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O coleccionador d’Os Lusíadas

BPI_7659A Preguiça teve mais um encontro feliz. Por diversas circunstâncias, que não interessam para o enredo desta história, cruzou-se no nosso caminho Manuel Dias da Silva, amante do autor português Luís Vaz de Camões e, particularmente, da obra clássica Os Lusíadas. Não perdemos muito tempo e fizemos questão de mostrar aos nossos leitores a peculiaridade deste interesse escondido numa extensa biblioteca.

Quando entramos na sala que guarda os muitos livros de Manuel, ressaltam as estantes dedicadas aos Lusíadas. Ora aqui está ao que íamos! Ao todo tem 73 edições em papel da obra (mais algumas em suporte digital), não só em língua portuguesa como também, por exemplo, em espanhol, chinês, japonês, húngaro, latim, italiano, mirandês e até uma edição em braille. Contudo, o fascínio não se fica por aqui. Manuel possui igualmente diversos livros de estudos dedicados à obra de Camões, à lírica e ao teatro do autor, bem como à sua vida e obra.

Esta é uma colecção que alimenta desde há muito tempo. Apesar de ter lido Os Lusíadas pela primeira vez ainda novo na idade, só mais tarde Manuel começou a adquirir exemplares. Não se lembra quando comprou o primeiro, nem que edição foi, mas sabe que o último que adquiriu foi a edição ao abrigo do novo acordo ortográfico. Todos os exemplares foram comprados por si em livrarias, alfarrabistas ou através de pesquisas na internet. E todos eles têm um “enorme valor simbólico”. Curiosamente, diz-nos gracejando, “nunca ninguém me ofereceu um Lusíadas. E muita gente sabe que faço esta colecção”.

Quando perguntamos o motivo que despoletou tamanha curiosidade, a resposta foi quase automática: “o gosto por Camões começou há muitos anos. Às vezes há qualquer coisa que nos encaminha para um determinado lugar, mas normalmente também precisamos de alguma ajuda para escolher esse caminho e não outro. E é muito importante os professores que vamos tendo ao longo da vida”, explicou. “Tive, em anos e espaços de ensino diferentes, dois professores muito entusiastas dos Lusíadas e se de alguma forma eu já era, ainda mais fiquei”.

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Achando que era possível perguntar a um fã e leitor incondicional desta epopeia portuguesa qual a sua parte preferida, avançámos a interrogação. Mas Manuel não é capaz de eleger. “Não tenho partes preferidas. Algumas ressaltam mais, porque eram as mais utilizadas no liceu, como a Proposição, o Concílio dos Deuses, o episódio da Inês de Castro, a Batalha do Salado ou o caminho para a Índia e o Adamastor. Mas a verdade é que toda a obra revela uma enorme cultura, descrevendo na perfeição e de forma muito interessante o que se conhecia na altura, como o mundo era constituído”. Por exemplo, “já no final, na Ilha dos Amores, quando Vasco da Gama está com Tétis e é descrito o Universo a partir do que era conhecido, na altura o modelo ptolomaico do funcionamento do Universo”.

Considerando esta obra de uma riqueza indescritível, “onde é sempre possível descobrir caminhos novos”, Manuel não poupa no entanto, elogios ao seu autor. “Apesar de Luís de Camões não ser completamente original e ter bebido nas fórmulas da Grécia e Roma antigas, é fascinante o facto de um cristão, num tempo em que a Inquisição estava com uma força enorme, ter conseguido escrever um livro onde o imaginário pagão explica quase tudo. Teve o cuidado de referir que havia só um Deus verdadeiro, mas de qualquer maneira foi dizendo todas as coisas. E conseguir que isso passasse pela Inquisição sem qualquer espécie de problemas, teve de ser de facto com uma enorme imaginação”.

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A maior obra de Luís de Camões é Os Lusíadas, mas segundo este apaixonado “o teatro também é muito interessante. Há três ou quatro peças que foram publicadas com ele ainda vivo”. No que diz respeito a certezas, pouco se sabe sobre este autor português, que se julga ter nascido em 1524/25. “Pelo que se conhece da sua biografia, o homem Luís de Camões revela ser interessante, quer do ponto de vista temperamental, quer comportamental. Pouco se sabe mas sabe-se que passou por Coimbra, onde tinha um tio chamado Bento Camões, que era prior de Santa Cruz. Deduz-se aliás que a sua grande cultura vem daí, pois Santa Cruz era um grande centro de ciência nessa altura, principalmente humanística”.

Para além de ser detentor de uma colecção e conhecimento admiráveis em torno dos Lusíadas e de Luís de Camões, Manuel já organizou de forma esporádica eventos em torno desta temática. “Já realizei diversas actividades relacionadas com os Lusíadas desde eventos relacionados à gastronomia ou leituras de excertos. Também já fui convidado para fazer algumas prelecções sobre a época e a obra. As possibilidades são tantas que é sempre possível fazer algo”.

Em relação ao futuro desta colecção e sua passagem de testemunho, Manuel revela ter um sentido muito prático: “não me faz diferença o que vai acontecer com os livros. O que aqui tenho tem valor para mim, sei em que circunstância os comprei e sei o que me dizem”, refere sem nostalgia. E parece que a compra de novas edições ainda não parou, pois actualmente está à espera de uma edição ilustrada.

Como não podia deixar de ser, e para finalizar, pedimos a Manuel que nos recitasse algo dos Lusíadas. “Em cerca de 8800 versos é difícil decorar. Mas posso dizer de cor a bela entrada, em que Camões claramente se inspirou na Eneida de Virgílio”.

Aqui fica então a primeira instância d’Os Lusíadas, recitada pelo Manuel. Esperemos que a inspiração tome conta de vós.

“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram”

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 15 de Setembro de 2014)