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A voz das memórias

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Bruno Sena Martins, investigador do Centro de Estudos Sociais (CES), acaba de estrear o documentário “A Hospitalidade ao Fantasma: Memórias dos Deficientes das Forças Armadas”, que está disponível gratuitamente no youtube. Este é um trabalho forte que relata experiências de ex-combatentes da guerra colonial e nos permite obter um olhar mais completo sobre a nossa História. A Preguiça não quis perder as memórias do autor e foi falar com ele.

O teu trabalho tem-se desenvolvido no âmbito de minorias, como por exemplo, os cegos, as vítimas de lesão medular ou agora os ex-combatentes com deficiência. O que te fascina nesta temática?
Há dois aspectos que são transversais nestes trabalhos. O primeiro tem a ver com a questão da deficiência, uma questão em que comecei a trabalhar quando fiz a minha tese sobre a cegueira. Esta questão comporta uma dimensão que tem a ver com a história nos corpos, como é que as experiências que as pessoas viveram estão inscritas nos seus corpos e isto obriga a um diálogo com as concepções que a sociedade tem em relação aos seus próprios corpos. A segunda dimensão tem a ver com biografias, que podemos chamar de biografias um pouco fracturadas. Ou seja, nas experiências marcadas como a cegueira, um acidente na guerra colonial ou uma lesão medular, perceber como é que as pessoas tentam reconstruir as suas vidas em novos termos. Tentam muitas vezes com narrativas de resistência, quer em relação às condições impostas pelo próprio corpo (as limitações e os sofrimentos que enfrentam) quer também em relação às tais representações culturais que a sociedade tem em relação ao que é ser cego, ao que é ser paraplégico, ou não ter um braço. Portanto, são estas duas formas de resistência que estes trabalhos têm tido em comum.

Em que contexto surgiu este teu último trabalho?
Este trabalho surgiu no CES por um apelo do presidente da ADFA (Associação dos Deficientes das Forças Armadas), José Arruda, que nos desafiou a fazer um trabalho sobre esta história pouco conhecida da realidade portuguesa e que de facto não tem merecido a devida atenção sociológica. Com base nesse apelo fizemos um projecto para financiamento para a FCT, que foi aprovado, e tivemos dois anos para fazer este trabalho. Já havia aqui um encontro, na medida em que o CES vem desde há algum tempo a desenvolver uma área de estudos significativa na questão da deficiência.

Falando do documentário especificamente… foi fácil conseguir estes depoimentos, visto que ainda existe um grande silêncio acerca do assunto?
Colocaria a questão em termos logísticos e em termos do quebrar destes silêncios. Em termos logísticos, tivemos uma grande facilidade porque a ADFA deu-nos os contactos das pessoas que estariam disponíveis a fazer estas entrevistas, teve um empenho muito grande e portanto, em certa medida, foi um trabalho de parceria. Nós fazíamos a entrevista, mas as condições e as possibilidades eram-nos todas dadas pela Associação. Do ponto de vista de quebrar este silêncio, creio que chegámos numa hora feliz na medida em que sendo uma questão que durante muitos anos foi tabu e esteve silenciada na sociedade portuguesa, criámos esse tempo de enunciação, que ainda não existia. Nos anos 80 e 90 teria sido muito mais complicado fazer este trabalho. Além disso, foi também uma hora feliz dado o período da vida dos entrevistados. Se repararmos são pessoas que estão nos seus 60 e 70 anos, que começam a perceber que estão no fim das suas vidas, até pela vulnerabilidade acrescida da deficiência que têm, e portanto, viram estas entrevistas como a oportunidade de deixar o seu testemunho, de deixar o seu legado e de uma forma solene, perante uma câmara, contarem aquilo que às vezes não tinham tido coragem de contar. Então, fomos assim depositários de um misto de catarse e um misto de legado, uma herança que querem deixar às gerações futuras.

Quantas entrevistas foram feitas?
Fizemos cerca de 45 entrevistas, sendo que nem todas foram filmadas. Púnhamos sempre à consideração da pessoa se queria que a entrevista fosse filmada, mas não encontrámos muita resistência e às vezes até ficámos surpreendidos com a força das histórias que nos eram contadas. Partimos do princípio que as pessoas muitas vezes se inibem perante uma câmara, mas devido a este facto de quererem deixar o seu testemunho e até fazerem as contas com o seu passado, digamos que a nossa câmara e a nossa presença foram instrumentais para que esse processo se pudesse de alguma forma fechar. A câmara não constituiu uma inibição, antes pelo contrário, acho que incitou testemunhos mais solenes, com mais coragem de ir a lugares que antes não iam.

