• Photobucket

Home / Tendências / das origens do entrudo e outros carnavais

das origens do entrudo e outros carnavais

CARNAVAL MEALHADA 2012A poucos dias de um novo Carnaval, a Preguiça decidiu indagar-se sobre as origens destas festas que têm feito correr tanta tinta. Trata-se de uma época muito controversa, porque nem todos gostam de foliões e de mascarados. Na realidade, nos nossos dias assistimos a vários carnavais. No interior de um país tão acanhado como Portugal, há o Carnaval da Mealhada, o de Ovar, o da Quarteira, o de Torres Novas, o entrudo das vilas mais recônditas, o Carnaval dos cabeçudos e dos bombos, o mais ou menos assustador, o Carnaval informal dos amigos que se reúnem em festas organizadas ou desorganizadas… E depois deles há ainda o Carnaval de Veneza e o do Rio de Janeiro, o do samba e o dos bobos. E desta vasta gama de carnavais ainda sobra um outro, o terceiro núcleo carnavaleiro: o Carnaval da vida, o do dia-a-dia, o Carnaval conjuntural (o Carnaval dos Carnavais), aquele a que se traduz em eventos breves ou mais longos mas que fazem, todos eles, deste nome um adjectivo.

Na realidade, esta é uma celebração que, como tantas outras, remonta ao paganismo, ou à idade dos deuses. O calendário festivo da nossa época contemporânea deve procurar-se sempre nos arrabaldes do tempo, nas idades mais esconsas da humanidade, no tempo que se medida através de outros tempos, ou nos séculos que antecederam o Cristianismo. Mais ou menos alteradas, as nossas festas de cariz religioso ou mais pagão, como é o caso corrente do Carnaval, enraízam-se nos alvores da civilização, quando a marcação dos anos era feita na sua estreita relação com a natureza, essa potência de vida que subjaz a toda a existência. A celebração do Solstício de Inverno, a celebração do Equinócio da Primavera, as épocas dedicadas ao cultivo e à colheita, todas elas se constituem como momentos-chave que marcam tempos específicos que ao homem importam comemorar. Daqui sucedem o Natal e a Páscoa (para referir os eventos mais marcantes e duradoiros) e daqui decorre o Carnaval.

Crê-se que as primeiras festas semelhantes ao Carnaval eram as que se dedicavam a Dionísio (durante a Antiguidade Clássica), o deus da festa, da transformação e do vinho que em Roma se transformaria em Baco. Os Mistérios Dionisíacos constituíam-se como celebrações longas e intensas que contavam com um vasto conjunto de actividades, das quais se destacavam as procissões, os mascarados, os rituais orgiásticos, os desmembramentos de animais, transes, premonições, risos e cânticos dominados, nos momentos finais, pela apresentação de comédias.

Haverá alguma relação entre o Carnaval e as Saturninas romanas, as grandiosas festas que arrancavam no início de Janeiro para terminarem quando a primavera espreitava, embora não haja datas certas para esta festividade que variava de região para região. Também é costume relacionar-se o Carnaval as festas Lupercais romanas (já afloradas no artigo titulado “do teu Valentim” na Preguiça de 13 de Fevereiro), realizadas a meio de Fevereiro, altura em que os sacerdotes sacrificavam uma cabra, untando-se com o seu sangue para correrem pelas cidades seminus. Tanto nas Saturninas como a Lupercais predominava o riso como elemento ritualizado, bem como os cânticos, as libertinagens e alguma violência, elementos ligados à catarse mas também à renovação, à saúde, à fecundidade ou, num esquema mais totalizado, à celebração da vida. De facto, estas festas funcionavam, de certa forma, como acontecimentos profilácticos no seu amplo sentido de preservação.

