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As pessoagens de Berta Teixeira

BPI_4802Escrevemos hoje sobre a actriz e encenadora Berta Teixeira, na semana em que apresenta, no Pátio da Inquisição de Coimbra, o evento BAILEnquanto, inserido no Programa Cultural do Colóquio Internacional Epistemologias do Sul do Projecto ALICE, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Para que possamos compreender a obra desta “actriz (de)formada em Sociologia” podemos recuar ao dia em que escolheu um retalho de pano velho, numa visita aos Armazéns do Chiado em Lisboa, como a prenda que a avó lhe ofereceria (ainda que estranhando a opção), porque lhe serviria como instrumento flexível para montar os seus teatros caseiros. Nascia então a sua brincadeira às pessoagens, lá pelos 9 anos de idade, desenvolvida depois no Teatro de Fantoches (Alcobaça) e nos posteriores Encontros Nacionais de Fantoches.

Os anos foram escoando, graduando aquele impulso para criar com o corpo. Depois de muitos cursos, workshops e práticas esporádicas, veio a Bienal Cultural da Universidade de Coimbra (1987), momento (con)sentido como um marco determinante no caminho de vida de Berta Teixeira. Onze anos depois, cumpridas outras tantas formações, surge um novo caso de trabalho determinante, consubstanciado nos Encontros de Fotografia (1998), quando assistiu ao fotógrafo (e depois um marcante amigo) Joel Peter Witkin. Berta explica que nesta segunda situação trabalhou “para educar o olhar”, pois que assistir à criação deste fotógrafo foi quase o mesmo que aprender a encenar, firmando-se-lhe então a seguinte ideia: “quero ser actriz”.

O aprendizado no conservatório nunca se constituiu, para Berta, como um objectivo. Ainda assim, ingressando na Licenciatura em Sociologia em Coimbra, ingressa também no TEUC (1990-92), onde desenvolveu actividade e adquiriu formação com os actores Luís Varela, Rogério de Carvalho, João Grosso, Filipe Crowford, entre outros.

Foi em 1992 que começou a diáspora de Berta Teixeira. Decidida a aprender Teatro fora de portas, concorre à bolsa para “Jovens Criadores 92”, do Centro Nacional de Cultura e do Instituto da Juventude, facto que lhe permite viajar para Nova Iorque, rumo ao Instituto de Teatro Lee Strasberg. Renovada a bolsa por dois anos consecutivos, a artista frequenta um programa profissional intensivo, monitorizado por Irma Sandrey, Tom Ferriter, Vasek Simek, Kirk Taylor, Gigi Van Deckter, Chad Burton, George Loros e Shami Chaiken, na mesma escola.

Já no desfecho da sua Licenciatura em Sociologia em Coimbra (1997) escreve Berta o relatório titulado “Profissão: Actor!”, texto que consubstanciou pensamento sobre a sua então mais recente experiência no Teatro Nacional em Lisboa.

Germinavam assim todas as pontes entre o pensamento e a acção que se incrustariam no trabalho desta artista que hoje aqui vos trazemos, pois que a sua investigação teórica e académica entroncou e reverteu-se na sua prática artística. Nas palavras de Berta Teixeira, o que então a preocupava era “o pensamento sobre prática incorporada”. E foi devido a essa inquietude constante que, por entre a actividade desenvolvida no Teatro Nacional e depois na Culturgest, Berta Teixeira procurou fundar a experiência na teoria, inscrevendo-se no curso de Mestrado em Estudos de Teatro da Universidade Clássica de Lisboa, conjuntura que lhe valeria outro périplo. É que “em vez de estudar a bibliografia francófona, melhor será ir beber às fontes” e partir para França. Enviado o projecto de investigação para a Vincennes-Saint Denis Université, em Paris, onde é aceite, Berta passa a frequentar os seminários de investigação para a obtenção do Diploma de Estudos Avançados (D.E.A.). Entre Paris e Lisboa termina o Mestrado na Clássica sobre o alfabeto corporal segundo Zygmunt Molik, com o título Voz anónima, reflexão e reconstrução de um procedimento de treino em teatro (2002).

