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Viajar em Amesterdão

amesterdc3a3o-pb-_-preguic3a7a-magazine_15Ei!!! É um cigarro de enrolar. Estou-te a dizer, não tem aditivos nenhuns. Quero dizer, deve ter, os de fábrica, mas nada mais. Porra, um gajo não pode mesmo ir a Amesterdão sem que as pessoas pensem que andámos por lá sempre de roda da frente no ar, a rir e a tossir como se não houvesse amanhã? Eu sou do rock, até tenho o pedal mas, hoje em dia,  raramente ligo a distorção. Descompassa-me a máquina e desarruma-me o sótão. Aqui não vai haver relatos de altas trips com cogumelos, bolos espaciais ou de homens que acordaram vestidos de menina.

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Vou-vos falar de viajar. Viajar, aquela cena que se faz num tubo de alumínio a 800 km/hora, a não sei quantos pés do chão, conduzidos por um desconhecido. Avião, essa rodoviária dos céus que inacreditavelmente levanta voo, monte de toneladas planadoras, maravilha da engenharia que me faz transpirar das mãos e virar paranóico com qualquer barulho estranho do motor. “Rita, ouviste aquilo? Está qualquer coisa errada, acho que vi mesmo agora um arrebite a soltar-se.”

Sim, tenho algum medo de voar, é verdade, mas tenho ainda mais medo de não ir a lado nenhum. Converti-me ao verbo ir e portanto vou e não quero saber. Mas não bato palmas na aterragem, acho foleiro. Aliás, este respeitinho pela aviação deve-se a uma aterragem feita em braille  num Roma-Milão a hélices: foi uma tremideira bem séria, tenho amigos que ainda têm os tomates a fazer esse voo. Tu que tambémpanicas a voar, confia, tem fé, põe a tua vida nas mãos do senhor… piloto da low costque tem o depósito mesmo à tabela. Vai tudo correr pelo melhor.

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Amesterdão, ou Fátima para quem louva Bob Marley, é a rambóia, é  brutal à brava. É cheia de boa onda e energia positiva: talvez seja do ambientador very typical sempre a carburar  pela cidade, ou do código genético dos holandeses. Não sei. A verdade é que um povo que tem meretrizes a dançar em montras, que vive rodeado de estupefacientes e cerveja da boa, conseguiu ser orientado o suficiente para construir uma cidade exemplarmente organizada.  Onde o deboche coabita com a harmonia familiar. O silêncio com a algazarra. Os pulmões todos queimados dos adolescentes deste mundo com o simpático chilrear das bicicletas de 700 mil holandeses. Uma cidade com regras e mesmo assim tão livre. As janelas não têm cortinas. Vive-se bem. Há mãos dadas para  todo o tipo de casais e beijos nas passadeiras enquanto se espera pelo boneco verde. A construção tem traços de cena fixe. A cidade é segura. É simples o suficiente para te perderes e – só para ficar bem em termos literários – complexa quanto baste para te encontrares. É a vida como deveria ser. Vá.

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Todos nós viajamos de forma diferente. Uns gostam do papo para o ar no tudo incluído, abanar a pulseira e virar mais uma caipirinha: é bom, também gosto e faz bem. Outros querem visitar todos os museus disponíveis e suspirar em frente a uma grande arte. Há o turista pé rapado e há os abonados dos hotéis design. Há malta que faz muitas fotos, daquelas com os familiares muito pequeninos ao lado de monumentos muito grandes, e depois há os japoneses que só vêem os locais que visitam quando chegam a casa e descarregam as fotos. Os que vão à boleia e os que vão de cruzeiro. O que cada um procura não sei: a verdade é que há um prazer imenso em ver coisas novas, uma magia ao pisar o desconhecido. Apetece-me sempre ficar. Viver uma vida nova. E quando volto, trago sempre um pouco mais de mundo comigo. Vou comprar uma bicicleta com um cesto para pôr o puto e tudo.

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Gosto de não ter horários, não ter rota definida, dormir à tarde se me apetecer, sentar-me num banco de jardim a fumar, ver passar a cidade, levantar-me e ir com ela. Fotografar sem pensar em clientes, fotografar por puro prazer. Adoro, era capaz de me habituar. Não preciso de um hotel especial, consigo comer junk food o tempo que for necessário e caminho até ter os gémeos aos berros. Gosto de vaguear com os headphones com o volume um pouco antes de fazer sangrar dos ouvidos. Não visito quase nada por dentro, mas vejo quase tudo do lado de fora. Prefiro estacionar num café a ver os rostos de um mundo novo sem que ele me veja, ler às quatro da manhã ou embebedar-me às duas da tarde do que ir em manada visitar o que quer que seja. Férias para mim é fazer somente o que me apetece, e às vezes não me apetece fazer nada. Gosto de viajar assim. Imiscuir-me no destino e esperar que me perguntem alguma coisa na língua da casa. Missão cumprida, podia ser um habitante desta terra.

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Já fui a Paris e aluguei um carro, andei por lá sem GPS, sem mapas, só com o meu francês tipicamente sueco. Pior, já aluguei um carro em Londres e vivi a indescritível sensação de “isto vai dar merda” ao aproximar-me de uma rotunda com o condutor no banco do pendura. Já andei à boleia de um gajo com a t-shirt dentro dos calções, de meias até os joelhos, que adormecia a conduzir, bateu num carro da Polícia e deixou-nos à boleia numa auto-estrada. Já comi latas de atum em separadores de auto-estrada. Parti um dedo a saltar de cima de um barco com água pela cintura, perdi a aliança e gamei uma lagosta grelhada em meio bidon, tudo por causa de cuba livre. Já perguntei a um espanhol se o multibanco era pierto. Já dormi em bancos de jardim e andei uma semana com as mesmas meias, quando as tirei eram de gesso. Se não fossem estas histórias, o que é que vos contava agora?

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Agora que a minha mãe já deve ter desistido de ler isto, digo-vos: em Amesterdão experimentem alugar uma bicla, mas não passem pelo coffeeshop antes de irem andar. Os nativos fazem aquilo parecer fácil, mas não é. Pedalem pelo parque da cidade, que é mais tranquilo. E o vento na cara vai-vos saber bem. Ficam com a experiência mas em modo light, sem parecer que estão num jogo de computador muito rápido, com muitos caminhos, a desviarem-se de tudo o que é acidente.

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Por falar em light, a mais famosa zona de talhos do mundo, o Red Light, é obrigatório visitar. Meninas da vida, a chamarem-te  com biquínis fluorescentes, coladas ao vidro de uma casa de banho que virou quecódromo em tons vermelhos é uma cena que vais querer viver. Se estás numa de entrar, cuidado com as senhoras de voz grossa.

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Não vos esclareci em nada, pois não? Acho que a minha carreira como repórter viajante morreu antes de nascer. Também não tem nada que saber. É ir e nada mais. Comam a sopa de ervilha. Fumem charutos. Andem de bicicleta. Divirtam-se; porque isto de viver, mais tarde ou mais cedo, acaba mal – já dizia o Manuel da Fonseca.

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Texto e fotografia de Ricardo Graça

(Publicado a 16 de Janeiro in Preguiça Magazine (edição Leiria))