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The Legendary Tigerman: True

1653743_10152661176799768_1078789986_nNo passado dia nove, The Legendary Tigerman deu música a um TAGV sem cadeiras vazias. A Preguiça não perdeu a oportunidade e esteve à conversa com Paulo Furtado. Com seriedade e galhofa q.b., conseguimos saber toda a verdade sobre o seu último álbum True, bem como algumas das emoções que vagueiam pela alma do músico.

Doze anos após o teu primeiro álbum e cinco após o Femina, onde entraste num novo registo e num processo criativo diferente, o que mudou agora com o True?

Não só por causa do Femina mas por ter feito várias bandas sonoras com a Rita Redshoes, por ter colaborado com a Ana Mar, com a Mísia, com a Maria de Medeiros e ter estado a trabalhar com muita gente, que, quando comecei a compor para este disco, senti necessidade de me isolar. Estive três a quatro meses, que foi o tempo de composição do disco, diariamente a tentar perceber o que queria fazer, como queria fazer, que sonoridades queria criar. Logo no Femina tinha começado a desviar-me dum certo caminho que antes era uma coisa natural, comecei a compor para cada uma das pessoas e a tentar ir de encontro aos universos delas. Aqui houve uma grande necessidade de perceber qual é que seria o universo deste disco, daí eu ter precisado de me isolar mais.

Também neste álbum há a participação de outros músicos. Como se deu essa junção?

Aqui funcionou um pouco ao contrário. Por exemplo, a música em que a Rita Redshoes entra era uma música que tinha feito e gravado já há algum tempo para uma banda sonora de uma peça de teatro, “O Jogador”. Não era para entrar no disco, seria um extra, mas depois a música cresceu tanto que não consegui deixá-la de fora. Não queria de modo algum ter uma canção com uma voz feminina, que iria levar de volta para o Femina, mas a canção impôs-se e foi impossível deixá-la de fora. Com o Filipe Costa foi um pouco a mesma coisa. Já tínhamos tocado na ZDB e noutros sítios a música Green Onions e também foi algo do género “vamos lá gravar e ver”. Não eram coisas fundamentais para mim e no final acabaram por entrar. No resto das participações, as coisas já foram mesmo sérias e pedidas, e foram feitas à posteriori, depois de ter gravado tudo como one man band. Havia algumas canções que senti que não chegavam onde deveriam chegar só com o meu formato e foi nesse momento que pedi à Rita e ao Filipe Melo para fazerem arranjos de cordas para duas músicas e ao João Cabrita para fazer arranjos de sopros em mais uma. Acho que isso de certa forma abriu a sonoridade do disco de uma maneira diferente do Femina. Lá está, o universo estava criado e as pessoas tiveram que entrar nesse universo e habitá-lo.

E a participação do baterista Paulo Segadães nos concertos? É uma novidade também…

O Paulo Segadães vem um bocado como consequência disto tudo e do facto de que já não tenho de provar nada em relação ao formato one man band, já não tenho que estar agarrado a isso. Na realidade, acho que foi um momento de libertação. Este momento de pensar “ok, dá para pôr cordas e sopros, a partir de agora dá para tudo”. E é um bocado assim. Os concertos têm sido diferentes e vai haver concertos em que há cordas, quero experimentar essas coisas e quero fazer essas coisas. No final destes anos todos… vou ser sincero, fazer as tournées sozinho era, por vezes, insuportável: a tensão, o seres sempre tu quem está no meio do foco, sempre tu a coordenar uma série de coisas. A diversão era tipo zero ou quase. E agora há a mistura que acontece com o Paulo ou com o João Cabrita, onde há a capacidade de improviso. Porque se estás a tocar sozinho, é um improviso um bocado triste (risos) estás a improvisar contigo mesmo.