E achas que conseguiram fazer um pouco mais as pazes com o passado?
Creio que isto não é suficiente para fazer as pazes com o passado, até porque muitas das pessoas contaram que uma semana antes, ou uns dias depois, de fazerem a entrevista ficaram sem dormir porque tinham evocado memórias que lhes são dolorosas, que lhes são sacrificiais e portanto, houve uma certa turbulência por um regresso que a entrevista obrigou estas pessoas a fazerem aos seus passados. Por outro lado, também sinto que há um certo apaziguamento, digamos, no modo como as pessoas encaram estas entrevistas, que é a oportunidade de falar. O silêncio a que estão votados, pois foram aprendendo que era algo de que não deveriam falar, criou quase que uma inércia, um hábito de segredo que as pessoas tinham e muitas vezes em relação às suas famílias. Apresentámos o filme junto dos ex-combatentes e das suas famílias e algumas das mulheres vieram dizer-me: “o que o meu marido lhe contou, nunca me tinha dito”. Portanto, isto mostra a dimensão de que as pessoas ficaram realmente com as memórias da guerra guardadas em si porque não encontraram uma sociedade ou um espaço social que estivesse disposto ou apto a receber essas mesmas memórias.

O que é que mais te fascinou e o que mais te custou ao longo deste trabalho?
O que mais me fascinou foi este paradoxo em que percebemos as pessoas como vítimas de uma guerra, na medida em que muitos deles foram combater uma guerra que não era sua, uma guerra em que muitos nem sabiam sequer as razões. Por outro lado, é o facto de terem feito parte de um exército agressor, um exército colonial e parte de uma guerra anacrónica, sem sentido, condenada pela comunidade internacional e contra, no fundo, os ventos da História que iam correndo no sentido das descolonizações. Então, o que mais me fascinou foi este paradoxo entre esta identidade difícil entre vítima e agressor. Estes sujeitos foram vítimas, porque ficaram com deficiências, com marcas de uma guerra, e muitos deles fizeram também parte de momentos de agressão e violência que estão marcados nas suas memórias.

Achas que algum dia será possível definir?
Creio que não, creio que é um paradoxo sem resolução. O que acho interessante é o modo como este paradoxo pode ser assumido. Existe uma contradição que deve ser reconhecida e assumida para que estes sujeitos não sejam vistos como os heróis do ultramar, ou que a guerra não seja vista como uma guerra heroica, e que também seja uma forma de Portugal ter a coragem de fazer contas com a sua História, de assumir que foi parte de uma senda de violência colonial. E aquela ideia benemérita que temos acerca do modo como Portugal colonizou, de uma forma quase não violenta, tem que ser ressignificada. Os mitos sobre os descobrimentos portugueses e sobre a experiência portuguesa noutros lugares do mundo, tem de ser confrontada com a violência colonial. E nesse sentido, a guerra colonial não é só o fim do colonialismo, é quase um epílogo daquilo que a colonização sempre foi: um acto ou uma estrutura de agressão e de violência, que partiu de diferentes concepções de humano. Concepções racializadas de humano, que definiu o branco como o poder civilizacional em relação àquele constituído como o subalterno ou o negro.

Voltando à pergunta… o que mais te custou?
Foi perceber que a vida destas pessoas teria sido tão mais… senão fácil, mais apaziguada, menos turbulenta, menos convulsa, se eles tivessem tido a oportunidade de contar estas histórias há trinta anos. Perceber que para muitas destas pessoas este espaço que agora se está a criar para se falar da guerra colonial, surge tarde demais. As suas vidas praticamente já passaram, muitos deles já morreram, muitos já estão no final das suas vidas e muitos deles tiveram as suas vidas marcadas pelo peso deste, quase, segredo social que foi constituído após o 25 de Abril, e antes, em relação à guerra colonial. Como que um interdito do qual não se podia falar, um interdito que punha em causa muito daquilo que foi a reconstrução identitária pós-imperial da sociedade portuguesa. O que me custou foi perceber como é que estas histórias fortes e dolorosas encontram interlocutores tarde demais para quem interessava, as próprias pessoas.

Estamos a falar de um universo de quantas pessoas? A ADFA tem quantos inscritos?
Em 2012, a ADFA tinha 6610 associados com a situação regularizada. Mas este é um universo menor do que aquele das pessoas que foram realmente marcadas pela guerra, devido ao facto das doenças psiquiátricas serem ainda um estigma ou ainda não estarem tão socializadas enquanto problemas que resultam do confronto e da ligação à violência. Uma realidade ainda muito subavaliada.

