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Os discos de Rui Ferreira

  BPI_6182Com cerca de 80 anos de idade, o disco de vinil é naturalmente um dos objectos mais venerados do planeta, não só pelo conteúdo mas também pelas inúmeras formas que apresenta. Historicamente seguido pela quase-defunta cassete (1960-) e pelo compact-disc (1982-), estes filhos de diferentes pais partilham no entanto uma mesma mãe e um mesmo fim: a música e a sua divulgação. Por todo o mundo e desde os anos 30 têm proliferado as edições musicais nestes diversos formatos que, como tantos outros objectos produzidos em série se prestam ao coleccionismo e à aquisição compulsiva. Longe de uma abordagem simplista e meramente contabilística, procuramos nesta série que hoje tem início retratar e dar a conhecer uma comunidade de profundos amantes e conhecedores de música que, coleccionadores ou não, têm nas suas vidas um grande espaço dedicado e reservado à música e aos seus veículos. O primeiro convidado é Rui Ferreira, 46 anos, enfermeiro, radialista, manager de diversas bandas e proprietário da Lux Records.

O que são os discos para ti, um passa-tempo, uma segunda profissão?
Sei lá, acho que é quase tudo. Na música, já fiz de tudo excepto ser músico. Fui [e sou] consumidor, fui jornalista musical quando entrei para a RUC em 1993, fui [e sou] também manager de bandas como Belle Chase Hotel, d3o, Legendary Tigerman, Wraygunn, Sean Riley and the Slowriders (entre muitas outras). Sou também editor pela Lux Records desde que o António Cunha a criou e me convidou para fazer parte do projecto em 1996. Desde então, editámos mais de vinte títulos [entre vinil, cd e DVD].

És também responsável pela produção de novos títulos. Há novidades nessa área?
Sim, vamos editar brevemente o novo álbum de Tracy Vandal e um triplo-álbum do novo projecto a solo do Victor Torpedo. O novo EP dos The Walks também deverá sair pela Lux.

E voltando aos discos, quando é que tudo começou?
Foi em 1985, quando tinha 17 anos e comprei o segundo álbum dos Prefab Sprout “Steve Mcqueen”, na Nova Almedina. Um grande disco e uma grande discoteca onde comprei muitos discos. Depois provavelmente acabei por gastar mais dinheiro na Fuga, porque era a caminho do trabalho.

A tua ligação à rádio também ajudou à festa?
Sim, se bem que quando entrei para a RUC já tinha uma colecção aceitável, talvez mais de mil. Mas acima de tudo, e foi uma das razões porque fui para a rádio, queria usar os discos que tinha. Também fui DJ, mas a rádio é diferente. Para além de que sempre que passo música fora da rádio, os discos estragam-se muito, à noite é muito complicado. Uma vez no Porto roubaram-me duas caixas com mais de 200 cds, todos escolhidos a dedo. Felizmente deixaram-me os discos de vinil.

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A tua colecção tem uma área específica?
Tenho música de todos os estilos, mas no geral é mais pop-rock. Em 30.000 discos, devo ter 100 de Jazz. Por outro lado, como o programa de rádio que faço na RUC é muito específico (Cover de Bruxelas, onde só passo covers), compro muitos discos por causa das versões.

Tens 30.000 discos?
Sim, a contar com todos os formatos (singles, maxi-singles, LP, CD, caixas e edições especiais), não deve andar longe disso. E ultimamente ando a desfazer-me de algumas coisas, que nem sequer estão aqui e que me dão problemas de armazenamento. Mas como os que consigo vender servem para comprar outros discos, vai dar ao mesmo…

Sobre a utilidade dos discos, essa necessidade de os tocar é algo mais do que o simples coleccionismo.
Sim, até porque ao contrário de muitos amigos meus, não sou capaz de dar muito dinheiro por um disco. Interessam-me as edições numeradas, discos coloridos (tenho muitas coisas dessas) mas nunca dei mais do que 50€ por um disco, nem pensar nisso.

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Há discos que valem muito dinheiro?
Sim, há discos portugueses que se vendem por 800€, como o “10.000 anos depois entre Vénus e Marte” do José Cid. E eu já vendi algumas edições portuguesas a 150€ e se tivesse mais vendia-os. Discos estrangeiros, há alguns que custam 5000€ e muito mais, como o primeiro single dos Sex Pistols ou alguns dos Beatles. São poucos, e há tanta gente a procurar que o preço… Um dos meus discos favoritos é o primeiro dos Velvet Underground, do qual tenho váras edições mas nenhuma é original (1967), porque todas custam mais de 100€.

E depois há quem tenha várias edições de um mesmo disco.
Sim, é o chamado completismo. Eu só tenho uma banda em que sou assim e de que tenho tudo e mais alguma coisa: os Psychedelic Furs. Eles têm 7 álbuns de originais, e da última vez que contei tinha uns 150 discos. Só 7” tenho trinta e tal, do primeiro single tenho 3 edições diferentes em que só muda a cor da capa. O amarelo é o mais raro. Também tenho um que traz um flexi-disc impresso na capa e que também toca. Só tenho mais um ou dois assim.

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O vinil tem essas particularidades que o CD não permite. Tens mais?
Sim, há discos que tocam ao contrário, outros que têm as espirais gravadas de uma forma em que consoante o sítio onde colocas a agulha no início tocam uma faixa diferente (concentric grooves) como o “100%” dos Sonic Youth. Passar esse disco na rádio era sempre uma aventura, pois nunca tínhamos a certeza de qual das faixas ia sair.

E o vinil está morto ou para durar?
O meu primeiro programa de rádio em nome próprio chamava-se “os últimos dias do vinil”, e já na altura toda a gente dizia isso. De facto, na década de 90 as edições em vinil em Portugal foram quase banidas e fomos todos obrigados a comprar cds, não tínhamos escolha. Mas nem nessa altura acreditei que o vinil morreria. Por outro lado, chegámos agora a este ponto em que as pessoas mostram interesse em ter os objectos em vez de ficheiros de computador.

Por oposição às colecções intangíveis de música digital que hoje são a regra?  
Sim. A mim não me interessa ter um ficheiro. Nunca fiz um download. Não tenho um iPod (até porque nem acho que a qualidade sonora seja boa). E não quero ouvir música num computador.

Texto e fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 6 de Março de 2014)