graves a nível da doença mental”.

Para além dos estudos laboratoriais, Tiago dá consultas de psiquiatria, em Londres, em Lisboa e em Coimbra (nestas duas últimas, uma vez por mês). E perante esta vertente terapêutica, não conseguimos deixar de perguntar qual o maior desafio de um psiquiatra. “É responder à ânsia da pessoa que está à nossa frente e que procura uma resposta. Não podemos no entanto esquecer que o médico também é um ser humano e há casos de doentes que não se encaixam com determinado psiquiatra. Numa consulta, há que criar empatia, comunicação e diálogo. Costumo dizer que há doentes para psiquiatras e psiquiatras para doentes”.

Estatisticamente, as doenças psicóticas e a depressão estão entre as dez que mais afectam a população. Para Tiago, “estas são doenças que matam sem matar. Destroem o indivíduo, nomeadamente a sua posição na sociedade. Apesar de cada vez mais haver iniciativas para destruir o estigma, ainda há muita descriminação, porque as pessoas têm medo do desconhecido e não compreendem o sofrimento psicológico. Recuso completamente o chavão de que é uma moda, é demasiado depreciativo”. E por tudo isto, está convicto que o século XXI é “o século do cérebro”.

Finalizamos o nosso encontro com vontade de puxar a lágrima a Tiago. Saudades de Coimbra? “Bem… sair de Coimbra foi fácil, mas Coimbra nunca sairá de mim, caracteriza-me onde quer que vá. Sinto falta daquilo que em Londres não encontro: a possibilidade de sair de casa e saber que encontro amigos onde quer que vá. Claro, não esquecendo as noites de Verão no Quebra-Costas. A Alta de Coimbra é linda e há sempre algo de novo a descobrir”.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 8 de Outubro de 2014)