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Eterno: “O Tempo quer fugir”

BPI_3882Coimbra deu à luz novas notas musicais. O Tempo quer fugir é uma mixtape de Eterno, projecto de David Mendes, que esta sexta-feira se (pré) apresenta no Aqui Base Tango. O universo hip-hop português vê assim nascerem renovadas sonoridades, palavras, pensamentos e rimas que esperavam por se fazerem ouvir. A Preguiça adiantou-se e esteve com Eterno, que nos garantiu que hoje em dia o tempo parece mesmo querer fugir.

Apesar de novo na idade, David já há muito que sente vontade de se exprimir através dos beats e das palavras, ditas ao ritmo dos instrumentais que o fazem vibrar. A lembrança do início transporta-o nitidamente para um disco que ouviu e que considera ter mudado a sua vida. “O álbum The Miseducation of Lauryn Hill fez-me pensar que era isto o que eu queria fazer. Esta sonoridade afectou-me mais do que alguma vez tinha sentido, fiquei fã incondicional e comecei a ouvir mais e mais”. Após Lauryn Hill, muitos outros nomes se seguiram na lista dos músicos (com uma saudação especial para os Mind da Gap) que o fizeram direccionar o ponteiro. “Decidi cedo o que queria fazer, mas era ainda muito miúdo, não tinha a noção da cultura do rap e do hip-hop e dos diferentes géneros, estilos e linguagens que existem”.

Como a curiosidade e a motivação são partes de si, a vontade de experimentar simplesmente aconteceu. “As músicas acabavam e havia aqueles 10/15 segundos de instrumental e, sem saber que existia o freestyle e o improviso, já tentava dizer alguma coisa por cima e acompanhar o beat”, conta com entusiasmo. O vício apoderou-se de si e não mais o conseguiu largar. Juntou-se com amigos a improvisar, conheceu a fundo o hip-hop de Coimbra e os seus artistas e, não sem alguns percalços, foi conquistando o seu espaço. “Conheci muitas pessoas e cada uma individualmente e a partir daí procurei a minha identidade e o que queria mostrar”.

Com muitos encontros felizes, o trabalho foi crescendo ao lado de pessoas pelas quais nutre grande admiração. “Não gosto de trabalhar com pessoas e artistas nos quais não me revejo directamente e que não tenham o mesmo método de trabalho que eu. E começar um novo projecto, com uma identidade vincada e com olhos num seguimento, tinha de ser com alguém que sentisse empatia e que a nível de produção me incentivasse a trabalhar”, explica.

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David, não esqueçamos, integra o colectivo de rap Resistência, onde reconhece existir uma abordagem diferente da que pretende fazer a solo. “Com o Eterno rompo com a maneira de pensar colectiva e sou mais introspectivo. Não falo dos temas de um ponto de vista exterior, mas sim interior. Encarno um sentimento, ou um personagem, que experiencia o que estou a dizer e é através desse veículo que chego às pessoas de forma mais directa”.

De facto, David vê a música como um modo especial de dar a conhecer o mundo. “A música não é do artista em si. A partir do momento em que é criada, a obra pertence ao mundo. E se for preciso vem do mundo também. E é neste trajecto de ir e vir que o músico é só o transporte”.  E Eterno, tal como o nome deixa antever, é assim também “uma forma de homenagem a essa eternidade de todas as pessoas, de tudo o que faz o mundo e que nos faz passar cá para fora”.

Desta homenagem surge então a mixtape O Tempo quer fugir, que conta ainda com a participação de outros artistas. “Gosto de poder trabalhar com pessoas cheias de capacidades e valor e que querem realmente fazer coisas. É com isso que me identifico e por isso estão no meu projecto, com todo o prazer”. Em relação à sonoridade, esta é um trabalho híbrido em que os instrumentais se misturam entre produções originais e outras selecionadas por si. Sim, porque apesar de ser um amante das palavras, David reconhece o papel fundamental das batidas. “Tudo depende dos beats, é o que me faz mexer e querer transmitir as coisas. Eu sou um beat digger digital”, confessa entre risos. “Passo horas e horas por semana a ouvir instrumentais e não há como escapar àqueles que me dão logo vontade de escrever”.

Esta narrativa da vida, como gosta de chamar, expressa-se ao longo de dezasseis temas, passando por vários estágios que “vão do mais básico ao mais profundo”. O single, que dá o nome à mixtape, já tem a patente do mundo registada e para Eterno, esta música é uma síntese do que pretende transmitir. “É a última faixa da mixtape e foi a primeira a sair. É sobre a minha noção de passagem do tempo, dentro de uma perspectiva bíblica. A minha visão em como a sociedade hoje se encontra, como ela se modela entre si, o que deseja, o que as pessoas querem agora e para onde vão. Vivemos numa era em que as coisas evoluem a uma velocidade desenfreada e temos de tomar uma decisão acerca de como vemos a vida. Há quem se prenda ao passado, há quem se prenda ao futuro e no meio disso, temos o presente”.

“O Tempo quer fugir” mostra-se também visualmente com um vídeo realizado pela produtora Lazy Eye. “Tento fugir do estereótipo do rapper, com o qual não me identifico. E fazer este vídeo foi uma experiência maravilhosa, mais uma vez a trabalhar com alguém com quem foi fácil dialogar e chegar a conclusões”, refere.

Este homem de fé, que se interessa pelas religiões em geral, amante da natureza, discípulo da filosofia e adepto da ciência, vai buscar a sua inspiração “às pessoas e à sinergia entre as diferentes personalidades”. E por ser uma inspiração constante, Eterno promete continuar a trilhar o caminho da existência.

Se não querem que o tempo fuja, apareçam já hoje na apresentação da mixtape que estará disponível ainda no mês de Junho.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 13 de Junho de 2014)