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Maldita Poesia

Coimbra é, pela segunda vez, anfitriã do único Festival de Poesia por terras lusas, o Mal Dito. Entre os dias 20 e 23 de Março, vários eventos terão lugar e muitos espaços da cidade abrirão as suas portas para acolher as palavras de diversos poetas. Haverá também lugar para o inesperado e para o surgimento de novos poetas, que poderão durante o festival perder a vergonha e tirar um poema da cartola. A Preguiça esteve com Carlos Veríssimo, Sandra Cruz, Miguel de Carvalho, Manuel A. Domingos, Maria Sousa e Carolina Bento, os organizadores do Mal Dito, e percebeu que com a poesia na alma, tudo pode acontecer por estes dias.

Tal como se pretendia já na sua primeira edição em 2013, o festival Mal Dito tem como conceito basilar a partilha de poesia. A partir do dia em que este grupo heterogéneo de amigos teve a ideia de organizar o festival, nada mais os parou. “Queremos levar a poesia às pessoas e deixar de fazer eventos que sejam só de poetas para poetas”, explicou Sandra com a certeza na voz. “Como a poesia é pouco partilhada, esta é uma maneira de chegar a todas as pessoas. Às que se calhar não reparam na poesia e às que não gostam ou acham que não gostam de poesia”, sublinhou Maria.

Partindo então do princípio de que “a poesia e os eventos poéticos não são dirigidos unicamente a pessoas altamente eruditas ou intelectuais”, como disse Carlos, o Mal Dito oferece um leque de eventos que permite alcançar uma grande quantidade de pessoas. “A poesia é dita, é escrita, é sentida, é muitas coisas. E isso é que é importante. Durante o festival diversas pessoas podem ser tocadas e muitas delas nem estarão à espera”. A par com os acontecimentos formais, a poesia chegará às pessoas de forma imprevista e em qualquer lugar. “Para além dos eventos, há coisas que acontecem na rua. E um evento que acontece na rua não tem espectadores, tem pessoas a quem chega. Há pessoas que ficam indiferentes e há pessoas a quem alteramos o dia, com, por exemplo, o facto de terem tido um desconhecido a recitar-lhes um poema”.

Quando olhamos para a programação do festival, é difícil fazer sobressair algo em específico. Entre as apresentações de livros, as leituras de poemas, as mesas redondas, ou a feira do livro de poesia, cabem ainda workshops, montras poéticas nas lojas da Baixa, homenagens a poetas falecidos, uma delas no Jardim Botânico, leituras flash e leituras de poemas feitas e escolhidas pelo público. No entanto, uma coisa é certa: não há eventos sobrepostos. “Este ano tentámos dar mais ar à programação. Claro que cada pessoa fará a sua selecção, mas com a certeza que tem tempo para se deslocar entre os espaços”, garantiu Carlos. Além do mais, “não queremos roubar público a ninguém e queremos também nós, organizadores, usufruir do festival”, confessam.

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Se o ano passado existia a surpresa do que viria, desta vez é a expectativa que impera. Autores, editores e público em geral são esperados e assim, superar a já boa aceitação da edição anterior. “As pessoas que estiveram cá o ano passado querem voltar, nomeadamente as que participaram em eventos e agora só querem ser espectadores. A aceitação foi muito boa e temos tido um feedback maravilhoso, pelo qual sentimos uma enorme gratidão. Mas não queremos medir o público, queremos é que as pessoas estejam contentes”.

Chegou a altura de informar que este festival é destemidamente organizado pro bono e sem fins lucrativos. Todos os eventos são de entrada livre, com excepção de um, que está inserido no festival mas com organização de outra estrutura. Miguel fez aliás questão de esclarecer que “não dependemos de ninguém, nem de nenhuma instituição. Não recebemos um cêntimo de ninguém, tendo até que despender do nosso bolso algumas vezes. Tudo é fruto do esforço de cada um”.

Segundo os organizadores, o Mal Dito não se encaixa no catálogo habitual de eventos relacionados com a poesia. “Este festival é completamente desprovido de qualquer pretensiosismo ou linha que tenha ligação com determinadas estruturas do meio. Um dos nossos objectivos é precisamente desestruturar o meio da poesia, o academismo, a inacessibilidade ao poeta e ao editor. E quem se sente bem fora desse ambiente usual, também nos procura”. A feira do livro de poesia, que decorre no Atrium Solum, é um exemplo perfeito para mostrar esta via alternativa. “Estamos independentes das grandes editoras, que só se preocupam com números, trazendo uma colecção de editores que normalmente não chegam ao circuito dos meios de distribuição”.

Com um conjunto de eventos pré-festival já realizados, esperam-nos quatro dias de celebração da poesia, na melhor altura para a celebrar: o seu Dia Mundial (21 de Março). O programa está detalhadamente disponível no facebook do festival, bastando imprimir uma página e andar com ela no bolso ou na carteira, pronta a ser consultada.

Quanto a nós, resta-nos desejar bons poemas para todos!

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 20 de Março de 2014)