Li algures que disseste que não te divertias nos concertos. É verdade? É que não parece nada…

Claro que me divirto, mas era uma grande tensão, mesmo o ambiente de estrada e a carga e o peso que toda a gente sentia. Se falhava uma coisa na tarola era um caos, agora é uma coisa mais controlada e há mais momentos. Antes, toda a gente estava mais tensa em viagem. O concerto do Femina era também mais difícil, tinha muitas coisas sequenciadas, etc. Este concerto é mais simples, até a nível de conceito, de luzes, é muito mais um concerto de rock and roll clássico. Tive alguma necessidade de voltar a isso. No Femina acabei por ir atrás de conceitos e estilizar a coisa ao máximo e agora é um bocado desconstruir essas coisas todas, é ser mais relaxado e fazer fluir de forma diferente.

LTM CD14 - Photos Promo HR 1210

Consideras o True o teu disco mais negro e tens dito que é devido ao que te rodeia, acabando muitas vezes por teres um discurso algo politizado. A crise é a única responsável por essa “negritude”?

Não é só por causa disso, claro. Mas para ser muito sincero, acho que isso influencia muito e a crise põe um sentimento de insegurança nas pessoas que as leva a pôr muitas coisas em causa. Por exemplo, nunca em nenhuma altura me lembro de ter tantos amigos com problemas, ou emocionais ou outros. E isto é uma coisa de massas, não é isolada. Pode não ser só isso, mas acaba por ser o pano de fundo de outras coisas: de desamores, de tristezas, de revoltas e de um modo mais duro de reagir às coisas também. Às vezes apercebemo-nos mais, outras menos, mas é um sentimento que de certa forma nos embrulha, que está sempre presente. A mim dá-me imensa raiva. Trabalhar imenso, haver montes de gente a trabalhar imenso, outras que não conseguem trabalhar e no final, estás a pagar bué de impostos. O que tens de volta é ridículo e está tudo a ser mal gerido e desperdiçado. E isso é uma coisa que está presente em todos nós agora.

Os vídeos Do Come Home e Gone são duas peças cinematográficas. Gostava que falasses um pouco sobre a sua realização.

Já não tenho grande paciência para fazer videoclips. (risos) Portanto, tenho de arranjar sempre uma maneira de transformar os videoclips numa coisa que me dê gozo. Isto foi uma mega-produção inacreditável que, mais uma vez, esteve dependente da boa vontade e ajuda de dezenas de pessoas. Estes dois videoclips fazem parte, com mais algumas imagens, de uma curta-metragem que está no DVD do disco, que se chama Oblivion. A minha ideia era construir uma narrativa paralela às músicas. A história é muito simples, é uma espécie de pescadinha de rabo na boca, assim meio twilight zone, em que não percebes quem mata quem, ou quem morre primeiro. Aproveitei também para fazer uma declaração de amor à Praia Grande, que é um dos meus sítios preferidos em Portugal e aproveitei para morrer lá, digamos assim. (risos) Começa o Do Come Home com aquela visão do rio, que é também uma das zonas que mais me acalma em Lisboa e um sítio onde adoro estar. É quase tudo filmado em estúdio, mas há partes em que as filmagens são feitas na zona de Lisboa e de Sintra para depois projectarmos, um bocado à antiga. Para se fazer a parte dos fantasmas, teve que se fazer exactamente as mesmas filmagens, projectar em chroma e fazer as transparências. Acabou por ser assim e foi um processo de pós-produção bastante complexo. Foi muito engraçado de fazer, conseguimos filmar tudo num dia, das sete às duas da manhã, pois seria impossível por questões financeiras fazer em dois dias. Tem muito a ver com a experiência que quero para este projecto, que esteve sempre muito relacionado com o cinema e, cada vez mais, a questão de que tudo o que está à volta da música tem de me interessar e tem de me dar gozo fazer, senão prefiro não fazer. Fazer um videoclip só para vender discos, não me dá gozo.

Há um outro videoclip da Do Come Home só com a letra da música num caderno que vai sendo folheado…

Isso foi feito porque supostamente agora os lyrics vídeos estão na moda e como odeio lyrics vídeos…

Os muitos concertos do The Legendary Tigerman têm acontecido não só pelo país mas também pelo estrangeiro, onde tens inúmeros fãs. Notas grandes diferenças nos públicos?

