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Os discos de Carlos Dias

BPI_7772Carlos Dias (46 anos, artista variado) é o segundo convidado desta série de entrevistas sobre amantes e coleccionadores de música em formato analógico. O “vício” da música e um fascínio incontrolável pelas rodelas mágicas que lhe dão vida são elementos aglutinadores de uma comunidade cada vez maior e de que podemos agora conhecer mais um fundamental elemento. Membro fundador dos Subway Riders e profundo conhecedor da cena musical contemporânea portuguesa e internacional  (excluindo os The Smiths, Oasis e R.E.M), recebeu-nos numa tarde de sol no terraço de sua casa onde falámos dos seus cerca de 12.000 discos.

Como começou esta tua relação com os discos?
Sempre tive uma grande atracção por música desde pequeno. O meu pai tinha um gravador de cassetes, em casa ouvia-se muita rádio, era uma companhia à hora de almoço com os programas d’Os Parodiantes e assim… Também sempre gostei de mexericar nos botões das aparelhagens e com 5 ou 6 anos gravava muita música portuguesa com um gravador em frente à coluna do rádio.

Qual foi o primeiro disco que compraste?
Comecei a comprar discos já no segundo ano do ciclo, e com 12 anos comprei os dois primeiros singles dos Dead Kennedys: o Too drunk to fuck e o Kill the poor. O primeiro LP foi o Kings of the wild frontier do Adam and the Ants. Durante muito tempo também tinha muitas cassetes, porque não havia muito dinheiro para discos. Quando alguém tinha um disco ele corria por 7 ou 8 casas e era gravado 8 ou 9 vezes para 8 ou 9 gajos. Fazia parte da época.

E a partir daí, começaste a “coleccionar”?
Sim, mas quando entrava nas lojas queria sempre ver os mais baratos. Mas para comprar algo bom e barato tinhas que estar informado e ter informação sobre os discos. Como sempre me interessei em saber quem produz, quem é o engenheiro, quem são os músicos, quando entro numa loja para comprar discos sei que saio quase sempre com alguma coisa que me interesse. Muitas vezes não podes ouvir, ou não tens a certeza se gostas… Mas como é barato, se gostas fica, se não gostas, vendes ou trocas. E a coisa torna-se mais fácil.

Onde compravas os teus discos?
Durante muito tempo não havia muitas lojas de discos, as lojas de electrodomésticos é que tinham sempre discos, para acompanhar as aparelhagens. Mas depois comprei sempre muita coisa na Almedina, na Eselindo, na Valentim de Carvalho…e nas feiras claro!

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Como tratas os teus discos?
Todos os discos que tenho foram ouvidos. Se os tenho, é porque gosto. Quando um disco entra no ficheiro, nunca mais sai. Assim como não empresto discos. Tive uma pequena aventura com um disco dos Joy Division (um maxi do Transmission que trouxe da Alemanha) que fui encontrar sujo de manteiga na casa de quem o tinha levado. Nunca mais. Sou capaz de emprestar um CD com muitas indicações sobre como lhe mexer e como o entregar, mas vinil não empresto a ninguém.

Como caracterizas a tua colecção?
Tenho todos os discos que comprei. A partir do momento em que compro um disco, que o ouço e que gosto, já não sai mais. Nunca vendi nenhum disco dos meus, nem um. Depois tenho várias “pequenas” colecções. Tenho discos das ex-colónias portuguesas (+- até 1982 ou 1983) pela componente política e também porque são curiosos (as capas, os artistas…). E como aparecem baratos nas feiras, vou comprando. E esses 10 ou 20 do início já se transformaram nuns 150 singles e nuns 80 ou 90 LPs. Tornou-se uma colecção, que está inserida noutra colecção que faço de discos relacionados com política, neste caso com o 25 de Abril e toda a altura que se seguiu.

É uma colecção “histórica”?
Guardas um bocado de história, e se calhar um dia mais tarde os meus com os de mais alguém tornam-se uma história muito grande sobre a época revolucionária, pós-revolucionária ou de intervenção (com os discos proibidos pela censura). Não os ouço regularmente, mas servem como registo histórico desse período. Depois também tenho discos de comédia portuguesa (Raul Solnado, Herman José…) que vou juntando e que se torna mais uma colecção.

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Esse processo pode não ter fim, certo?
Se gostas de música, há sempre discos para comprar, mesmo que possas comprar 100.000 discos já amanhã. Há 2 ou 3 artistas (pela oportunidade, nas feirinhas e assim), de que se aparece um que já tenho mas de um país diferente ou com alguma diferença, e se for barato, fico com ele. Tenho alguns discos de que tenho 5 versões, mas com algumas diferenças. Conheci uma vez um senhor que tinha que ter todas as músicas que um artista tinha gravado, outro que tinha 25 edições diferentes do mesmo disco dos Kraftwerk. Há quem coleccione discos do Nel Monteiro. No meu caso, compro tudo do David Bowie, tenho 171 discos dele. É o artista que mais me marcou desde que ouvi a primeira vez. Por outro lado, não tenho nenhum disco dos Smiths, nem dos Oasis nem dos R.E.M., nem nunca tocaram no meu prato.

Consegues gastar muito dinheiro num disco?
Não. Posso comprar um disco hoje ou daqui a vinte anos. Se o encontrar daqui a uns anos a um preço barato, compro. Não faz sentido vender um disco dos Pink Floyd a 15 ou 20 euros quando esse disco já foi pago mil vezes e quando os CDs são baratíssimos. Muitas vezes valem muito dinheiro porque são raros, nem sequer é pela música.

E o que dizes deste reviver do vinil?
Os discos vendem-se pouco (agora é tudo digital) e os artistas optam por fazer edições pequenas, coloridas com formatos estranhos, com capas diferentes E essa é a beleza do disco, do objecto. O digital despersonaliza bastante, eu nunca fiz nenhum download.

De que maneira o vinil é diferente do CD?
Quando ouves um LP, são 5 ou 6 faixas e ao fim daqueles 20 minutos há uma pausa (forçada) em que se calhar até reflectes sobre o que ouviste (enquanto mudas de lado, pensas: “gostei desta ou daquela…”). E depois tens mais 20 minutos de música. Chegas ao fim, se gostaste pensas: “gostava de ouvir mais…” e provavelmente compras o próximo disco quando sair. Mas quando metes 80 minutos de música num CD, tens os artistas sempre a apresentar álbuns duplos. As pessoas começam a reconhecer as músicas pelo número da faixa em vez de pelo nome, de vez em quando chegas aos 60 minutos e já nem estás bem a ouvir…é quase música de fundo, como aquela música ambiente que toca por 50.000 sítios. Quando ouves um LP, a pausa faz-te reflectir naquilo que ouviste e isso é muito bom.

Para terminar, fala-nos um pouco do Grupo do Armalhanço.
O Grupo do Armalhanço começou por ser uma cena de gozo por causa de dois armalhões que publicavam as suas aquisições nas suas páginas das redes sociais, e resolvi começar a responder com uns posts com umas fotografias dos meus discos. Depois um deles sugeriu fazer uma página sobre isso, e fiz a página. Tem sido um sucesso, porque o pessoal vai lá mesmo armar-se com os discos e acho isso óptimo, saudável até. É uma maneira de espairecer. Tem havido bons negócios, têm-se feito bons amigos e há ali bons diálogos. E vejo óptimos discos e magníficas colecções. Só não pode haver má-educação ou exageros na vertente comercial.

Texto e fotografia de Bruno Pires

(Publicado em 09 de Maio de 2014)