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“do teu Valentim”

_D302595No próximo dia 14 de Fevereiro comemora-se um dia especial que se dedica a um Santo especial, embora ninguém saiba ao certo por que razão assim é, e embora quase todos desconheçam quem foi, afinal, o Valentim (que provém de valente, destemido e valoroso) que deu o nome ao referido dia a que gosto de chamar “do Amor”.

Não há um dia no ano a que não se associe um, ou a mais do que um Santo. Os Santos referentes ao dia 14 de Fevereiro são, grosso modo, S. Cirilo e S. Metódico (os compatronos da Europa, bispos apóstolos dos eslavos do século IX), S. Marão (século V, Síria), S. João Baptista da Conceição (séculos XVI-XVI, um notável escritor espanhol) e S. Valentim I e II. De entre estas figuras, consagrou-se o 14 de Fevereiro a uma delas, ou a um dos Valentim. Sim, porque na realidade não há um só Valentim mas dois (se esquecermos os restantes Valentim do hagiológio comemorados noutros dias do calendário): um sacerdote romano que terá falecido entre 269 e 270 d.C., e um bispo falecido poucos anos depois.

Das vidas destes santos sabe-se pouquíssimo e as raras informações que encontramos deles nutrem-se de um conjunto de incongruências que não nos permitem afirmar muitas coisas. O Valentim romano teria sido um sacerdote que repudiava o politeísmo, negando a santidade dos deuses romanos e defendendo a devoção a Jesus Cristo. A Legenda Aurea (ou Legenda Sanctorum), de Santiago de la Vorágine (meados do séc. XIII) regista que o Imperador Cláudio (II, ou o Gótico) prendeu Valentim por desacreditar da santidade dos deuses romanos, mantendo-o preso na sua própria casa e que Astério, um perfeito que ali se encontrava com Valentim que repetidas vezes apregoava a alumiação de Jesus Cristo, lhe pedira que lhe curasse a sua filha cega de nascença. E Valentim curou a filha de Astério que, por isso, se terá convertido ao cristianismo. Este milagre, coadjuvado pela contante negação da virtude dos deuses romanos, e com a actividade, ainda por comprovar, de unir casais cristãos romanos pelo matrimónio ultrapassando a proibição corrente, revoltou o Imperador levando-o à condenação de Valentim à morte por lapidação. O Santo resistiu ao apedrejamento e terá sido decapitado, morrendo no dia 14 de Fevereiro.

Do segundo Valentim sabe-se que foi bispo de Térni, na Úmbria (desde 223?), um poderoso milagreiro que terá curado outra cegueira, a da filha do filósofo romano Crato, acabando decapitado por ordenação do prefeito Abúndio. De entre os dois Valentim, a atenção recai sobre o romano e, por isso, deixamos o tirolês fora da nossa cogitação.

Sabe-se que anos volvidos sobre a morte do Valentim romano, nos anos noventa do século V, o Papa Gelásio I proibiu a festa pagã de Lupercalia (o culto aos deus Lupercus, dos instintos, dos bosques, uma das faces de Fauno) que decorria na caverna de Lupercal no sopé dos montes palatinos (onde foram amamentados Rómulo e Rémulo pela loba). As agressivas festividades de Lupercalia decorriam entre 13 e 15 de Fevereiro e, por esse motivo, e entendendo criar-se uma alternativa cristã para suprir a lacuna deixada pelo esvaziamento da festa pagã, estabelece o Papa que a 14 se comemoraria o dia de S. Valentim. A tradição de Lupercalia intentava celebrar a fertilidade e a purificação usando-se, para isso, de rituais sacrificiais e de agressões às mulheres inférteis de Roma.

Nada mais sabemos sobre Valentim, nem o conseguimos relacionar com o enamoramento. O facto de o sacerdote casar cristãos de forma críptica durante o século III não nos serve de fundamentação, porque o casamento ligado ao amor romântico, ou ao amor paixão é uma ideia sobejamente posterior.

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Bartolomeo Manfredi, Castigo di Cupido, c. 1610. Chicago, Art Institute

Sabemos que o conceito de amor romântico nasceu muitos séculos depois de Valentim, registando-se nos romances cavaleirescos medievais como um estado de paixão intensa entre dois sujeitos que viviam esse ímpeto de forma catastrófica, porque quase nunca acontecia entre casais. O casamento foi, desde sempre, entendido como uma união entre famílias, ao invés da união de indivíduos enamorados, com a finalidade de estabelecer as raízes (morais) da descendência, assegurar a protecção dos filhos, garantir a sobrevivência, para unir patrimónios, para estabelecer normas de convivialidade, etc. O amor (fraternal) surgiria, na melhor das hipóteses, depois do casamento. Ainda assim, o amor era um valor assazmente conhecido e uma emoção que ultrapassava o ímpeto reprodutivo. A capacidade de sentir amor paixão desligada do impulso procriativo remonta à pré-história, ainda que o sistema civilizacional tente, a todo o custo, ligar estes dois estímulos. A filosofia grega atribui outros sentidos para o Amor (philia, amor fraternal e Eros, o Amor que conduz à contemplação da Beleza e que liga o homem sensível ao homem inteligível). A Idade Média estabelece o Amor a Deus como única forma de amor possível e desejável…

O amor romântico e o casamento não andaram de braço dado no decurso da nossa história. A paixão foi entendida, sempre, como um t(r)emor do qual deviam os sujeitos afastar-se, sob pena de desenvolverem comportamentos excessivos, irracionais, pecaminosos, venatórios, corruptores e desonestos. Por outro lado, o matrimónio consistia noutro género de acordo, e embora pudesse assentar noutros géneros de amor (fraterno, na amizade, etc.), nunca se fundaria no amor romântico ou no amor paixão, que podia quebrar os círculos de sociabilidade (os casamentos fora das linhagens sociais estabelecidas ou como o fruto de uma livre escolha, foram sempre inconcebíveis), que podia corromper o decoro e a honestidade do casal, e que decerto quebraria o seu desejável carácter de perenidade. O amor romântico foi entendido, durante a maior parte do tempo histórico, como um sentimento altamente prejudicial, pela sua índole impetuosa, desassossegada e efémera, própria para quem não vivia maritalmente, ou na perpetuidade e no afastamento das paixões.

