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A Chandler 555 de Victor Torpedo

BPI_3056Victor Torpedo é um dos guitarristas mais emblemáticos da cidade, por mil razões e mais uma. Intrépido e com uma energia em palco fora das leis da natureza, Vitinho fez muito do seu percurso com esta guitarra, uma Chandler 555. Com mais lenhos e “nicas” que um banco de jardim, esta guitarra transpira distorções e feedbacks melodiosos, bem plasmados numa descendente natural do punk-rock que a viu nascer e afirmar-se num mundo dominado por Les Pauls e Stratocasters. 22 anos depois e com muitos quilómetros de estrada, a Preguiça recebeu este duo fantástico e conta aqui a história das suas vidas.

Como surgiu esta guitarra?
Esta é a minha terceira guitarra, mas para mim a primeira guitarra a sério. A primeira guitarra que senti que era para o resto da minha vida. A minha primeira (mesmo) foi uma Samick vermelha tipo Strat, que comprei também na Audiomúsica. Usei-a muito tempo com 5 cordas, era lei nos Subway Riders. Depois de partir a última corda, nunca mais a pus… A seguir comprei uma Telecaster americana (em sunburst e com braço em maple), um guitarrão do caraças, mas foi roubada na ida para um concerto de Tédio Boys. Fiquei muito traumatizado.

Há também várias fotografias tuas em palco com uma guitarra branca…
Durante muito tempo, nos ensaios de Tédio ficava com os restos.. Mais tarde comprei essa Encore branca, uma imitação da Gibson L5, de caixa. Trabalhei 3 meses no milho em Inglaterra e comprei aquilo. Com o tempo dou valor ao som daquelas guitarras, são materiais dos anos 80 que dão baile a muitas guitarras de agora.

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E só então depois aparece a Chandler?
A Chandler foi no princípio de 1992. Deve ter sido a primeira (ou única) remessa que veio para Portugal. Acho que só vieram duas: esta e outra que é do Rui Veloso. Tinha estado quase um mês a namorar uma Gibson SG, tremenda, em madeira e com acabamentos cravejados. Não sou fan do formato, mas nunca tinha visto uma coisa assim. Entretanto foi vendida e apareceu esta, juntamente com outro modelo da Chandler, muito parecida com a Danelectro, com pickups em lipstick mas mais achatados no topo e potenciómetros tipo VOX. Experimentei as duas e ficou logo decidido. Nunca gostei de guitarras pesadas, e esta é muito leve, parece um brinquedo. O braço…e o estilo da guitarra, por ser tão único.

Tens muitos cuidados com ela?
É preciso que o som esteja todo au point, mas não tenho “aquele” cuidado. Nunca limpei as cordas a seguir a um concerto e já a emprestei em concertos. Às vezes fico a tremer, mas não tenho muito esse tipo de preocupações. Já levou muita porrada, doses e doses de cerveja. O corpo é em alder, é muito resistente.

E que outras características lhe apontas, como a defines?
O bom desta guitarra é que é uma guitarra muito sólida. Tem muito sustain, muitos harmónicos. É mais uma Les Paul Júnior e Strat, uma mistura entre as duas. O braço é fantástico, tem o tamanho certo. É nela que o meu filho gosta de tocar, e ele [ainda] não sabe tocar. Os pickups são Mini Humbuckers Firebird e está toda de origem excepto o pickguard que partiu e tive que o trocar. O original era muito fininho, num pérola quase transparente.

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Usa-la em que circunstâncias?
Uso sempre com Parkinsons ao vivo, e [em estúdio] para gravar ritmos. Para guitarras sujas, uso mais a Samick. Também já tenho os sons controlados para cada uma. O meu setup preferido é esta guitarra com um VOX AC30, um Blues Driver e um delay analógico da Ibanez que tenho há uma carrada de anos. Esse é o meu som.

Tens alguma história que fique para a história?
Quando vivia em Inglaterra, esta guitarra estava num suporte atrás de uma Gibson Howard Roberts vermelha, uma guitarra fantástica e muito difícil de encontrar. Um dia assaltaram-me a casa mas tive uma sorte enorme. Levaram-me tudo o que era cds de reggae e a Gibson, que estava à frente da Chandler e tinha melhor aspecto. Preferi trinta vezes que me roubassem a outra do que esta.

Texto e fotografia de Bruno Pires

(Publicado em 16 de Junho de 2014)