Nota-se sempre um bocado de diferença nos públicos, até mesmo dentro das mesmas cidades. Sabes que, por exemplo, Lisboa ou Paris vão ser um bocadinho mais frias às vezes, as pessoas falam mais, se calhar tens mais imprensa ou mais convidados. Depois, felizmente, tens vezes em que não estás com expectativa nenhuma para um concerto e te surpreendes. Acho que o concerto mais divertido lá fora desta tournée foi em Lyon. Já não tocava lá há montes de anos, não tinha grande expectativa e foi um concerto inacreditável, com um público incrível. Os outros também foram bons, mas aquele foi mesmo daqueles concertos de festa do início até ao fim. A única diferença que vejo em relação ao público internacional e nacional é o facto de as pessoas cá serem sempre muito sérias a partir dos 30 anos. As pessoas pensam que a partir dos 30 anos as outras pessoas estão a olhar para eles, e têm um emprego e filhos e não podem dançar. Não quer dizer que de facto não fiques mais sério a partir de certa idade, mas não tens de parar de te divertir. Aqui tens de parar de te divertir, de sair à noite, tens de ser um pai de família. Acho que podes ser essas coisas todas e ir a um concerto e divertires-te como se tivesses 20 anos, durante essa noite, não toda a vida. E lá fora isso não acontece. Há pessoas nos concertos desde os 15 aos 60 anos, que topas que ouvem rock há 30 anos e que se calhar até vestem um blusão de cabedal para ir a um concerto. Só isso é uma coisa boa. E nós ficamos um bocadinho sérios em relação ao envelhecer, é mais difícil pôr as pessoas a curtir e a deixarem-se ir pela música, têm medo dos outros olharem e comentarem. Acho que é a única diferença.

Além de ter estado no 1º lugar do top de vendas, True tem sido alvo das melhores críticas, tendo mesmo sido considerado uma obra-prima. A crítica é importante para ti até que ponto?

Já houve uma altura em que as críticas eram hiper importantes para mim e que vibrava quando tinha uma boa crítica. Se calhar podia não vender tantos discos ou ter muitos concertos e as críticas ganhavam um poder maior. Neste momento, não me trazem aquela alegria exagerada. É bom, claro, ter boas críticas, mas com a repetição de processos acabas por ter de normalizar algumas coisas. O que funciona também para as más críticas. Não deves ficar nem deprimido nem eufórico. Agora, o primeiro lugar do top é uma coisa inédita e não é a questão de ser o número um, ou o dois, ou o três, isso não me interessa assim muito. Obviamente que fico muito contente de o disco estar a vender e mais ainda numa altura em que quase não se vendem discos. Se fico contente e se é importante para mim? É. É importante que o disco esteja a chegar às pessoas e isto quer seja no itunes, no spotify, ou onde quer que seja. O disco chegar às pessoas é muito importante.

Já que estamos em Coimbra… uma vez disseste numa entrevista, em que te perguntaram se Coimbra era a tua casa, que a tua casa é onde penduras o teu chapéu. Hoje responderias o mesmo?

Sim, claro. Se bem que obviamente há um sentimento em Coimbra que é imbatível. Seja por más ou boas razões, ou por saber que hoje acabo o concerto e vou ali ao Tropical e ao Académico e estou ali com uma série de pessoas que fazem parte da minha vida, algumas há 30 anos, e estou como se nunca tivesse saído de cá. Não tenho vindo a Coimbra nos últimos dois anos, ou venho de fugida, não tenho estado com essas pessoas, mas sei que não vai haver nenhuma diferença. Há pessoas com quem existe uma amizade e uma compreensão que são maiores que esta distância. E não há nenhum sítio nem nenhum outro local do mundo em que isso aconteça. Isso obviamente é sempre uma espécie de casa, saber que existem aqui pessoas que sabem aquilo que tu és há vinte ou trinta anos. Isso é muito mais profundo e muito mais quente do ponto de vista emocional do que qualquer outra coisa. Sim, a casa é onde poiso o meu chapéu, mas há uma casa emocional em Coimbra, obviamente que há.

Entrevista de Carina Correia

(Publicado a 24 de Abril de 2014)