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O olho do tigre: obras da colecção Sarmento

BPI_4359  «Tyger! Tyger! burning bright

In the forest of the night

What immortal hand or eye

Could frame thy fearful symmetry? […].»

W. Blake. The Tyger. 1794.

 

Deve-se a Ana Anacleto a selecção das 25 obras da enorme colecção particular do artista Julião Sarmento expostas no Centro de Artes Visuais (CAV) desde Junho até 7 de Setembro.

A exposição, titulada O Olho do Tigre, pensou-se pela primeira vez para a Appleton Square, em Lisboa, viajando agora a Coimbra, sob a mão de Albano Silva Pereira que em boa hora se dispôs a acolhê-la no CAV.

O nome da mostra resulta de uma assumida referência ao poema de William Blake «The Tiger», integrado na colectânea Songs of Experience e dado à estampa em 1794, o mesmo nome depois utilizado pela Magazine nova-iorquina «The Tiger’s Eye», fundada pela poetisa Ruth Walgreen Stephan (1910-1974) e pelo seu marido, o pintor John Stephan (1906-1995), dedicada às artes visuais e à literatura contemporâneas e com publicações entre 1947 e 1949. Para Ruth e John Stephan é a cultura que dá significado à vida que, na ausência da arte e da criatividade, submergiria na escuridão, definhando-se e desaparecendo.

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O Olho do Tigre assume-se, por este e tantos outros motivos (tais como a obra do próprio artista, datada de 1975, com uma legenda que alude a Blake, e que surge reproduzida folha de sala da exposição, Tiger, tiger), como um nome cheio de simbolismo e que cumpre um itinerário demarcado, prenhe de significados, de vínculos e de referências cruzadas que importam reter, quando pretendemos compreender o caminho traçado por Ana Anacleto, enraizando o seu projecto em dois âmbitos: o artista contemporâneo e transdisciplinar Julião Sarmento e o Julião Sarmento coleccionador.

Ou seja, este título revela-nos, tanto quanto esta esta exposição, o artista integrado, ou o artista que acredita na força vital da arte, não só da sua, mas da arte enquanto tal e daquela que almejou possuir, coleccionando-a, e que por isso o integra, tonificando-o, conferindo-lhe textura e espessura com grandes possibilidades de leitura sociológica.

Julião Sarmento dispensa apresentações. Todos sabemos tratar-se de um artista contemporâneo densamente internacionalizado, apaixonado pela multiplicidade dos meios expressivos que lhe garantam o suporte discursivo. Para Julião Sarmento importa transmitir, falar, dizer através da linguagem artística e seja ela qual for, desde que se permita a expressar correctamente aquilo que o artista pensou expelir. Por esse motivo é Julião Sarmento um artista da transdisciplina integrando, na sua obra, as várias técnicas de que dispõe para enunciar o seu discurso.

O Olho do Tigre elucida-nos sobre Julião Sarmento coleccionador, ou compilador de mundos que guarda para que não definhem, disponibilizando-se a ampliar a percepção estética que deve enformar a vida, oferecendo-lhe corpo e significação.

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As colecções de obras de arte inscrevem-se numa importante área da acção cultural, ligada à mediação, mas também à estabilização de critérios visuais que podem, ou não, prender-se com programas (ideológicos, estéticos, perceptivos, artísticos, culturais) dos seus titulares. No caso da colecção de um artista, importa salientar que esse conjunto de peças ganha novos rumos de interpretação, presos com a história pessoal e social do coleccionista, permitindo-nos medir as suas relações artísticas e, por isso, cruzar uma plêiade de informações que nos asseveram conhecimento sobre a sua própria vida e, também por isso, sobre a sua obra.

O Olho do Tigre constitui-se por 25 peças. A mais antiga data do século XVI, representado neste excerto da vasta colecção de Sarmento pelo desenho de Luca Cambiaso, e a mais recente do ano de 2012, com o desenho de Tobias Rehberer. Entre este amplo âmbito cronológico situam-se peças dos séculos XX e XXI de Juan Muñoz, Fernando Calhau (o eterno amigo de Sarmento), Thomas Hirschhorn, Erwin Wurm, Nan Goldin, de Michael Biberstein, Gerhard Richter, Juan Carlos Savater, Jorge Molder, Rui Chafes, Rita Mcbride, Ernesto Neto, Alexandre Estrela, Lawrence Weiner (com sempre refeito trabalho em vinil autocolante titulado & The Pursuit of Happiness + The Pursuit of Happiness, de 2001), Francis Alys, Rosemarie Trockel, Ed Ruscha, Alexandre Estrela, Matt Mullican, Bruce Nauman e Marina Abramovic.

E cada objecto aqui exposto conta uma história (ou várias), possui um contexto e uma relevância determinada, na relação que mantém com o coleccionador que se despoja do seu espólio por um período de tempo anunciado, partilhando-o de forma afectiva, acreditando que essa partilha permite caminhos de abertura aos mundos: ao mundo do coleccionador e ao nosso mundo, porquanto nos disponibilizamos a acreditar que só fará sentido se vaporado pela asa daqueles que conseguem vê-lo como um lugar de eternos fascínios.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 20 de Junho de 2014)