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Prisma: criação + colectivo

BPI_4188 Apesar da chuva insistente, rumámos até ao Ateneu de Coimbra onde tínhamos encontro marcado com a Prisma. Tiago Jerónimo, Manuel Pereira, Eduardo Pécurto e André Jerónimo são os membros fundadores desta Associação Cultural que existe desde Novembro de 2012 e que tem realizado diversos eventos na cidade. A conversa decorreu ao sabor da espontaneidade e ficámos a perceber que a Prisma veio para ficar.

Tendo como referência alguns movimentos de criação artística existentes noutros locais do país, nomeadamente no Porto, estes quatro amigos decidiram criar a Prisma com o intuito de fomentar uma dinâmica colectiva onde imperem a originalidade e a criatividade. Sendo assim, criação torna-se a palavra de ordem. “Existimos por oposição à ideia de criação apoiada numa simples importação de valores e modos de fazer vindos de fora. Portanto, não é tanto algo ligado à ideia de indústria, de venda e de massas, mas mais um conceito de criação de base e que fomente uma lógica de criação local”, explicam. “O facto de ser local é uma pré-condição para que haja realmente uma criação original, ou seja, que parte de uma teia de pessoas que se conhecem, comunicam entre si, trocam conhecimento e depois cruzam vários projectos”.

Convictos nos dias de hoje, não deixam contudo de confessar que na execução desta ideia está uma forte ligação com o universo do que se passou na Alemanha nos anos 60 e 70. “Nessas décadas em Berlim surgiu uma enorme quantidade de artistas das mais diversas áreas que cruzavam os seus saberes e que depois criavam coisas com uma identidade própria muito forte. Isso já aconteceu em Coimbra a espaços mas neste momento não acontece”.

Música, cinema e artes gráficas são as áreas em que a Prisma decidiu actuar. E ao contrário da ideia de espectador passivo, que chega, consome e vai embora, o que se pretende é portanto “abrir espaço para experiências colectivas, que tragam pessoas que apreendam, troquem ideias e que daí possa haver mais gente a criar outras coisas”. Ou seja, “os eventos têm como objectivo servir de instigação, serem um meio para algo e não os eventos por si só”.

Neste quase ano e meio de actividade, vários espaços da cidade abriram portas a eventos realizados por esta associação cultural, dando lugar a concertos e sessões de cinema que tendem a realizar-se com regularidade. Aqui Base Tango, CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra), CAV (Centro de Artes Visuais), Ateneu de Coimbra e Centro Comercial Avenida são alguns dos exemplos.

prisma

As sessões de cinema realizadas pela Prisma têm por trás um conceito bastante vincado. Com títulos sugestivos como ‘Captura’ e ‘Maratona Subterrânea’, “o importante é combater a projecção comercial do cinema que está reduzida quase aos centros comerciais e mostrar filmes que têm um procedimento divergente da norma e até dos custos que acarreta convencionalmente. Difundir de forma consistente filmes de qualidade, que têm pouca visibilidade e mostrar que há possibilidades diferentes de fazer cinema”.

‘Captura’ é uma sessão de cinema que acontece às terceiras terças-feiras de cada mês, em parceria com o Ateneu de Coimbra. “A linha programática deste ciclo tem um propósito bem definido: como espaço de resistência e reflexão social. Um cinema mais militante e politizado, digamos. E faz todo o sentido realizar-se num espaço como o Ateneu, com uma tradição muito forte também na produção cultural e criação colectiva”.

‘Maratonas Subterrâneas’ é um evento que vai em breve (próximo mês de Maio) ter a sua segunda edição e que tenta “emular uma experiência de cinema subterrâneo, das sessões nocturnas. Seis horas de cinema são uma experiência intensa”. Aqui são mostrados autores quase malditos ou quase esquecidos e tem lugar na sala de cinema do C.C. Avenida. “A primeira maratona foi surpreendente e de acordo com a nossa ideia. Foi possível mostrar que podes fazer coisas de valor sem grandes meios”.

A escolha do espaço Avenida não podia deixar de nos atiçar a curiosidade e imaginamos que aos leitores e cidadãos da cidade também. “O Avenida no seu todo é um espaço um pouco ao abandono. Tudo começou porque organizámos lá um concerto nos corredores e a partir daí soubemos que havia disponibilidade em utilizar aquelas salas de cinema, quer a do sétimo piso, quer a do rés-do-chão. São duas excelentes salas, bem equipadas, e perfeitas quer para concertos (sétimo piso), quer para sessões de cinema”, explicam fazendo-nos a vontade. “Para além disso, tem um valor simbólico pois recuperamos um espaço com memória para os habitantes da cidade. Houve lá muitas sessões de bom cinema”.

Na consecução do seu objectivo de criação colectiva, a Prisma pretende alargar o seu número de membros através de uma campanha de Crowdfunding que em breve estará disponível numa das plataformas existentes em Portugal. “Para a Prisma, o crowdfunding terá uma dupla função: uma angariação antecipada de contribuições para o programa semestral e também de associados/membros. As pessoas podem contribuir apenas uma vez, em troca de bilhetes para eventos ou então contribuir regularmente e tornar-se membros. Nos escalões de contribuição existirão essas diferentes hipóteses”.

Actualização: A campanha de crowdfunding já está activa, aqui.

Tiago, Manuel, Eduardo e André são os programadores actuais, mas também têm projectos paralelos onde são criadores. Quer a ideia do crowdfunding, quer da associação como um todo, pretende “gerar mais dinâmica deste lado, em que haja mais pessoas a participar na programação”. Após concluírem que fazer eventos com a regularidade com que fazem acaba por “ser igual ao mesmo de sempre”, decidiram juntar tudo e realizar em Março o Festival Derrube I, que agrupa música e cinema, ao mesmo tempo em que se realizará a Feira Bastarda I, dedicada às artes gráficas. As sessões de cinema ‘Captura’ continuam a realizar-se todos os meses.

A informação está disponível nos sítios do costume, basta estar atento e seguir o rasto da Prisma. A criação artística colectiva pode assim tornar-se numa realidade mais vincada e alargada na nossa cidade.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 13 de Fevereiro de 2014)