Foi preciso ultrapassar a Revolução Industrial (e as suas tantas consequências sociais, com a liberdade de acção de homens e, especialmente, de mulheres que paulatinamente vão entrando no mercado de trabalho, libertando-se das amarras familiares através do salário), foi preciso entender-se o que é a liberdade (nas suas extensas conexões modernas), foi precisa uma profunda alteração de valores na Europa Ocidental para que homens e mulheres olhassem o amor romântico como uma nova forma de vivência possível, tanto quanto desejável, e passível de fundar novas configurações de união entre indivíduos e rupturais ideias de família.

Por todos estes motivos, acreditamos que São Valentim não celebra nem o matrimónio, apagando-se assim a relação entre o facto de ter realizado matrimónios cristãos em épocas proibitivas, nem o namoro que se entendeu, durante anos, como a fase antecessora do casamento. A correspondência entre São Valentim e o enamoramento, e o amor romântico e o amor paixão é, por todos estes motivos, uma construção muito recente, datada de uma época (século XX) em que o enamoramento é possível entre duas pessoas que sentem paixão e que eventualmente possam vir a contratualizá-la. Apesar disto, e como sabemos, durante o último quartel do século XX sobram muitas razões para não acreditar no amor paixão como o fundamento do casamento: porque a paixão dura pouco e pode não gerar as bases do amor fraterno que o substituem na maior parte dos casos, porque a paixão é um impulso que morre, porque a vida não se faz do “amor e (de) uma cabana”, porque a paixão não escolhe os sujeitos, podendo estabelecer como alvo uma pessoa sem boa aparência, sem um lugar social equivalente ou equidistante, porque pode estabelecer como alvo uma pessoa indesejável aos olhos da família e dos aros sociais mais chegados, etc.

Qual é, afinal, o lugar que cumpre ao Santo do 14 de Fevereiro nos nossos dias? São Valentim encarna o Amor, essa emoção que nos livra das trevas (na qual vivia a filha do romano Astério desde o nascimento) para nos oferecer outros géneros de cegueira: a amorosa, a que dói sem magoar a carne, a que inibe de olhos bem abertos, a que faz permanecer o amante a amar porque não vê com as vistas materiais, a que ofusca todos os demais comprometimentos senão os do Amor, a que permite amar apaixonadamente, ou sem explicação e sem discernimento, ou sem motivo algum para além do objecto do seu Amor. É esta a ligação da história de Valentim com o Amor, o mesmo Valentim que amou Deus, na pessoa de Jesus Cristo, contra todas as possibilidades de então, jurando um amor infinito e luminoso que o levaria à morte, amando sem temer o desfecho desse seu amor tão forte que o levava a realizar milagres… Não é o Amor a única força que os realiza?

Antes de fechar, cumpre afirmar como seria bom se fosse este o Valentim a celebrar nos nossos dias, séculos volvidos sobre o medo do amor romântico e sobre a paixão, sobre o medo da entrega sem olhar aos lados, sobre o medo desse ímpeto desastroso e irracional que comanda a vida, sobre o medo da cegueira da qual se nutre o Amor que apaga o que nos faz mal para nos trazer tudo quanto nos faz bem. Esta cegueira contrária ao que não se vê com os olhos, esta cegueira contrária ao mundo corrente, esta cegueira ardente que nos faz perder nos dias porque amamos. Apesar das rupturas ocorridas na consubstanciação do Amor como uma força vital e única motriz que produz sensações ligadas com a felicidade, ainda não ocorreu a verdadeira Revolução do Amor, embora decorra como processo muito jovem e tacteante, porque o confronto daquilo que sentimos, com aquilo que nos foi ensinado ainda persiste, manipulando os indivíduos que sustentam a existência das civilizações.

Construamos, por isso, e todos juntos, esta nova realidade que a história, a filosofia, a biologia e a psicologia nos ensinam e que deve concretizar-se na nova idade do homem que se impõe como uma época de espiritualidade laica, revolucionária, celebrativa e, acima de tudo, uma época sustentada nos valores autênticos do autêntico enamoramento e do amor paixão, porque partindo deles podemos desenvolver-nos como entidades ternas, tranquilas e também como entidades perenes e venturosas. E se os sujeitos não amassem desde os alvores da humanidade, sentindo apenas um apelo biológico para a procriação desmedida, não teriam ocorrido os recentemente reconhecidos cruzamentos entre Neandertais e Homo Sapiens e, mais do que isso, não teríamos chegado onde chegámos hoje, a este grupo imenso de humanos de coração sangrante, tão indefeso quanto tecnologicamente desenvolvido, tão melancólico e apaixonado, tão cheio de incertezas e de ânsias, tão poético, tão contraditório, tão artista, tão amador, e, ainda assim, tão feito de sujeitos solitários e insatisfeitos… Seja qual for o Amor que nos conduz (paixão, romântico, filial, fraterno), vivamo-lo com coragem porque dele nascerá, enfim, a casta de uma nova civilização.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 13 de Fevereiro de 2014)