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A Grande Beleza

mystique

O cinema italiano volta a dar cartas. A Grande Beleza (La Grande Bellezza) é o mais recente filme de Paolo Sorrentino e que tem sido alvo de opiniões antagónicas: ou se ama ou se odeia. Para nós, é um filme absolutamente marcante e, provavelmente, um dos grandes filmes do ano.

Antes de qualquer imagem, o realizador abre-nos a porta com uma citação de Céline, retirada da sua obra Viagem ao Fim da Noite: «Viajar é útil, exercita a imaginação/ O resto é desilusão e fadiga/ A viagem é inteiramente imaginária/ Eis a sua força, vai da vida para a morte/ Pessoas, animais, cidades, coisas, é tudo inventado/ É um romance, apenas uma história fictícia/ Disse Littre, e ele não erra/ Porém, qualquer um pode fazer o mesmo/ Basta fechar os olhos/ E está do outro lado da vida». Estamos avisados para o que aí vem.

Tendo sempre como palco principal a cidade de Roma e a sua grandiosa beleza artística e histórica, este filme acompanha Jep Gambardella (interpretado por Toni Servillo), um escritor com um único romance escrito, que se auto-define como um misantropo e que após fazer 65 anos começa a reflectir sobre o seu percurso, as suas escolhas e o tempo que lhe resta. Entre caminhadas pela cidade, festas repletas de luxo e mundanidade e ocasiões entre amigos, Jep tenta preencher o vazio existencial que, vamos percebendo, se instalou dentro de si. A viver num apartamento com vista para o Coliseu de Roma, este personagem boémio e ao mesmo tempo inconformado, procura constantemente encontrar a grande beleza, julgada perdida, ao mesmo tempo que vai lembrando o seu grande amor do passado, num tempo que já não é.

Simbolismo é a palavra que melhor define este trabalho de Paolo Sorrentino. Através de diversas personagens, situações, diálogos fascinantes, muitas vezes pela falta de conteúdo, e muitas metáforas, o realizador consegue abordar temas como os valores actuais da arte, da cultura e da religião. A crítica a um certo tipo de sociedade e consequente sentimento de decadência, vazio e futilidade, é uma presença forte, mas é também um exercício que necessita da compreensão e cumplicidade do espectador.

Muitos vêem nesta obra uma tentativa moderna de reproduzir o cinema de Federico Fellini. Apesar de encontrarmos várias referências que levam a filmes como La Dolce Vita ou (e encontra essas referências somente quem as possui), podemos perfeitamente afastarmo-nos dessa visão e abraçar A Grande Beleza como objecto único que é.

Fazendo jus ao seu nome, este é um filme visualmente belo, atestado de imagens que quase nos comovem e com uma banda sonora a completar essa comoção. A interpretação de Toni Servillo, actor recorrente nos filmes do realizador, é a única possível para tudo encaixar.

Este é um filme de contemplação pura. E tal como se prevê desde o início, ao longo d’A Grande Beleza o espectador é convidado a ponderar várias equações: o deserto do real versus o poder da imaginação; autenticidade versus ilusão; alegria versus sofrimento; beleza versus fealdade.

Tudo o resto é blá, blá, blá…

Título: La Grande Bellezza
Realizador: Paolo Sorrentino
Actores: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli
Ano: 2013

Texto de Carina Correia

(Publicado a 27 de Fevereiro de 2014)