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Os discos de José Manuel Pinheiro

BPI_2051José Manuel Pinheiro, 47 anos, produtor de espectáculos (concertos, teatro, dança). Nascido em Lisboa, foi ficando por Coimbra desde que aqui chegou com 10 anos, sempre com a música por perto. Da Nova Almedina à Fuga, entre Montemor, Londres e Lisboa, o mundo dos discos e da indústria musical possibilitou-lhe um contacto privilegiado com as novidades de várias épocas e respectivas correntes que acompanhou e coleccionou desde sempre, mas sem loucuras. Recorda o primeiro concerto dos Naked City em Lisboa em 1990 e os concertos que organizou na edição do Citemor em ’92, onde os Von Magnet foram reis numa noite memorável e os Test Department tentaram (com pouco êxito e alguma incompreensão geral) fazer a primeira rave party por aquelas bandas.

O que são os discos para ti?
Os discos são a forma de chegar ao que mais gosto, que é a música. Se o formato (ou se a música) aparecesse de outra forma, iria na mesma atrás dela. Aparecem inicialmente pelo gosto pela música, pois comecei a comprar muito cedo. No liceu (e mesmo no ciclo) lembro-me de coisas bárbaras como não comer quase nada na escola durante a semana para guardar o dinheiro e vir depois depositá-lo na Nova Almedina, na saudosa Dona Adelina, que me guardava sempre os discos. Depois, com o aparecimento das rádios pirata em 88-89 comecei a fazer um programa de rádio, o gosto começou a ficar cada vez maior, não só pela rádio mas também pelos discos.

Qual foi o primeiro disco que compraste?
O primeiro disco que comprei, ainda nem gira-discos tinha, foi o Absolutely Live dos Doors, que hoje em dia é daquelas bandas de que só tenho um ou dois discos e a que não ligo muito. O primeiro disco que mandei vir de Inglaterra (o Seventeen Seconds dos The Cure) custou quase 5 contos. Era um período complicado porque uma pessoa ouvia tudo o que era novidade nas rádios mas depois chegava às discotecas e não havia quase nada. Havia uma ou outra cá em Coimbra que começava a ter algumas coisas, mas a preços exorbitantes.

Mandar vir discos de fora era uma grande aventura?
Tínhamos que trocar o dinheiro para libras, enviar por correio, os portes de uma encomenda eram sempre elevados… Não havia Paypal! Alem de que nunca tínhamos a certeza de que o dinheiro chegava a Inglaterra (dizia-se que havia quem soubesse que cartas para a Gemma Records levavam quase sempre dinheiro). Depois nunca sabíamos quando chegava a encomenda, andávamos todos os dias à espera do carteiro.

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A tua ligação à produção de espectáculos também ajudou à festa?
Sim. Em 92, na altura do Citemor, [com os três memoráveis concertos de Von Magnet, Test Department e Cassandra Complex] tornei-me produtor e programador da parte musical do festival, mas continuei sempre ligado à música e conheci o malogrado Cunha, com quem comecei a trabalhar na Fuga. Depois passei para a Valentim de Carvalho, e mantive-me sempre ligado aos discos. Comecei a pôr música em vários sítios (na Queima, em bares, mais tarde como DJ residente do Rússia) e na altura acabei por adquirir uma parte considerável parte de todo o movimento Big Beat. Mas sempre disparei em em todas as direcções e nunca me cingi a um género.

Tens limites para as tuas aquisições?
Nunca fui um coleccionador, nunca fiquei com nada só por ser raro ou numerado. Posso dizer que tenho o primeiro disco dos Mão Morta, e quando a comprei estavam lá cinco ou seis a 500 escudos cada um e podia ter trazido mais. Conheço coleccionadores que alimentavam as suas colecções a comprar edições numeradas das Spice Girls, Oasis e dos Pet Shop Boys, porque sabiam dos preços e do que aquilo depois podia valer. Nem me passa pela cabeça esse tipo de coisas.

Parece haver agora um renascer do vinil…
É uma bolha, este hype do vinil. O problema fulcral do mercado, para além do problema do preço dos discos, é que há uma nova geração que começou a ter acesso às coisas mas que perdeu completamente a noção do que é um disco. Ouve-se tudo faixa a faixa, conhecem-se as bandas por causa deste ou daquele tema… Perdeu-se o objecto, a noção do conteúdo geral, as letras. Não me parece que o reaparecimento do vinil seja a salvação disto tudo, mais uma vez pelo facto de as tiragens serem muito pequenas, o que também faz com que os discos apareçam logo muito caros. Quando há cds a 12€ e o vinil custa 35€, por mais que custe dizer isto, prefiro comprar 3 cds do que comprar um lp.

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Mas parece haver público, como nas recentes gravações-concertos do Jack White e do Neil Young.
Cria-se a ideia de que há muito público para aquilo, mas se calhar são pessoas que durante o ano não entram numa loja e que depois fazem fila para comprar um disco, grande parte delas já com o intuito de o vender.

Tens alguma preferência entre vinil e cd?
Tenho mais cds do que vinil, apesar de que sempre que posso tento converter o cd em vinil. Tenho poucos repetidos, apenas pelo facto de poderem ser realmente diferentes (faixas diferentes ou extra). De resto, quando compro o vinil ofereço o cd. Mas esta conversão não é forçada, entre comprar o que tenho e o que não tenho, prefiro comprar o que não tenho. Por exemplo, no outro dia comprei toda a colecção em vinil dos King Crimson a um sujeito que tinha completado a sua colecção em cd. Fiquei-lhe com os vinis todos e depois ofereci os que tinha repetidos.

Um disco que te tenha marcado?
É difícil escolher um, porque há muitos… Mas talvez o primeiro dos Naked City. Lembro-me que ouvi o disco numa quarta ou quinta-feira no programa de rádio Musonautas do Jorge Lima Barreto, comprei-o na sexta-feira na Contraverso e fui ver o concerto no Sábado, que foi a primeira vinda dos Naked City de John Zorn a Portugal, no Fórum Picoas. Lembro-me de ficar radiante mas também de a intelligentsia do jazz lisboeta ter ficado com os cabelos em pé… É um episódio do arco da velha, como muitos que aconteciam na altura.

Ouves (ou tens) música em formato digital?
Tenho alguma música digital gravada de discos originais, mas não lhes passo cartão. Não tenho iPods e no carro ouço CDs. Gosto dos objectos.

Texto e fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 06 de Junho de 2014)