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Fotografar os tempos modernos

BPI_3429Conhecemos o fotógrafo Didier Rougier e o seu trabalho há pouco tempo e logo se deu a vontade de o partilhar convosco nestas páginas. De naturalidade francesa, mas a viver em Coimbra desde 1995, Didier pegou na sua máquina fotográfica e registou imagens que têm tudo para ficar na história da cidade.

O trabalho que aqui pretendemos mostrar intitula-se Modern Times e consiste num conjunto de quatro livros (em edição de autor) sobre algumas das fábricas que Coimbra viu fecharem portas: a Sociedade de Porcelanas de Coimbra (volume I), a Fábrica Triunfo – Rações (volume II), a Central de Cervejas de Coimbra (volume III) e a Estatuária Artística de Coimbra (volume IV).

O seu primeiro emprego oficial na cidade foi, curiosamente, como trabalhador na fábrica de cerâmica Ceres. Hoje trabalha numa outra empresa, que lhe ocupa grande parte do tempo. Já o seu interesse pela fotografia, esse, veio muito antes. “Não consigo datar quando comecei a gostar de fotografia. O meu pai fazia bastantes fotografias a preto e branco e tínhamos muito material lá por casa. Havia uma espécie de laboratório na casa-de-banho, o que era um martírio para a minha mãe”, relembra bem disposto. “Depois o meu pai deu-me a minha primeira máquina quando tinha dez anos. Uma máquina em segunda mão, barata, mas boa”. Assim se deu o começo, porque a partir daí, como gosta de frisar, “fotografar é sempre um recomeço”.

Os anos foram passando e a prática da arte passou por altos e baixos. “Quando entrei na tropa quase que acabei com a fotografia. Entretanto vim para Portugal e continuei a fotografar, mas não muito, porque dado o meu nível económico na altura e sem laboratório para trabalhar, fui perdendo algum interesse. Fotografava naqueles momentos cliché: à família e aos amigos”.

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O destino não quis desistir de Didier e colocou-o certo dia na porta de entrada da primeira fábrica abandonada que visitou: a Sociedade de Porcelanas. “No início, fui à primeira fábrica por acaso. Na verdade acho que não foi por acaso. É como tudo neste mundo, nunca sabemos porque fazemos e não fazemos por fazer. Fui a esta fábrica sem saber o que procurava, mas a saber que ia procurar alguma coisa, não foi uma visita de estudo”, revela pacificamente sem fazer do assunto um mistério.

A partir deste primeiro encontro com o desconhecido, Didier embrenhou-se na vontade de continuar a fotografar fábricas abandonadas e a reconhecer que todo este universo lhe era pessoalmente muito próximo. “Estas fotografias não foram feitas de uma forma leve. Foi o procurar uma história, foi o contar e procurar a minha própria história, que estava esquecida desde que vim para cá”. O fotógrafo confessa que chegou a esta conclusão enquanto trabalhava as fotografias da segunda fábrica que visitou, a Triunfo (rações). “Percebi de repente que ao tirar estas fotografias estava a conseguir exteriorizar algumas coisas e a tirar peso de dentro de mim, uma espécie de psicanálise”, diz sem tabus. Acrescenta ainda que “todas as artes permitem isso mesmo, retirar coisas cá de dentro que de outra forma não se conseguem dizer”.

Sem medo de entrar nestes locais abandonados, que afinal são de fácil acesso, seguiu-se a visita e respectivo registo a mais duas fábricas, “estas duas já estando mais aliviado interiormente”, e a compilação de todo o trabalho em quatro livros, que foram auto-publicados o ano passado. “O jogo ao nível dos livros é conseguir mostrar estes locais e interessar as pessoas. Conto a minha história, mas conto também outra história, ou seja, escondo a mesma história com outra. Quem quiser ver só fotografias, está servido, mas quem quiser encontrar uma história, encontra. Há sempre muitas maneiras de ler as coisas”.

No entanto, para além das histórias que são contadas, Didier confessa que estes livros “são um grito contra o poder económico, talvez um panfleto político. Repare que na altura em que fecharam estas fábricas, o slogan da cidade era ‘viver melhor em Coimbra’. Estes livros permitem relembrar o que existiu, faz parte da memória da cidade”. Memória esta que o artista considera ser a função principal de um fotógrafo. “Os fotógrafos têm uma obrigação e um dever ao nível do registo, da memória, é algo imprescindível. Se não percebemos isso também não percebemos o que é ser fotógrafo”.

Aproveitando o momento, desabafa que “hoje em dia, com o digital, perdeu-se algum valor da fotografia. As pessoas perderam-se com esta noção de facilidade e mesmo com a sensação do custo. Antigamente, fotografar ficava mais barato. Havia uma maior atenção naquilo que se fotografava, tínhamos de nos aplicar e não havia muito direito ao erro. Hoje gastam-se 600€ num iPhone para tirar más imagens e colocar filtros por cima”.

Apesar da jornada já empreendida, ainda faltam fotografar algumas fábricas abandonadas que existem na zona de Coimbra. “Irei fazer esse trabalho, mas após terminar o último livro tive de fazer uma paragem, pois exteriorizar muitas coisas cansa”, diz a brincar mas com seriedade ao mesmo tempo.

Membro do Portfolio Project e do Photobook Club Coimbra, Didier Rougier pretende continuar pelo mundo da fotografia, “aprendendo cada vez mais”. Estes livros já tiveram apresentação pública em vários locais da cidade, encontram-se em estantes do país e além-fronteiras, e estão disponíveis no seu site pessoal. Basta fazer um clique para não deixarmos que a memória se esvaneça.

Texto de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 30 de Janeiro de 2014)