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O som e a casa

BPI_4165Há homens que criam património para si e outros há que acumulam património para os outros, com o fito bem vivo da urgência de conservar, guardar, mostrar para a aprendizagem de um povo. O psiquiatra Manuel Louzã Henriques pertence indubitavelmente a este último grupo, ou seja, está entre os (cada vez mais) raros que se preocupam em reunir um património público e menos riqueza pessoal. A sua vida é uma aventura pelos outros e não por si, e o que observamos sem dificuldade é o amor à cultura e aos homens que dela fizeram e fazem parte, e aí se enquadram tantos anos de procura, seleção, recolha, aquisição, restauro, etecetera, de centenas, milhares de instrumentos e objetos (sejam os que testemunham o trabalho, a festa, a música, ou os que nos ensinam coisas da condição feminina ao longo dos tempos…).

Foi este reconhecimento de um homem grande (demasiado grande para o seu tempo?) que o GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) assumiu, homenageando-o com os espetáculos de dia 29 de abril, na Real República Palácio da Loucura, e com a exposição “O Som e a Casa”, que pode ser apreciada até dia 15 de junho, no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra. Falamos da 15ª edição das Jornadas de Cultura Popular, centradas na resistência cultural e política.

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As coleções de Louzã Henriques (sócio honorário deste organismo da AAC) estão ligadas ao seu idealismo humanista e político. Estão ligadas às suas curvas mentais, afinal. A ideia que atravessa esta exposição agora presente no MNMC “está num conjunto de ideias sobre as coisas”. Em resumo: é uma “decorrência em relação às coisas do mundo real, aos vários aspetos do substrato material da vida”, explica Louzã Henriques, “da busca de alimento para sobrevivência até aos objetos de que o Homem se vai servindo para as coisas mais simples e para as mais complexas, ligadas igualmente à esfera da vida social e da sua organização”.

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O que podemos apreciar até dia 15 deste mês são máquinas de som, (mecanismos de reprodução de música nas casas das pessoas), de som destinado inicialmente a encher a casa da família burguesa: caixas de música, fonógrafos, gramofones, rádios, válvulas e transmissores (observe-se o rádio da antiga Emissora Nacional, por onde passou propaganda ao Estado Novo).Trinta peças bonitas, muito bonitas, que nos permitem compreender a mudança das sociabilidades e dos modos sonoros com que antepassados recentes fizeram a vida, cuja disposição foi pensada e concebida por Louzã Henriques – para que o nosso olhar vá mais além, até à perceção da sua evolução. Com objetivos pedagógicos firmes, sempre, esta exposição leva-nos à compreensão e ao reconhecimento da música como vivência do quotidiano. Sempre com a alma dos povos lá no meio…

Texto de Teresa Carreiro
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 11 de Junho de 2014)