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Carlos Antunes

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Carlos Antunes, director do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), partiu da serra da Lousã num destes dias de sol e veio connosco mirar o Mondego no Largo da Portagem. Gosta de observar Coimbra em movimento e faz do restaurante Zé Neto a sua cantina.

Gosto de Coimbra porque…
A minha Coimbra é um território expandido e aproxima-se da região/distrito. Moro no Corvo, uma pequena aldeia no sopé da serra da Lousã, pelo que derivo entre cidade e campo como um pêndulo. Se é da cidade que falamos, o que gosto verdadeiramente é dessa singularidade de se concentrar num tão curto espaço uma tamanha diversidade de tempo, de história, de tradição, de erudição, de paisagem. Nessa medida, Coimbra é Portugal inteiro, e isto é uma vantagem enorme que não foi ainda explorada.

Figura mais emblemática da cidade:
Se figura pode ser uma instituição, consideraria a Universidade; sendo gente, e viva, Boaventura de Sousa Santos e Gomes Canotilho, assim saibamos escutar os ecos do seu trabalho que o mundo nos devolve. Gente local de ambição universal, dois bons exemplos. Dos mortos D. Dinis, Sebastião José e D. Sisnando. Gosto especialmente deste, por ter possibilitado aqui o primeiro mulato cultural, o moçarabe, como em Córdova, Sevilha ou Granada.

Em Coimbra, irrita-me…
Em Coimbra, como em rigor em qualquer parte, poucas coisas me irritam, mas muitas me dão imensa vontade de rir.

Sítio preferido:
Não tenho propriamente um sítio preferido, estático. Le Corbusier inventou uma expressão feliz para a experiência do espaço em movimento, chamou-lhe promenade architecturale que em rigor define uma qualidade da observação do espaço oposta ao que tradicionalmente nos possibilita a presença estática numa esplanada. O que gosto verdadeiramente é de observar a cidade em movimento – o meu movimento, e repito com frequência o mesmo percurso, saindo do Círculo, no coração do Jardim da Sereia em direcção à Portagem, ora pela Praça da República, Av. Sá da Bandeira, Praça 8 de Maio e Rua Ferreira Borges, ora pelo rotunda do Papa, aqueduto de S. Sebastião, Colégio de S. Bento, Couraça de Lisboa. Há ainda uma terceira via, que em rigor é uma variante desta última, que em vez de descer logo a Couraça de Lisboa, segue até ao Museu Machado de Castro, Sé velha, Quebra Costas, retomando o percurso no extinto Governo Civil, a ver rio. No primeiro percurso cedo demasiadas vezes à tentação das cornucópias da Marques e dos pastéis de Tentúgal da Briosa. Na praça 8 de Maio admiro a coragem de Távora, e revejo o púlpito de Chantenne no interior da igreja. Todo este percurso também poderá ser feito de carro, a qualidade da experiência não é inferior, poderei garanti-lo, e ganha até contornos cinematográficos. Aqui propunha uma coisa mais ambiciosa, com início em Santo António do Olivais, fazendo toda a cumeada. Em Santana, contornar pela direita a insólita presença da penitenciária no centro da cidade, rua de Tomar, olhar de relance o Botânico para lá do aqueduto, descer a Alexandre Herculano, a Praça da República, o Gil Vicente, Associação Académica, Padre António Vieira, o eixo perspéctico do colégio de Jesus à esquerda, S. João de Almedina à direita, cruzar a rua Larga, descer a couraça, ver de novo o rio para poente, S. Francisco a reerguer-se pela mão do João Luís Carrilho da Graça e Santa Clara-a-Nova. Devemos fazer estes percursos como se fosse pela última vez , ou fazê-los como se regressássemos de uma longa ausência. Verão o espanto e a enorme emoção. Existe também um outro percurso que tarda em tornar-se público – um imperativo municipal – ligar a alta à baixa através do Jardim Botânico, entrar na delicadeza da estufa fria, cruzar o bambuzal, espreitar a insólita capela de S. Bento, e desaguar junto à ligação do Parque D. Manuel Braga e o Parque Verde.

