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Fitacola: Escolhas

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Os Fitacola celebram os seus dez anos de carreira, já quase a chegarem aos onze. Ao longo do tempo testemunharam formações com elementos diferentes, gravaram dois álbuns (Mundo Ideal, 2008 e Caminhos Secretos, 2010) e três EPs (Rebobina e Pensa, 2005; Outros Dias, 2009 e Vontades, 2013) e percorreram Portugal com as suas carrinhas carregadas. A comemoração deste aniversário está a ser feita com uma colectânea de EPs: Vontades, editado o ano passado; Escolhas, que será lançado no próximo dia 23 de Março (no bandcamp da banda) e por fim, Razões, que verá a luz do dia daqui a uns meses. A Preguiça esteve com Diogo (vocalista e baixista), Xico (baterista), Cábál (guitarrista) e Gamboias (guitarrista) e durante a conversa, que não podia ter sido mais animada, falámos das vontades, das escolhas e das razões destes quatro amigos estarem juntos a dar música. Podemos vê-los e ouvi-los já no próximo dia 20 de Março em Coimbra, a cidade que os viu nascer, no Salão Brazil.

Em que contexto surge este EP Escolhas?

Xico – O Escolhas surge no contexto de uma colectânea de três EPs. Basicamente a ideia partiu do facto de fazermos dez anos de banda, o que aconteceu o ano passado. Queríamos fazer qualquer coisa diferente e então, em alternativa a gravar um álbum inteiro, fazemos três EPs e marcamos alguma diferença. Estamos o ano todo em continuidade a lançar trabalhos e, em vez de lançarmos só um e depois estarmos a promovê-lo o tempo todo, vamos lançando e promovendo. Achámos que fazia sentido para os dez anos e também é uma experiência. Vamos ver como resulta.

Cábál – Tudo isto tem a ver com a questão da experiência. Está aliado ao facto dos dez anos, mas é também uma experiência em relação às próprias mudanças do panorama musical. Hoje em dia ninguém compra um álbum, no máximo compram uma música. Se for um EP e nós oferecermos a música, se calhar mais facilmente vão ouvir aquelas quatro músicas. É aquela questão do acquire taste.

Diogo – Na altura surgiu a questão de termos um leque de músicas que se calhar não se encaixavam umas com as outras e pensámos então em dividir por três EPs. Talvez resultasse melhor separadamente do que tudo num bolo e ficar estranho. O estilo de música não é diferente, é o mesmo, mas cada música tem sentimentos diferentes ou foram pensadas em alturas diferentes. Se fosse um álbum, não estaria tão coeso como álbuns anteriores.

Qual o balanço que fazem destes vossos dez anos? Passaram por várias mudanças, nomeadamente mudaram de elementos.

Xico – Essas mudanças acabam por ser coisas positivas. Quando vês alguém a sair pode ser um stress, algo negativo, porque já te habituaste a trabalhar com essa pessoa. Entrar uma pessoa nova implica mais trabalho, mas implica também algo de bom, pois traz coisas novas e outro espírito. Em relação à música, é um balanço muito positivo. Acabámos por ir colocando novas componentes, coisas que não existiam nas outras músicas, nomeadamente a nível de ritmo. Não deixa de ser Fitacola mas acabámos por dar um cunho diferente ao longo destes anos. E estes EPs acabam um pouco por ser o apanhado dos nossos dez anos.

Diogo – Acho que o balanço é muito positivo. Quando começámos, ninguém sabia tocar e desde aí fomos sempre crescendo, como banda e como pessoas. Aprendemos muito com os elementos que foram entrando, todos eles nos fizeram crescer. Sempre estive e continuo a estar muito satisfeito.

Cábál – As nossas expectativas eram mínimas e portanto, ter chegado aqui é muito bom. (risos)

Mas quando se juntaram para tocar, havia um mínimo de expectativas…

Xico – No início a ideia não era formar uma banda, queríamos só tocar uns com os outros. As coisas foram acontecendo e a verdade é que neste momento, passados dez anos, continuamos a tocar. No fim de 2012 pensámos nos dez anos e que queríamos fazer qualquer coisa para marcar a data. Entretanto deixámos a ideia de lado e mais tarde voltámos a pensar nela. É assim que as coisas vão acontecendo, vão surgindo naturalmente. Não há expectativa nenhuma, vamos fazendo e o que vier é sempre bem-vindo. Isso acaba por ser bom, porque nos dá motivação. Caso contrário, se tivéssemos expectativas e depois não as cumpríssemos, era frustrante. Por exemplo, nunca pensei que pudéssemos vir a tocar no Coliseu e aconteceu, duas vezes. Nunca pensámos nisso na vida e nunca foi um objectivo. Se tivéssemos pensado que queríamos tocar no Coliseu logo no primeiro ano, se calhar nunca aconteceria e a banda acabava.