O que pretendes então mostrar às pessoas com este trabalho?
No fundo, pretendo mostrar que existe na sociedade portuguesa… pensemos que entre 1961 e 1974, mais de um milhão de homens passou pela guerra colonial. No fim da guerra colonial, Portugal era o país com uma maior percentagem de homens em armas só superado por Israel. Portanto, esta nossa concepção de um país de brandos costumes cai obviamente por terra. E só não está tão inscrita na nossa memória porque foi feita em território longínquo e porque, de facto, quisemos apagar isso da nossa memória. Existe na sociedade portuguesa uma vasta população que vivenciou uma experiência, que nalguns casos foi uma experiência limite, e que não é reconhecida, não está identificada. Há aqui uma dupla exclusão. A exclusão e marginalização destas pessoas com deficiência e uma exclusão e marginalização destas muitas histórias da guerra colonial que se mantiveram silenciadas todos estes anos. Por outro lado, mostrar que todas as concepções mitificadas sobre Portugal e Portugal colonial, por exemplo, a narrativa do orgulhosamente sós, quando nós sabemos que Portugal esteve envolvido no final da guerra com a Rodésia e a África do Sul, numa aliança tripartida para manter uma hegemonia branca em África; a ideia de Portugal como um país de brandos costumes, a ideia do colonialismo português como um colonialismo que se mistura com os povos sem recurso à violência. Portanto, que estas mitologias que Portugal tem sobre si próprio possam ser confrontadas com aquilo a que chamaríamos as asperezas da História. Perceber que nenhuma mitologia nacional ou nacionalista ou saudosista de um passado imperial resiste a este confronto com a marca daquilo que foi a experiência colonial: a violência, o racismo e a subjugação de outros povos.

Portanto, este pode ser um primeiro passo para a História ser contada de outra maneira?
Tenho tido a experiência de levar este documentário às escolas, com o projecto ‘O CES vai à escola’, e é muito interessante perceber que o senso comum acerca do colonialismo português ainda é marcado por estas mitologias. Pelas mitologias que vêem de uma forma quase lírica o passado imperial português ou então as mitologias que simplesmente apagam a experiência colonial daquilo que foi a experiência ultramarina portuguesa. Esse senso comum está muito instalado e isto nem chega sequer a ser um primeiro passo, é apenas uma pequena provocação para que as pessoas comecem a ressignificar e repensar este passado. Para que, por exemplo, os manuais escolares possam ser confrontados com a necessidade de revisitar a História a partir das testemunhas que a viveram de uma forma tão marcada.

Quais são os maiores fantasmas destes homens com quem falaste?
Um dos fantasmas tem a ver com a experiência da perda, aquilo que perderam em África: os camaradas que viram cair, perderem os braços ou as pernas, ficarem cegos. Estes fantasmas têm muito a ver com este espectro de uma perda que é significativa e biograficamente muito forte. Mas também existem fantasmas que têm a ver com as violências que eles exerceram, ‘quem eu matei, quem violentei, quem fiz sofrer’. Estes são fantasmas que surgem de uma forma mais portentosa. Depois, no regresso a Portugal, o fantasma muda de lugar, os fantasmas são eles próprios. São, digamos, o espectro que assombra a sociedade portuguesa e com o qual esta não se quer confrontar, porque ao confrontar-se com estes fantasmas, Portugal tem, aí sim, que se confrontar com os seus próprios fantasmas acerca do passado colonial.

Porquê a escolha da distribuição gratuita deste documentário?
Desde logo tem muito a ver com a identidade do CES, pouco nos interessa fazer ciência ou conhecimento sem que isso tenha qualquer tipo de repercussão. Queremos levar às pessoas a investigação que é produzida e dispor o filme gratuitamente no youtube é sem dúvida a forma mais fácil e acessível de chegar a mais gente. Aliás, o simples facto de termos optado pela ideia de fazer um filme tem a ver com isso. Há também uma segunda questão que me parece importante que é a possibilidade de devolver aos entrevistados algo de que eles fizeram parte. Verem-se como parte de um filme é muito diferente de saberem que são citados num texto. Cria uma lógica de devolução e parceria para com os nossos interlocutores no trabalho empírico.

Podemos passar a dizer Bruno Sena Martins, investigador e realizador?
(risos) Não, de todo. Foi uma experiência já repetida, sim, mas a ideia de realizador tem uma ressonância artística que não partilho nem tenho em mim. Nestas entrevistas, limitei-me a colocar um tripé ao meu lado, tentar apanhar a pessoa dentro do plano da câmara e seguir a entrevista. Se este filme merece ser visto é pela força dos testemunhos e pela sua importância documental. Sinto-me privilegiado por ter sido depositário da generosidade destes testemunhos.

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 14 de Julho de 2014)