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“Auto dos Físicos”

BPI_8090“Auto dos Físicos” de Gil Vicente é a nova proposta d’A Escola da Noite. Com estreia marcada para o próximo dia 25, no Teatro da Cerca de São Bernardo, esta peça estará em cena até ao dia 28 de Setembro, seguindo-se uma temporada para as escolas (de 30 de Setembro a 13 de Novembro). A Preguiça foi assistir a um ensaio e conversou com o sempre atento encenador, António Augusto Barros.

Apesar de não ser a primeira vez que A Escola da Noite trabalha com textos de Gil Vicente, nomeadamente este do qual tratamos, que já foi abordado pela Companhia em 1995, é a primeira vez que o trabalha de uma forma concentrada. O contexto que deu vida a esta peça foi um convite feito pela Ordem dos Médicos, no âmbito da comemoração dos 35 anos do Sistema Nacional de Saúde. “Desta vez houve uma encomenda à qual decidimos responder. Decidimos que o faríamos e lembrámo-nos imediatamente dos físicos, que era o nome que os médicos tinham naquela altura. Achei interessante tocar numa peça do século XVI, provavelmente a única que diz respeito à medicina da altura, e portanto, apresentar uma visão histórica”, explicou António Barros.

O entusiasmo impôs-se e a Companhia decidiu apresentar a peça como uma peça autónoma após a apresentação para a Ordem dos Médicos. Sendo assim, serão quatro os espectáculos disponíveis para o público em geral e uma temporada de espectáculos para as escolas. “Apesar de pouco, Gil Vicente ainda está presente nos currículos, sendo um autor que nos serve para fazer essa importante ligação com as escolas”.

“Auto dos Físicos”, «no qual se tratam huns graciosos amores de hum clérigo», fala-nos então de um padre enamorado que após ter sido rejeitado pela sua amada, decide consultar quatro físicos na esperança de curar o seu mal. Num habitual e já conhecido tom cómico, caricatural e crítico, Gil Vicente aborda com este “Auto” várias questões. Segundo o encenador, “para além do interesse histórico e cultural, de falar na medicina que se praticava na altura, esta é uma daquelas peças pequeninas que Gil Vicente escreveu mas que é muito elaborada. Fala-se de medicina, mas também se fala do amor, da morte ou do poder”. E além disso, “uma das coisas interessantes, e que deve ter sido muito divertido na época, até mais do que agora, é que os físicos eram todos conhecidos, ele gozou com eles e provavelmente alguns estavam na plateia a assistir”.

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Não escondendo a atracção e o conhecimento que nutre por Gil Vicente, António Barros deixou seguir o seu discurso e presenteou-nos com algumas informações a mais. “Tal como outros trabalhos de Gil Vicente, esta é uma peça que vem na tradição europeia dos séculos XIII, XIV e XV, em que havia as chamadas ‘companhias de loucos’ que faziam coisas extraordinárias e colocavam o mundo às avessas. Sobretudo no Carnaval, que era um período de excepção onde se podia fazer tudo. Aliás, tudo indica que esta peça se estreou num Carnaval. Na Páscoa, por exemplo, Gil Vicente fazia coisas mais litúrgicas”.

Embora este texto de Gil Vicente apresente, em diversos aspectos, uma enorme actualidade, não se negam contudo as dificuldades que encenador e actores experimentam desde o primeiro momento até ao resultado final, aquele em que os espectadores são colocados naquele período histórico e a braços com uma sonoridade linguística bastante diferente. “Nesta peça renunciamos à reconstituição histórica, mas não renunciamos ao texto. Trabalhamos muito o texto para que chegue compreensível, mesmo em pormenores que hoje já não são nada compreensíveis. Há palavras, por exemplo, que já mudaram de sentido. É preciso trabalhar tecnicamente para que haja aqui uma cesura mínima na ligação entre as palavras e para que o texto apareça completamente audível, limpo e dinâmico, sem se perderem palavras. Não podemos esquecer que o autor nem sempre escreveu em português, o que traz uma dificuldade acrescida. Escrevia também em castelhano, que era a língua da corte para quem trabalhava. Nalguns textos, como este, misturou as duas línguas”. Para que a compreensão seja mais ampla, a Companhia tem à disposição dos espectadores um glossário pronto a ser consultado.

Para além do desafio linguístico, António Barros considerou igualmente importante explorar a fisicalidade e musicalidade dos actores. “Gil Vicente tem um mundo de coisas nas entrelinhas e socorreu-se das mais diversas fontes da cultura popular como canções, ditados ou refrões. Tudo isto tem muita musicalidade e sonoridade e foi preciso descobrir no texto aquilo que permite a exploração dessa força musical. O próprio autor dizia muitas vezes que não fazia teatro mas que organizava festas. Esta peça acaba, aliás, com uma ensalada, um género que na altura se usava muito, uma espécie de surrealismo, onde se misturava tudo e valia tudo”.

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Por fim, mas não menos importante, há que fazer referência ao cenário e figurinos. Com a “caixa vicentina”, um objecto projectado pelo arquitecto João Mendes Ribeiro a pedido d’A Escola da Noite há quase duas décadas, e um tapete, está composto o cenário. “A questão dos figurinos e do espaço interessa-me muito. E aqui, mais uma vez, renunciamos à reconstituição. Esta é uma caixa cheia de virtualidades e truques, que se desdobra e se desmultiplica, criando ao mesmo tempo um espaço neutro. O tapete é a zona de representação e a zona de representação por vezes era sagrada. Nós queremos também de alguma forma respeitar a memória do que se fazia e Gil Vicente fez grande parte do seu teatro em salas onde não havia espaços de representação”. Quanto aos figurinos, continua o encenador, “são importantes como estímulo e referência e tentamos aproximar os tempos. Não uma reconstituição fiel, mas algo que está no meio”.

Após este mergulho no universo vicentino, acreditamos ter despertado a vontade dos nossos leitores de irem assistir a este espectáculo que conta com cinco actores em palco. Como todas as obras de arte, o essencial é “desfrutar, reflectir, fantasiar ou deixarmo-nos ir simplesmente pelo agrado”, diz António Barros.

E se, tal como o padre nos diz, “quem tem amor e pesar tem toda a enfermidade que a vida pode dar” é também verdade o que Gil Vicente dizia: “o amor vence tudo”.

O Teatro da Cerca de São Bernardo está à vossa espera.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires 

(Publicado a 22 de Setembro de 2014)