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Stimmung, de Pedro Vaz

BPI_7845  A Preguiça regressou ao CAPC (Círculo de Artes Plásticas de Coimbra) da Sereia, desta vez para visitar a exposição Stimmung do pintor Pedro Vaz, sob a curadoria de Carlos Antunes e com texto de Pedro Pousada.

Antes de entrar nas salas de exposição do CAPC e antes de abrir os olhos, sob a escuridão dos recintos, para os repousar nas sequências de imagens de Pedro Vaz, é inevitável pensar na peça musical homónima de Karlheinz Stockhausen, escrita em 1968 para seis vozes e comissariada pela City of Cologne para o Collegium Vocale de Köln. Stimmung, ou a harmonia da alma. Stimmung, ou a sintonia e a disposição.

E esta relação entre as obras de Pedro Vaz e as vozes de Stockhausen não é difícil de estabelecer depois de abertos os olhos à percepção das projecções que o artista nos oferece em Coimbra. O serialismo de Stockhausen convive bem com as séries de imagens que Pedro Vaz nos oferece.

As visões do mundo natural de Pedro Vaz apaziguam e harmonizam, recordando-nos a natura naturans (de Spinoza) ou a natureza agindo como ela age, realizando o que ela realiza, praticando o que ela pratica, impondo-nos a sua imagem na melhor das suas possibilidades e do seu lirismo (natural). Para além da recordação da natura naturans, no contacto com as projecções de Pedro Vaz também rememoramos uma natura creante (de Plínio o Velho), ilimitada, criadora, activa, sem começo e sem fim.

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Para além destas duas lembranças, Stimmung ainda nos provoca de outra forma, porquanto alude à perpétua alterabilidade da paisagem que, de per se, se constitui como o tempo longo da história. As subtis alterações da paisagem são-nos colocadas através dos acrescentamentos sobrepostos de imagens que nos dão a percepção desacelerada da mutabilidade da paisagem enquanto natura naturans e creante, promovendo, ao mesmo tempo, a ideia do trilho que o artista percorre na paisagem. Por este motivo, a exposição fala-nos de caminhos sobrepostos: o caminho da natureza (o seu curso de alterabilidade e de devir) e o caminho do homem (no sentido de digressão e de devir) percorrendo a paisagem que se nos oferece. Estes cruzamentos revelam-se especialmente nas projecções de séries de fotografias Levada do Caldeirão Verde (sala 1), Fanel I e II (sala 2) e Caldeirão Verde (sala 3), que nos exibem esta possibilidade de leitura dupla, entre o percurso humano na paisagem e o curso próprio e inerente à natureza, proporcionando-nos uma experiência de imersão em densos mantos de luz e cor interrompidos apenas pelo limite das telas de madeira que abrigam as sequências.

Guardar a paisagem como ela se nos oferece numa superfície finita e levar connosco uma porção dessa terra, dessa roca, desses verdes, dos cinzas e dos violetas é uma tarefa impraticável. A mutabilidade da natura (a natura naturans) inviabiliza a hipótese de recortar o mundo em pedaços limitados. No caso de insistirmos na realização dessa tarefa sabemos que o mundo se definhará, deixando de existir tal como ele é, interrompendo o curso da sua própria acção criadora e recriadora (natura creante). Por isso se revela tão afortunada a forma como Pedro Vaz nos mostra esta natura, através destas séries de sobreposições de imagens que se misturam para cederem o lugar a outras peças de um espaço contíguo, reveladas através de um caminho que se estabelece sem que para isso sejamos levados a caminhar de facto: é o curso ininterrupto da paisagem que se transfigura e o curso imaginário que fazemos quando penetramos na paisagem, transfigurando-a.

Os vídeos fílmicos de Pedro Vaz, expostos na sala 1 (Farnel V e VI, Levada das 25 Fontes) e sala 3 (Caldeirão Verde) também nos encaminham, desta feita para outras esferas da experiência, porque nos dão a conhecer desconhecidos, porque aludem a texturas e a brilhos cintilantes, a luminescências que ultrapassam o plano natural, e porque nos revelam o que a natureza não divulga, mas antes as possibilidades do nosso olhar.

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Não é a primeira vez que o autor reflecte sobre a paisagem, utilizando as capacidades expressivas da natureza para construir novas realidades naturais, ou densas irrealidades que nos remetem à fantasia, ou à criação artística que, por sua vez, dá forma ao que não existe fazendo com que passe a existir: a natura creata.

Para o pintor, toda a pintura é paisagem e o ecrã pode ser pintura. Por este motivo tem vindo Pedro Vaz a examinar as possibilidades plásticas e significativas (tanto quanto discursivas) e significantes da natureza, mesmo quando a fecha em caixas-paisagem. Servindo-se da plasticidade dos elementos da natureza, Pedro Vaz reorganiza vários ambientes naturais oferecendo-lhes novas disposições cromáticas e novos feitios através de outras matérias (natura creata), ensaiando as aptidões que a própria natureza possui para refazer-se (natura creante), e refazendo-a ele mesmo através da sua inteligência artística e do seu olhar particular (a Ideia artística).

E neste universo de acção natural move-se a arte que Pedro Vaz produz, gerando novas verdades que passam a habitar o nosso mundo, encarnando o papel de regenerador do mundo natural, este imenso universo do qual tudo faz parte e onde deveremos regressar quando deixarmos de ser homens. E é neste domínio teórico, onde coabitam a ideia de arte e as ideias de natureza (nas suas várias divisões), que fazem sentido as ideias de Spinoza sobre a natureza enquanto realidade única, total e infinita, assemelhando-se a Deus: tudo quanto existe é parte da natureza e tudo quanto há foi trazido à existência pela acção da natureza sem qualquer objectivo senão o de existir.

Do todo desta experiência retemos a qualidade do trabalho artístico de Pedro Vaz que nos conduziu a pensar nas várias capacidades e possibilidades da natureza, enquanto realidade que age e que realiza (natura naturans e natura creante) e enquanto realidade permeável à ingerência de outros agentes criadores e criativos (a natura creata), como no caso, a intervenção do próprio artista na reinvenção de alguns aspectos naturais.

E quando pensamos que a arte e a natureza não coabitam, baseando-se em realidades diametralmente opostas, e possuindo identidades díspares, pois que a arte é uma construção humana ao invés da realidade natural que surge e que pré-existe, não estamos, certamente, a referir-nos ao trabalho de Pedro Vaz que, partindo da identidade da natureza e da sua ideia de reconstrução progressiva, alinha os vários pólos nos quais se divide a natura para criar obras de arte com flama.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 21 de Março de 2014)