A fixação de uma festa pagã dedicada aos excessos deu-se com a marcação do tempo (móvel) da Quaresma, ou dos quarenta dias e seis domingos que antecedem a Páscoa e que coincide sempre com a lua nova. Como noutras festividades que conhecemos, o Carnaval dura até hoje como uma adaptação, ao modo do Cristianismo, de um conjunto de eventos pagãos tradicionais profundamente enraizados. Neste sentido, os dias que antecedem a abstinência da Quaresma podem viver-se na desordem, porque para regressar-se à ordem é preciso viver-se o caos…

O nome Carnaval é de origem incerta mas quase sempre relacionada com a possibilidade ou impossibilidade de comer carne. Supõe-se que a etimologia da palavra está ligada às expressões latinas carnem levare ou carnelevarium, que significam remover a carne, ou retirá-la. De facto, a quarta-feira de cinzas simboliza a entrada no período da longa abstinência quaresmal, a altura em que a carne (a abstinência do sangue), os lacticínios e os ovos (o costume era variável de Igreja para Igreja e entre datas, podendo interditar-se também o azeite, o peixe, as aves e até o pão) estavam interditos. Mas para além destas proibições, também se impediam os casamentos e os relacionamentos sexuais durante a Quaresma. Calcula-se que a diminuição de determinados alimentos durante esta época do ano propiciou o surgimento dos vetos  da Igreja, também se pensa que estes impedimentos visavam o escoamento de outros produtos alimentares e, por fim, que a diminuição das concepções nesta fase do ano se relaciona com uma forma de equilibrar a demografia numa altura em que os sistemas anticoncepcionais mais usados eram o coitus interruptus ou a vigorosa interdição religiosa, e havia muitas alturas de abstinência imposta.

A abstinência é uma prática antiga. O sacrifício da carne através de procedimentos abstinentes é conhecido desde o Antigo Egipto e servia propósitos que ainda hoje identificamos: a purificação da carne (para a purificação da alma). Não foi, por isso, o Cristianismo a introduzir os jejuns e a abstinência, mas deu-lhe datas concretas e motivos mais definidos. Mas antes do período da longa interdição eram permitidos, não sem o atrito da Igreja, o banquete e a abundância, o excessivo, o estrondoso, o anedótico e o riso, ou o Carnaval.

Na realidade, o Ocidente medieval e moderno dividia-se em duas idades principais: o do Carnaval e o da Quaresma, ou o da abundância e o da fome, ou da festa indecorosa e do decoro pascal, ou o gordo colorido e a velha magra e cinzenta.

Pieter Bruegel o Velho, A luta entre o Carnaval e a Quaresma, 1559, Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria.

Pieter Bruegel o Velho, A luta entre o Carnaval e a Quaresma, 1559, Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria.

O mundo ocidental foi dominado pelas épocas festivas e quadras assinaláveis que a Igreja foi gerindo, emitindo permissões e interdições e estabelecendo regras de conduta muito precisas e explicativas que intentavam dominar as sociedades e os homens que, pela sua natureza, são dados a determinados prazeres que importam esvanecer ou enquadrar e civilizar.

Certo é que a história do Carnaval nos conduz ao licencioso e ao desmedido, por oposição à regra e à ordem ou ao sacrifício quaresmal. E se os três dias do Carnaval se reservam para celebrar a carne, os quarenta posteriores reservam-se para a celebração do espírito. E entre estas quadras estabelecidas reconhecemos outras, mais breves e menos administradas, que podemos qualificar como os carnavais e as quaresmas pessoais.

Com o andamento do tempo assistimos às mais variadas formas e desformas que nos trazem os tantos carnavais, com imagens que nos despertam as mais variadas experiências, com imagens que, por vezes, conseguem horrorizar-nos por não se coadunarem com o nosso gosto particular, com imagens do mundo em que vivemos… É que se a vida adensa as suas particularidades cinzentas, magras e quaresmais, os povos agem de forma profiláctica e enveredam pelos mais duros carnavais chamando os deuses das profundezas da terra como podem e como sabem, para continuarem vivos.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 27 de Fevereiro de 2014)