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O colecionador e os seus tesouros

  BPI_4665Uma sala para reunir as mais-do-que.muitas cadernetas de cromos, as caixas com os cachecóis, centenas de cachecóis, outras com muitas camisolas de jogo, algumas bolas, jogos, revistas (como a “Mundial”, a “10”, a “11”, os “Cadernos da Bola”, as revistas do “Record”, as d’“O Jogo”…), canetas e bonecos-mascotes, etc., não chega. André Campos Neves tem também uma estante no quarto onde dorme com os livros que saem episodicamente sobre os clubes de futebol (dezenas e dezenas, muitos deles com dedicatória), onde se destacam grandes manchas do azul do FC Porto e do vermelho correspondente ao SL Benfica. Está tudo arquivado, a maior parte em sua casa, o resto em casa de um familiar.

Estamos no universo exclusivo do Futebol e quanto a isso não há qualquer dúvida.

A primeira caderneta de cromos deste colecionador tem a capa azul-turquesa vibrante, é de 1966, do Campeonato do Mundo, momento em que Portugal alcançou a sua melhor classificação de sempre, um 3º lugar. O colecionador folheia-a com vagar. Esta foi preenchida de acordo com o ritual da época, bem distante do atual, simples, que recorre a película que se descola e cola. Naquela altura era necessário ir a uma loja de ferragens comprar goma-arábica, à qual se adicionava água a ferver, amolecendo-a. Depois, com a ajuda de um pincel, colava-se o cromo, usando um pano para retirar o excesso. E havia menos pessoas para fazer as trocas dos cromos, o que lhe dificultava a vida.

Hoje possui mais de 100 cadernetas de cromos – coleções de Europeus, de algumas ligas estrangeiras, do Campeonato Português, da Liga dos Campeões. Quando questionado sobre o investimento monetário que hoje uma caderneta implica, explica que a média será 60 euros, se bem que a última, a do Mundial que ainda decorre, atingiu o custo de 120 euros, devido ao número “anormalmente elevado” de cromos repetidos.

Salta à vista o cuidado enorme em preservar todas estas coleções. A paixão que o move. Os conhecimentos vastíssimos sobre o tema. O gosto em desfolhar as cadernetas, em desdobrar os cachecóis (todos de tecido, cumprindo o requisitos de qualidade, longe da fibra), em abrir as camisolas de jogo – seja a que o Garay lhe ofereceu, a da Champions League, com que tinha jogado, seja a do Ferreira, do Penafiel, deste ano, aquando do jogo em que esse clube subiu de divisão. Do Dimas tem todas as camisolas (as que “jogaram”, sempre) dos clubes por onde passou. Do Marcelo, ponta-de-lança do Benfica, e muitas outras, num não mais acabar de nomes e de episódios…

Como as tem? De onde vêm tantos contactos com os protagonistas deste desporto-rei? André Campos Neves esteve muito tempo ligado à Académica, como seccionista, participando ativamente na organização de jogos, o que lhe granjeou a amizade de um conjunto de pessoas, laços que ficaram para a vida. Conhecem a sua coleção e apoiam-na, entregando-lhe peças que seguem para as caixas transparentes onde as deposita quase religiosamente. Ou seja, nenhuma deles foi adquirida nas clássicas roulotes de merchandising.

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A primeira habitante destas caixas foi-lhe oferecida em 1975, pelo Camilo, da Académica, após o empate com o Guimarães (3-3), que impediu a sua descida de divisão.

Compreende-se que tenha cadernos e cadernos (quase 300…) de recortes sobre tudo o que diz respeito à Académica, de 1973 até aos nossos dias, organizados cronologicamente: “primeiro sou da Académica, depois sou dos Juniores da Académica”, afirma, sorrindo. Colaborou com João Santana e João Mesquita no livro sobre este clube, e assinou o posfácio dessa obra. E diariamente compra todos os jornais desportivos. Depois seguem-se os recortes…

A coleção de cachecóis não fica atrás das outras, e ilustra o mainstream futebolístico: vê-se o da Juventus, o do Bolonha, os dos principais clubes ingleses, do Arsenal, do Bayern de Munique, o da Liga Japonesa, do Barcelona, do CSKA, do Real Madrid, alguns dos clubes escoceses, enfim, a lista é quase infindável…

O gosto pelo colecionismo começou quando tinha 9 anos. Na conversa, destaca o gozo, o prazer da aquisição, e também o gosto que lhe proporciona os contactos individuais com outros colecionadores, encarando esta atividade social com as suas potencialidades de gerar novos conhecimentos, novas amizades.

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Depois refere a perspectiva histórica e geracional: “do preservar para a posteridade a memória viva de acontecimentos, factos, pessoas, que fizeram parte da nossa vivência, do nosso quotidiano, que importa dar a conhecer aos vindouros”. Ou seja, a possibilidade de provocar uma espécie de viagem por um certo tempo, “pelas estações da nossa vida”, contornando incómodos esquecimentos e indesejáveis omissões.

Já o enfoque económico é menos valorizado por este colecionador, embora reconheça que uma coleção pode, num futuro mais ou menos longínquo, “tornar-se peça de valor substancialmente maior do que aquele que nela foi investido, gerando vantagens patrimoniais”. Avança com o exemplo das coleções de índole filatélica ou numismática.

Mais um dossier: o dos bilhetes dos jogos a que assistiu. Atualmente segue as competições europeias, os jogos do Mundial, e pontualmente alguns jogos do campeonato português, vê os jogos da sua Académica e “um ou outro jogo mais importante”. E, sim, gosta da “vitamina”, da “cafeína” que é o jogo de Futebol. Acrescenta: “hoje há jogos todos os dias na televisão, oferta excessiva que afasta as pessoas dos relvados e causa saturação”.

Já à porta, cadernetas arrumadas no lugar certo, caixas transparentes com manchas garridas devidamente empilhadas, tempo ainda para contar uma curiosidade: Jorge Jesus encara-o como um amuleto, chamando-o para jogos importantes para que lhe dê sorte. Este colecionador de Coimbra, licenciado em Direito e apaixonado por um universo bem distinto, o do Futebol, ganhou fama, merecida e justamente.

Texto de Teresa Carreiro
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 09 de Julho de 2014)