Diogo – Se calhar é por isso que algumas bandas acabam, porque têm as expectativas demasiado elevadas e depois não conseguem cumprir. Preferimos não ter expectativas. (risos)

Cábál – Acho que também tem muito a ver com a questão dos egos. Muitas vezes há egos em demasia dentro das bandas e neste caso somos todos bastante humildes e terra-a-terra.

Vocês já deram inúmeros concertos ao longo destes dez anos. Como vivenciam essa experiência de tocar ao vivo?

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Xico – Cada concerto é um concerto, cada palco é um palco e cada público é um público. Isto parece um chavão, mas é a pura verdade. Pode ser sempre surpreendente, pela positiva ou pela negativa. Mais uma vez, aqui o segredo é ir sem expectativas. Mas acaba por ser sempre bom, estamos os quatro, bebemos uns copos, estamos entre amigos e ainda tocamos, é um extra. (risos)

Diogo – Por exemplo, neste Verão demos um concerto numa aldeia pequena no Norte do país e, quando chegámos, o presidente da Câmara disse-nos que a média de idades dos habitantes era de sessenta anos. Pensámos que ia ser mau e afinal foi um excelente concerto. E por vezes os nossos concertos estão cheios de pessoas mais jovens e nem correm assim tão bem. É muito imprevisível.

Que referências musicais influenciam a sonoridade dos Fitacola?

Diogo – Quando formámos a banda, erámos um grupo de amigos que ouvia o mesmo tipo de som, os gostos eram muito parecidos. Ao longo do tempo, com as mudanças, as influências vão mudando um bocadinho, vamos crescendo e ouvindo outras coisas. Na altura, a base foi o punk rock que vinha dos Estados Unidos. Inicialmente até cantávamos em inglês e só passámos a cantar em português depois de um álbum dos Tara Perdida de que gostámos bastante, que nos soava como as coisas americanas, mas em português. Assim a mensagem passava mais facilmente e era mais fácil escrevermos as músicas. Foi assim que começámos a cantar em português.

Cábál – Entrei nos Fitacola há três anos. As minhas raízes musicais sempre passaram pelo punk rock desde muito cedo. Já na escola primária ouvia Mata Ratos e Censurados e coisas do género. Ouvi muitos géneros de música, mas o punk rock sempre foi a constante da minha vida. Fez todo o sentido quando me convidaram para tocar. Nunca tinha tocado numa banda, tocava guitarra há seis anos quando me convidaram e portanto, tinham eles mais anos de banda do que eu de guitarra. (risos) As coisas começaram a correr bem e tudo tem funcionado muito bem. Agora com a entrada do novo membro estamos numa formação top.

Xico – Falando ainda nas influências, às vezes há certos pormenores nas nossas músicas onde se notam influências diferentes. Por exemplo, estes dois EPs (Vontades e Escolhas) têm uma introdução. O primeiro tem um apontamento de piano, porque o Pinho (ex-baixista) tem outro tipo de influências, de técnicas e de capacidades, nomeadamente o saber tocar piano. Experimentou fazer aquela introdução e fica muito bem. Com a entrada do Gamboias temos uma introdução com guitarra de Coimbra, a puxar para o fado, e nunca nenhum de nós iria fazer aquilo. Portanto, cada um de nós vai dando algo de pessoal. Para além do punk rock temos sempre uns pormenores de outras coisas que vamos ouvindo.

Gamboias – Estou na banda só há seis meses. Contribuí para estas quatro músicas do novo EP e acho que em algumas se nota algo de diferente. No início, quando comecei a tocar, as minhas influências eram mais rock. No entanto, depois passei para o punk rock e foi nessa altura que os conheci. Estive numa outra banda e quando saí, deixei o punk rock um bocado de lado. Não quer dizer que não seja influência, mas não ouço tanto como na época e entretanto comecei a ouvir outras coisas, tenho N influências, ouço de tudo.

