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Uma capelinha tão musical…

BPI_3648Há quem diga que é esta a capela mais musical do país. Falamos do àCapella, que hoje comemora em grande a sua primeira capicua.

Abriu portas há 11 anos, concretizando o sonho dos cinco sócios fundadores (vindos do grupo de fados Quinteto de Coimbra), depois das obras grandes que lhe devolveram a dignidade de outros tempos. Esta capela da Rua Corpo de Deus, que hoje é Casa de Fados/Centro Cultural, no miolo da antiga Judiaria de Coimbra, terá sido fundada no século XIV (1361). Primeiro serviria de pequeno albergue de apoio aos peregrinos de Santiago de Compostela, e mais tarde (séc. XVI) terá recebido o nome de Capela de Nossa Senhora da Vitória. Em tempos mais recuados aí teria sido a Sinagoga de Coimbra.

Os séculos XIX e XX foram de abandono e de degradação desta pequena capelinha acobertada por detrás do imponente Mosteiro de Santa Cruz.

Quando os músicos do Quinteto de Coimbra a conheceram já tinha sido um armazém de materiais de construção civil e era, no momento, um depósito de móveis.

Projeto de arquitetura na mão, assinado por Ângelo Ramalhete e M. Manuel Ataíde, logo se seguiu a adaptação do espaço à função, carga cénica forte, restauro e a reabilitação, em 2001-2003, e foi classificado Património Histórico de Interesse Municipal. Mais: pela qualidade da intervenção recebeu o Prémio de Arquitetura Diogo de Castilho, em 2004. Onde era originalmente o altar é agora um palco, encimado por um piano, no patamar superior. Em frente, o trajeto para o segundo piso, para a mezzanine, oferece uma vista bonita e única, com Santa Cruz aos pés, que também se pode apreciar de uma varanda pequenina e quadrangular.

Com fado todos os dias, nestes 11 anos recebeu milhares de turistas e granjeou inúmeros amigos, muitos da cena musical portuguesa e não só.

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A principal oferta desta casa é mesmo o Fado / Canção de Coimbra, e quanto a isso não há dúvidas: os executantes e os cantores são invariavelmente bons ou muito bons, ou não fossem os músicos-sócios quem assegura a qualidade artística do que se pode escutar na antiga capelinha. Quando entra o Nuno Silva, o cantor da casa (um dos sócios), às vezes com a capa negra sobre os ombros, o silêncio impõe-se e a guitarra chora baixinho. O preto e branco do vídeo projetado compõe a solenidade e apresenta a Coimbra dos estudantes, das causas de outrora (a crise académica de ’69), das ruas velhas batidas pelo luar, do casario da cidade antiga, e outras imagens da Coimbra da saudade que aqui é uma lição. O cantor vai traduzindo e explicando o contexto do tema, em Inglês, em Francês… O público aplaude com entusiasmo. Muitas das vezes é a “prata da casa” que o acompanha: Ricardo Dias na guitarra (o único que pertence à formação inicial da sociedade deste projeto), Bruno Costa, também guitarrista, Ni Ferreirinha na viola e Ricardo J. Dias no piano e no acordeão. Quando não podem estar presentes (todos têm outros projetos musicais e concertos em várias partes do país e do mundo), há sempre excelentes músicos, cantores e executantes. Ni Ferreirinha exemplifica com os nomes de José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença e Luís Guerreiro, “grandes guitarras”…

Mas para além dos nomes de referência do fado, esta capela de outrora é agora lugar de espetáculos de variadíssimas vertentes: jazz, poesia, teatro… Quando o ator brasileiro Alexandre Borges declamou poesia na Biblioteca Joanina, acabou as noites de passagem pela cidade do Mondego a improvisar no àCapella, sempre de casa cheia. O seu conterrâneo e colega de ofício Eduardo Falabella já anteriormente se tinha rendido aos encantos do lugar, numa estadia em Coimbra. Enfim, não faltam motivos e boas razões para visitas e peregrinações a esta capelinha. Eis alguns nomes, e apenas alguns, que por lá passaram e (en)cantaram: Fausto, Vitorino, Ivan Lins, Carminho, Ana Moura, Fáfá de Belém, Cristina Branco, Paula Oliveira, Filipa Pais, Lena d’ Água, Rão Kyao, Jorge de Palma (nem que seja depois de concertos em salas grandes da cidade…). Mais: Belle Chase Hotel e outras bandas… Até os Violent Femme já lá tocaram. Outros que se associam ao universo do jazz: Carlos Barretto, Bruno Santos, André Sousa Machado, os irmãos Moreira (o trompetista João, o contrabaixista Bernardo e o saxofonista Pedro – estes dois últimos estiveram nesta casa da música há poucos dias, com o Quarteto Bernardo Moreira), etecetera.

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11 anos depois, o àCapella mereceu uma recuperação do interior e do exterior, reabrindo a esplanada no período da tarde (a partir das 16h), numa dinâmica que as mudanças na sociedade ditou. Os atuais cinco sócios pretendem hoje fazer a apresentação pública da nova imagem, da nova sociedade, da nova gerência, da nova carta de vinhos (descritiva e bem recheada), da nova ementa, das parcerias pensadas para alargar a oferta da casa: à frente do bar estará Filipe Neto e na parte da restauração (petiscos e jantares) Orlando Castro, ambos professores da Escola de Hotelaria de Coimbra.

E, naturalmente, não faltará muita música. Para além do fado, Ricardo J. Dias e Bernardo Moreira vão acompanhar Cristina Branco numa noite de festa grande. E depois, depois se verá, mas no àCapella o entra-e-sai de músicos amigos da casa é uma constante com mais de uma dezena de anos. E as noites terminam tarde neste canto da cidade antiga… Que assim continue até à próxima capicua e por aí adiante.

Texto de Teresa Carreiro
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 24 de Julho de 2014)