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3 décadas de “Quebra”

QUEBRA-COSTAS - COIMBRAO “Quebra Bar” festeja este sábado 30 anos de vida.

Os primeiros passos deste lugar de referência da cidade do Mondego foram guiados por António Fraústo, António Albertino dos Santos e Cristina Cunha, em Maio de 1984, marcando o DNA que ainda hoje contamina o bar da rua feita de escadas que lhe emprestou o nome. A mudança a que se assistia então na antiga loja de antiguidades instalada na casa onde nasceu Artur Paredes (pai de Carlos Paredes), propriedade de um dos sócios do novo bar, terá causado desconfiança na vizinhança de uma Alta que estava no marasmo. Os dois Antónios contaram com a dupla Belmirinha/Mário “Alfaiate” (que se revelaram importantes defensores junto da vizinhança), que terá entendido o que o “Quebra” proporcionaria àquele ponto da cidade velha, um impulso à revitalização da Alta de Coimbra, ajudando a limar as arestas da população local, receosa de uma boémia desbragada. “Este saudoso casal chegou a fazer as pipocas que acompanhavam as cervejolas”, conta António Albertino dos Santos.

Se, em Lisboa, o Bairro Alto tinha o “Frágil”, no Porto, a Ribeira tinha o “Aniki Bobó”, a Alta de Coimbra teria um espaço de modernidade, contextualizado na cidade do Mondego, com as suas especificidades. “Foram-se buscar elementos artísticos com estéticas contemporâneas”, como refere António Albertino. E quem se recorda do sapateado de Michel nas escadinhas mágicas da Alta da cidade velha? E das projeções de filmes? Na verdade, o bar era frequentado pelas elites intelectuais da cidade, e fortemente ligado ao Círculo de Artes Plásticas, de que o nome Túlia Saldanha pode servir apenas de exemplo.

À época, o “Quebra” ocupava apenas um piso, mas cinco anos depois ganhou terreno, com um projeto do arquiteto João Mendes Ribeiro, alcançando então o andar de cima e as suas belas janelas para o casario da cidade medieval. A frente do Simca Aronde, catrapiscada num sucateiro e serrada ao meio e incrustada numa das paredes, um pormenor icónico da época, e os azulejos Viúva Lamego (que bordavam as portas) decoravam o espaço, singularizando-o, e testemunhavam uma tertúlia cultural, artística, a que se assistia por aquelas paragens, que se misturava com as “tribos” do tempo, mais jovens, vindas do “Café Tropical”, com as suas marcas identitárias bem vincadas nos penteados e na roupa.

A esta gerência matricial outras três se seguiram, sendo Miguel Lima, ainda hoje à frente dos destinos do “Quebra Bar”, gerente desde então, i.e., desde 1991, alterando-se os sócios que com ele fizeram o caminho deste espaço.

Momentos memoráveis, conversas a subir e a descer os degraus (se eles falassem…), brindes e tostas (a famosa Tosta Quebra!), música, risadas, escadaria à pinha, muitas histórias se poderiam contar acerca do mais antigo e carismático bar de Coimbra, senhor de uma identidade própria e de um ambiente heterogéneo e multigeracional, de dia e de noite, imagem de marca que tantos apreciam. E foram muitos os colaboradores que por lá passaram: o Aires, o Tó-Zé (António Dias), que também foi sócio, a Sandra, a Cris, a Cinda (agora nas telenovelas portuguesas), a Joana Amaral Dias, com 18 anos então…

Foi também com Miguel Lima que se estreou o “Quebra Rio”, espaço amplo à beira do Mondego, no Parque Verde, que animou o dia e a noite da cidade de 2004 a 2007 e que mereceu destaque de duas páginas na revista “Evasões”. Hoje, quando fala deste prolongamento do “Quebra”, subsiste um travo amargo que não disfarça.

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Festas, dj’s (muitos, muitos, para além dos residentes mensais, como é o caso de Afonso Macedo, Carla Gonçalves e David Rodrigues, e também dos sócios-anfitriões da casa, Miguel e Nuno), música que vai da eletrónica, r’b, ao funk, soul, às sonoridades dos eighties, e, de há 5 anos para cá, concertos exteriores, que converteram as escadinhas da antiga Rua das Tendas num anfiteatro deveras singular. É aí que tem lugar o Jazz@Quebra, projeto audacioso que nasceu em 2012 e que tem trazido a Coimbra os melhores músicos nacionais da área jazzística, que tem feito caminho e alcançado notoriedade na cena musical portuguesa e não só. A iniciativa (de 4 de julho – integrada nas Festas da Cidade – a 6 de setembro) tem dado que falar e tem espalhado o nome de Coimbra para lá das fronteiras nacionais. Atualmente, a preocupação consiste na procura de patrocinadores, já que o Jazz nas escadinhas envolve custos elevados.

Não surpreende, pois, que o conceituado pianista João Paulo Esteves da Silva tenha sido o músico convidado para a reabertura, em Janeiro deste ano, do “Quebra Bar”, agora de cara lavada e um novo sócio (Nuno Araújo) a substituir Paulo França (o “Paulinho” do Quebra, que durante muitos anos foi uma presença amiga e galvanizadora de várias gerações…) na equipa de trabalho de Miguel Lima.

Agora há um pequeno palco interior (os concertos não estão limitados pelos humores da meteorologia e a nova geografia do lugar facilita a sua visualização a quem opta pelo piso superior), o velho balcão de sempre já não está no mesmo sítio, e está mais alto. As cores mudaram para o cinza, o branco e o preto. A cabine de som desceu do patamar, acantonando-se num novo poiso. Já a esplanada e o piso de cima permaneceram iguais a si próprios, sem alteração. E há quem não goste. E há também quem defenda que este “novo Quebra”, um clássico renascido (afinal) está agora mais funcional e que o que não muda sucumbe…

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Certo, certo, é que se espera que nos continue a dar música, tostas, chás, gin´s e imperiais (…) durante muitas décadas – em noites de lua alta ou em tardes azuis –, e que a música, o serviço, a atmosfera, as pessoas, o enquadramento, a história, etecetera, são elementos de uma galáxia que o fazem uma marca da cidade de Coimbra.

Neste sábado os brindes à vida longa do “senhor Quebra” são garantidos e, depois, prolongados na discoteca “States” (espaço noturno que rivaliza em história e em muitas estórias com o bar da Alta…), que também celebra três décadas de vida.

Texto de Teresa Carreiro (escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 3 de Maio de 2014)