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Poesia com pernas

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No passado mês de Junho, Coimbra deu nova forma a novas palavras. É de poesia que falamos e da revista Andarilhos, que viu publicado o seu primeiro número. A Preguiça não fez frente à curiosidade e, na companhia de um vento teimoso, esteve na prosa com Martina Matozzi, Marcos Foz e Maria Leonor Nunes, os editores de serviço.

Tudo começou, contam, dentro da Secção de Escrita e Leitura da Associação Académica de Coimbra (SESLA): “a SESLA estava fechada há algum tempo, um conjunto de pessoas que fazem parte da secção decidiu reabri-la (em 2013) e a Andarilhos nasceu como um dos projectos que iria ser realizado”.

Pelo nome escolhido, prevê-se antes da confirmação que esta revista pretende criar um espaço dinâmico para a poesia, onde a inércia dá lugar à acção. Tal como se lê no seu editorial, “Andarilhos é poesia em movimento, um convite a caminhar e a ler correndo o risco de tropeçar”.

Independência e liberdade são duas das palavras de ordem, visto que o seu processo de concretização é feito através de um sistema de call for poems, ou pedido de poemas, e não do tradicional convite para publicação. “A ideia era criar um espaço para que as pessoas que escrevem poemas os possam ver no papel”, referem orgulhosamente. “Há várias revistas de poesia em Portugal, mas tudo funciona à base de convites a partir do que os editores já conhecem. Queremos dar oportunidade, por exemplo, a quem é novo demais para ter oportunidade de publicar, ou até quem já passou da idade de fazer tentativas para publicar e que nunca não conseguiu. Esta é uma revista com um cariz diferente”.

Portanto, qualquer pessoa, e quando dizemos qualquer é mesmo sem nenhuma restrição, pode enviar os seus poemas e submetê-los à avaliação feita pelos editores. “Tentamos conciliar o espaço que damos para as pessoas enviarem os seus poemas com os nossos gostos pessoais e estéticos. A selecção é feita através de uma leitura individual dos poemas recebidos e depois fazemos uma deliberação em conjunto. Este trabalho é demorado, pois tem o seu tempo de maturação”, explicam.

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Neste primeiro número, a Andarilhos conta com onze poemas de oito autores diferentes. “Foi uma supressa a grande adesão que houve e termos recebido tantos e tão bons poemas”, referem com olhar cúmplice entre eles. E como divulgam o vosso pedido de poemas? “Através da nossa página do facebook e consequentes partilhas, do nosso blog e foram impressos panfletos que espalhámos pela cidade”.

Com um formato simples, que convida à leitura, e um preço reduzido, que convida à compra (3€ nas lojas e 2€ na SESLA), a Andarilhos terá uma publicação semestral. Segundo os editores, e também amantes de poesia, “há pouco compradores de poesia, que ainda é vista como sendo só para alguns. Há muitas formas de fazer poesia e uma delas é partilhá-la. Com este preço, este formato e esta liberdade de expressão, esta revista torna-se um espaço muito convidativo”.

“Graças à boa vontade de muita gente da cidade e nomeadamente de pessoas mais velhas”, como insistiram dizer em tom de agradecimento, o primeiro pedaço do caminho está feito. Quanto ao restante percurso, percebemos que o entusiasmo e o optimismo serão os companheiros de viagem. “Todo o processo tem tido uma componente humana e emotiva muito forte. Tem sido uma aprendizagem fascinante e constante em vários aspectos”. A Andarilhos veio para ficar e, mexendo sempre as suas pernas, a “única marca identitária que se pretende é a qualidade da poesia”.

Actualmente à venda na sala da SESLA, na Mercearia de Arte Alves & Silvestre, na Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho e na Fyodor Books (Lisboa), esta nova revista da cidade espera pelos leitores. Quanto a quem escreve, basta estar atento e enviar os seus poemas quando a segunda chamada for feita.

Deixamos aqui um dos poemas deste primeiro número e mais uma vez nos apraz dizer: bons poemas para todos!

«Osteoporose

Os ossos a partir como se
nunca tivéssemos adivinhado a velhice
o ranger das casas com
a tempestade como
se ainda não tivéssemos encontrado
o nosso leito
não te disse já para não
roeres as peles húmidas do dia
depois do banho?

Daniela Quental»

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 17 de Julho de 2014)