Volvidos vários anos e outros tantos projectos teóricos e artísticos, segue-se o Curso de Doutoramento em Sociologia da Cultura, Conhecimento e Comunicação na Universidade de Coimbra, e especialmente o programa Erasmus-Mundus (Mobilidade para o Brasil/Regime Sandwish), que lhe viabiliza as viagens entre São Paulo e o Rio de Janeiro (2009/10). Alicerçam-se assim outras vias de desenrolamento artístico e pessoal, por entre as idas e vindas que se traduzem em eficazes permutações culturais.

Este frenesi viageiro, miscigenado com a urgência desmedida no pensamento, fizeram da Berta este caso sério da cena artística contemporânea que a tudo acorre com sede, recebendo influências e trabalhando fontes que derivam das artes visuais, “das geometrias aperiódicas não euclidianas”, dos encontros de trabalho cerrado com o corpo teatral do Brasil, sempre “disponível para falar as minhas linguagens”, dando largas à ideia de criar empatias nos receptores que devem “sentir comigo”.

Do contacto com a Companhia de Atores (Rio de Janeiro) verna o conceito operativo que Berta Teixeira desenvolveria: as dramaturgias interferentes. E a par desta ideia que vinga nasce outra: a do teatro enquanto acção que promove encontros (e assim é a obra de arte). A materialização desta ideia viria a entroncar no dispositivo Baile, pois que nesta situação é permitido o exercício de estéticas transversais que geram “aproximações ou afastamentos dos seres entre si”.

É nesta conjuntura que nasce o dispositivo BALRUM, ou o Momento de Pequenas Variedades (Festival Dois Pontos, Rio de Janeiro, 2013) e o seu mais recente evento, BAILEnquanto, ou um Convívio Imprevisto.

Para Berta Teixeira, este evento (“porque ainda não pode considerar-se como um verdadeiro espectáculo”) integra-se no encontro científico supra-referido como a sua comunicação. Como a linguagem que a autora utiliza não se adequa ao formato tradicional, vai esta comunicação integrar o Programa Cultural do Colóquio, aberta a todos quantos quiserem comparticipar deste dispositivo que funciona como um “diálogo entre saberes, práticas e dinâmicas, uma proposta de alternativa epistemológica, uma preterição, enfim, um primeiro ensaio com alguma técnica, num dispositivo cénico, no risco do aqui e agora com os convivas”.

BAILEnquanto, que desenvolve pensamento sobre a família, funda-se na pergunta-motriz: “como é que os seres, que (des)conseguem ser pessoas, se enlaçam e se afastam?” Para a substanciação deste inquérito, Berta serve-se da sua ideia de Teatro, que é “brincar às pessoagens”, do seu conceito de dramaturgia interferente, e convida os artistas “interferentes e interferidos” para com eles promover a investigação/criação que se ensaiará no mo(vi)mento. Alcançado o grupo interferente, constituído por Eurico Lopes, Flávia Gusmão, David Santos, Irina Sales Grade e João Vaz Silva, cria-se o dispositivo inter-discursivo que se traduz num evento de circuito translinear fortemente interactivo.

A metodologia de trabalho usada neste “teatro que ainda não é teatro, mas que não deixa de o ser” caracteriza-se pela transcriação, onde todos os agentes são interFERIDOS, interferindo-se. O alimento para a encenação é esta vasta interferência que se edifica a partir da pergunta-motriz, interferência essa que pode fazer vingar novas ideias, alterar os caminhos primitivos de indagação e instigar a novos e inimagináveis questionamentos, tal como se de um projecto de investigação científica se tratasse. Assim nascem, configurando-se, as personagens-gatilho deste BAILEnquanto que espoletam o enredo que não surgiu antes delas, mas que se constrói paulatinamente e partindo delas, e que se materializará, enfim, com a incorporação da história no “público comparticipante”.

E na plataforma do BAILE, enquanto vamos sendo estimulados a (com)participar da acção – não porque façamos parte do elenco, mas porque devemos rever-nos na situação de convívio que ele geralmente nos promove, bem como nas situações que as pessoagens impulsionam – somos forçados a sentir, vendo.

BAILEnquanto tenciona “criar sensações desestabilizadoras para potenciar a regulação e a emancipação social nos comparticipantes”. Trata-se, afinal, de um verdadeiro Convívio Imprevisto entre os seres que aceitaram interFERIR-se para construir, e entre os seres que aceitarem interFERIR comparticipando no sarau de dia 11 de julho no Pátio da Inquisição de Coimbra.

 

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 11 de Julho de 2014)