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A guitarra de Manuel Portugal

BPI_1924Iniciamos aqui uma nova série de entrevistas sobre os instrumentos de alguns dos muitos músicos da cidade. Conhecer as suas histórias, as suas particularidades e o que faz deles os seus instrumentos de eleição é o objectivo destas conversas entre amigos que somos da música e incorrigíveis curiosos pelos magníficos objectos que lhe dão corpo. O primeiro convidado é Manuel Portugal, um dos elementos da Pensão Flor e filho do célebre guitarrista António Portugal de quem herdou esta íntima e profunda ligação à guitarra de Coimbra.

Qual é a história da tua guitarra?
Esta guitarra é de 1996 e foi uma prenda do meu Pai quando entrei na Universidade. Ele era uma pessoa com uma relação muito intensa com os filhos, mas ao mesmo tempo tinha gestos muito bonitos e muito carinhosos. Nunca imaginei que me premiasse muito quando entrei na Universidade, mas entre tirar a carta ou receber um carro, surgiu a hipótese de aparecer uma guitarra do Kim Grácio, que é como ter um Stradivarius para quem toca guitarra portuguesa. Ele já não havia de fazer tantas como isso (tinha outro valor) e eu na altura, apesar da idade em que seria mais natural optar por uma prenda mais material, (não sei porquê) devo ter percebido e aceitei a oferta. Não é que eu não tivesse as guitarras do meu Pai (também elas do Kim Grácio) mas nem vacilei e ela apareceu passado uns tempos. Foi uma sensação muito bonita.

São guitarras especiais, as do Kim Grácio?
Quem conhece este mundo (da guitarra portuguesa) sabe o valor de uma guitarra feita por ele, pois não há duas iguais. Duas guitarras feitas quase em simultâneo, eram diferentes. Tive o prazer de o conhecer, era um homem de uma família de construtores e que fez instrumentos para grandes músicos das melhores orquestras do mundo (emigrou para os Estados Unidos talvez pelos anos 60). Isto também fez a diferença entre eu tocar ou não. Na altura, com todas as actividades que fazia (rugby, fotografia, jornalismo, etc), houve uma altura em que me desencantei com a guitarra e com os fados, mas como tinha aquela guitarra, e porque era o mínimo que podia fazer, fui tocando sempre.

Como defines a tua relação com a guitarra?
Não tenho formação musical, mas dizem que sou uma pessoa sensível a tocar. Talvez por ter crescido num ambiente e num mundo sempre cheio de músicos e de gente a tocar, muitos ensaios e concertos. O meu pai também não sabia nem escrevia música, mas tinha investido nele próprio desde muito cedo na auto-formação através dos grandes nomes da música clássica, dos grandes compositores. Gostava muito de ouvir música com ele. Lembro-me de estar com ele, sentados no sofá a ouvir Rachmaninoff e de sentirmos uma paz muito grande.

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E com a música?
Sempre fui tocando à medida do interesse (e desinteresse) nos projectos em que estive envolvido. Estive sempre ligado aos fados de Coimbra (mas sempre de uma forma irregular) e também através do Coro Misto da Universidade de Coimbra, onde fizemos um grupo associado. Mas gostava mais de ver o fado naquele submundo das casas de fado (que não havia muito em Coimbra, ou pelo menos não havia muita facilidade em admitir que havia, como a Diligência ou o 1910) em que alguém pega numa guitarra e outro começa a cantar, fosse um cantor de capa e batina ou um “simples” guitarrista da Baixa. Depois tinha um fascínio muito grande pelo facto de se conseguir levar o fado para um palco de grandes dimensões. Tenho um enorme gosto pelo palco. Adoro o trabalho musical de ensaios que permite chegar ao palco. Na Pensão Flor ensaiamos num local mágico (a sala de ensaio da Brigada Victor Jara) e fico muito orgulhoso de estar a tocar com pessoas que tocavam com o meu Pai, é a concretização de um sonho.

O fado percorreu um grande caminho e está hoje muito em voga. A vossa Pensão Flor é um exemplo disso. Como foi a tua entrada no grupo e como se enquadra a tua guitarra no projecto?
Há hoje uma explosão incrível à volta do fado, com nomes como o António Zambujo ou a Ana Moura, e nós estamos também a conseguir afirmar a nossa música. Já não sei bem se fui eu que entrei na Pensão Flor ou se foi a Pensão Flor que entrou em minha casa, por causa de todo aquele mundo da música e das guitarras que lá existe. Surge muito do encontro entre mim, o Tiago e o Pedro Lopes, com o apoio muito carinhoso desde o início do Luís Garção Nunes. No fundo aquilo é uma grande mistura, que é aquilo que nós queremos que seja. Toco uma guitarra de Coimbra, mas de uma forma mais neutra, o que é algo que está a acontecer. Há cada vez mais uma só guitarra (a portuguesa) e a caminho da universalidade, fruto do trabalho de promoção e divulgação do instrumento e do fado pelas gentes do fado de Lisboa. A guitarra de Coimbra evoluiu muito nas peças instrumentais ao longo dos anos e também na sua sonoridade pela mão de construtores como o Kim Grácio. Experimentar unhas de Lisboa com uma guitarra de Coimbra numa afinação natural…essa mistura, essa fusão está a acontecer. Neste momento uso uma guitarra de Coimbra onde experimento a afinação de Lisboa e onde já estou a experimentar as unhas de Lisboa que são diferentes. Esta guitarra tem uma encordoação com afinação em tom natural (Re La SI MI Lá Si).

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E como é o teu setup para os concertos da Pensão Flor?
Levo sempre duas guitarras, pois gosto de tocar com uma das guitarras do meu Pai. Gosto que ele esteja ali, e às vezes, quando as correm muito bem, sinto que isso acontece. A guitarra portuguesa tem muitas cordas, e como instrumento tradicional, desafina um bocado. Há quem diga que nunca afinam bem. E por isso também é importante ter ali sempre duas guitarras ou uma mais preparada para um tema específico. E como também não gosto de ir sem a minha, por isso levo duas. Esta minha guitarra está amplificada com um pickup Fishmann, criado para amplificar bandolins e um pré-amplificador Fishman Pro-EQ Platinum.

Faltam acessórios para a guitarra portuguesa?
Como não é um instrumento tocado pelo mundo inteiro, ainda não houve interesse dos construtores em construir um pickup especificamente para a guitarra portuguesa. E não tenho um capo, por exemplo. Quando quero fazer uma transposição tenho que inventar. Há uns de banjo mas ficam curtos, nunca são suficientes. Têm que ser muito bem feitos, ou dá sempre um som choco. Nas gravações de uma música da Pensão Flor, partimos uma colher de pau para o transpositor não se mexer e a guitarra ficou sempre ali quietinha sem ninguém lhe mexer até termos gravado. Além de que sou contra os sustenidos e os bemóis.

E porquê?
Para já, porque é preciso um grande desenvolvimento técnico para usar travessões na guitarra portuguesa. Isto porque estamos a falar de um instrumento que é curto, tem centenas de quilos de tensão nas cordas e porque tiram à guitarra aquilo que é o seu encanto. Mas o meu sub-desenvolvimento técnico não é só preguiça, tenho um som que procuro que seja baseado essencialmente em cordas soltas, acho que é a beleza da guitarra portuguesa. As guitarras do Kim Grácio também são uma evolução e uma grande ajuda neste caso, pois são muito macias e muito agradáveis de tocar.

Texto e fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 26 de Maio de 2014)