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A Beiroa de Luís Garção Nunes

BPI_3941Luís Garção Nunes, 59 anos, natural de Abrantes mas também filho de Coimbra há já várias décadas, é um dos elementos de reconhecidos projectos musicais portugueses como Brigada Victor Jara e Pensão Flor. Com uma vida dedicada à música e aos instrumentos tradicionais portugueses, convidámo-lo para nos apresentar uma viola beiroa, instrumento em tempos esquecido pelos seus próprios conterrâneos e que pelas suas mãos ganhou uma nova vida e dimensão no léxico instrumental português.

Como começou esta tua vida dedicada à música e às guitarras?
Comecei no GEFAC para onde fui tentar tocar viola, mas disseram-me que não valia a pena porque estava lá um tipo que se chama Rui Pato. Entretanto comecei a tocar bandolim e inscrevi-me numa tuna académica, onde estive uns dois meses. Gente fixe, mas musicalmente não me seduzia. Além de que aquilo era tudo com pautas, e os papéis nunca foram o meu forte. Comecei também a tocar cavaquinho, fiz alguns métodos de cavaquinho (para mim), comecei a estudar os instrumentos tradicionais e descobri algo extraordinário: Portugal é um país extremamente pequeno mas com uma diversidade tão grande a nível musical não só rítmica mas também ao nível dos próprios instrumentos. E comecei a ter contacto visual (através de fotografias e pelo que fui lendo e tentando aprender) com os diversos instrumentos que existiam na música tradicional. E uma das coisas que achei mais interessante foi a diversidade de violas (braguesa, amarantina, toeira, beiroa, campaniça, da terra (com 15 cordas, dos Açores)) e toda essa família de instrumentos. Todos com afinações diversas e modos de tocar diferentes.

Esta ligação ao GEFAC foi a principal razão ou houve outras?
Quando estava no GEFAC, a tocar os instrumentos que faziam falta em cada momento, comecei a ter um contacto teórico com esses instrumentos, uma vez que o GEFAC não tinha todos esses instrumentos. Estamos a falar de 1975, 1976, 1977, uma altura em que as coisas funcionavam mas… Havia ao mesmo tempo uma certa descoberta de um mundo novo, principalmente para o pessoal da minha geração que vivera até ali num mundo mais ou menos fechado. No meu caso, a descoberta foi no sentido da música tradicional portuguesa, até porque me estava nos genes. Sou natural de Abrantes e todos os meus tios da parte da minha Mãe eram músicos e tocavam em bandas, o meu Avô tocava (e fazia as suas próprias) gaitas-de-foles, o meu Pai tocava violino e bandolim, de maneira que essa ligação à música já existia.

E como surge a beiroa no teu caminho?
Nos anos 80, iniciámos uma recolha de materiais musicais na Beira Baixa, e eu tinha lido e sabia que existia lá uma viola, a beiroa. Só que quando cheguei à Beira Baixa, em ’81, corremos muitas aldeias na recolha de músicas de cantares, e as pessoas não conheciam, não se lembravam da viola beiroa. Porque eu queria era ver uma!

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E como resolveste o problema?
Como tocava cavaquinho, comecei a mandar fazer os instrumentos à medida, nomeadamente no Domingos Machado em Braga. E um dia pedi-lhe para me fazer uma viola beiroa, convencido de que ele me faria uma como mandam as regras. E quando a fui buscar, aquilo era algo que não tinha explicação. Tinha o feitio de uma viola campaniça, tinha as requintas (duas cordas tocadas soltas, afinadas em função da afinação da guitarra), mas não era uma viola beiroa. Numas jornadas culturais do GEFAC em que o Ernesto Veiga de Oliveira esteve presente levei-lhe a viola para ele ver. Ele ficou para morrer, dizendo que não era nada daquilo, que aquilo “era uma aberração”. Mas como pessoa extraordinária que era, disse-me que como tinham uma viola beiroa no museu, me ia enviar as medidas certinhas, “para você mandar fazer uma como deve ser”. E assim foi. Recebemos a carta com as medidas, eu e o António Andrade (guitarrista e bandolinista de eleição) fizemos um croquis com as medidas e levámos ao Domingos Machado para não haver dúvidas: “Você só tem que fazer isto”. E ele lá fez e foi a guitarra com que toquei muito tempo na Brigada. Aliás, a capa e a contracapa do Contraluz da Brigada Victor Jara é com essa viola em contraluz numa das janelas da emblemática Clepsidra, onde ensaiámos muito tempo (Brigada Victor Jara).

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Entretanto, depois de mandar fazer essa beiroa (que já era uma beiroa decente e com que toquei e gravei muitos anos mas que era um pouco artesanal) mandei fazer esta, ao Fernando Meireles, pois queria um instrumento mais perfeito. Estive muito tempo à espera e comecei logo a tocar com ela, até porque a outra chegou partida de uma viagem que fiz aos Estados Unidos.

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E como é a tua abordagem à beiroa?
Tentei sempre recuperar a beiroa, mas um dos problemas que encontrei quando comecei a tocar, foi a afinação e as cordas, porque nunca tinha ouvido uma. Mas se usasse a afinação tradicional aquilo ia soar um bocado a lata, grave e baço, e não era nada disso que eu queria fazer ou tocar. Eu queria dedilhar, fazer acordes, encaixar as coisas dentro da música que nós fazíamos. Não queria tocar as coisas como elas eram, porque para isso estão num museu. E então subi uma quarta (ou seja quatro tons) a todas as cordas, e ficou afinada em Dó maior, mantendo os patamares e a harmonia originais. Toco outros instrumentos, mas estive sempre ligado à beiroa, o que não é fácil num grupo. Saber como gerir aquelas sonoridades todas, haver respeito entre os instrumentos… A beiroa sobressai muito em relação aos outros.

Texto e fotografia de Bruno Pires

(Publicado em 02 de Julho de 2014)