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Os rostos dos estaleiros de Viana

BPI_3653  A Galeria Pinho Dinis, na Casa da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, acolhe a exposição de fotografia de Egídio Santos titulada Rostos dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, uma organização conjunta da Recantos Plurais, Mercearia de Arte e do Município de Coimbra.

A actividade do fotógrafo Egídio Santos (Porto, 1970) partilha-se entre o fotojornalismo e a colaboração com tais como Câmaras Municipais, Universidade e Escola de Gestão do Porto, o Turismo do Douro, CCDR-N, o Museu do Douro, entre outras instituições ligadas à região que fotografa, de há alguns anos a esta parte. Egídio Santos expõe e publica regularmente, facto que nos permite aceder facilmente ao seu trabalho.

O embrião da exposição Rostos dos Estaleiros remonta à visita que Egídio Santos realizou aos estaleiros navais de Viana do Castelo a propósito de um trabalho que desenvolvia para o jornal O Independente sobre aquela cidade em 1991. Esse primeiro olhar sobre os estaleiros fixou-se no horizonte criativo do fotógrafo que lá voltaria depois, e outra vez, arrecadando imagens que foi velando.

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Egídio Santos regressa a Viana no final do ano quente de 2013, por altura das manifestações que ocorreram em protesto pela decisão do encerramento dos estaleiros.

Do cruzamento destes dois momentos da história dos estaleiros navais vianenses nasce o conjunto de imagens que se mostra na Casa da Cultura de Coimbra, com o ciclo de 1991 impresso em 42 fotografias e o de 2013 visível através de um ecrã que exibe as representações em formato digital.

A sequência de peças impressas revela-nos imagens da actividade desenvolvida nos estaleiros pelos seus (ainda) tantos trabalhadores (soldadores, montadores, mecânicos, empilhadores, transportadores, operadores de guindastes). São fotografias que nos contam pedaços do quotidiano laboral dos homens de aço que corporalizavam a pesada indústria naval a funcionar em Viana desde 1944.

Olhamos para estes homens que envergam o hábito do trabalho, banhados quase todos por uma luz cinzenta e metálica, e reconhecemos a urgência no cumprimento das tarefas que executam. Olhamos para os rostos fundos destes homens e emparceiramos com eles na jucundidade própria de quem gosta do que faz. Embrenhados nas soldaduras e nas montagens, atentos aos caminhos que percorrem no interior dos navios que fazem nascer, conscientes da urgência do seu trabalho, ou agrupados em volta de um cigarro que ajuda ao pensamento, ou nas pausas, sentados em chão quente de sóis levantados a meio dia, jornal na mão, ou transportando os materiais de laboro nas docas, todos homens a quem o tempo traz memórias de vidas cheias de orgulho que se mostra num sorriso.

São fotografias que expõem uma realidade que não nos é comum vivenciar e que imaginamos espessa, mas que o fotógrafo nos esclarece com o seu olhar especial, oferecendo-nos detalhes de um mundo onde homens e máquinas operam como se irmanassem, amolecendo os metais também com os rostos que não se endureceram.

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Anos volvidos sobre este horizonte de laboração, sobre os retratos a meia encosta do pesado corpo do Discovery, sobre as curvas e contra-curvas dos canos que descansam nas docas secas e sobre o uso dos capacetes-elmo, confrontamo-nos com outro mundo que se faz, possivelmente, de alguns dos mesmos homens. Mas as fotografias referentes a 2013 mostram-nos um ambiente feito de outra luz: invernosa, húmida e malograda. Os retratos dos homens e das mulheres que se seguem, uns após os outros, no ecrã da televisão que os expõe, dizem calados. Não há bocas abertas, mas caídas. Não há mãos que agem, mas recolhidas. Não há sinais de vida, mas desencanto. E partem de todos os olhos fixas imagens de nada, de solidão, de desassossego, de inquietação submersa, de reconciliação com a desesperança, de resignação abnegada, de medo, e de alguma perscrutação.

Este segundo grupo de rostos, agrupados num todo onde todos os rostos falam numa linguagem que escutamos por dentro, abre-nos para o tempo que já passou, marcando sulcos fortes na pele, deixando claro que o tempo que virá não conseguirá escrever-se.

Esta exposição conta-nos, afinal, uma história dentro de outras histórias. E em cada uma das histórias adivinhamos finais fechados.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 30 de Maio de 2014)