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Pastéis de Nata – Briosa

Depois dos salgados bem digeridos, a nova proposta do ‘Comezainas’ é bastante doce e igualmente robusta. Nas próximas semanas iremos degustar, um pouco por toda a cidade, o mais conhecido exemplar da doçaria conventual portuguesa – o pastel de nata. A origem deste delicioso pastel de gemas, açúcar e natas é anterior ao século XVIII. Mas só na primeira metade do século XIX, mais precisamente em 1837, é que esta iguaria começou a ser comercializada ao público pelos Clérigos do Mosteiro dos Jerónimos, em Belém (e dessa localização resulta o outro nome por que é conhecida). Quanto a pastéis de nata em Coimbra, a oferta é vasta e muito diversa. Para o arranque do nosso périplo, decidimos ir ao coração da Baixa, em pleno Largo da Portagem.

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O desafio repete-se quase todos os domingos. Salto do autocarro e, meneando a anca em passo acelerado – qual atleta da modalidade de Marcha -, contorno as dezenas de excursionistas que ao fim de semana se aglomeram na Baixa, para chegar primeiro à Pastelaria Briosa. Lá chegada, o meu pedido é quase sempre o mesmo: ‘um café cheio e uma nata, por favor’.

Situada no Largo da Portagem e aberta ao público desde 1955, a Briosa é um dos estabelecimentos mais antigos da cidade de Coimbra. A qualidade e diversidade de produtos regionais que disponibiliza mantém-se inalterada há décadas. Aliás, é esse o lema: preservar o património gastronómico e cultural da doçaria de Coimbra, através da manutenção dos receituários e das tradições de fabrico original. Também por isso, esta emblemática pastelaria foi já reconhecida com o prémio da Confraria da Panela ao Lume, por constituir um ponto de venda de excelência de doçaria tradicional da região e integra a ADOCC – Produtores Associados de Doçaria Conventual de Coimbra – uma entidade que tem como propósito a valorização, qualificação, defesa, promoção e dignificação de doçaria de produção tradicional, regional ou conventual de Coimbra.

O espaço interior é relativamente pequeno e em dias de grande movimento torna-se complicada uma instalação confortável, o que não invalida ser um local agradável. Uma das paredes interiores encontra-se decorada com imagens antigas de Coimbra, o que está perfeitamente de acordo com a sua ligação com a cidade que lhe dá o nome. Serão muito certamente de finais dos anos 1940 inícios dos 1950, altura em as duas margens do Mondego estavam ainda unidas por uma ponte em ferro, mais tarde substituída pela Ponte de Santa Clara.

A esplanada, contígua às dos restantes cafés e pastelarias da Portagem, é um bom local para lanchar e desfrutar deste largo histórico da cidade, que para a maioria das pessoas se tornou apenas um local de passagem. Chamo apenas a atenção para o facto de as pombas locais não se fazerem rogadas de vir à mesa tentar a sua sorte. Se se sentirem observados enquanto comem, o mais certo é que estejam a ser, e que o ataque seja iminente.

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O primeiro impacto dos pastéis de nata da Briosa diz respeito à sua dimensão. São consideravelmente maiores do que os disponibilizados nas pastelarias vizinhas provocando o espanto de muitos que os vêem na montra. Uma rápida ‘apalpadela’ revela uma massa fofa, mesmo que folhada como manda a tradição. A primeira dentada dá-nos a conhecer um creme que para além dos ovos e do açúcar nos transmite às papilas gustativas uns vislumbres de limão e um toque de baunilha no próprio recheio. Assim me parece. Posso estar a efabular.

Embora o ratio de recheio para massa penda claramente em favor do creme, um não rouba o protagonismo da outra, conseguindo-se sempre um equilíbrio que me faz prescindir de quaisquer extras de açúcar em pó ou canela. Este é um ponto de discórdia entre mim e os amantes de massa, que gostariam que esta estivesse mais presente. Para mim, está no ponto.

Dizem-me as responsáveis da Briosa que o resultado final se deve às experientes e pacientes mãos do Sr. José, o pasteleiro responsável pela confecção das natas, que dá tempo ao tempo e tempo ao açúcar para chegar ao ponto certo antes de lhes adicionar os restantes ingredientes. Nada de misturar tudo ao mesmo tempo e levar ao forno. Eu acredito e confesso-me fã do seu trabalho.

O creme tem a consistência certa para pessoas como eu, cuja destreza física é inversamente proporcional à dimensão da gula. A textura do recheio não é demasiadamente densa que pareça um pudim (crime cometido em muitos locais onde o fabrico dos pastéis de nata se tornou industrial) e não é demasiado líquido (que o faça migrar directamente para a roupa à primeira dentada). O café cai muito bem a acompanhar, mas precisava de ser um pouco mais encorpado e cremoso para que este dueto fosse feito em perfeita harmonia.

A restante escolha de pastelaria conventual e de padaria é muita e de grande qualidade: Talhadas de Príncipe, Pastéis de Santa Clara, Castanhas de Ovo, Nevadas, Pastéis de Tentúgal, Arrufadas… e os Confeitos, esses grandes promotores de cáries dentárias que os turistas japoneses compram às sacadas. Toda a oferta disponível na Briosa leva-nos a considerar seriamente enviar uma carta à nossa vesícula – registada e com aviso de recepção – para ter a certeza de que ela está notificada da empreitada de ovos e açúcar que se vai seguir. Recomendo vivamente uma visita. É uma excelente forma de conhecer uma parte da história de Coimbra, dentada a dentada.

Se esta descrição vos agradou, passem pela Briosa para experimentar. Mas não me apareçam lá aos domingos de manhã a dificultar o já difícil acesso aos ditos pastéis conventuais e a obrigar-me a elevar a minha Marcha ao nível olímpico!

Pastelaria Briosa | Largo da Portagem, nº5 | 3000-180 | Coimbra

Texto de Rita Alcaire
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 18 de Setembro de 2014)