A vossa discografia está toda disponível no vosso bandcamp. Como olham para essa forma de distribuição digital?

Diogo – Numa banda como a nossa faz mais sentido ser assim, porque conseguimos chegar a mais público. De outra maneira não chegava a tanta gente.

Cábál – Uma vez que não conseguimos fazer nada contra o mercado… Ou seja, as coisas não funcionam bem à partida. Um músico que gasta dinheiro em formação, em salas de ensaio, em instrumentos, etc., deve ser pago pelo seu trabalho. Quando não há hipótese de controlar isso, é preferível darmos a nossa música com boa qualidade e divulgá-la ao máximo para termos pessoas nos concertos, do que “obrigar” a pagar a nossa música, até porque depois vão pirateá-la na mesma. Não faz sentido. Mas claro, acho que naturalmente um artista deve ser pago pelo seu trabalho.

Xico – Se for responder pelo que é justo, a perspectiva de darmos a música não está certa. Mas se virmos pelo que é a realidade, sermos uma banda pequena, de punk rock em Portugal e a cantar em português…

Os vossos discos têm formato físico?

Xico – Sim, todos. O certo é que não se vende. Já vendemos alguns, mas chegámos a uma altura que a nossa experiência disse que não valia a pena. Mais vale ter a nossa música disponível e chegar a mais gente e que essas pessoas vão aos concertos. Acabamos por receber na mesma, mas de outra maneira.

Vocês têm um canal, o Fitacola TV. Qual a razão de o criarem?

Xico – Tudo agora passa pela internet, sejam os posts no facebook, no twitter ou no instagram. O vídeo é a maneira mais directa de mostrar conteúdo da banda. Se não tiveres vídeos, só mostras música e as pessoas querem sempre ver mais. Querem a música, mas também querem saber quem são as pessoas, o que fazem, têm muita curiosidade. A certa altura achámos que fazia sentido fazer um canal nosso, mais oficial, onde não só vamos colocando os videoclipes, mas onde se pode ver um pouco das nossas vidas também, do backstage e do nosso dia-a-dia. É importante para uma banda ter conteúdo para mostrar, para estar próximo das pessoas. Se lanças um álbum e dás concertos e só passados dois anos lanças outro álbum, acabas por cair no esquecimento. E se puseres conteúdo na net regularmente, toda a gente de todo o lado pode ver. Acaba por ser uma coisa importante na carreira.

Cábál – O canal tem tido óptimo feedback. Temos muitos comentários de todo o país e muitos fora de Portugal. Permite uma série de contactos.

Diogo – Hoje em dia é muito importante aliar o som à imagem. Com as novas tecnologias, a imagem está em todo o lado. Se não tiveres uma imagem associada à banda não funciona tão bem.

Ainda se lembram como surgiu o nome Fitacola?

Diogo – Vem daquela questão de cantarmos em inglês e em português. Achámos que fazia sentido ter um nome em português visto que cantamos em português. E arranjar um nome em português não é fácil. Antes chamávamo-nos Lost Target. Acho que nunca tínhamos dito isto. (risos) Na altura não havia muitas bandas com nomes em português, parecia que tudo soava mal.

Xico – De facto, o português é uma língua muito traiçoeira e é complicado escrever músicas em português. Para encontrar o nome foi complicado também. Na altura estava com o Diogo e o Bezugo no Piolho, a beber umas cervejas e a escolher o nome. E não foi nada fácil. Surgiu Fitacola e acabou por ficar. Até teve lógica, porque usávamos muita fita-cola nos ensaios. É engraçado porque o nome criou algum conflito, as pessoas ou adoravam ou detestavam: “Fitacola? Que nome horrível!” ou “Fitacola? Que nome espectacular!”. (risos) Mas no geral, e depois de dez anos, consigo dizer que é um nome que resulta, fica facilmente na cabeça.

O que podemos esperar dos Fitacola em 2014?

Diogo – Um outro EP, o Razões. E depois divulgar bastante esta colectânea dos três EPs, andar na estrada. Já temos alguns concertos marcados e esperemos que venham mais. Mas o melhor é acompanhar o nosso facebook ou o nosso canal que vamos colocando lá todas as novidades.

https://www.youtube.com/watch?v=d-Na_h95gD8

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 20 de Março de 2014)