Melhor esplanada:
Entre a Sé Velha e o Paço das Escolas, esconde-se uma varanda que poucos conhecem. Dada a proximidade, oferece uma vista singular sobre a própria Sé Velha, a baixa, o rio e o choupal. Frequento também de forma por vezes ilegal uma outra ainda mais inacessível e desconhecida que espreita o parque Verde e Santa Clara a partir do centro da mata do Botânico. Para as noites de verão opto pela Galeria Bar Santa Clara, olhando o mosteiro em primeiro plano e o recorte majestático da colina onde se instalaram primeiro os romanos, depois o poder régio e por fim a Academia, por esta ordem.

Melhor sítio para comer:
Admito que haja muito melhor, mas continuo a frequentar o Zé Neto como uma cantina.

Melhor sítio para beber copos:
As caldeiras, na magnífica recuperação do João Mendes Ribeiro e o eterno Quebra.

O que faz no dia do cortejo da Queima das Fitas?
A avaliar pelas respostas dos meus pares, não existe Queima das Fitas em Coimbra. Estamos, os inquiridos, para a queima como os portugueses para o governo – não se encontra um português que tenha votado no Dr. Passos Coelho, mas ele aí está, e segunda afirma, legitimado pela vontade popular. Será que a Preguiça selecciona os potenciais inquiridos pela explícita alergia à Queima? Será este inquérito um preâmbulo para me convidarem a seguir a pertencer a uma sinistra e semi clandestina organização?

Onde costuma estacionar quando vai à Baixa? Dá moeda ao arrumador?
Estaciono onde calha e dou moeda ao estacionador, claro que dou, é a remuneração possível de uma actividade muito digna.

Onde é que não leva um amigo de visita à cidade?
Levo onde for preciso. Já me aconteceu ter de levá-lo ao cemitério, no caso das cerimónias fúnebres de um ente comum querido. Enfim, é a vida…

Se pudesse demolir alguma coisa em Coimbra, o que seria?
Não demoliria nada, mas edificaria bastante. São cidades densas, aquelas que amo, Paris, Istambul, Londres, Veneza, gosto de cidades contraditórias, de Baixas baixas com torres altas, de ruas direitas com gente torta, “complexidade e contradição em arquitectura”, o que é preciso é que nos apropriemos da cidade, que a façamos nossa, que a ocupemos, e a transformação far-se-á naturalmente. Apenas admito a possibilidade de demolir, se demolir for entendido como uma forma de construir, de reabilitar.

Um espaço desaproveitado:
Algumas cadeiras do poder, de todos os poderes.

Melhor espectáculo que viu:
Fanfare Ciocarlia no TAGV. Cinco minutos após o início do concerto já o público estava de pé dançando. O concerto acabou em plena Praça da República, com os músicos saindo porta fora arrastantando o público, parando o trânsito automóvel, celebrando a música, celebrando a cidade, celebrando a circunstância breve e feliz de ali estarmos juntos. Uma espécie de trip colectiva.

Último museu que visitou:
CAPC – adivinhe-se porquê.

Para relaxar/estar sozinho…
Para relaxar ou estar sozinho subo a serra da Lousã em Vila Nova – aqui retomo a conceito que inicialmente defini de território expandido. Se o tempo o permitir, observo o Mondego a penetrar no mar como um espelho a 50 km de distância.

Para me informar sobre o que acontece em Coimbra…
Para me informar sobre o que acontece em Coimbra vejo os jornais e a Preguiça. Amor com amor se paga…

Estou a responder a este inquérito…
Em casa, nos intervalos do vai-vem do tractor, trazendo a lenha do pinhal para o Inverno. Há pouco matei a sede aos homens com dois copos de vinho. São 13h13 e vou almoçar.

Questionário de Carina Correia

(Publicado a 14 de Maio de 2014)